O silêncio que se instalou na sala depois que eu vomitei a minha história lavada a sangue foi absurdamente denso. Um silêncio pesado, sufocante, o tipo exato de calmaria fúnebre que precede um tiroteio de fuzil na madrugada do morro. Olívia tava com a respiração completamente descompassada, o peito subindo e descendo rápido pra c*****o por baixo daquele terno engomado de grife. Eu vi o pavor cruzar o olhar escuro dela, vi a mulher frágil por trás da médica inabalável tremer diante da realidade nua, crua e apodrecida da favela, aquela realidade desgraçada que não passa no jornal das oito pra não estragar o jantar da burguesia. Mas a desgraçada era teimosa igual uma mula. A marra daquela mulher era um bagulho fora do comum. Em vez de recuar, de pedir arrego, de chorar ou de mandar eu sair,

