Capítulo 2 - Família, Perdas e a Decisão

1547 Palavras
Lorena Eu cresci com as manhãs do Aterro morando dentro do meu corpo. Domingo era piquenique, toalha no gramado, sanduíche de mortadela, suco numa garrafa de plástico, e a risada alta da minha mãe enchendo o ar como se o mundo fosse um lugar seguro. Ela ria de tudo, de um tropeço sem graça, de um comentário bobo, e o riso dela virou caminho pra mim, sabia onde encontrar carinho quando a cidade apertava. Meu irmão mais velho tinha calma de quem já viu fresta de esperança e espera. Ele empurrava meu barquinho de plástico na água e dizia que a vida precisava de calma para se ajeitar. O meu pai era policial. Voltava tarde, o rosto cansado, a voz grossa de quem guardava segredos que não devia contar. Ainda assim, quando entrava pela porta, tinha tempo pra puxar conversa e me lembrar do essencial: — Se liga, filha. Coragem é escolher o certo quando dá medo. Ele não gostava de palavra bonita, preferia atitude. A farda, pra mim, era símbolo de proteção e também de tudo que eu queria ser, alguém que ajuda e que não se dobra. A primeira grande fissura veio com a morte da minha mãe. Foi rápido, um assalto que deu errado, uma bala perdida, e o que era rotina virou foto em moldura, panela limpa na pia, silêncio que corta. Lembro de dizer “caraca” no enterro, e essa palavra ficou gigante no meu peito, sem conseguir explicar a dor. Depois veio o câncer do meu irmão, descobriram tarde demais. Foram meses de hospital, de promessas e choro miúdo. Ele foi com a calma que sempre teve, ensinando até o fim que esperar às vezes é ato de amor. Quando ele se foi, ficamos eu e meu pai. A casa apertou, a respiração ficou mais pesada. A gente se ajeitou como dava, ele cozinhava escondido quando achava que eu dormia, eu ajeitava os papéis da casa e lavava o pano da cozinha. Foi esse homem que me botou na polícia. Não porque queria farda na família, mas porque queria que eu entendesse a lógica da rua, como funcionam as escolhas e as consequências. Na academia aprendi disciplina, no plantão aprendi que o mundo nem sempre funciona direito. Vi casos que me deram vontade de sair correndo e outros que me devolveram a fé. Entregar uma criança perdida de volta ao colo da mãe é remédio que não tem contra-indicação. Meu pai assistia aos jornais com orgulho misturado com medo. — Fica ligada, filha — ele repetia. — O mundo nem sempre joga limpo. Ele tinha razão, nem sempre. O dia em que o rádio da corporação chiou com a notícia do Falcão do Leme foi o dia que me quebrou. Tiroteio, confusão, depois a confirmação… meu pai havia sido assassinado no morro. A palavra “pai” sumiu debaixo da minha garganta. Vesti a farda por inércia e fui até lá. Ver a cena, o corpo, os olhos das pessoas tentando entender o que aconteceu, foi rasgar uma carne que eu nem sabia que existia. Nada colava ao chão depois disso. Eu cheguei a não querer caminhar mais. Houve um momento tão baixo que quase tombou tudo. Tentei acabar com a dor na única forma que me veio, num impulso, peguei uma faca e fiquei ali, vazia. Meus amigos chegaram como uma parede. Ana, com suas panelas de comida, Camila, que sempre tem um plano, e João, que traz piada r**m, mas ri do jeito certo. Eles ficaram comigo noite adentro, me seguraram a mão, me fizeram comer, cantaram um pouco, e tiraram a faca da minha frente numa madrugada qualquer. — Sem caô, tu não tá sozinha — Ana disse, e aquilo me puxou de volta. Pedi afastamento da PM porque sabia que, vestida de farda, eu podia fazer besteira que não teria volta. Precisava pensar, e precisava planejar. Foi Camila quem sugeriu o caminho da invisibilidade: — Eu posso sumir com a tua vida na internet, Lore. Não é abraço, é papel de sombra. Limpa o rastro. Camila sempre teve um jeito de falar e fazer a gente acreditar. Ela entrou no mundo das senhas, dos backups e dos endereços e começou a trabalhar. — Deixa comigo — ela disse, e eu senti que tinha alguém que sabia mexer no invisível. Abri mão do apartamento que comprei com esforço. Vendê-lo doeu, mas foi escolha necessária. Guardei o dinheiro, paguei contas, deixei claro que precisava de liberdade pra pensar. Voltei pra casa do meu pai no Aterro, porque lá tinham cheiros que me lembravam dele, e aluguei uma casinha no alto do morro do Falcão, pequena, um quarto, sala, cozinha, banheiro, varanda na frente e outra atrás, um quintal que dava pro céu. Era o lugar certo pra me esconder e observar. Arrumei a casa do pai com o cuidado de quem monta abrigo contra a tempestade. Juntei papéis, fotos antigas, e comecei a montar o mapa das pessoas que eu tinha que ouvir. Não dava pra agir no escuro. Camila limpava meu rastro digital, fotos antigas sumiam, endereços eram alterados, e o trabalho policial que eu tinha feito antes virou poeira de arquivo. Eu, por fora, buscava vidas normais, por dentro, fazia listas e sublinhava nomes. Os dias viraram rotina de investigação, conversar com gente da feira, ouvir dona do botequim, perguntar sem perguntar. Alguns não respondiam, outros falavam demais. João aparecia com uma quentinha e falava do time como se eu fosse ao jogo, Ana trazia bolo e dizia que eu devia cuidar da cabeça e do estômago. Pequenas coisas que curam o buraco. E Camila, com seus olhos de código, aparecia com pistas, um nome, uma ligação que, ao cruzar com outra, fazia sentido. Na delegacia, quando entreguei o pedido de afastamento, falei direto pro meu chefe: — Preciso de tempo. Não posso errar de farda agora. Ele franziu a testa: — Entendo. Controla a cabeça, menina. Saí com um misto de alívio e aperto no peito. Com Camila foi diferente. A gente se falou num fim de tarde na cozinha da casa do meu pai. Ela mexia o café e olhava pro laptop. — Me passa os arquivos e os nomes que quer sumir — disse ela. — Tudo que me liga a lugares e gente — respondi. — Endereços, fotos, parentes. Ela sorriu: — Relaxa. Eu sou a sombra. Você some do mapa, mas não do mundo. Expliquei o plano, vender o apartamento, guardar o dinheiro, alugar a casa do meu pai, alugar uma casinha no alto do morro. Camila batia na mesa quando queria afirmar que dava certo. Ter alguém que mexe com o invisível foi alívio e medo ao mesmo tempo. A mudança foi feita com a ajuda de Ana e João. Ana trouxe panelas, João carregou caixas, resmungando piadas. Empacotamos lembranças, roupa e documentos. Antes de fechar a porta, sentei na soleira e olhei o mar. — Eu volto — disse baixinho. Eles me abraçaram, e foi com esse abraço que subi pro morro, com a mudança, a vingança e a promessa na boca. Recebi uma visita ilustre enquanto tirava as coisas do caminhão, o provável algoz do meu pai. Ofereceu ajuda, recusei gentilmente. À noite, risos de amigos me mantinham acesa. Eu sabia que a estrada seria longa, mas não estava sozinha. Quando me olhei no espelho da minha casinha, a mulher que vi tinha a linha dura de quem promete. Jurei em voz alta: — Eu vou descobrir quem matou o meu pai e pagar na mesma moeda. E quando for a hora, eu meto o pé com a justiça feita. Sumo no mapa. A promessa saiu do peito quente. Não era só ódio, era promessa de justiça, do meu jeito torto. Eu sabia do risco, a vingança cega perdoa a verdade. Às vezes, na noite, eu pensava se o alvo que eu escolhia era mesmo o certo. Mas a cabeça dizia pra continuar. Precisava juntar pedaços, checar nomes, separar boato de verdade. Não queria ser rancor, queria resultado. Planejei com calma, porque pressa mata. A minha rede era simples e resistente, Ana com paciência, João com coragem de quem não tem escolha e Camila com dedos rápidos que fazem desaparecer testemunhos. Juntos, viramos ladrões de resposta. Ana dizia que eu não podia me perder, João ria e dizia que eu era cabeça dura, Camila repetia que a sombra era amiga quando fosse preciso. A vida no morro segue seu ritmo, com riso e medo, com samba e fogueira de preocupação. Lá de cima da minha casinha, eu via o Aterro, o trabalho que um dia me embalou, e entendia que a dor podia virar força. A cada nome riscado no caderno, a cada noite acordada planejando um passo, eu me transformava. Não era mais só a filha do policial, era mulher que aprendeu a segurar a própria mão. Fechei a porta da casa, respirei e encostei a testa no vidro da janela. O céu estava limpo, o vento batia e trazia o cheiro do mar. Pensei na minha mãe rindo, no meu irmão me ensinando a esperar, e no meu pai dizendo “se liga”. Senti medo, claro. Mas senti mais vontade. Coragem, afinal, é isso, escolher o certo quando dá medo. E eu escolhi continuar.
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