Pré-visualização gratuita Capítulo 1 - Origem, Lealdade e Coroa do Morro
Thomas “Gringo”
Tem coisa que o tempo não apaga. Nem o cheiro do molho da nonna, nem o som do meu pai gritando da varanda:
— Andiamo, ragazzo! Anda logo, moleque. O mundo não espera ninguém.
Eu era só um pivete de dez anos quando metemos o pé da Itália pra tentar a vida no Brasil. Lembro da viagem como se fosse ontem, minha mãe rezando baixinho, o meu pai olhando o horizonte com um medo disfarçado de esperança.
A gente chegou no Rio sem nada, só com o sotaque, a coragem e um dicionário velho. O primeiro choque foi o calor. O segundo, a favela.
Meu pai achou um barraco no alto do morro pra gente morar. Disse que era temporário, mas quem conhece o morro sabe, quando ele te abraça, é pra sempre.
No início, eu era “o italiano”. As crianças riam do meu jeito de falar, os adultos perguntavam se eu sabia fazer pizza. Até que um dia, um moleque do beco três me chamou de Gringo. Pegou. E nunca mais soltou.
Aos poucos aprendi a falar como eles. “Pega a visão”, “tá mec”, “papo reto”. E quando me irritava, escapava um palavrão italiano no meio:
— Porca miseria!
Os caras riam.
— Ih, o Gringo tá bolado!
Meu pai arrumou dois empregos, de manhã na obra, à noite descarregando caminhão. Minha mãe limpava casa de madame. Eu cresci vendo o cansaço deles virando pão na mesa. A lição veio cedo, ninguém respeita quem não se impõe.
Na adolescência, eu era o tipo que não corria de confusão. Sabia conversar, mas também sabia bater. E sabia ouvir. Isso me salvou mais de uma vez.
Fui aprendendo com os mais velhos, trocando ideia com quem mandava e com quem só obedecia. O morro era uma escola, e a rua, um campo minado.
Meu primeiro amor foi a filha de um comerciante do beco. Morena, riso fácil, cheiro de sabonete barato. Me chamava de meu italiano bonito. Prometeu ficar, eu prometi futuro. Deu r**m.
Ela sumiu com um rival, um cara metido a esperto que tinha mais grana e menos coração. A ferida virou casca. E quando a casca endurece, o homem aprende que amor também mata.
Depois veio a vida adulta. Trabalho, correria, responsabilidades. Confiei num parceiro de infância, o tipo que cresceu comigo, dividiu o mesmo pão, o mesmo sonho. Ele me traiu.
Entregou a localização da casa de um morador pra facção inimiga. Mataram o cara e a família ficou sem nada. Aquilo me destruiu. Mas também me ensinou. No morro, a justiça é direta. Resolvi no papo, e quando o papo não resolveu… resolvi na bala.
— Pega a visão, parceiro. Lealdade é chave do cofre. Perdeu a chave, perdeu tudo.
Não tive orgulho. Tive necessidade. Ali entendi o que significava o ditado que meu pai repetia:
— Chi tradisce, muore per primo. (Quem trai, morre primeiro.)
A ascensão veio devagar. O dono antigo do Falcão começou a errar. Trocou o respeito pelo dinheiro, esqueceu a comunidade, vendeu a paz. Enquanto ele caía, eu juntava quem era sangue bom. Os trabalhadores, os comerciantes, os meninos que queriam um rumo.
Eu dei moral pra quem vendia fruta, pra quem vendia sonho. Botei ordem na laje, banquei remédio, gás e o gelo, a cerveja, quando faltava no churrasco. E quando o fogo começou, cinco anos de guerra entre facções, fui eu quem segurou a bronca.
— Qual foi, parceiro, pega a visão. Aqui quem manda sou eu. Mas quem come primeiro é o morador. Tranquilo?
O povo entendeu. E quando entenderam, ficaram. A rivalidade tentou me arrancar do morro, mas o morro ficou do meu lado.
Hoje o Falcão do Leme respira sob o meu comando. Mas não é o tipo de reinado que o asfalto entende. Aqui, dono é quem protege. Quem garante que criança não é atingida por bala e idoso não dorme com fome.
Fui aprendendo que o poder não é só o dedo no gatilho. É saber quando segurar, quando calar, quando agir. E o mais difícil: quando perdoar.
Já amei e me decepcionei. Tive mulher que quis me usar pra sair na mídia, e outra que só ficou até a primeira confusão. Promessas quebradas viraram pedra no bolso. Hoje carrego leve só o que pesa o certo.
Tem noite que subo na laje e fico olhando a cidade lá embaixo. O mar parece longe, mas o vento traz o cheiro dele. Acendo um cigarro e penso em tudo que já passou. O sangue, as perdas, a solidão. E falo baixo, só pra mim:
— Papo reto, Falcão do Leme, tu é meu.
Não por vaidade. Mas porque foi o morro que me fez homem. Foi aqui que aprendi que o respeito vale mais que dinheiro.
Me chamam de Gringo, mas o coração é carioca, o sangue é misto e o código é simples, quem fecha comigo, vive comigo. Quem trai, não tem segunda chance.
Já enterrei amigo, já vi mãe enterrar filho. Mas também vi festa na laje, fogos de alegria e moleque que antes pegava arma agora pegando violão. É por isso que eu não desisto.
Meu pai morreu cedo, vítima de um assalto. Minha mãe ficou doente, cansada demais pra lutar. No enterro dela, prometi:
— Prometto, mamma, che non morirò come papà. Io vivrò per lui. (Prometo, mãe, que não vou morrer como o meu pai. Vou viver por ele.)
Desde aquele dia, fiz um juramento: manter a paz, do meu jeito. Com mão de ferro e coração fechado.
Os policiais me chamam de criminoso, os moradores me chamam de protetor. Eu não tento explicar. Cada um entende o que pode. Só eu sei o que custou segurar o morro cinco anos sem vender um morador pra polícia ou pra facção rival.
Não sou santo, nem quero ser. Mas se tem uma coisa que aprendi, é que até o inferno respeita quem tem palavra.
Tem dia que o morro parece calmo demais. E eu sei, é nesses dias que o perigo se esconde. Mas eu não corro mais. Nem da guerra, nem do amor.
Ainda não sei o nome dela, mas ouvi dizer que uma mulher nova alugou a casa velha do seu Almeida, lá no alto. Dizem que é bonita, mas discreta. Chegou sozinha, sem muito papo, só com umas caixas e um olhar calmo.
Falam que tem algo diferente nela. E eu sinto, lá no fundo, que esse “diferente” vai bagunçar o que eu levei anos pra manter em ordem.
Subo na laje e olho pro céu.
O vento sopra forte, trazendo o som das crianças brincando, o samba vindo do beco, e uma calma estranha que eu não conheço. Acendo outro cigarro, encosto no parapeito e falo pra mim mesmo:
— Papo reto, Gringo… cuidado com o que vem disfarçado de paz.
O morro dorme, mas eu não. Nem o barulho da cidade me incomoda mais. É só o som da vida me lembrando que até quem carrega o peso de um morro nas costas pode, às vezes, sonhar com o impossível.
E se o destino for essa tal mulher de olhar calmo e passos certos… então que venha. Porque no Falcão do Leme, até o amor precisa de coragem pra subir.