Capítulo 4

1065 Palavras
Rafaella Narrando... Assim que o mosquito parou em frente a boca, respirei fundo e desci da moto. Cinco anos, cinco malditos anos que eu jurei pra mim mesma que não ia mais cruzar aquele olhar, que não ia mais pisar nesse morro, e olha só onde eu tô. Ironia do destino. Mas uma coisa eu sei, eu não vou tremer na frente dele. — Valeu mosquito... Mosquito — Que nada patroa... nois tá aqui pra fortalecer mermo... ___ fala, e eu concordo sorrindo. Do outro lado da rua, já tem uma rodinha de putä, e no meio delas, a Mirela. Não disfarça nenhum um pouco o quanto tá insatisfeita com a minha presença aqui. Dou o meu melhor sorriso, tomo coragem e entro na boca, de uma vez só. Meus olhos cruzaram com os dele. Ele está sentado, aquele olhar frio.. Terror. O homem que eu amei, o homem que me destruiu. — Terror… ___ soltei firme, encarando de frente, sem baixar a cabeça. Ele não respondeu. Ficou me devorando com os olhos, como se tivesse o direito de me olhar daquele jeito depois de tudo. Como se esses cinco anos não tivessem existido. Como se o vazio que ele deixou em mim fosse pouco. Como se eu ainda fosse dele. A sala parecia pequena demais pro peso daquele silêncio. Minha respiração firme, o batimento dele eu quase podia ouvir daqui. Eu sabia, ele tentava ser frio, mas o coração dele tava disparado tanto quanto o meu. Só que a diferença é que comigo, ele não vai arrumar mais nada. Terror — Pensei que tu tivesse morrido, pô… ____ soltou, por fim, numa voz grave, carregada de ironia. Soltei um riso curto, daqueles que não têm graça nenhuma e fechei a porta atrás de mim. — Tu queria mesmo, né? Seria mais fácil lidar com a culpa se eu tivesse debaixo da terra... Ele arqueou a sobrancelha, ajeitou o corpo na cadeira, tentando manter postura. Terror — Culpa? Rafaella, quem virou as costas foi tu. Quem meteu o pé sem olhar pra trás foi tu porrä. — Ah, Terror… ____ falei, cruzando os braços e inclinando de leve a cabeça. — Tu tem a cara de paü de jogar isso pra cima de mim? quem foi o filho da putä da relação foi você, não eu.... aprenda a assumir teus erros, cara... Ele cerrou a mandíbula, o maxilar dele se movendo com força. Eu sabia que ele odiava quando eu batia de frente. — Tu sabia que eu nunca ia aceitar aquilo que tu fez ____ completei, firme — Nunca. Tu füdeu com o meu psicológico, terror, me humilhou bem no dia do meu aniversário, e queria que eu ficasse do teu lado, calada, aceitando tudo como se fosse normal... Ele bateu a mão na mesa e levantou, o estalo ecoou no cômodo. Terror — TU ME ABANDONOU PORRÄ, Rafaella. Me aproximei dois passos, devagar, e soltei num tom frio. — Eu não te abandonei, Terror. Eu me salvei. Porque se eu tivesse ficado, eu ia morrer aos poucos. Morrendo por dentro, te vendo me destruir com tuas escolhas e ainda tendo que sorrir como se fosse normal... O silêncio pesou de novo. Ele puxou o ar fundo, puxou um baseado, mesmo sabendo que eu odeio e acendeu, como se precisasse da fumaça pra não me engolir viva. Terror — Tu voltou por quê, então? ___ ele soltou, soltando a fumaça pro lado — Pra me atormentar de novo? — Não, porque eu não quero mais saber de você, enfim, eu voltei porque aqui ainda é o meu lugar, quer você queira ou não. Meus pais continuam aqui, e eu tenho o direito de voltar, quando eu quiser. O olhar dele mudou na hora. Ficou duro, cortante. Terror — Se tu quiser ficar nesse morro, vai ser do meu jeito, se ligou. Tu não vai ficar na casa dos teus pais. Tu vai ficar na tua antiga casa... ____ fala como se mandasse em mim. — Na minha antiga casa? ___ repeti, com uma risada carregada de deboche — Tu pirou, é isso? Acha que eu vou me enfiar de novo debaixo da tua sombra, como se nada tivesse acontecido? Tá viajando, Terror... Ele não piscou, não desviou, só falou baixo, quase num rosnado. Terror — Tu só fica nesse morro se for do meu jeito, porrä... — Terror, não føde, eu vou ficar na casa dos meus pais sim, e se não for lá, eu fico na pista, sem problema nenhum. Dinheiro eu tenho, Terror. Não dependo de você pra ficar controlando a minha vida... O silêncio que veio depois foi pesado. Ele me olhou como se quisesse me quebrar inteira, como se o fato de eu dizer aquilo fosse um insulto direto ao poder dele. Terror — Dinheiro, né? Tu acha que esse dinheiro vai comprar respeito aqui dentro? Tu acha que pode bater de frente comigo, porrä? Dei de ombros e respondi. — Não preciso disso, terror. Eu não sou igual a você. Enfim, eu só quero viver em paz nos dias que eu vou ficar aqui. Mas não se engana, Terror… eu não vou me submeter a você nunca mais... então, enquanto eu estiver aqui, não tenta me perseguir, não olha pra mim e controla suas putäs, porque antes, a Rafaella que você conhecia era otária, mas hoje, se qualquer delas vierem pra cima, vão levar e eu não quero nem saber sobre as leis da sua comunidade.... Ele ficou me encarando. O olhar dele oscilava entre o ódio, raiva e a saudade, eu sabia. Por dentro, ele queimava. Mas por fora, tentava manter a máscara. Terror — Tu é uma desgraçada... papo reto... ___ rosna, e eu só viro as costas pra ele, e caminho até a porta — Volta aqui Rafaella, caralhø — Vai achando que manda em mim, vai achando... Abri a porta e saí, deixando ele sozinho com os demônios dele. Eu também carrego os meus. Só que, dessa vez, eu não ia deixar ele me dominar. O morro inteiro podia chamar ele de Terror. Mas pra mim, ele era só o homem que perdeu a melhor coisa da vida dele por achar que podia ter todas aos seus pés. Pra mim é um banana, um moleque que nunca me mereceu. E eu ia fazer questão de lembrar isso, toda vez que ele tentasse me dobrar. Contínua...
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