Clarice Ribeiro
A minha vontade era tacar aquele café Kopi Luwak, também conhecido como café de civeta, na cara daquele mauricinho, metido a CEO. Um projeto m*l feito de CEO, isso sim!!
Argh!!
Eu estava muito brava, espumando na minha sala, era capaz de derrubar alguém desse prédio. Ok, nem tanto.
Mas estava indignada, desde que sai do Brasil, á dois anos atrás, não me recordava da ultima vez que fui tratada com tanta falta de educação, sabia que Giovanni tinha um génio r**m, mas presenciar era outra história.
Dona Rosa, incentivava eu e Debora a degustar do Kopi Luwak, os empresários que pisavam esse prédio eram deste nível, e não se importavam do café vir de fezes, aliás, se gabavam por isso, confesso que a forma como ele era produzido não em animava muito.
O café era feito a partir de grãos que eram ingeridos por um pequeno animal chamado civeta, que depois excretava os grãos nas suas fezes. Os grãos eram então coletados, limpos e torrados para fazer a bebida.
Mas o sabor, á esse era com notas de chocolate e caramelo, e um aroma intenso e complexo, não sou totalmente a favor deste café, pois o comércio do café de civeta tem sido criticado por muitos, devido às condições desumanas em que os animais são mantidos para a produção da bebida.
Os bichinhos, são mamífero e são chamados de civeta, habitam nas florestas tropicais da Ásia, África e Austrália, e se alimenta principalmente de frutas e grãos de café, o resto já da para imaginar.
A minha raiva estava totalmente concentrada na sua bronca, nas suas ameaças, e no seu insulto, eu jamais me aproximaria de Dona Rosa por interesses pessoais, mas a verdade ele não poderia saber.
Iria me dedicar a esses pensamentos de ódio, por que ao contrário a minha mente divagaria no momento em que ele me encurralou na parede, chegando tão perto que era possível ouvir a sua respiração, e quase as batidas do meu coração, que não batia, mas galopava, dando cambalhotas no momentos em que o seu hálito de menta refrescou a minha orelha.
Eu não era nenhuma virgem, já havia tido alguns relacionamentos, nada frutífero, e depois da morte de mamãe, relacionamentos estava fora de questão.
Mas o meu corpo ainda era humano, e Giovanni, poderia ser a personificação da tentação, mesmo que o seu génio pudesse parecer de um menino birrento.
Foca Clarice, ódio, discurso de aproveitadora! Obriguei a minha mente a voltar na parte dos insultos.
Éramos sim, mais que CEO e funcionaria, tinha Dona Rosa, como uma segunda mãe, mesmo que isso soasse como interesse para algumas pessoas.
Quando nos conhecemos, fazia poucos tempo que a minha mãe havia partido deste mundo, ser voluntaria no hospital de câncer de mama, foi algo que me fazia ficar perto dela, ajudar outras pessoas a passar por esse processo, conhecer Dona Rosa, foi apenas um bónus.
Não larguei o meu trabalho voluntario, toda sexta eu saia mais cedo para fazer a minha parte, dou assistência aos pacientes, oferecendo apoio emocional, fornecendo informações sobre tratamentos e procedimentos, auxiliando na administração de medicamentos e acompanhando os pacientes nas suas consultas médicas.
Claro que eu não conseguia fazer tudo isso em apenas um dia, era por isso que o hospital que eu ia o The Children's Hospital at Westmead, ficava em Sydney mesmo, e era de fácil acesso, é um dos principais hospitais infantis da Austrália.
Eu fiquei receosa quando a oportunidade surgiu, pois diferente do Brasil, aqui eu adotava uma causa.
Cody, era o nome da minha causa, com os seus sete anos, já havia enfrentado tantas coisas, que me sentia covarde nos momentos em que pensei desistir, na minha fase de luto.
Cody tem cabelos loiros cacheados e grandes olhos azuis. Um anjinho. Ele é pequeno para a sua idade e tem um sorriso doce e cativante, é um menino doce e gentil, sempre alegre e amigável com todos à sua volta. Ele adora brincar e explorar o mundo ao seu redor e tem uma imaginação muito fértil. No entanto, ele também é corajoso e forte, mesmo quando enfrenta os desafios difíceis da sua condição de saúde.
Infelizmente, Cody foi diagnosticado com um tipo de leucemia, que o deixou em tratamento, já fazem alguns meses que foi descoberto. Ele tem passado muito tempo no hospital, mas sempre tenta manter um sorriso no rosto e animar os outros pacientes que estão passando por situações semelhantes.
Cody tem um amor especial pelos animais, e muitas vezes sonha em se tornar um veterinário quando crescer.
A Leucemia é um câncer que afeta as células do sangue e da medula óssea, existem diferentes tipos de leucemia, incluindo a leucemia linfocítica aguda (LLA) e a leucemia mieloide aguda (LMA). Ambos os tipos podem ter uma variedade de sintomas, incluindo fadiga, febre, perda de peso, dores nas articulações e ossos, sangramento excessivo e infecções frequentes.
Infelizmente a de Cody é a leucemia mieloide aguda (LMA) que é geralmente considerada mais agressiva do que a leucemia linfocítica aguda (LLA), pois os sintomas costumam ser mais intensos e o tratamento é mais difícil. A LMA também tem uma taxa de sobrevivência menor em comparação com a LLA.
O tratamento para a leucemia geralmente envolve quimioterapia, radioterapia ou como no caso de Cody, um transplante de medula óssea, infelizmente está sendo dificílimo achar o doador, e eu não sou compatível.
— Terra chamando, Clarice. — Debora bate na porta, estava tão presa nas lembranças de Cody que nem vi a minha amiga batendo na porta.
— Estava pensando em Cody . — Digo com um sorriso, era impossível não lembrar do meu menino e não sorrir.
— Ai amiga, não sei como você consegue, eu m*l posso passar na frente e imaginar aquelas criancinhas doentes, muitas sem chance, para mim não dá. — Fala dramática, mas entendo o seu lado, ela tem uma menina quase na mesma idade, Emy é o seu raio de sol.
— Eu entendo amiga, mas se não tiver pessoas para fazer a sua parte com essas crianças, o fardo vai ser ainda maior para elas.
— Você tem razão, e é por isso que te chamo de Angel. — Sorrio com o seu apelido, mas sei que ela não está aqui para bater conversa, temos muito trabalho.
— Aconteceu alguma coisa? — Pergunto me levantando, desamassando a saia lápis.
— Sim, e não, o senhor CEO, está convocando uma reunião no galpão, é o único lugar que cabe todo mundo. — Reviro os olhos, pois sei que ele vai fazer um discursinho, Rosa havia me alertado disso.
— Bom então vamos né, não queremos levar uma bronca do Sr. CEO. — Falo revirando mais uma vez os olhos.
— Isso tudo é implicância por mais cedo, ou tem algo a mais.
— O que você viu mais cedo. — Pergunto tensa, fechando a porta.
— Eu não vi nada. — Diz, me olhando desconfiada. — Mas ouvi. — Responde risnhosa. — Mas tem algo que eu poderia ter visto?
Debora aperta o botão para descermos ate o refeitório, e eu disfarço arrumando o meu cabelo, e conferindo o meu batom.
— Claro que não, mas quase voei no engomadinho.
— Hum, sei. — A minha amiga não diz mas nada, e eu não pretendo lhe dar palco.
Quando chegamos na ala do refeitório que fica atrás do prédio, que é um espaço aconchegante e descontraído, com mesas e cadeiras confortáveis e muitas plantas verdes para dar um toque natural ao ambiente.
Mas o que mais me fascina neste prédio é o galpão localizado atrás da área de refeições, onde são confeccionadas as peças de roupas mais finas para estilistas renomados. É um espaço grande e aberto, com máquinas de costura e tecidos dispostos em prateleiras. Posso sentir o cheiro do tecido fresco enquanto caminhamos até onde todos estão reunidos.
Todos os funcionários da empresa estavam reunidos no salão principal, desde o pessoal da recepção até os executivos de marketing. Eu podia ver a maioria deles conversando animadamente, enquanto aguardavam o início da reunião. No entanto, algo me chamou a atenção. Giovanni, estava parado próximo ao grande relógio de parede, olhando fixamente para ele, e para mim, assim que entrei.
O relógio era uma peça antiga e elegante, com um mostrador grande e números romanos gravados. Dona Rosa, havia adorado o relógio, pois além do tamanho exagerado, os funcionários podiam acessar as horas sem precisar olhar para seus celulares.
Eu sabia que o olhar de Giovanni para o relógio era uma afronta para mim, talvez pela minha suposta demora.
Enquanto eu e Debora nos sentávamos, Giovanni começou o seu discurso, anunciando que, durante a ausência da mãe, ele seria o CEO e o chefe da empresa. A sua voz era forte e imponente, e ele parecia fazer as coisas com mãos de ferro.
— É com grande honra que assumo a posição de CEO da empresa, mesmo que temporariamente. Durante a ausência de Rosa, é minha responsabilidade garantir que a empresa continue a prosperar e a crescer. Eu sei que muitos de vocês estão preocupados com o futuro da empresa, mas quero deixar claro que estou comprometido em garantir que a empresa continue a seguir os seus valores e a entregar produtos e serviços da mais alta qualidade para nossos clientes. Para isso, precisamos trabalhar juntos e seguir as regras estabelecidas com rigor e disciplina. Não tolerarei qualquer comportamento que vá contra os valores da empresa ou qualquer desvio das normas estabelecidas. Quero que todos vocês saibam que estou aqui para liderar e tomar decisões difíceis, se necessário, para garantir que a empresa continue a crescer. Juntos, podemos superar qualquer desafio e levar a empresa a novos patamares de sucesso.
Eu sabia que Giovanni estava tentando intimidar a todos com as suas palavras, e que as suas atitudes autoritárias poderiam prejudicar a empresa e os funcionários, Dona Rosa sempre nos tratou com leveza, e humanizada, tínhamos acesso direto á ela, e a menor das causas os funcionários poderiam recorrer diretamente a ela, era difícil o lugar onde o CEO se entregava assim, e pelo jeito o seu filho não compartilhava da mesma ideia.
— E por último, mas não menos importante. — Ele diz olhando diretamente para mim. — Atrasos, e falta, saídas mais cedo, somente com a autorização do RH, e para parte superior. — No caso nós do prédio.— Por mim.
Não sei porque ele estava implicando comigo, mas sabia que estava, eu era uma das únicas funcionarias que saia muitas vezes na semana, ora por conta de Cody, ora para acompanhar Dona Rosa nas consultas. Ok, eu saia bastante.
Mas o fato dele deixar claro que havia visto os meus horários me fez ascender um alerta, o filho da CEO, queria me prejudicar, marcar encima do meu trabalho, e eu estava preparada até os dentes para defender as minhas saídas das sextas, por hora eram as únicas que eu precisava preservar.