INÍCIO DA DÉCADA DE 70, ALGUNS MESES ANTES…
Victória Siqueira
Sim, eu sonhei com medicina, na mesma proporção com a qual sonhei um dia estar cantando no palco da BroadWay. Digamos que, as vezes, me permitia sair da realidade, por alguns minutos, ser uma garota de mente flutuante, dita sonhadora e, talvez, só talvez, até demais.
Pensava em meus objetivos, no entanto, sempre tentando manter os pés no chão, pois, na verdade, os analisando, não passavam de delírios. Eu era uma sobrevivente da classe proletariada, tinha que agradecer por ter o meu segundo grau em enfermagem e o dom divino que recebi de cantar.
Rüim de verdade, assim como a maioria dos brasileiros assalariados, era trabalhar horas a fio em uma fábrica ou em qualquer outro canto e, no final do mês, mäl ter o dinheiro da cesta básica. Assim era a vida do meu pai, até ele perder o braço em um acidente de trabalho.
A empresa, Cristallimp, tratou de mandar meu pai se aposentar por invalidez. Mas, de forma alguma, quis arcar com os prejuízos adquiridos por ele, devido ao acidente. E foram muitos, incluindo, psicológico, medicinal e financeiro que o ocasionou. Preferiram gastar fortunas com a assessoria de um poderoso grupo de advocacia, a fim de se safarem, a ter que desembolsar dinheiro, e serem justos com um daqueles que perdeu parte da vida e do corpo para alavancar a empresa.
Sustentar cinco bocas já era difícil, mesmo fazendo incansáveis horas extras. Aposentado, só lhe restaria a mesma miséria mensal.
Sobrou para mim, ajudar no sustento de casa. Por isso afirmo que meus sonhos nunca passaram de delírios, de uma jovem adulta.
De dia, auxiliar de enfermagem em um posto de saúde super conturbado. A noite, no hospital geral no Centro do Rio. De quinta a domingo, tomava o pequeno palco da Púrpura Disco Club, pois, para mim, a danceteria era a direção que eu poderia dar a minha vida, naquele momento.
(...)
Assim que pus os pés no camarim, Sirley, meu amigo bofe arco-íris, devidamente maquiada, que tinha na cabeça uma touca feita com tecido de meia calça, encaixava uma peruca de longos fios vermelho-sangue. Parou de se arrumar, para me alertar sobre algo que eu já sabia.
— Atrasada, novamente! O Fábio está na sua cola, ele já disse que basta só mais um vacilo seu, e é rua.
— O Pedro trocou de estado — disse, enquanto andava de lado, no lugar apertado, com quatro penteadeiras. Peguei no cabideiro ao fundo, um macacão colado e de mangas compridas, todo trabalhado no paetê prata — Entendo que o Fábio não queria uma cena de ciúmes aqui na Púrpura, mas isso acabou. Terminei com o Pedro e ele foi junto ao exército, para o nordeste.
— Nada impede que ele volte, fofa! — Sirley discorreu com ceticismo, ao mesmo tempo em que aplicava em uma das pálpebras, o enorme cílio postiço, parado de frente para o espelho.
— Fábio tem que me respeitar, não chego atrasada por qualquer motivo. Trabalho na área da saúde, só posso largar meu posto quando tem alguém para me render. — à medida em que vestia o macacão que modelava o meu corpo, esbravejei.
— Você bem que podia amansar o coração dele. Além de ajudá-lo a soltar o tutu, ainda vai melhorar o humor dele aqui dentro e isso é bom para todas nós.
Era só o que me faltava!
— Sirley, além de o Fábio não fazer o meu tipo, não saio com homem casado.
— Porque é boba — afirmou com convicção, como se eu estivesse realmente errada em negar a tamanho absurdo que ele propunha — A Janete só falta se oferecer em uma bandeja de prata para ele. O que está esperando da vida, hein, mulher? — mesmo sem olhá-lo diretamente, sabia que me encarava através do espelho.
— Esperando meu broto. Ele está aí em algum lugar, andando de moto, com sua jaqueta de couro e um jeans da moda. Olhos claros como cristais, de sorriso largo, mas não frouxo, pois ele sabe para quem e quando sorri.
— Fofa! — Sirley deu um grito, de um jeito espalhafatoso — Eu vi esse broto que você tanto quer.
— Sério! Aonde? — perguntei, entusiasmada.
— Na TV, querida! No filme Juventude Transviada. Acabou de me descrever o próprio James Dean.
— Bicha malvada! — e nós rimos — Por um segundo, achei que tinha visto um carinha assim, lá na plateia, para me ver cantar.
— Sonhar ainda é de graça, fofa!
Não demorou muito e o Fábio entrou no camarim, como sempre, sem bater. Mesmo sabendo que ali a gente se trocava. Isso me dava nos nervos. Eu até que entendia o Sirley. Nosso chefe era um tipo de cafajeste, boa pinta, para quem gostava desse tipo, é claro. O que não era o meu caso. O homem estava vestido de blusão social, com estampas em vinho e preto, calça boca de sino preta e mocassim, também vinho. O loiro deixava em evidência um grosso cordão de ouro, sobre o peitoral cabeludo.
— Vamos, meninas! — ele bateu palmas, como quem queria agilizar o processo — Está na hora da apresentação. Janete já aguarda vocês no palco e as estrelas aqui de fofocão.
— Vou precisar de mais cinco minutos. — Sirley disse.
— Como assim? Tem gente bacana na boate, que veio ver vocês três.
— Você quis dizer ela, né, fofo? — Sirley apontou para mim — Essa mulher canta demais.
— Não, sua bicha louca! Eu convidei o senhor Régis Medeiros, que é o dono de uma empresa de advocacia, preciso que ele pegue minha causa, são os melhores do estado, talvez até do país. Preciso causar boa impressão, senão a Púrpura fecha e todo mundo vai para o olho da rua.
Não era a primeira vez que o Fábio citava esse tal grupo Medeiros, afirmando que esse senhor Régis o ajudaria na causa da Púrpura. E eu realmente esperava que as coisas se resolvessem para a danceteria, pois, dadas as circunstâncias da minha vida, levando em conta a realidade que eu vinha vivendo, não podia, sequer, sonhar em sair daqui.
— Ok, chefe! Não precisa se chatear, já estou prontinha. — a travesti esclareceu.
— Tenho que fazer a touca para a peruca se encaixar. — informei.
— Põe a peruca por cima desse coque mesmo. — Sirley respondeu.
— Vai ficar horrível! Se quer causar boa impressão, temos que estar impecáveis.
— Verdade — Fábio concordou com o que eu disse — Estou nervoso.
— Fábio, o homem disse que não pode ficar mais tempo. Pediu para você ir ao escritório depois, para que possam conversar. — Janete entrou no camarim, falando.
— Põe a peruca de qualquer jeito. Vou lá segurar ele. Preciso que ele entenda quão grande é a força que tem a Púrpura.
Fábio saiu um tanto desesperado, seguido de Janete e eu me pus a reclamar com Sirley.
— Como pôr a peruca de qualquer jeito e ainda impressionar?
— Fofa, se quer mesmo impressionar o velhote, que deve estar lá fora agora, solta esse cabelão lindo que você tem. Sua voz, esse rostinho e esses cabelos, em cima desse corpinho… Querida, se fosse eu, impressionaria até o Tarcísio Meira, o tiraria da Glorinha.
Apesar do exagero da parte de Sirley, segui seu conselho e soltei os cachos largos e esvoaçantes, deixando meu lado Cher me dominar. Era hora de entrar naquele palco.
(...)
Tutu: dinheiro
Broto: moço(a) bonito(a)