ALGUMAS HORAS ANTES…
Ricardo Medeiros
Mesmo tentando mostrar meu valor, ainda era tratado como officeboy e esparro pelo senhor Régis Medeiros. Sua altivez nunca o permitia se importar com a minha opinião. E, apesar de saber ser em vão, sempre tentava explicar ao senhor meu pai, que tinha uma vida muito além das vontades expostas por ele. Do que e quem ele esperava que eu fosse.
— Pai, eu tenho um compromisso com a Monique, combinamos de passar o fim de semana em São Paulo.
— Sem acordo. Vá com a Monique até a tal danceteria, tire esse novo-rico brega do caminho da Medeiros e Rolin e, depois, siga para o seu final de semana romântico com minha norinha querida.
— Para o senhor tudo é muito fácil, só que a Monique me disse que, ou a gente sai agora, ou não iremos mais.
— Que tipo de noivo é você, que não consegue dominar a sua mulher? — como sempre, o pai coercitivo que eu tinha, apelou — Na verdade, que tipo de advogado é você, que não tem argumentos?
— Devo realmente ser um péssimo advogado, pois, com o senhor, meus argumentos nunca são válidos.
Desisto! Eu estava cansado dessa mesma discussão, sempre que conversávamos — se é que se podia chamar assim, quando alguém apenas tenta te manipular e persuadir.
Sem querer mais prolongar a conversa, subi as escadarias até o meu quarto. Não tinha o que fazer, tiraria o terno e me enfiaria debaixo do chuveiro. O quanto antes eu fosse a tal Disco, ainda teria uma chance de convencer Monique e salvar meu fim de semana.
A água fria foi revigorante, refrescou a cabeça quente e fervilhando de um dia extremamente estressante de trabalho. Isso também se deu pelas atitudes do senhor Régis, que, diariamente, me sufocavam.
Vesti uma camiseta de manga curta branca e um jeans. Peguei a chave da moto e minha jaqueta de couro do HardClub, iria pagar a penitência do meu pai.
Assim que passei pela sala, ainda pude ouvir a crítica do senhor Régis sobre a minha vestimenta, pois, é claro, a fim de manter o nome da nossa família, ele gostaria que eu fosse a todo e qualquer lugar usando um terno, como um engomadinho de merda. Contudo, se eu iria a um lugar informal, que o meu traje fosse adequado ao ambiente. Não lhe dei atenção e segui para Copacabana.
(...)
A noite, a fachada da danceteria era bem bonita. O letreiro totalmente luminoso em roxo escrito Púrpura Disco Club. Para quem curtia uma farra, o local até que não era tão rüim. Muito broto, gatas top e, lá dentro, tocava músicas excelentes. Era completamente audível desde o lado de fora.
Na entrada do estabelecimento, havia dois seguranças de terno. Apenas informei que era da parte do grupo Medeiros e Rolin, e eles abriram passagem, pedindo que eu esperasse o patrão deles, no bar, de frente para o palco. No interior do lugar, era escuro, mas não um breu, dava para ver muito bem os rostos que por ali estavam.
Fiquei um tempo escorado nesse bar, até que apareceu uma mulher de maquiagem pesada e uma peruca exótica, creio que fosse de algum espetáculo. Falante, ela começou a puxar assunto até dizer que o chefe dela já estava vindo. Eu não queria e não podia ficar ali muito tempo, por isso que, nos primeiros dez minutos, disse a ela que fosse chamar o dono da danceteria, pois eu já iria embora.
A mulher foi em busca do homem e voltou sem ele. Porém, ele logo veio atrás dela. Era o perfil que meu pai havia me falado. O novo-rico, pela vestimenta, cafajeste de grife, deu para notar. Ele chegou e apertou minha mão.
— Pelo visto, o senhor Medeiros não veio… — era uma pergunta, porém, com um leve teor de decepção.
— Senhor Medeiros teve um imprevisto, mas eu trabalho com ele, foi próprio que me pediu que viesse.
— Preciso apenas resolver umas questões — o homem falou ao pé do meu ouvido, para que eu escutasse, diante de um som tão alto — Depois venho lhe buscar, para irmos até o meu escritório, nos fundos da Púrpura.
— Não há necessidade — não ficaria ali para nada, meu pai jamais pegaria a causa desse homem, não importava qual fosse — Estou mesmo com um pouco de pressa, terei o prazer de lhe atender em meu escritório amanhã.
— De jeito nenhum. A garçonete já está trazendo o Uísque, por conta da casa.
Tinha que arrumar um jeito de explicar ao cidadão, que não adiantaria o quanto ele se esforçasse, a Medeiros jamais pegaria a causa dele. O problema era que, o homem estava tão disposto a me persuadir, que dificilmente eu conseguiria tal feito.
Pelo visto, seria bem difícil sair da emboscada que meu pai me arranjou. Ao menos a bebida que me presenteou tinha qualidade. A Disco, que tinha uma iluminação razoável, ficou um breu. Boa parte das pessoas se aglomeraram, a frente do palco todo iluminado. Eu estava de costas, então continuaria entornando minha bebida.
A entrada da música, quase que a capela, me chamou atenção, apenas um acorde no violão para iniciar. Depois a voz rouca tomou o ambiente, fazendo com que eu virasse de frente para o palco e constatasse quem era a dona da bela voz.
“I can't Go Wrong again
I can't Let you go
Muy Sweet Dream… Yeah! Yeah! Yeah!
Oh! The truth Is I should run…
Oh! The truth Is I should run Love
Even though I'm obsessed with you”
— “Não posso errar novamente
Não posso deixar você partir
Meu doce sonho… Yeah! Yeah! Yeah
Oh! A Verdade é que eu deveria correr
Oh! A Verdade é que eu deveria correr, amor
Mesmo estando fissurado em você.”
Confesso que, ao me deparar com tamanha beleza, eu já não ouvia com clareza o que saía da boca daquela mulher exuberante, sobre aquele palco. Fiquei estático, apenas olhando como ela remexia o corpo malemolente, enquanto dançava e cantava, dominando o espaço.
A roupa apertada, modelando o corpo magro, porém, farto, me causava reações involuntárias por todo o meu ser. Como se cada célula e veia pulsante sentisse e trabalhasse a seu favor. Nem na adolescência fui um rapazola de ver uma mulher bonita e não conseguir me conter. Aquela era a primeira vez que meu corpo estava descontrolado, a ponto de sentir meu membrö pressionar o jeans, me causando um grande incômodo nas bolas, cheias, implorando para explodirem.
Aquela mulher me tirou do prumo.