Victória Siqueira
Não conseguia ver o tal velhote que o Sirley falou, porém, tinha que me focar em minha apresentação. Não queria ficar desempregada, mas se ficasse dando atenção demais para as lamúrias do Fábio, ele era capaz de me fazer de moeda de troca. E isso eu nunca permitiria.
Assim que acabamos a apresentação de seis músicas, fomos para o escritório, a pedido do nosso patrão. Quando adentramos a sala, vimos Fábio e um homem que tinha avistado na plateia, estilo “o broto dos meus sonhos”. Sirley e Janete só faltaram se jogar no colo dele, assim que o Fábio os apresentou e, o homem educado, apertou-lhes a mão.
— Essa é a nossa estrela principal, Victória. — Fábio disse.
— Estrela é um exagero, prazer — estendi minha mão para o homem e ele a segurou por mais tempo do que o necessário. Estranhando aquilo, me livrei do seu toque, puxando a mão, mas não do seu olhar intenso, me queimando a pele, me despindo inteira.
— O prazer foi meu — respondeu, um tanto desconcertado, assim que se deu conta que a maneira como agiu comigo, não foi como com os outros — Os três tem jeito de estrelas. — disfarçou, de forma a se retratar.
Sirley e Janete riram daquilo, aceitando o elogio. Incomodada com a maneira como o homem me olhava, eu pedi licença e saí do ambiente.
Saindo da minha bolha de pensamentos a respeito daquele homem, tentando não me sentir intimidada, fui até o camarim trocar de roupa, voltando ao modo gata borralheira de sempre. Jeans surrado, camiseta preta, de mangas curtas, escrito em vermelho: rock'n roll e cabelos presos em um rabö de cavalo alto. Ajeitei minha bolsa no ombro direito e me direcionei para a saída.
Cansada da rotina repetitiva da semana, o que eu mais desejava, naquele momento, era deitar e hibernar.
Ao passar pelas portas da Púrpura, apenas um pouco mais afastado, o som grave e rouco de uma voz masculina, que eu acabara de conhecer, mas que de uma forma estranha me marcou, me fez estagnar no lugar.
— Você estava espetacular naquele palco… — a maneira como ele falou, causou um arrepio em minha espinha e não de um jeito bom.
— Obrigada, mas tenho que adiantar. — estava prestes a voltar a andar, quando ele me fez parar outra vez.
— Acredita em amor à primeira vista?
— Não. Da mesma forma que não acredito em cantadas baratas. Passar bem.
— Um broto desses não deveria andar sozinha, a essa hora da noite. Como vai para casa?
— Não te interessa. E quem lhe disse que estou sozinha? — respondi, incisiva.
Sem o menor interesse de lhe dar mais atenção e querendo sair dali o mais rápido possível, o deixei lá, indo até o ponto de ônibus. O receio em meu peito era quase palpável, tive medo que, da maneira com a qual me abordou, aquele homem me seguisse. O que tinha de bonito, tinha de descarado do tipo que não respeita uma mulher, o julguei em meu pensamento.
Sim, ele era lindo, perfeito para dizer o mínimo, porém, não há como distinguir uma pessoa de bem ou o seu caráter, olhando a aparência ou coisa parecida.
Por sorte, praticamente assim que cheguei ao ponto, o ônibus com destino a subida de Santa Teresa chegou. Entrei, paguei minha passagem e sentei-me, soltando o ar que nem percebi haver prendido.
Mesmo tentando, durante o caminho, vez ou outra, minha mente ia ao encontro daquele homem, me causando uma estranha sensação de arrepio na pele.
Em meio aos meus devaneios, não percebi que já estava chegando ao meu destino e por pouco não passei do ponto onde eu desceria.
Por já ser muito tarde, aquele horário não passava mais bondinho, então eu teria que subir a pé. Agradeci mentalmente por não ser dessas mulheres loucas, que andavam para cima e para baixo de salto alto e ter calçado os tênis, assim poderia andar tranquilamente pelas ruas de paralelepípedo.
Nesse momento, tive a impressão de ouvir o som do motor de um carro. Olhei para trás e, de fato, havia um, porém, ele passou rapidamente por mim, indo embora. Em meio ao quase breu, devido a pouca iluminação da rua, voltei a andar.
Novamente, o mesmo barulho de motor de veículo atingiu meus ouvidos. Dessa vez, estando praticamente lado a lado comigo, a uma velocidade muito curta. Obviamente, apertei meus passos, pois, quem quer que estivesse ali dentro, havia até mesmo desligado as luzes dos faróis, me impedindo de ver seu rosto.
Aquela brincadeira de mau gosto já estava começando a me dar nos nervos. Quanto mais rápido eu andava, mais o motorista louco aumentava a velocidade do carro, fazendo o ronco do motor soar alto e forte.
Até que ele parou o veículo, desceu do carro, batendo a porta atrás de si e, com pressa, se aproximou de mim. No meio-fio, fui andando para trás, recuando o máximo que eu podia, até não ter mais para onde ir e sentir meu corpo entre o seu e uma parede atrás de mim.
Ele pôs as mãos em meu pescoço, me sufocando. Em meio aquela escuridão, eu não conseguia enxergar seu rosto, não a ponto de decifrar quem era. Apenas via seus traços, no entanto, minha mente me fazia imaginar quem poderia ser a pessoa que me segurava, não me deixando respirar.
Tentei me debater, até mesmo levantei um dos joelhos para tentar acertar uma tremenda joelhada no sacö escrotäl do indivíduö, contudo, ele foi bem mais rápido, impedindo-me, pressionando seu joelho em minha intimidäde, fazendo uma dor aguda me atingir em cheio.
Nem mesmo tive a chance de gritar, pois, no mesmo instante, ele tapou minha boca com sua mão que estava livre.
Vi quando ele tirou uma das mãos do meu pescoço, mantendo a outra sobre a minha boca, a levando até o bolso da calça e retirando de lá um canivete, fazendo com que a sensação de pânico tomasse conta de todo o meu ser.
Ali, eu havia perdido completamente a voz, meu cérebro pareceu entrar em pane total, não tinha nem forças para tentar me livrar do seu aperto e só pedia, mentalmente, que aquele cenário de horror não passasse de um sonho. Ou melhor, um pesadelo, do qual logo eu acordasse.