Sienna
Eu passei a tarde inteira tentando me convencer de que ficar trancada no quarto lendo a Bíblia era o plano perfeito. Depois da conversa com o pastor, depois de dizer pro Coroa que eu fico porque “Deus quer que eu fique”, eu precisava de calma, de silêncio, de oração. Meu coração tava uma bagunça: metade em paz por ter tomado a decisão, metade pegando fogo toda vez que eu lembrava do jeito que ele acariciou meu cabelo e falou “se tu tá comigo, tá comigo de verdade”.
Mas calma no morro é artigo de luxo.
Lá pelas quatro da tarde, ouvi barulho na porta da frente. Risada alta, voz da Jordana gritando igual doida.
— Paiê, a gente veio buscar a Barbie!
Eu desci devagar, ainda de short e camiseta larga, cabelo preso num coque bagunçado. Lohana e Jordana tavam na sala, as duas lindas como sempre: Jordana de cropped rosa neon e short jeans rasgado, Lohana de macacão preto colado que parecia segunda pele. As duas me olharam e abriram sorriso malicioso.
— Olha ela aí, a missionária mais teimosa do Rio! — Jordana veio correndo, me abraçou forte. — A gente veio te sequestrar.
— Sequestrar pra quê? — perguntei, já desconfiada.
Lohana cruzou os braços, sorrindo de canto.
— Hoje tem baile funk no campinho lá embaixo. O maior do ano. Papai banca tudo: som, bebida, segurança. E você, loira australiana que nunca foi num baile de verdade, vai com a gente. Isso é crime, amiga. Crime grave.
Eu pisquei, sentindo o rosto esquentar.
— Baile funk? Tipo… aqueles com música alta e… rebolation?
Jordana caiu na gargalhada.
— Exatamente esses! Você tá no Rio de Janeiro, garota. Tem que viver o Rio. Nem que seja uma vez só.
— Mas eu… eu não sei dançar isso. E minha roupa… eu não tenho nada pra usar.
— A gente resolve — Lohana falou, já me puxando pela mão escada acima. — Vamos invadir o guarda-roupa da Jordana. Tu vai ficar linda.
Elas me arrastaram pro quarto da Jordana, que na verdade é um closet ambulante. Roupas espalhadas, maquiagem em cima da cômoda, perfume no ar. Elas começaram a tirar peça por peça, jogando na cama.
— Esse aqui? — Jordana segurou um vestidinho preto curtíssimo, com decote até o umbigo.
Eu arregalei os olhos.
— Não! Jesus amado, isso m*l cobre a b***a!
As duas riram alto.
— Tá bom, tá bom. Então esse? — Lohana mostrou um macaquinho vermelho brilhante.
— Ainda é curto demais…
No final, depois de umas vinte opções rejeitadas, eu escolhi o mais comportado que achei: um vestido azul claro, comprido até o meio da canela, manga curta, decote discreto, tecido leve que balançava bonito. Era bonito mesmo, mas nada ousado. Eu me olhei no espelho e achei ok — parecida comigo, mas com um toque carioca.
— Tá linda, loira — Jordana falou, passando gloss na minha boca. — Mas vamos dar um up na maquiagem. Olho marcadinho, rímel, batom nude. Confia em mim.
Lohana fez meu cabelo solto com ondas leves. Quando terminamos, eu m*l me reconheci. Ainda era eu, mas… mais bonita. Mais mulher.
— Pronta? — Lohana perguntou.
— Não — respondi sincera.
— Perfeito — Jordana riu. — Vamos.
O Coroa tava na sala quando a gente desceu. Ele levantou o olhar do celular e… congelou. Olhou pra mim de cima a baixo, devagar. Olhar pesado, daqueles que faz a pele arrepiar. Eu senti as bochechas queimarem.
— Tá indo pro baile? — ele perguntou, voz baixa.
— Sim… suas filhas me sequestraram.
Ele deu um sorriso de canto, mas tinha algo diferente no olhar. Ciúmes? Proteção? Não sei.
— Se cuida. Qualquer coisa, me liga.
— Tá bom.
A gente saiu. O baile já tava rolando quando chegamos no campinho. Meu Deus do céu. Eu nunca vi nada igual.
Som altíssimo, grave batendo no peito como se fosse terremoto. Luzes coloridas piscando, fumaça de máquina, cheiro de cerveja, maconha, perfume barato e suor. Milhares de pessoas — não é exagero — dançando coladas, rebolando, pulando. Mulher de biquíni fio dental, homem sem camisa, todo mundo suado, feliz, vivendo o momento. Parecia outro planeta.
Jordana e Lohana me puxaram pro meio da multidão.
— Vem, vem! Vamos dançar!
Eu tentei acompanhar, mas era impossível. Eu só balançava de um lado pro outro, sem graça, enquanto elas rebolavam como se tivessem nascido pra isso. De repente, vi um casal encostado na parede: a menina de costas, o cara colado nela, mão por baixo da saia curtíssima, os dois se pegando com vontade, boca na boca, corpo no corpo. Eu fiquei com os olhos arregalados, boca aberta, sem acreditar.
— Meu Deus… eles tão… aqui? Na frente de todo mundo?
Jordana olhou pra onde eu tava olhando e caiu na risada.
— Relaxa, loira! Aqui é normal. Ninguém liga. É o calor do baile, entendeu?
Lohana riu também, me abraçando de lado.
— Tu é muito fofa. Parece que caiu de paraquedas.
Eu ri nervosa, mas não consegui tirar os olhos. Era ousado demais, sensual demais, profano demais pro meu coração de missionária australiana.
Aí eu senti. Olhares. Vários. Mesmo com meu vestido comprido, decote discreto, eu sentia homens olhando. Minha pele clara, cabelo loiro, olhos azuis — aqui no morro isso chama atenção como farol na noite. Um cara mais ousado chegou perto, sorrindo, dente de ouro brilhando.
— E aí, gata? É nova no morro? Nunca te vi por aqui. Quer dançar?
Eu congelei, sem saber o que dizer.
— Eu… eu tô com as meninas…
Antes que eu terminasse a frase, uma mão grande, quente, possessiva, pousou na minha cintura. Corpo alto atrás de mim. Cheiro de perfume masculino e cigarro.
— Ela tá comigo — voz rouca, baixa, mas que fez o cara recuar na hora.
Coroa.
Ele apareceu do nada, mão firme na minha cintura, olhar fuzilando o pobre coitado até ele sumir na multidão. Depois olhou pros outros que tavam me secando e o recado foi claro: ninguém mais chegou perto.
Eu virei o rosto pra ele, coração disparado.
— Você… veio pro baile também?
— Eu organizo essa p***a toda, Barbie. Claro que vim.
Ele tava lindo. Regata preta colada no peito tatuado, bermuda jeans, tênis branco, corrente de ouro no pescoço. Olhar azul brilhando com as luzes. Ciúmes puro estampado na cara.
A música mudou pra uma mais lenta, mais sensual. Jordana e Lohana sumiram na multidão, me deixando ali com ele.
— Dança comigo — ele falou, não perguntou.
Eu assenti, sem voz.
Ele me puxou pra mais perto. Não exagerado como os outros casais, mas colado o suficiente pra eu sentir tudo: o calor do corpo dele, o peito duro contra o meu, a mão na minha cintura apertando de leve. A outra mão na minha mão, guiando. Ele se mexia devagar, no ritmo, me levando junto. Eu tentava acompanhar, mas era difícil — meu corpo inteiro reagia a ele. Pernas moles, respiração curta, rosto pegando fogo.
— Tu tá linda hoje — ele murmurou no meu ouvido, voz rouca fazendo minha pele arrepiar inteira.
— Obrigada… — sussurrei, sem conseguir olhar nos olhos dele.
Ele apertou mais a cintura. Eu senti… tudo. O corpo dele contra o meu, o calor, a força. Meu coração batia tão alto que eu achava que ele podia ouvir.
A gente dançou mais duas músicas assim. Colados. Silêncio entre a gente, mas cheio de tudo que não era dito. Eu nunca senti nada parecido. Era errado? Era certo? Eu não sabia mais.
O baile foi até tarde. Quando o som começou a baixar, Jordana e Lohana apareceram suadas, rindo.
— A gente vai pra casa da Chantal dormir lá! — Jordana gritou por cima da música. — Vocês dois se viram, hein?
Elas piscaram e sumiram.
Eu olhei pro Coroa. Ele tinha bebido. Não muito, mas o suficiente pra olhos estarem mais brilhantes, fala mais solta.
— Vamos pra casa? — ele perguntou, mão ainda na minha cintura.
— Vamos.
A gente saiu do campinho. O morro ainda pulsando, mas mais calmo. Caminhamos lado a lado, eu sentindo o braço dele roçar no meu de vez em quando. Ele tava meio bêbado, passo mais lento, mas ainda firme.
Chegamos em casa. Portão abrindo, luz da sala acesa automática. Ele fechou a porta atrás de nós.
Silêncio.
Só nós dois.
E eu senti que a noite ainda não tinha acabado.
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