Sienna
Eu acordei com uma sensação boa no peito, daquelas que fazem a gente sorrir antes mesmo de abrir os olhos. Depois daquela noite de tensão com o Lucca, depois do jeito que o Coroa me protegeu e me abraçou como se eu fosse o ar que ele respira, eu dormi tranquila. O namoro tava florescendo, devagar mas firme. Beijos roubados na cozinha, mão dele na minha cintura quando passava perto, olhares que duravam segundos a mais e me faziam corar. Eu me sentia amada. Protegida. Desejada. E isso me fortalecia espiritualmente de um jeito que eu nem esperava.
Levantei cedo, tomei banho rápido, vesti um vestido leve de algodão branco com flores pequenas, prendi o cabelo num coque alto e desci. O Coroa já tava na cozinha, fazendo café, sem camisa como sempre, tatuagens brilhando com a luz da manhã. Ele me viu, sorriu de canto, veio até mim e me deu um beijo leve nos lábios.
— Bom dia, Barbie. Vai pra creche?
— Sim… hoje tem atividade especial. Vou contar história de Davi e Golias pros pequenos.
Ele apertou minha cintura de leve.
— Se cuida. Eu passo lá no almoço, levo um lanche pras crianças.
Eu sorri, com o meu coração aquecido.
— Thank you… você é incrível.
Ele riu baixo, beijou minha testa.
— Vai logo antes que eu te segure aqui o dia inteiro.
Eu saí rindo, descendo o morro com passo leve. O ar fresco, o cheiro de pão assando nas janelas, as crianças correndo pra escola. Eu me sentia em casa. De verdade.
Cheguei na creche por volta das oito. As tias me receberam com abraço, as crianças gritaram “Tia loira!” e correram pra mim como se eu fosse a melhor coisa do mundo. Eu entrei na sala, sentei no chão com elas, organizei a atividade especial: papel, giz de cera, história de Davi e Golias.
Contei com voz animada, fazendo gestos, mostrando como Davi era pequeno mas tinha uma fé das grandes. As crianças desenhavam: pedrinhas voando, gigante caindo, Davi com coroa de rei. Eu cantei “Meu Bom Pastor” e “Jesus Loves Me” misturado com português, e elas cantaram junto, vozinhas desafinadas mas cheias de alegria.
Enquanto ajudava uma menininha a colorir a coroa de Davi, eu refletia. Minha missão tá florescendo. Cada sorriso, cada abraço apertado, cada “tia, conta de novo” era como se Deus estivesse dizendo “sim, você tá no lugar certo”. E o romance com o Coroa… ele me torna mais forte. Mais confiante. Porque eu sinto que posso ser luz pra ele também. Apesar das dúvidas. Apesar de saber que ele não é crente, que o mundo dele é perigoso. Eu sinto que Deus tá usando isso tudo. Que talvez eu seja a ponte pra ele encontrar a fé. O desejo por ele cresce todo dia, mas eu oro pra equilibrar. Pra não deixar o fogo apagar a luz.
Almocei com as crianças, o lanche que o Coroa trouxe, depois ajudei a servir sopa, brinquei no pátio. À tarde, voltei pra casa. O Coroa tava na sala, esperando por mim. Ele me viu entrar, levantou do sofá, veio até mim com um sorriso diferente. Nervoso? Ansioso?
— Vem cá — chamou, voz baixa.
Eu fui. Ele pegou minha mão, levou pro sofá, sentou do meu lado. Tirou uma caixinha preta do bolso. Meu coração disparou.
— Abre.
Eu abri com mão tremendo. Dentro, um anel de diamantes simples, mas elegante. Pedrinha pequena, brilhante, solitária, num aro de ouro fino. Lindo. Perfeito.
— Rodrigo… isso é…
Ele pegou o anel, segurou minha mão esquerda.
— É um símbolo. De que tu é minha. Pra sempre. Não é noivado, não é pedido de casamento… ainda não. Mas é um passo grande pra mim. Eu nunca dei nada assim pra ninguém desde… faz tempo. Mas pra tu… eu quero. Eu senti que devia te dar. É um anel de promessa de que logo seremos mais que só namorados.
Eu fiquei emocionada. Lágrimas subiram nos olhos. Alegria misturada com medo. Medo do compromisso crescendo, medo do que isso significa no mundo dele, medo da minha própria dúvida religiosa. Mas alegria maior. Porque era dele. Dele pra mim.
— É lindo… thank you… eu, eu gosto muito de você.
Ele colocou o anel no meu dedo. Encaixou perfeito. Eu olhei pra ele, lágrimas escorrendo.
— Eu também gosto muito de você — sussurrei, voz tremendo.
Ele congelou um segundo. Depois sorriu lento, puxou meu rosto e me beijou. Beijo profundo, molhado, cheio de tudo que a gente não dizia com palavras. Mão dele na minha nuca, outra na cintura, me trazendo pro colo dele. Eu sentei de frente, pernas dos lados, beijo ficando urgente. Carícias mais ousadas: mão dele subindo pela minha coxa por baixo do vestido, apertando de leve, polegar roçando a pele nua. Eu gemi na boca dele, corpo arqueando, querendo mais. Ele grunhiu, quadril se mexendo contra o meu, eu sentindo ele duro embaixo de mim.
Mas paramos. Respirando pesado. Testas coladas.
— É um grande passo… pra nós dois.
Ele sorriu pequeno, beijou minha testa.
— É.
O dia terminou com jantar. Arroz, feijão, bife acebolado. Ele segurou minha mão durante a refeição, entrelaçou os dedos, apertou de leve. Pequeno gesto, mas que me fez sentir amada. Eu olhava o anel brilhando na luz da cozinha e decidia focar no presente. No agora. No amor que crescia entre a gente.
Depois eu subi pro quarto, ajoelhei do lado da cama, orei. A mesma oração que tenho feito todas as noites.
— Senhor… me dê paciência. Me ajuda a lidar com o passado dele. Me mostra como ser luz sem forçar. Eu amo ele, Deus. Amo de verdade. Mas eu preciso de Ti pra não errar.
Levantei, lavei o rosto, olhei pro anel no dedo. Brilhante, simples, perfeito.
Eu decidi focar no presente. No amor que cresce. No desejo que aumenta. No compromisso que ele tá assumindo, passo a passo.
Porque eu sinto que é isso.
É o caminho.
E que Deus me oriente.
Porque eu não quero desistir dele.
Nem que ele desista de mim.
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