Coroa
Eu percebi que o negócio tava mudando de verdade. Não era mais só desejo, nem só proteção. Era algo mais fundo, mais perigoso. Beijo roubado na cozinha de manhã, quando ela tava fazendo café e eu cheguei por trás, abracei a cintura e virei ela pra mim, boca na boca sem aviso.
Ela riu contra meus lábios, mão no meu peito, coração batendo forte.
Carícias leves à noite, no sofá, TV ligada no fundo sem ninguém ver, minha mão na coxa dela por cima do vestido, subindo devagar, ela abrindo um pouco as pernas, gemendo baixinho no meu ouvido. Eu parava antes de ir longe demais, porque eu sabia que ela ainda não tava pronta. E eu… eu tava com medo.
Medo de perder ela pra minha vida violenta. Medo de que um dia ela acordasse e visse o monstro que eu sou de verdade, e não o homem que tenta ser melhor por ela a cada dia.
Eu admirava pra c*****o a força dela. Todo dia ela saía cedo pra creche, voltava com sorriso cansado mas feliz, contando como cantou hino com as crianças, como uma delas desenhou um anjinho loiro pra ela. Ela ia pra igreja à tarde, ajudava o pastor, falava pros jovens sobre fé, sobre como Deus transforma. Eu via de longe, às vezes passava de moto só pra ver ela pela janela, rodeada de molecadinha, voz doce contando história da Bíblia.
Ela é muito pura.
Ela é luz na escuridão.
E eu era o escuro que tava se aproximando demais. Me sentia culpado pra c*****o toda vez que ela tentava falar da minha falecida esposa.
Ela tentou de novo ontem. Durante o jantar. Casualmente, como se não fosse nada demais.
Dor antiga subindo pelo peito, afiada como faca velha. Eu não queria lembrar. Não queria abrir essa porta. Mudei de assunto na hora, como sempre faço e ela sempre entende.
Ela se calou, mas eu vi a frustração no olhar dela. Ela quer me ajudar, quer me curar. Mas eu não sei se dá pra curar o que já morreu faz anos.
Hoje eu tava no QG, resolvendo o resto da trégua com o Pedrada, checando os pontos, quando o celular vibrou.
Mensagem da Jordana, minha filha.
📲 Jordana: Pai, o Lucca tá vindo aqui na sua casa. Tá arrependido, quer falar contigo. Vai com calma com ele, tá?.
Eu franzi a testa.
Lucca.
Depois do que fez com a Sienna, eu jurei que não queria ver a cara dele. Mas ele era meu sangue. Meu erro. Mas é meu filho.
Eu mandei resposta curta.
📲 Eu: Tranquilo filha. Deixa ele entrar. Mas fica de olho e não deixa a Sienna sozinha.
Voltei pra casa no fim da tarde. Cheguei e vi a moto dele na garagem. Meu sangue ferveu na hora. Entrei devagar, porta da sala aberta. Lucca tava sentado no sofá, cabeça baixa, mãos nos joelhos. Jordana e Sienna do outro lado da sala, caras neutras mas tensas. A Sienna me viu, e aliviou um pouco o olhar.
— Pai… — Lucca começou, voz baixa.
Eu parei na porta, braços cruzados, olhar fuzilando.
— Fala.
Ele levantou devagar.
— Eu vim pedir perdão. Pelo que eu fiz com a Sienna. Eu tava bêbado, confuso, cabeça ferrada. Eu errei feio. Nunca mais vai acontecer. Juro pela minha vida.
Eu ri seco, sem humor.
— Jura pela tua vida? Tu invadiu minha casa, assediou minha mulher, quase quebrou a porta do quarto dela. E agora vem jurar?
Ele abaixou a cabeça de novo.
— Eu sei que fodi tudo. Eu tava com raiva, com ciúme, várias merdas na minha cabeça. Mas eu errei. Me perdoa, pai. Eu prometo me endireitar. Parar de beber tanto, ajudar no morro, ser filho de verdade.
Sienna falou baixinho, do lado.
— Rodrigo… talvez seja hora de perdoar. Família é isso. Perdão.
Eu olhei pra ela. Ela defendendo o perdão. Mesmo depois do que ele fez. Meu peito apertou. Orgulho dela misturado com raiva do meu próprio filho.
Eu cheguei perto do Lucca. Olhei nos olhos dele, analisando.
— Tu tá deserdado até provar que mudou, caso contrário... Não te quero aqui em casa quando eu não estiver. Se eu pegar você bebendo e fazendo merda de novo, eu te mato. Tu sendo o meu filho ou não. Entendeu?
Ele assentiu, olhos marejados.
— Entendi, pai.
Eu estendi a mão. Ele pegou. Aperto forte. Ele me puxou pro abraço. Abraço forte, real. Sienna insistiu com o olhar. E eu abracei meu filho de volta. Ele chorou no meu ombro, baixo.
— Desculpa, pai.
— Sai daqui. Se endireita. E nunca mais chega perto dela sem minha permissão.
Ele assentiu, limpou o rosto, saiu. Moto ligando lá fora, sumindo na ladeira. A Jordana aproveitou e saiu também, desceu pra casa dela.
Eu fiquei parado na sala.
Pensativo, pensando sobre minha criação. Sobre a criação que dei aos meus filhos, sobre o que eu passei pra eles. Sobre o impacto que isso tá tendo na Sienna. Ela veio do meu lado, abraçou minha cintura por trás.
— Você fez a coisa certa — sussurrou. — Perdão não é fraqueza.
Eu virei, abracei ela forte.
Beijei a testa dela.
— Tu é boa demais pra esse mundo, Barbie.
Ela levantou o rosto, sorriu pequeno.
— Eu só quero que você seja feliz.
A gente ficou abraçados um tempo. Depois ela me puxou pro sofá. Sentamos. Beijo carinhoso. Boca na boca, devagar, sem pressa. Mão dela no meu peito, traçando as tatuagens. Minha mão na nuca dela, outra na cintura. Beijo que acalmava. Que curava um pouco.
Mas eu ainda sentia o peso do passado não resolvido. A esposa que se foi. A dor que eu não consigo soltar. E a Sienna querendo entrar nessa porta.
Eu não sei se consigo abrir.
Mas por ela… eu vou tentar.
Um dia.
Porque ela merece.
E eu… eu não quero perder ela, nunca.
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