Sienna - Luz na Creche

1062 Palavras
Sienna Eu acordei cedo, antes do sol subir de verdade, com uma paz que não sentia há dias. Depois daquele dia de tensão com o Lucca, depois do jeito que o Coroa me protegeu como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo dele, eu dormi abraçada ao travesseiro, sentindo o cheiro dele ainda na minha pele. O nosso romance tá florescendo, devagar, mas forte. Toques carinhosos que duram mais tempo, olhares intensos que me fazem corar só de lembrar, mão dele na minha cintura quando passa perto de mim na cozinha. É lindo. É assustador. Porque eu sei que isso é namoro de verdade agora, e eu tô me apaixonando cada dia mais. Mas hoje eu precisava voltar pro meu propósito. Pra missão que me trouxe pro Brasil. Pra luz que eu vim trazer. Tomei banho rápido, vesti um vestido simples de algodão azul, prendi o cabelo num coque alto, peguei a Bíblia e desci. O Coroa já tava na cozinha, fazendo café, sem camisa como sempre, tatuagens brilhando com a luz da manhã. Ele me viu, sorriu de canto, veio até mim e me deu um beijo leve na testa. — Bom dia, Barbie. Vai pra creche hoje? — Sim… as crianças estão esperando. Eu sinto falta delas. Ele apertou minha cintura de leve, beijou minha bochecha. — Se cuida. Qualquer coisa me liga. Eu sorri, sentindo o meu coração aquecido. — Thank you… você é incrível. Ele riu baixo, me soltou com certa dificuldade. — Vai logo antes que eu te segure aqui. Eu saí rindo, descendo o morro a pé. O ar fresco da manhã, o cheiro de pão assando nas padarias, as crianças indo correndo pra escola. Eu me sentia em casa. De verdade. Cheguei na creche por volta das oito. As tias me receberam com abraço, as crianças gritaram “Tia loira!” e correram pra mim. Eu entrei na sala, sentei no chão com elas, comecei a organizar as atividades. Hoje era dia de contar história da arca de Noé, com desenhos pra colorir e música. Eu cantei “Meu Bom Pastor”, depois tentei ensinar “Jesus Loves Me” em inglês, misturando com português. As crianças riam do meu sotaque, mas cantavam junto, vozinhas afinadas e desafinadas ao mesmo tempo. Eu me sentia cumprindo meu propósito divino. Cada sorriso, cada abraço apertado, cada “tia, conta de novo” era como se Deus estivesse dizendo “sim, você tá no lugar certo”. Durante a atividade, eu refletia. O meu romance com o Coroa tá avançando tanto… toques carinhosos que duram segundos a mais, olhares intensos que me fazem esquecer do mundo, beijos que me deixam sem ar. Eu amo isso. Amo o jeito que ele me protege, o jeito que ele tenta ser melhor por mim. Mas a dúvida ronda. Como equilibrar fé e desejo? Como amar um homem que não conhece Jesus do jeito que eu conheço? Ele não vai à igreja, não ora, vive num mundo que eu sei que Deus não aprova. Mas… e se Deus estiver usando isso? E se eu for a luz que ele precisa? Eu sinto que sim. Sinto no meu coração. Almocei com as crianças, ajudei a servir sopa, brinquei no pátio. À tarde, fui pra igreja. O pastor Carlos tava preparando uma reunião de jovens. Me pediu pra ajudar. — Sienna, conta tua história pra eles. Da Austrália, da missão, de como Deus te trouxe aqui. Eu aceitei. Sentei com os jovens — uns quinze adolescentes, olhos curiosos, alguns tímidos. Contei tudo: Gold Coast, as ondas gigantes, os cultos na praia, a chamada pra missão, o abandono na entrada do morro, o tiroteio, o Coroa me salvando. Falei da creche, das crianças, de como eu sinto que Deus tem um plano maior. Incentivei eles a não desistirem da fé, mesmo nos dias difíceis. — Deus usa tudo. Até o que parece errado. Ele transforma. Confiem nele. Eles aplaudiram, alguns vieram me abraçar depois, pedindo pra eu voltar sempre. O pastor me agradeceu com lágrimas nos olhos. — Você trouxe luz aqui hoje, filha. Eu saí da igreja renovada espiritualmente. Sentindo que minha missão tá viva, que eu tô fazendo diferença. Mas a dúvida sobre o Coroa ainda rondava. Eu precisava falar com ele. Sobre o passado dele. Sobre a esposa que faleceu. Voltei pra casa no fim da tarde. Ele tava na sala, fumando na varanda, olhando pro morro. Eu me aproximei devagar, sentei do lado dele no sofá. — Rodrigo… posso perguntar uma coisa? Ele apagou o cigarro, virou pra mim. — Pode, tu pode tudo Barbie. Eu respirei fundo. — As suas filhas falam da mãe delas com tanto carinho… ela devia ser uma mulher incrível. Você… você já se abriu sobre isso? Sobre como foi perder ela? Ele fechou a cara na hora. Olho endurecendo, maxilar travando. Mudou de assunto de forma brusca. — Não quero falar disso agora. Tô cansado. Vou tomar banho. Ele levantou, saiu pro quarto sem olhar pra trás. Eu fiquei ali, frustrada e preocupada. As barreiras que ele mantém ainda são altas. Ele não se abre. E eu sei que isso é dor antiga, trauma que não cura fácil. Mas como ajudar se ele não deixa? Eu subi pro quarto, ajoelhei do lado da cama, orei sozinha. — Senhor… dá paciência pra mim. Me ajuda a lidar com o passado dele. Me mostra como ser luz sem forçar. Eu amo ele, Deus. Amo de verdade. Mas eu preciso de Ti pra não errar com ele. Levantei, lavei o rosto, desci pra jantar. Ele já tava na cozinha, fazendo arroz e feijão, cara mais suave agora. Sentamos à mesa. Ele pegou minha mão durante o jantar, entrelaçou os dedos, apertou de leve. Pequeno gesto, mas que me fez sorrir. — Desculpa se eu me fechei... — murmurou. — É difícil pra mim. — Eu sei. Quando você estiver pronto… eu tô aqui. Ele assentiu, beijou minha mão. O romance tá florescendo. Com pequenos gestos, com olhares, com toques que duram mais. Mas eu percebo que há camadas profundas que ele não revela. Ainda. Eu oro toda noite por paciência. Porque eu quero ficar. Quero amar ele inteiro. Com passado, presente e tudo que vier depois. E que Deus me ajude a não desistir. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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