Capítulo 43 Luísa

1261 Palavras
Luísa Narrando Eu ainda estava tremendo. Não era um tremor de frio. Nem de nervoso comum. Era aquele tremor que vem de dentro, que começa no peito, sobe pela garganta e faz a mão perder a força. Raiva. Uma raiva tão grande que parecia que ia raspar minha pele por dentro, me consumir inteira. Cada vez que eu respirava, o ar parecia quente demais. Cada vez que eu fechava os olhos, as palavras voltavam. O pior é que o dia tinha começado bom. Bom de verdade. Eu tinha fechado minha agenda da semana inteira. Sem um único horário vago. Ensaio atrás de ensaio, prova de roupa, foto de catálogo, campanha nova. Uma grana linda entrando. Daquelas semanas que eu até agradeço por não ter folga, porque quanto mais eu trabalho, menos eu penso. Menos eu lembro. Menos eu espero. E aí o Jonas tinha que aparecer. Tinha que abrir a boca. Tinha que destruir tudo. Eu manobrava a cadeira de um lado para o outro dentro da loja, sem nem perceber direito o que estava fazendo. Só ia. Pra frente, pra trás, girava, respirava fundo, mas o ar não descia. Meus dedos batiam nos aros com força, as palmas das mãos já ardendo. O coração acelerado. A cabeça fervendo. Eu tentava me acalmar, tentava contar até dez, tentava pensar em outra coisa. Mas as palavras do Jonas estavam coladas em mim. v***a. Vagabunda. Amigo. Que amigo faz isso? Que amigo joga na sua cara palavras que você nunca esperou ouvir de ninguém, ainda mais de alguém que te conhece desde criança? — "Por que ele fez isso?" — me perguntei pela milésima vez, as mãos ainda tremendo nos aros da cadeira. — "O que eu fiz pra ele? O que eu fiz de tão errado pra merecer ouvir aquilo?" — Luísa… — a dona da loja chamou, com a voz baixa, cautelosa. — Aquele cara é… é seu? Eu parei. Fiquei olhando para ela por dois segundos, tentando entender a pergunta. Meu cérebro ainda tava preso lá fora, na calçada, nos gritos, nos dedos apontados. — "Meu?" — repeti mentalmente, sentindo um nó na garganta. — "Ele nunca foi meu. Eu só achei que era." — Eu pensava que era meu amigo. — a voz saiu mais dura do que eu esperava, quase um murro. — Mas um amigo meu… que me conhece… que sabe muito bem quem eu sou, sabe das minhas limitações… não sairia por aí gritando que a Luísa é uma v***a. Uma vagabunda. A palavra saiu. E doeu. Doeu falar. Doeu ouvir de novo. Minha voz falhou no final, um tremor que eu não consegui esconder. Eu senti a vista embaçar. Não era choro. Eu estava me segurando com todas as forças para não chorar de raiva. As unhas cravadas na palma da mão, os dentes cerrados. Eu não ia dar esse gosto pra ele. Não ia. Nunca ia. A dona Bruna já estava vindo com um copo na mão, os passos rápidos, a expressão preocupada. — Toma uma água, filha. — ela falou, colocando o copo na minha mão. Peguei o copo, mas minha mão ainda tremia. A água balançou, quase transbordou. Minha respiração ainda não tinha voltado ao normal. — Você tem alguma contraindicação pra calmante? — ela perguntou, os olhos fixos em mim. Balancei a cabeça. — "Calmante não. Calmante vai me deixar mole, lerda." — pensei, sentindo a necessidade de manter o controle. — Eu prefiro água com açúcar… ou um chocolate. — falei, a voz ainda falhando. Ela assentiu na hora, saiu rápido, os saltos batendo no chão da loja. Eu ainda não conseguia entender. Essa postura do Jonas não entrava na minha cabeça. Não encaixava. Não fazia sentido. Parecia que eu tinha perdido um pedaço da história e alguém tinha pulado direto para o final. Como é que um amigo de anos vira assim do nada? Como é que alguém que esteve ao seu lado por tanto tempo joga tudo isso no lixo em cinco minutos? As meninas em volta de mim tentavam falar alguma coisa, mas eu só ouvia pedaços. "Fica calma…" "Ele é doido…" "Não liga pra isso…" As vozes vinham e iam, como rádio fora de sintonia. Não ligar? Como não ligar quando alguém grita no meio da loja que você é uma vagabunda? Como não ligar quando o cara que você confiava vira e te acusa de ser interesseira, de estar se vendendo? A dona Bruna voltou com um copo de água com açúcar e um chocolate pequeno. Colocou na minha mão. Peguei, bebi um gole, o doce desceu queimando a garganta. — Luísa, se você quiser, pode ir embora. — ela falou, a voz macia. — A gente remarca essas fotos depois. Não tem problema nenhum. Eu abri a boca para responder, mas antes a Isa falou: — Não, dona Bruna. Se ela for pra casa agora vai ser pior. A cabeça dela vai pipocar. — "Ela tá certa" — pensei, sentindo o peso da verdade. — "Se eu for pra casa agora, vou ficar remoendo isso sozinha. Vou ficar ouvindo as palavras dele na minha cabeça a noite inteira." Se eu fosse pra casa, eu ia ficar sozinha com aquilo ecoando na minha mente. v***a. Vagabunda. Amigo. As palavras iam rodar, rodar, até me consumir. Eu conhecia esse caminho. Já tinha andado por ele antes. — Eu fico. — falei firme, levantando o rosto. A dona Bruna sorriu de leve. — Ainda bem que amanhã quem vai estar aqui é a Paulinha. — ela disse. — Vocês duas trabalham tão bem juntas… tem uma harmonia perfeita. Eu forcei um sorriso que não existia. Só mexi os lábios, agradeci com a cabeça. Mas minha mente ainda estava longe. Ainda estava na calçada. Ainda estava ouvindo os gritos do Jonas. Foi quando a Isa parou de falar no meio da frase. — Lu… Ela olhava para fora. As outras também. Todas olharam para o mesmo lugar. — "O que foi?" — pensei, sentindo um frio na barriga. Eu virei a cadeira devagar. As mãos firmes nos aros. Girei o corpo. Levantei o rosto. E quando virei… Meu estômago afundou. O coração deu um salto que me tirou o ar. O grandão da praia. Ele estava ali. Parado na porta da loja. Camisa preta, bermuda, chinelo. Os braços cruzados. Os olhos escuros fixos em mim. Como se não existisse mais ninguém naquela loja. — "O que ele tá fazendo aqui?" — pensei, a respiração travando. — "Como ele soube que eu tava aqui?" A dona Bruna saiu de trás do balcão na hora. Foi até a porta, o corpo na frente, como se estivesse me protegendo. Os passos dela firmes. — O senhor deseja alguma coisa? — ela perguntou, a voz profissional, mas com um tom de cautela. Ele respondeu calmo. Muito calmo. O tipo de calma que prende o ar no peito. — Não desejo nada. — a voz grave ecoou na loja. — Só vim falar com a Luísa. A dona Bruna virou para mim. Os olhos perguntando, a boca já se preparando pra intervir. — Você conhece ele, Luísa? Eu tentei falar. Não saiu nada. A boca abriu, a língua pesou, as palavras sumiram. Só consegui balançar a cabeça dizendo que sim. Um movimento pequeno, quase imperceptível. — "Meu Deus" — pensei, sentindo o coração bater no ouvido. — "O que ele vai fazer?" — Simone… pega minha bolsa no armário, por favor. — pedi, a voz saindo mais firme do que eu me sentia. — Só um minutinho. — ela respondeu, já indo. Continua...
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