Capítulo 44 Luísa

1250 Palavras
Luisa Narrando Ela saiu quase correndo e voltou com a bolsa. Colocou no meu colo, os dedos dela frios. Eu peguei, prendi no suporte da cadeira. — Amanhã eu venho no primeiro horário. — falei, olhando para dona Bruna. — Eu vou recompensar o dia de hoje. — Não se preocupa, Luísa. — ela disse, a voz macia. — Não, dona Bruna. — insisti, sentindo a necessidade de deixar tudo certo. — Eu tenho que me preocupar sim. — Não precisa se preocupar não. — ela repetiu, acenando com a mão. E antes que eu respondesse, a voz grave veio da porta, seca, direta, sem espaço para réplica: — Vamos, Luísa. Simone olhou para ele de cima a baixo. Os olhos estreitos, a cabeça inclinada. — Eu não te conheço? — ela perguntou, curiosa. Ele virou devagar. O olhar pesado. — Você tá falando comigo? Simone engoliu seco. — Acho que não… Eu olhei para ele. Ele balançou a cabeça de leve. Um movimento pequeno. Só eu vi. — "Não fala nada" — traduzi mentalmente. — "Não pergunta. Não explica. Só vai." — Tchau, meninas. — falei, já girando a cadeira. Saí. Assim que passei da porta, ele colocou as mãos atrás da minha cadeira e começou a empurrar. Nem perguntou se podia. Só foi. As mãos dele firmes nos punhos, o passo largo, o corpo protegendo. — Que pørra foi aquela? — ele perguntou, a voz baixa, mas cortando o ar. — Você tá falando do quê? — respondi, já na defensiva. — Daquele arrombado falar o que falou pra você. Eu travei. As mãos pararam nos aros. O corpo congelou. — "Como é que ele sabe?" — a pergunta veio quente, subiu do peito pra garganta. — Pera aí… pelo amor de Deus… como é que você sabe? — minha voz saiu mais alta do que eu queria. E na mesma hora balancei a cabeça. A ficha caiu. — Esqueci. — falei, com um riso sem graça que nem chegou a sair. — Pra você, a minha vida virou um reality show. Ele não respondeu. Só continuou empurrando a cadeira pela calçada. O passo firme. O silêncio pesado. Eu ainda sentia a raiva queimando dentro de mim. Queimando. Não tinha passado. Não ia passar tão cedo. — Ele me chamou de vagabünda. — minha voz saiu mais baixa agora. Mais cansada. — Na frente de todo mundo. — Eu ouvi. — a voz dele saiu grossa, os dedos crispados nos punhos da cadeira. — Eu não tô entendendo. — continuei, mais pra mim do que pra ele. — Eu não fiz nada pra ele. Nada. Sempre tratei ele bem. Sempre respeitei. E do nada ele vira isso? O silêncio dele estava começando a me incomodar. — Fala alguma coisa. — pedi, virando um pouco o rosto. — Eu vou falar. — ele respondeu, a voz controlada demais. — Mas não aqui. Aquilo me deu um arrepio. Porque o tom dele não era normal. Era calmo demais. Calmo do tipo perigoso. Calmo de quem já tomou uma decisão. — O que você vai fazer? — perguntei, o coração acelerando. Ele não respondeu. E isso era pior. — Grandão. Ele parou a cadeira. Deu a volta e ficou na minha frente. Aquele homem era grande demais de perto. Largo demais. Presença demais. As tatuagens nos braços, os olhos escuros, a mandíbula travada. — Olha pra mim. Eu olhei. — Eu não vou deixar ninguém falar assim com você. Nunca mais. A forma como ele falou não foi promessa. Foi um aviso. Foi quase uma declaração. Foi sentença. Eu engoli seco. — "Ele vai fazer alguma coisa." — pensei, sentindo o medo subir. — "Ele já decidiu." E pela primeira vez desde que o Jonas tinha aberto a boca, a minha raiva deu espaço para outra coisa. Medo. Não por mim. Pelo Jonas. Porque eu já conheço esse olhar. Esse jeito de falar. Esse silêncio que vinha antes da ação. E ele não é alguém que vai deixar barato. Ele ficou parado na minha frente, os olhos fixos em mim, o corpo bloqueando o sol. A sombra dele cobria metade da calçada. Eu me senti pequena na cadeira, olhando pra cima, esperando uma resposta que não vinha. — Pra onde você vai me levar? — perguntei, a voz mais baixa do que eu queria. Ele não respondeu na hora. Só continuou me olhando, como se estivesse decidindo alguma coisa. — Pelo menos me fala seu nome. — insisti, já cansada de tanto mistério. — Você sabe tudo sobre mim e eu não sei nem como te chamar. Ele deu um meio sorriso. Aquele sorriso de canto que me desmonta. — Pode me chamar de Anjo. É assim que eu te chamo. — "Anjo?" — repeti mentalmente, sentindo o calor subir pro rosto. — Você não falou pra eu te chamar de demônio? — perguntei, franzindo a testa. Ele se abaixou na minha frente, os olhos no mesmo nível que os meus. — Porque você é um anjo de luz. — a voz dele saiu baixa, grave. — E eu sou um anjo caído. Meu coração deu um salto. Balancei a cabeça negando, as mãos apertando os aros da cadeira. — Para com isso. — falei, tentando desfazer o clima. — Isso não é coisa que se fala. Ele se levantou devagar, os olhos ainda em mim. — Comeu é alguma coisa? — ele perguntou. Mudei de assunto na hora. O estômago roncou baixo, me lembrando que eu tinha deixado o almoço passar. — Não, hora que o Jonas apareceu na loja… — comecei, a voz mais suave. — Era hora do almoço. Eu não consegui comer. Não consegui tomar nem água direito, depois daquele inferno. O olhar dele mudou. Endureceu um pouco. — Então vou te levar pra almoçar. A gente conversa. Depois a gente vai embora. — Ir embora? — repeti, desconfiada. — Você vai me deixar na minha casa, né? Ele se inclinou um pouco, a boca perto do meu ouvido. — Apesar de eu não querer que você volte pra lá… — a voz dele saiu arrastada, quente. — Eu queria mesmo era te levar pra mim. Meu corpo arrepiou inteiro. Fiquei paralisada na cadeira, a respiração presa. — Isso não vai acontecer. — falei firme, mesmo com a voz falhando. Ele riu baixo. — Vamos ver. Deu a volta na cadeira e começou a empurrar de novo. As mãos firmes nos punhos. O passo calmo. — Onde você vai me levar pra almoçar? — perguntei, ainda tentando recuperar o fôlego. — Um lugar perto. Tranquilo. — ele respondeu. — Você vai gostar. Fiquei em silêncio. O vento bateu no meu rosto, o movimento da calçada passando devagar. — E depois? — perguntei. — Depois a gente vê. — Você não vai me sequestrar, né? Ele soltou uma gargalhada baixa. — Se eu quisesse te sequestrar, Luísa… — a voz dele saiu perto do meu ouvido de novo. — Já tinha feito. Engoli seco. O coração acelerado. — Então pra onde a gente vai? — insisti. — Almoçar. — repetiu. — Depois conversar. Depois você decide se quer ir pra casa. — Decidir? — virei o rosto pra ele. — Não tem decisão nenhuma. Minha casa é minha casa. Ele não respondeu. Só continuou empurrando a cadeira, aquele sorriso de canto brincando nos lábios. — "Esse homem vai acabar comigo" — pensei, sentindo o coração bater mais forte. E o pior? Eu não sei se quero fugir. Continua...
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