Luisa Narrando
Ela saiu quase correndo e voltou com a bolsa. Colocou no meu colo, os dedos dela frios.
Eu peguei, prendi no suporte da cadeira.
— Amanhã eu venho no primeiro horário. — falei, olhando para dona Bruna. — Eu vou recompensar o dia de hoje.
— Não se preocupa, Luísa. — ela disse, a voz macia.
— Não, dona Bruna. — insisti, sentindo a necessidade de deixar tudo certo. — Eu tenho que me preocupar sim.
— Não precisa se preocupar não. — ela repetiu, acenando com a mão.
E antes que eu respondesse, a voz grave veio da porta, seca, direta, sem espaço para réplica:
— Vamos, Luísa.
Simone olhou para ele de cima a baixo. Os olhos estreitos, a cabeça inclinada.
— Eu não te conheço? — ela perguntou, curiosa.
Ele virou devagar. O olhar pesado.
— Você tá falando comigo?
Simone engoliu seco.
— Acho que não…
Eu olhei para ele. Ele balançou a cabeça de leve. Um movimento pequeno. Só eu vi.
— "Não fala nada" — traduzi mentalmente. — "Não pergunta. Não explica. Só vai."
— Tchau, meninas. — falei, já girando a cadeira.
Saí. Assim que passei da porta, ele colocou as mãos atrás da minha cadeira e começou a empurrar. Nem perguntou se podia. Só foi. As mãos dele firmes nos punhos, o passo largo, o corpo protegendo.
— Que pørra foi aquela? — ele perguntou, a voz baixa, mas cortando o ar.
— Você tá falando do quê? — respondi, já na defensiva.
— Daquele arrombado falar o que falou pra você.
Eu travei. As mãos pararam nos aros. O corpo congelou.
— "Como é que ele sabe?" — a pergunta veio quente, subiu do peito pra garganta.
— Pera aí… pelo amor de Deus… como é que você sabe? — minha voz saiu mais alta do que eu queria.
E na mesma hora balancei a cabeça. A ficha caiu.
— Esqueci. — falei, com um riso sem graça que nem chegou a sair. — Pra você, a minha vida virou um reality show.
Ele não respondeu. Só continuou empurrando a cadeira pela calçada. O passo firme. O silêncio pesado.
Eu ainda sentia a raiva queimando dentro de mim. Queimando. Não tinha passado. Não ia passar tão cedo.
— Ele me chamou de vagabünda. — minha voz saiu mais baixa agora. Mais cansada. — Na frente de todo mundo.
— Eu ouvi. — a voz dele saiu grossa, os dedos crispados nos punhos da cadeira.
— Eu não tô entendendo. — continuei, mais pra mim do que pra ele. — Eu não fiz nada pra ele. Nada. Sempre tratei ele bem. Sempre respeitei. E do nada ele vira isso?
O silêncio dele estava começando a me incomodar.
— Fala alguma coisa. — pedi, virando um pouco o rosto.
— Eu vou falar. — ele respondeu, a voz controlada demais. — Mas não aqui.
Aquilo me deu um arrepio. Porque o tom dele não era normal. Era calmo demais. Calmo do tipo perigoso. Calmo de quem já tomou uma decisão.
— O que você vai fazer? — perguntei, o coração acelerando.
Ele não respondeu. E isso era pior.
— Grandão.
Ele parou a cadeira. Deu a volta e ficou na minha frente. Aquele homem era grande demais de perto. Largo demais. Presença demais. As tatuagens nos braços, os olhos escuros, a mandíbula travada.
— Olha pra mim.
Eu olhei.
— Eu não vou deixar ninguém falar assim com você. Nunca mais.
A forma como ele falou não foi promessa. Foi um aviso. Foi quase uma declaração. Foi sentença.
Eu engoli seco.
— "Ele vai fazer alguma coisa." — pensei, sentindo o medo subir. — "Ele já decidiu."
E pela primeira vez desde que o Jonas tinha aberto a boca, a minha raiva deu espaço para outra coisa.
Medo.
Não por mim.
Pelo Jonas.
Porque eu já conheço esse olhar. Esse jeito de falar. Esse silêncio que vinha antes da ação.
E ele não é alguém que vai deixar barato.
Ele ficou parado na minha frente, os olhos fixos em mim, o corpo bloqueando o sol. A sombra dele cobria metade da calçada. Eu me senti pequena na cadeira, olhando pra cima, esperando uma resposta que não vinha.
— Pra onde você vai me levar? — perguntei, a voz mais baixa do que eu queria.
Ele não respondeu na hora. Só continuou me olhando, como se estivesse decidindo alguma coisa.
— Pelo menos me fala seu nome. — insisti, já cansada de tanto mistério. — Você sabe tudo sobre mim e eu não sei nem como te chamar.
Ele deu um meio sorriso. Aquele sorriso de canto que me desmonta.
— Pode me chamar de Anjo. É assim que eu te chamo.
— "Anjo?" — repeti mentalmente, sentindo o calor subir pro rosto.
— Você não falou pra eu te chamar de demônio? — perguntei, franzindo a testa.
Ele se abaixou na minha frente, os olhos no mesmo nível que os meus.
— Porque você é um anjo de luz. — a voz dele saiu baixa, grave. — E eu sou um anjo caído.
Meu coração deu um salto. Balancei a cabeça negando, as mãos apertando os aros da cadeira.
— Para com isso. — falei, tentando desfazer o clima. — Isso não é coisa que se fala.
Ele se levantou devagar, os olhos ainda em mim.
— Comeu é alguma coisa? — ele perguntou.
Mudei de assunto na hora. O estômago roncou baixo, me lembrando que eu tinha deixado o almoço passar.
— Não, hora que o Jonas apareceu na loja… — comecei, a voz mais suave. — Era hora do almoço. Eu não consegui comer. Não consegui tomar nem água direito, depois daquele inferno.
O olhar dele mudou. Endureceu um pouco.
— Então vou te levar pra almoçar. A gente conversa. Depois a gente vai embora.
— Ir embora? — repeti, desconfiada. — Você vai me deixar na minha casa, né?
Ele se inclinou um pouco, a boca perto do meu ouvido.
— Apesar de eu não querer que você volte pra lá… — a voz dele saiu arrastada, quente. — Eu queria mesmo era te levar pra mim.
Meu corpo arrepiou inteiro. Fiquei paralisada na cadeira, a respiração presa.
— Isso não vai acontecer. — falei firme, mesmo com a voz falhando.
Ele riu baixo.
— Vamos ver.
Deu a volta na cadeira e começou a empurrar de novo. As mãos firmes nos punhos. O passo calmo.
— Onde você vai me levar pra almoçar? — perguntei, ainda tentando recuperar o fôlego.
— Um lugar perto. Tranquilo. — ele respondeu. — Você vai gostar.
Fiquei em silêncio. O vento bateu no meu rosto, o movimento da calçada passando devagar.
— E depois? — perguntei.
— Depois a gente vê.
— Você não vai me sequestrar, né?
Ele soltou uma gargalhada baixa.
— Se eu quisesse te sequestrar, Luísa… — a voz dele saiu perto do meu ouvido de novo. — Já tinha feito.
Engoli seco. O coração acelerado.
— Então pra onde a gente vai? — insisti.
— Almoçar. — repetiu. — Depois conversar. Depois você decide se quer ir pra casa.
— Decidir? — virei o rosto pra ele. — Não tem decisão nenhuma. Minha casa é minha casa.
Ele não respondeu. Só continuou empurrando a cadeira, aquele sorriso de canto brincando nos lábios.
— "Esse homem vai acabar comigo" — pensei, sentindo o coração bater mais forte.
E o pior? Eu não sei se quero fugir.
Continua...