Capítulo 19 Magnata

1294 Palavras
Magnata Narrando Afastei da mesa devagar, o telefone vibrando na minha mão, insistente pra c*****o. O som do pagode ainda comendo solto lá atrás, mas minha atenção já não tava mais ali. Na tela… o nome. Anjo. Soltei uma risada baixa, passando a língua no canto da boca. — "Olha quem resolveu aparecer…" — pensei, puxando o baseado do bolso e acendendo devagar. A fumaça subiu lenta enquanto eu deixava o telefone vibrar mais um pouco. Deixei tocar mais um pouco de propósito. Não foi descuido não… foi controle. Porque eu sabia exatamente quem era. Ou era ela… ou alguém com o telefone dela. E, de qualquer forma, eu queria sentir o peso da ligação antes de atender. Fui andando mais pra longe, subindo um pouco a parte lateral do morro, onde o som do pagode já chegava abafado. Só o grave batendo de fundo, longe o suficiente pra ninguém ouvir minha conversa. O telefone ainda vibrando. Olhei mais uma vez pro nome. Anjo. — "Tu nem sabe onde tá se metendo…" — murmurei, rindo sozinho. — "Nem faz ideia do que tá do outro lado dessa linha." Deslizei o dedo na tela. Atendi. Fiquei em silêncio. Do outro lado… silêncio também. Mas eu ouvi. A respiração. Leve. Controlada… mas ali. Presente. Hesitante. Inclinei a cabeça, encostando no muro. Dei mais um trago no baseado, deixando a fumaça sair devagar pelo nariz. Ligação On — Alô… deseja alguma coisa? — falei, a voz calma, arrastada. — Vou falar como você me falou… se for muda, manda uma carta, manda mensagem. Agora não dá pra eu ficar aqui adivinhando o que tu quer não. Mais um segundo de silêncio. Ela puxou o ar. — Você tá me vigiando? Sorri na hora. — "Ela já vai direto ao ponto" — pensei, satisfeito. — "Gosto disso." — Eu só queria saber como você conseguiu meu número… — ela continuou, agora mais firme, a voz ganhando confiança. — Como você sabia que eu tava na praia? Por que você me mandou aquela mensagem? Soltei uma gargalhada baixa, passando a mão no queixo. — Eu tenho meus meios, princesa. — Isso é crime, sabia? Balancei a cabeça, ainda rindo. — Crime… — repeti devagar, mastigando a palavra. — Crime é ter uma mulher tão linda assim… e não poder falar que é minha. Silêncio. Depois… Ela riu. Uma risada leve. Solta. Daquele jeito que já tinha me fisgado na praia. — Nossa… todo galanteador assim? — ela provocou, a voz cheia de deboche. — Posso saber se você é poeta… ou professor? Dei outra risada, dessa vez mais solta. — "Ela adora provocar, hein?" — pensei, sentindo o jogo começar. — Sou professor… — falei. — Às vezes poeta também… mas só pra quem merece. — Professor de quê? — ela veio na hora, rápida. — Dá aula de quê? Faculdade? Escola? Percebi o deboche na voz. Ela tava me testando. Sorri de lado. — Sou professor da vida. Pausei. — E se você soubesse o quanto eu sei… eu dou aula principalmente sobre o corpo humano. Silêncio. Dessa vez ela travou por um segundo. — "Peguei" — pensei, satisfeito com o efeito. Inclinei a cabeça. — Mas fala aí… — continuei, mais sério agora. — O que que tu quer de verdade? Ela respirou fundo. — Eu só queria saber por que você ficou me vigiando de longe. Ri. — E tu? — rebati. — Por que ficou me procurando o tempo todo? Foi pra praia só pra me esperar? — Não. — ela respondeu rápido. — Ontem foi a primeira vez que eu fui na praia. Gostei… aí hoje as meninas me chamaram de novo e eu fui. — Aham… — murmurei, desacreditado. Dei um passo pra frente, olhando pro escuro do morro. As luzes da cidade brilhando lá embaixo. — Tu gostou da praia mesmo… — falei devagar — ou gostou do que viu na praia? Silêncio. Depois… ela riu. Aquela risada. Leve. Solta. Fechei os olhos por um segundo. — "Essa risada…" — pensei. — "Vai me deixar louco." — Tua risada é linda… — soltei sem pensar. — Assim como você… os cachos… o jeito… aquele cheiro suave… pele macia… Do outro lado, ela puxou o ar. — Pelo jeito você realmente entende tudo de corpo humano, né? — ela provocou, a voz meio trêmula. — Já que prestou atenção em todos esses detalhes. Abri um sorriso. — Tu não viu nada… — falei baixo. — Prestei atenção até demais. Por isso que não sai da minha mente. Silêncio. Pesado dessa vez. Mas bom. — "Tu também sentiu, né…" — pensei, sentindo a conexão pelo telefone. — "Tu também não consegue parar de pensar." Passei a mão no rosto. — Eu vou ter que desligar… — falei, já ouvindo um burburinho diferente vindo lá de baixo. Grito. Alto. Reconheci na hora. Talita. E outra voz por cima. Jéssica. Revirei os olhos. — "Putä que pariu… essas duas vão acabar com meu pagode." — O que foi? — ela perguntou do outro lado. — Você tá aonde? Tá sendo assaltado? Soltei um riso curto. — Relaxa… eu te procuro. E desliguei. Ligação Off Guardei o celular no bolso e voltei descendo rápido, quase trotando na escada. — "Se essas duas se pegaram de verdade…" — pensei, sentindo a raiva subir. — " Eu mato as duas." Quando cheguei na área do pagode… Já tava armado o circo. Talita gritando, avançando na direção da Jéssica. Jéssica respondendo à altura, xingando, partindo pra cima. Gente em volta, celular na mão filmando, olhando, alimentando a p***a da confusão. — "Eu odeio essa merda…" — pensei, vendo a multidão em volta. Fui andando no meio do povo, a cara fechada, empurrando quem não saía. O povo foi abrindo caminho na hora, sentindo o peso da minha presença. — Qual foi que eu não mandei você meter o pé, Talita?! — falei alto, chegando perto. Ela virou na hora, o olhar assustado. — Eu — ela tentou falar. — Cala a boca! — cortei, seco. Olhei pra Jéssica. Ela tava com o olhar fogo, pronta pra continuar a briga. — E você? — falei, apontando pra ela. — Tu sabe muito bem como eu odeio essa patifaria… essa pørra de showzinho no meu morro! Caverna já vinha chegando, vindo do meio do povo. Olhei direto pra ele. — Eu não mandei tu segurar tua irmã?! Ele travou, vendo a fúria no meu olhar. — Então já que tu não dá conta… eu resolvo. Apontei pra Talita. — Rala peito. Ela abriu a boca pra falar alguma coisa. — AGORA. Ela saiu. Rápido. Sem olhar pra trás. Virei pro Caverna. — Pega tua irmã… e sai do meu morro. Silêncio. Pesado. Ele me olhou por um segundo, depois puxou Jéssica pelo braço. Ela ainda me olhou. Os olhos claros fixos em mim. Mas não falou nada. Saiu. Olhei em volta. O pagode todo travado. Gente parada. Geral esperando o desfecho. Respirei fundo. Puxei a Glock da cintura. O tiro ecoou no meio da noite. Mais dois. — ACABOU! — gritei, a voz ecoando. — Pagode acabou! A galera começou a dispersar. Rápido. Sem questionar. Porque aqui… quem manda sou eu. Guardei a arma devagar, sentindo o silêncio tomar conta do espaço que antes era pura festa. Peguei o celular no bolso. A tela ainda acesa. Olhei. Chamada encerrada. Luísa. Passei o polegar na tela devagar, sentindo o nome dela sob meu dedo. — "Tu mexeu onde não devia…" — pensei, a mente viajando de novo pra ela. — "E agora eu não consigo mais parar de pensar." Levantei a cabeça, olhando o morro esvaziando. As luzes se apagando. O povo indo embora. — "E agora… eu vou até o fim." Continua...
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