Capítulo 20 Luisa

1528 Palavras
Luísa Narrando Tem coisa que a gente finge que esquece… mas não esquece. Fica ali. Martelando. Cutucando. Fazendo a gente lembrar mesmo quando não quer. E aquele homem… com aquele jeito convencido, aquela voz baixa, arrastada… falando que eu tava linda… simplesmente não saía da minha cabeça. Pior ainda foi ele dizer que não foi… mas que depois iria. Soltei uma risadinha sozinha só de lembrar. — “Convencido…” — murmurei, balançando a cabeça. — “Mas também… com aquela aparência toda… aquele corpo… aquele olhar… difícil não ser.” As meninas ainda ficaram um tempo comigo depois que a gente saiu da praia. A gente sentou ali na área comum do prédio, conversando, rindo, como sempre. A noite tava fresca, o vento batendo leve, e aquele clima gostoso de fim de dia. Yasmin, toda animada, soltou: — Vamos pro pagode? Olhei pra ela com uma sobrancelha arqueada. — Agora? — perguntei, rindo da cara dela. — Ué, qual o problema? — ela rebateu, os olhos brilhando de empolgação. — Qual o problema? — repeti, já gargalhando. — Tu tá falando sério? — Tô! Lá no Turano tá tendo um pagode bom hoje! — ela insistiu, toda convencida. Eu ri mais ainda. — Amiga… tu quer mesmo que eu suba morro de cadeira de roda? Ela nem piscou. Me olhou com aquela cara de desafio. — Quem te empurra no asfalto… te empurra em qualquer lugar. Fiquei olhando pra cara dela por um segundo… e depois a gente caiu na gargalhada. — Tu não presta, Yasmin. — falei ainda rindo, passando a mão no rosto. — Eu só quero viver experiências! — ela rebateu, dramática, colocando a mão no peito. No fim, ninguém foi pra pagode nenhum. A gente ficou ali mesmo. Pediu lanche. Comeu besteira. Conversou sobre tudo… menos sobre o que realmente tava passando na minha cabeça. Porque aquilo… eu guardei pra mim. Depois de um tempo, as meninas foram embora. Cada uma pro seu lado. E eu subi pro meu quarto. Fechei a porta atrás de mim e respirei fundo. Silêncio.Só eu. Fui direto pro banho. Do meu jeito. Do jeito que aprendi ao longo desses 23 anos. Tem dia que eu preciso de ajuda. Tem dia que não. Hoje… eu me virei. Sem pressa. Já acostumada com cada movimento, cada adaptação, cada detalhe. A transferência da cadeira pro banco. A água no corpo. O cabelo que precisa de cuidado. Tudo automático. Tudo meu. Terminei, me enxuguei, coloquei meu pijama e fui pro quarto. Me joguei na cama, puxando o celular. Mensagem do Jonas. “Tá fazendo o quê?” Respondi rápido: “Tô me preparando pra ver uma série e dormir.” Visualizou. E não respondeu mais. Franzi a testa. — Ué… — murmurei, estranhando o silêncio dele. Mas antes que eu pensasse muito sobre isso… minha mente foi pra outro lugar. Pra ele. Suspirei fundo. — “Que ódio…” — murmurei, jogando o celular pro lado. Abri o i********:. Rolei o feed. Nada. f*******:. Nada. Pesquisei nome, sobrenome, apelido… qualquer coisa. Nada. — “Esse homem existe mesmo?” — falei sozinha, encarando a tela. Porque não era possível. Um cara daquele… e simplesmente não existir em lugar nenhum? Sem redes sociais? Sem rastro? Sem nada? Fiquei olhando pro celular… até que me lembrei. As chamadas. Abri o histórico. Conferi o número. Era o mesmo da mensagem. Meu coração deu uma acelerada boba. — “Ah… então você existe sim…” — murmurei, sentindo um frio na barriga. Sem pensar muito… apertei o botão de ligar. Chamou. Chamou. Chamou. — “Vou deixar tocar…” — falei, cruzando os braços. — “Quero ver até onde vai isso.” Já tava quase desligando… Quando ele atendeu. Silêncio. Eu não falei nada. Ele também não. Mas eu ouvi. A respiração. Do outro lado da linha. E aquilo… já foi suficiente pra fazer meu coração bater mais rápido. Até que ele falou. E quando falou... Meu Deus. A voz dele era pior ainda no telefone. Mais grave. Mais arrastada. Mais… tudo. Convencido. Provocador. Seguro. E eu? Não abaixei a cabeça. Respondi no mesmo nível. No mesmo tom. Porque eu nunca fui de me diminuir por ninguém. Muito menos por homem. Muito menos por causa da minha condição. Ele jogava… eu devolvia. E, no fundo… eu tava gostando daquilo. Do jogo. Da provocação. Do jeito que ele falava. Do jeito que ele me observou sem eu perceber. Quando ele falou do meu cabelo… da minha pele… do meu cheiro… Eu travei. Mas não deixei ele perceber. E quando a conversa começou a ficar… diferente… Ele mudou. Do nada. Falou que tinha que desligar. Que ia resolver um problema. E desligou. Fiquei olhando pro telefone, parada. — “Mas já?” — murmurei, sentindo um vazio estranho. Coloquei o celular na perna e girei a cadeira, indo até perto da sacada. O vento batia leve no rosto, trazendo aquele cheiro de noite. E foi aí que eu ouvi. Gritos. Altos. Uma voz feminina. Outra por cima. Confusão. E de repente… Um tiro. Meu corpo travou. O coração disparou na hora. — Meu Deus… — sussurrei, a mão indo pro peito. Fiquei parada, olhando pra escuridão. — “O que que tá acontecendo?” — pensei, o medo subindo pela espinha. Engoli seco. E, pela primeira vez desde que falei com ele… Um arrepio estranho passou pelo meu corpo. Não era só curiosidade. Era outra coisa. Algo que eu ainda não sabia explicar. Voltei pro quarto devagar. A mente ainda longe. O coração ainda acelerado. Coloquei o celular pra carregar.Peguei o controle da TV. Me ajeitei pra deitar. Quando eu tava quase subindo na cama… O celular vibrou. Olhei de longe. — Deve ser mensagem… — murmurei, continuando a me ajeitar. Mas aí… Ele começou a tocar. Revirei os olhos. — Ah, não… Desci a perna de novo, manobrando a cadeira até o criado-mudo. Peguei o celular. Jonas. Ligação On — O que que esse menino quer agora? — falei, atendendo com a voz arrastada. — Desce. — ele falou direto, sem rodeios. — Nem vem, Jonas. Eu já falei que vou dormir. — respondi, já revirando os olhos. — Tô no playground. Tô sem sono. Quero trocar ideia contigo. — a voz dele veio suave, mas insistente. Suspirei. — Não tô afim, não. — falei, olhando pra TV. — Caraca… — ele dramatizou, a voz cheia de deboche. — Não acredito que a minha melhor amiga… a mulher mais gata do Rio de Janeiro… vai me dispensar assim. Soltei uma gargalhada. — Para de graça. — falei, mordendo o canto da boca. — Então desce. — ele insistiu. Balancei a cabeça, rendida. — Deixa eu só colocar uma camiseta, tô de pijama. — falei, olhando pra roupa. — Desce assim mesmo. — ele provocou. — Manda uma foto pra eu ver. — Nem pensar, bonito. — respondi na hora. — Vou me arrumar e já desço. Desliguei. Ligação Off Troquei rápido, coloquei uma camiseta por cima do pijama e saí. Desci pelo elevador e, antes mesmo de chegar no playground… Ele apareceu. Sorrindo. Como sempre. — E aí… como é que tá a cacheada mais linda do Rio de Janeiro? — falou, se aproximando devagar. E antes que eu reagisse… Ele beijou meu pescoço. — Jonas! — reclamei, dando um tapa leve no braço dele. — Para com isso! Já falei que as meninas vão começar a achar que eu sou tua namorada! Ele riu, aquele riso solto. — E quem disse que eu não ia gostar? — ele provocou, os olhos brilhando. Travei. Olhei pra ele. — Porque a gente é amigo. — falei firme. — Melhor amigo, lembra? Ele não respondeu na hora. Só deu a volta e começou a empurrar minha cadeira. — Vem. — ele disse. — Pra onde? — perguntei, curiosa. — Ali. Ele me levou até um jardim que tinha perto do prédio. Um cantinho mais tranquilo, longe dos olhos. O vento tava gostoso mesmo. Fechei os olhos por um segundo. — Nossa… o tempo tá perfeito. — falei, sentindo a brisa no rosto. — Tá mesmo. — ele respondeu, a voz perto. — Não dava pra ficar aqui sozinho. Abri os olhos. — Então por que não chamou uma das meninas? — perguntei, sem entender. Ele parou atrás de mim. Se inclinou um pouco. — Porque se eu quisesse uma das meninas… eu tinha chamado. Silêncio. Meu coração deu uma batida mais forte. — Eu queria você. — ele completou, a voz baixa. Fiquei quieta. Pensativa. E, pela primeira vez essa noite… Minha cabeça não tava só no cara da praia. Mas também… No Jonas. No que ele tava dizendo. No que aquilo significava. — Jonas… — comecei. — Fala. — ele respondeu, ainda atrás de mim. — A gente é amigo. — repeti, mas a voz saiu menos firme. Ele não respondeu. Só ficou aqui. Comigo. No silêncio. E eu… Eu fiquei pensando. No cara da praia. Na voz dele. Nos tiros que ouvi. No Jonas. Em tudo. — “O que tá acontecendo comigo?” — pensei, sentindo o vento no rosto. Não sabia responder. Continua...
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