Jonas Narrando
Ela fechou os olhos por um segundo, como se já estivesse cansada. A mão dela subiu pro rosto, esfregou a testa.
— Aí… esse assunto de novo, Jonas? Pelo amor de Deus, me erra. — a voz dela saiu com um cansaço que me irritou ainda mais.
— Me erra? — soltei uma risada sem humor. — Tu acha que eu vou fingir que não vi? Que vou ficar de boa enquanto tu se entrega pra qualquer um?
— Não é da sua conta. — ela respondeu, seca, os olhos endurecendo.
Aquilo me deu mais raiva ainda. Mais raiva do que eu já tava. Dei um passo na direção dela.
— Eu sei que ele foi na minha casa. — falei, encarando ela.
Ela virou o rosto na hora. Os olhos arregalados.
— O quê? — a voz dela saiu baixa, surpresa.
— Ele apareceu. Do nada. — continuei, a raiva transbordando. — Mandou eu ficar longe de você. Mandou eu me ligar.
Ela ficou me olhando, sem acreditar. A mão dela apertou o aro da cadeira.
— Ele foi na sua casa?
— Foi. — falei, a voz trêmula. — E só não apanhou porque ele sabia que eu ia chamar a polícia.
Ela respirou fundo, passando a mão no rosto.
— Jonas…
— Não, Luísa. — cortei. — Tu não entende? O cara vai na minha casa, me ameaça, me manda ficar longe de você… e tu ainda fica com ele?
Ela ficou em silêncio. Só me olhando.
— Tu sabe o que ele é? Tu sabe com quem tu tá se metendo? — continuei, a voz subindo.
— Aquele cara tem cara de traficante. Cara de magnata. Cara de playboy que manda em tudo. — falei, cada palavra saindo como acusação.
Ela soltou uma risada curta, sem paciência, balançando a cabeça.
— Você tá delirando. — ela falou.
— Tô? — apontei pra ela. — Quem vai na casa de alguém pra ameaçar? Gente do bem não faz isso, Luísa!
Ela me olhou diferente agora. Mais séria. Os olhos estreitaram.
— E você acha que ele fez isso?
— Eu sei que ele fez! — gritei. — Eu tava lá!
Ela respirou fundo.
— Jonas… isso não é problema seu. — a voz dela saiu cansada, como se já tivesse repetido isso mil vezes.
E foi aí que eu perdi a linha.
Tudo que tava guardado. Toda frustração. Todo amor não correspondido. Toda raiva de ver ela nos braços de outro. Tudo veio.
— Tu é muito interesseira, sabia? — falei, a voz saindo carregada de ódio.
Ela arregalou os olhos. O corpo dela recuou na cadeira.
— O quê?
— Interesseira! Vadïa! Vagabünda! — cuspi as palavras, uma por uma, sentindo cada uma como um tiro que eu mesmo disparava.
Ela ficou me olhando por dois segundos… e começou a rir.
Rir de verdade. Uma gargalhada solta que me deixou ainda mais puto.
— Eu não acredito que você tá falando isso. — ela disse, balançando a cabeça, ainda rindo.
— Tô sim! — falei, a voz trêmula de raiva. — Porque é isso que parece! O cara tem dinheiro, tem postura, tem poder… e tu abre as pernas pra ele!
— Cala a boca, Jonas! — ela cortou, o olhar ficando duro. O riso sumiu. A expressão mudou completamente. A mão dela apertou o aro da cadeira.
— Doeu ouvir? — provoquei.
— Não. — ela respondeu firme, os olhos nos meus. — Deu foi vergonha.
Eu travei. A palavra ficou suspensa no ar.
— Vergonha de você. — ela completou, a voz saindo baixa, mas cada palavra acertando.
O silêncio ficou pesado entre a gente. O vento batendo. Os carros passando. O mundo girando.
Ela girou a cadeira, apontando pra rua.
— Vai embora.
— Eu ainda não terminei. — tentei, a voz já perdendo força.
— Eu terminei. — ela rebateu. — Você passou de todos os limites hoje.
Eu tentei falar de novo, abri a boca pra dizer alguma coisa.
Ela levantou a mão.
— Chega.
Girou a cadeira, as mãos firmes nos aros. Começou a se mover em direção à loja.
— Você ainda vai me escutar! — falei alto.
Ela não virou. Só levantou a mão, sem olhar pra trás.
A rampa da loja estava ali. Ela subiu sem hesitar. Entrou.
A porta fechou.
E eu fiquei parado na calçada. O peito queimando. A cabeça fervendo. As mãos tremendo.
— "Ela vai me escutar" — pensei, os dedos crispados. — "De um jeito ou de outro, ela vai me escutar."
Olhei pra loja. Ela já tava no balcão de novo.
Apertei os punhos. Entrei no carro. Bati a porta.
Liguei o motor. E acelerei. O ronco cortou a rua.
E na minha cabeça, uma certeza: esse cara… quem quer que ele seja… ainda vai me pagar. E ela… ela ainda vai entender que o errado nessa história não sou eu.
Deminui a velocidade ainda na rua da loja, fiquei parado por um tempo, o carro estacionado na esquina, o motor ainda ligado roncando baixo. As mãos no volante apertavam com força, os dedos crispados. A imagem dela não saía da minha cabeça. O jeito que ela me olhou. A forma como ela riu na minha cara. Como se eu fosse um idiøta. Como se tudo que eu sentia não valesse nada.
— "Ela vai se arrepender" — murmurei sozinho, os olhos fixos no para-brisa. — "Quando aquele cara fizer alguma merdä, ela vai lembrar de mim. Vai lembrar que eu avisei."
Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos. Mas a raiva não passava. Ela fervia ali, no peito, na garganta, nos punhos fechados.
— "Vou fazer um retrato falado." — pensei, a ideia tomando forma. — "Vou na delegacia, descrevo ele direitinho. Grandão, tatuado, olhar de psicopata. Aí quando ele aparecer na praia de novo, os verme já vão estar esperando."
Dei um murro no volante. O couro estalou sob meus dedos.
— "Quero ver esse filho da püta me ameaçar com um processo nas costas."
No meio da raiva, lembrei. O celular.
Peguei o aparelho no bolso com tudo, os dedos tremendo de raiva. Abri o i********:. Rolei o feed. Nada. Fui no perfil da Luísa. Nada novo. Só as fotos de sempre, os trabalhos dela, as paisagens.
— "Ela não posta nada dele." — sussurrei, a frustração apertando o peito. — "Como ela não posta nada com ele? O cara praticamente carregou ela pro mar como se fosse o amor da vida dela e não tem uma foto? Um vídeo? Nada?"
Fui no perfil da Yasmin. Depois da Laura. Rolei. Rolei mais. Nada. Nenhuma foto com o grandão. Nenhuma marcação. Nenhuma pista. Era como se ele não existisse. Como se fosse um fantasma. Algo que só eu tinha visto.
— "Então não precisa de retrato falado." — falei alto, a voz ecoando dentro do carro. — "Se eu achar uma foto dele."
Mas onde? Se não tem rede social, se ninguém posta nada, se ele vive nesse mundo paralelo que só aparece na praia quando quer?
Apertei o celular na mão, a tela já escura.
— "Vou conseguir. De um jeito ou de outro, vou conseguir."
Olhei pela janela. A loja onde ela está trabalhando hoje lá atrás. As vitrines iluminadas pelo sol. E ela lá dentro. Vivendo a vida dela como se eu não tivesse dito nada. Como se eu não existisse.
— "Uma hora ou outra você vai ter que me escutar, Luísa." — murmurei, engatando a marcha. — "E quando você escutar, vai ser tarde demais pra correr atrás de mim."
Passei a marcha acelerando. O carro cortou a rua, as luzes da cidade passando rápido pelas janelas. A cabeça fervendo. O peito apertado. E uma certeza cada vez mais forte: eu não vou parar até ver aquele cara atrás das grades. E ela? Ela ia ver que o único que sempre esteve do lado dela sou eu.
Sempre.
Continuei dirigindo, a cabeça fervendo, os dedos crispados no volante.
Sai dos meus pensamentos ouvindo o ronco.
Motores. Grossos. Pesados.
Duas motos passaram na minha lateral. Devagar. Fechando o espaço.
Olhei pelo retrovisor.
Mais duas atrás.
Meu coração disparou.
— O que está acontecendo? — murmurei, apertando o volante.
Elas fecharam os dois lados. O carro ficou preso. Não dava pra sair. Não dava pra fugir.
Continua...