Jonas Narrando
Tem dia que você acorda já com o sangue quente. Hoje foi assim.
Abri o olho e a primeira coisa que veio na minha cabeça foi a cena da praia. Não o mar. Não o sol. Não a areia. Ele. Aquele desgraçado. A mão dele na Luísa. A boca dele na boca dela. Ele pegando ela no colo como se ela fosse… dele. Como se ela fosse propriedade. Como se tudo que eu construí com ela por anos não valesse nada.
Fechei o punho na hora, ainda deitado. O maxilar travado. O peito subindo e descendo pesado, os dentes rangendo. A Luísa que nunca deixou eu dar um beijo na bochecha dela porque dizia que "amizade é amizade". A Luísa que sempre me colocou no meu lugar, que sempre manteve a distância, que sempre deixou claro que entre a gente era só amizade. E agora deixa aquele cara fazer tudo. Tudo. Beijar na boca. Pegar no colo. Levar pro mar.
— "Ela nunca me deu chance" — pensei, sentindo o ódio subir. — "E agora entrega tudo pra um desconhecido."
Levantei puto. Fui pro banho tentando esfriar a cabeça. A água gelada caiu no corpo, no rosto, na nuca. Não adiantou. A cena voltava. A risada dela com ele. O jeito que ela olhava pra ele. A forma como ela se entregou nos braços daquele cara como se fosse a coisa mais natural do mundo. Aquilo não saía da minha mente. Era um filme passando em loop. Toda vez que eu fechava os olhos, via ela nos braços dele. E o pior? Ela parecia feliz. Parecia realizada.
— "Por que ele?" — me perguntei pela milésima vez. — "O que ele tem que eu não tenho?"
E aí veio a outra lembrança. A que me fazia ferver por dentro.
Ele apareceu na minha casa. Do nada. O grandão tatuado, com aquele olhar que te atravessa. Ele não bateu na porta. Só apareceu. Como se fosse dono da rua. Como se fosse dono de tudo.
— "Se eu ver você perto dela de novo, você vai virar lembrança." — as palavras dele ainda ecoavam na minha cabeça.
Eu quis revidar. Quis partir pra cima. Mas ele tinha aquela postura. Aquele jeito de quem já fez coisa pior. E eu sabia. Sabia que se eu batesse nele, ele não ia chamar a polícia. Ele ia resolver de outro jeito. E quem ia chamar a polícia era eu. Porque no fim, ele que tava errado. Ele que não tinha nada com ela. Ele que apareceu do nada e tomou o que era meu.
— "A sorte dele é que ele sabia que eu ia chamar a polícia" — pensei, sentindo a raiva subir de novo. — "Porque se não fosse por isso, eu tinha quebrado ele ali mesmo."
Mentira. Eu sei que não. Mas na minha cabeça, era mais fácil acreditar nisso.
Tomei café sem nem sentir gosto. A xícara esfriando na mão, os olhos perdidos no nada. Peguei o carro e fui pra faculdade. Sentei na sala, abri o caderno, o professor falando lá na frente, fazendo gestos, explicando alguma matéria que eu nem sabia qual era. E eu não ouvi uma palavra. Minha cabeça tava longe. Eu só pensava numa coisa: eu precisava falar com ela. Precisava entender. Precisava fazer ela ver que aquele cara não prestava.
A aula acabou. Nem esperei ninguém. Guardei o caderno de qualquer jeito na mochila, levantei da cadeira antes mesmo do professor terminar a frase. Saí direto, entrei no carro e fui pra onde eu sabia que ela tava trabalhando.
Eu conheço a rotina da Luísa melhor do que ela mesma. Sei onde ela trabalha, onde ela estuda, onde ela gosta de ir. Sei os horários, os caminhos, as preferências dela. Conheço ela desde o ensino fundamental. Sempre estive ali. Sempre.
Estacionei em frente à loja. Fiquei alguns segundos parado, as mãos no volante, os olhos fixos na entrada. Olhando pelo vidro. E vi. Ela. Atrás do balcão do balcão da loja, na cadeira de rodas, mexendo no celular, rindo com as meninas. Rindo. Como se nada tivesse acontecido. Como se aquele beijo na praia não tivesse sido nada. Como se eu não existisse.
Desci do carro devagar. A porta fechou com um baque seco que fez algumas pessoas na calçada olharem. Entrei na loja sem olhar pra ninguém. O olhar fixo nela.
— Luísa. — falei, a voz saindo mais grossa do que eu pretendia.
Ela levantou o olhar. Quando me viu, o sorriso morreu na hora. A expressão mudou. O corpo travou. As mãos dela pararam no aro da cadeira.
— "Ela já sabe o que eu vim fazer" — pensei, sentindo o peito apertar. — "Ela já tá na defensiva."
— Jonas… eu tô trabalhando. — a voz dela saiu baixa, controlada, os olhos me avaliando.
— A gente precisa conversar. — respondi, firme.
Ela olhou em volta, meio sem graça. As meninas da loja já estavam olhando, cochichando entre si.
— Agora não dá. — ela falou, tentando me despachar, os dedos batendo no aro da cadeira.
O sangue subiu na hora. Uma onda quente que subiu do peito pra cabeça.
— Dá sim! — falei mais alto do que devia, a voz ecoando na loja.
As meninas da loja olharam na hora. Algumas se entreolharam, outras desviaram. O clima pesou. Até as clientes que estavam no fundo pararam de olhar as roupas.
Ela respirou fundo. Fechou os olhos por um segundo, como quem tenta manter a calma.
— Meninas, licença rapidinho. — ela pediu, já manobrando a cadeira pra sair de trás do balcão.
Veio até mim, as mãos nos aros, os movimentos firmes. Parou na minha frente, ergueu o rosto pra me olhar.
— Dá pra você esperar lá fora? Daqui a pouco eu termino e a gente conversa. — pediu, a voz baixa.
— Não. — respondi seco, sem hesitar. — Eu quero falar agora.
Ela me encarou. Os olhos dela analisando os meus. Viu que eu não tava bem. Viu que eu tava alterado. Suspirou.
— Tá. Vamos. — falou, já girando a cadeira em direção à porta.
Saímos da loja. Paramos na calçada, do lado do carro. Ela estacionou a cadeira de frente pra mim, os braços cruzados sobre o colo, a postura fechada.
— "Ela já tá na defensiva" — percebi. — "Ela sabe o que eu vim falar."
— Fala. — ela disse, sem rodeios, os olhos fixos em mim.
Eu não esperei. A raiva que tava guardada veio toda de uma vez.
— Quem é aquele desgraçado da praia? — perguntei, a voz saindo áspera.
Continua...