Pré-visualização gratuita Negociações
O Palácio de Inverno em São Petersburgo estava prestes a testemunhar a conclusão de um acordo
de proporções históricas, um que mudaria para sempre a geografia do Hemisfério Norte e do mundo inteiro. O rei canadense Paul Blackwell de 39 anos o aguardava a imperatriz russa em um dos muitos aposentos do palácio, e uma pergunta o atormentava: estaria ele traindo seu país numa tentativa de salvá-la?
_Ele sabia que viera vê-la, que esgotara todas as opções possíveis e que se decidira pela única que lhe parecia correta naquela situação, mas será que ela não poderia simpatizar com ele, mesmo que por um instante? Mas por quê?
Ele olhou para a enorme tela plana atrás de si, que acendera de forma suspeita. Nada de especial, na verdade ele simplesmente anunciou que eram exatamente onze horas da manhã, horário de São Petersburgo.
Daquele momento em diante, Paul se consideraria morto naquela hora. As portas se abriram.
Sua juíza e salvadora, a imperatriz de Toda a Rússia, Stanislava Filin, entrou na sala de conferências, se é que se podia chamá-la assim, dado seu luxuoso ambiente do século XIX e seus equipamentos igualmente caros do século XXI.
Acompanhada por sua conselheira, Anastasia Amursanaeva, ela foi imediatamente recebida por seu conselheiro, Leroy MacPherson, que se levantou de um salto.
Ela parecia mais jovem do que em suas fotografias oficiais (o que Paul considerava quase impossível devido à extensa edição).
A imperatriz de 35 anos com seus cabelos loiro-escuros estavam cuidadosamente presos, sem nenhum fio solto, revelando seu rosto em toda a sua glória.
Maçãs do rosto proeminentes, lábios levemente carnudos e aquela expressão severa que ela parecia ter adotado especialmente para ele. Ele sabia que seus olhos o avaliavam.
Seus olhos, aliás, eram verdes, mas sob aquela luz pareciam cinzentos. Stanislava inclinou a cabeça para o lado e o examinou de cima a baixo sem qualquer constrangimento, demorando-se atentamente em seu rosto.
Sua postura militar era imediatamente evidente.Afinal, ele havia servido como comandante-em-chefe na Guerra Americano-Canadense. Seus músculos bem definidos eram visíveis mesmo sob o terno, os seus olhos azuis cristalinos carregavam um toque de escárnio e desafio.
_Ele era sete anos mais velho que ela e parecia não esperar mais nada da vida além de decepções.
_Vossa Majestade Imperial, ele acenou brevemente com a cabeça. Sua voz tinha o aço com que exércitos eram facilmente enviados à ruína.
_Vossa Majestade, ela respondeu.
_Espero que a sua jornada para o império tenha sido agradável._Muito, obrigado, Paul sorriu.
_E a sua? Stanislava ergueu as sobrancelhas diante da piada, sorriu de forma melosa, mas não respondeu.
_Vamos começar?_Ela gesticulou em direção à longa mesa, e eles se sentaram em lados opostos. Talvez as negociações mais
complexas da história dos dois estados tivessem começado, negociações que, de fora, pareciam quase benevolentes, mas estavam longe disso.
_O rei canadense estava propondo casamento à imperatriz russa. Uma união política,Não havia outra maneira.
A proteção imperial deveria impedir que o Canadá, em recuperação, desaparecesse do mapa.
A ironia é que o casamento de dois monarcas reinantes significou uma fusão de estados, o que, de qualquer forma, significava o desaparecimento do mapa.
Só que em termos diferentes. A última guerra entre Estados Unidos e Canadá terminou de forma quase desastrosa tanto para o Canadá quanto para a família real.
Os Blackwell conseguiram defender seu território e negociar um acordo de paz relativamente neutro que restaurou tudo ao status quo pré-guerra, mas isso teve um custo colossal: devastação económica, um exército canadense quase destruído e a morte do Príncipe Herdeiro Daniel Blackwell Jr., que levou a um golpe de Estado no qual seu irmão, Paul, depôs o pai e assumiu o seu lugar.
A guerra terminou há cinco anos, mas o Canadá nunca se recuperou e é improvável que sobreviva a outra. Além disso, segundo informações de inteligência, os Estados Unidos, liderados pelo odioso governante Oliver Waters, já estão se preparando para sua próxima campanha.
O Rei do Canadá veio implorar por sua ajuda. Por um lado, o próprio império estava em crise. Stanislava Filin era a única herdeira de sua dinastia, que governara a Rússia por quase duzentos anos, substituindo os Romanov no início do século XIX.
Seu pai, Alexei, estava gravemente doente e havia cedido o trono a ela alguns anos antes.
Os assuntos de Estado a impediram de encontrar um marido ou gerar um herdeiro, e o país ameaçava mergulhar em turbulência, guerra civil e uma luta pelo trono em um futuro próximo. Ela já ouvira rumores de conflitos nos confins do país, especialmente quando começara a procurar herdeiros entre os ramos mais distantes.
Qualquer coisa para garantir sua parte da herança. E onde há guerras dinásticas, há guerra civil com a tentativa de estabelecer uma nova dinastia, como acontecera da última vez.E então, de repente, Paul Blackwell apareceu à sua porta.
Ele também tinha seu próprio país. Muitos nobres a cortejaram, mas nenhum com tal herança. Leroy tirou os documentos de sua pasta e os colocou sobre a mesa. Anastasia abriu uma pasta com uma águia bicéfala na capa e espalhou os papéis. _Talvez devêssemos começar com assuntos mais práticos", disse Leroy, virando-se para a imperatriz.
O sucesso desta união dependerá da nossa capacidade de nos tolerarmos mutuamente durante pelo menos os primeiros quinze anos; depois disso, nos acostumaremos, disse Paul, dando de ombros. _Bem, e das conversas durante o café da manhã.
_Anastasia ergueu uma sobrancelha, mas sorriu. Por algum motivo, ela achou que sua imperatriz também estava achando graça._Sempre me ensinaram a comer de boca fechada, comentou Stanislava.
_Ou seja, silêncio pelo resto da vida... Será que meu coração aguenta?_Ele levou a mão ao peito, teatralmente._Veremos._Mas a senhora parece mais velha, Majestade, não é?, a imperatriz sorriu maliciosamente. Paul riu._Viu?, disse, aproximando-se da mesa._Estou quase pronto para viver com a senhora.Stanislava mostrou os dentes e estava prestes a responder com uma resposta afiada como uma faca, mas Anastasia a interrompeu: _Vamos ao que interessa.
A capital. Entendo que há dificuldades._Até duas. Ottawa e São Petersburgo, observou Leroy com um sorriso._E eu que pensava que começaríamos discutindo as cores da cerimônia de casamento, comentou Paul Blackwell ironicamente.
_Você acha que uma pergunta dessas é indigna de você?_ Stanislava o encarou desafiadoramente.
_E você não acha? Já temos capitais. Duas, como meu excelente conselheiro observou. Não vejo sentido em reinventar a roda._E como vocês pretendem morar nelas? Você na sua e eu na minha?_ Stanislava ergueu uma sobrancelha._Ou você na minha.
_Por que eu? Por que não você?
Mas ele apenas riu baixinho e não respondeu. Ela continuou a olhá-lo.
_Estamos propondo um acordo: seis meses em São Petersburgo e seis meses em Ottawa, começou Anastasia. _A rotação de capitais já aconteceu antes, por exemplo, no Império Austro-Húngaro.
_Não, disseram Paul e Stanislava em uníssono, encarando-se com raiva._Ou escolher residências específicas para onde a família se mudará ao longo do ano, independentemente de tudo. mas Leroy foi interrompido.