Os dias se passam e eu evito falar com o Príncipe Metrimna sobre o nosso assunto inacabado, afinal, temos muito o que fazer no Reino. Mas as atividades são interrompidas quando o sino é tocado na torre.
Todo o território de Metrimna está lotado de árvomes, a Rainha está montada em uma libélula gigante, estou na frente dela, Metrim está de um lado e Isiton está do outro. Os gigantes de barro estão por toda parte.
Me disseram que há outros seres inteligentes pelo mundo, mas não quiseram participar da batalha, como as bruxas.
"Ordinárias."
Estamos todos nervosos, principalmente eu, pois, o inimigo já anunciou a sua chegada. A primeira Guerra Mundial que houve naquele mundo causou um impacto global irreversível, e agora, os Árvos querem repetir o ato, depois de centenas de anos. Ninguém sabe o que pode ocorrer desta vez, mas infelizmente esperamos pelo pior.
Está de manhã, e hoje haverá noite de lua cheia, justamente hoje. Nem sei mais que data é esta, só sei que o portal se abrirá hoje e pelo que entendi, posso escolher não atravessar.
É o que vou fazer e ninguém me segura.
Todos estamos de espadas nas mãos e um silêncio devastador nos toma. Fazemos silêncio porque queremos ouvir os ruídos da guerra se aproximarem, e eu, que tenho a audição mais apurada de todos eles, escuto um som diferente a quilômetros.
São motores, como de motos, porém, mais oco, se é que posso descrever assim. Também, há um som mais estridente que me parece um trator bem pesado.
De longe, podemos ver um guerreiro árvome montado em um besouro ligerde se aproximar, ele está ferido.
— O que houve guerreiro? — pergunta Matid. — Onde estão os outros espias?
— Fomos atacados, Majestade, todos morreram, se sacrificaram para que eu pudesse sobreviver. Os Árvos estão vindo, e possuem mecanismos que podem nos m***r facilmente, não teremos chance.
— Como são esses mecanismos?
— Armas como canhões, porém, portáteis, e disparam uma espécie de fluido luminoso, não faço ideia do que seja, é extremamente destrutivo.
A Rainha olha para mim e eu não sei o que dizer, também não faço ideia do que são essas armas. Apenas esperamos.
De longe, as árvores se agitam e caem, alguma coisa muito grande as derruba sem esforço algum.
Primeiro, aparecem várias criaturas de mais de dois metros montados em automóveis que flutuam também sobre o solo e têm o formato de ictiossauro — eu sei porque adoro pesquisar sobre dinossauros.
Eles também carregam armas que parecem fuzis, só que o cano é bem mais largo. Tudo é feito de um metal que parece prata, até as suas armaduras.
E atrás dos automóveis aparece o que veio derrubando as árvores, é um gigantesco tanque de guerra. É tão grande que poderia abrigar uma tribo inteira lá dentro. Se eles passarem com aquilo por cima do Castelo, vai derrubá-lo.
Os Árvos tem a cor azul anil e sardas nos rostos, seus olhos e narizes fazem lembrar um gato, seus cabelos são azuis escuros, a cor dos seus olhos são azuis e suas orelhas são pontudas como as dos árvomes.
Ninguém aqui tem as orelhas redondas?
Os árvomes ficam extremamente bobos com tudo aquilo, mas eu já vi coisas parecidas nas guerras que aconteceram na Terra.
Não estou surpresa, só o que me intriga é saber que eles estão a vários passos do futuro à frente dos árvomes que ainda vivem de modo antiquado e sem tecnologia, a coisa mais avançada que possuem é o dispositivo para m***r o Mandante Isiton.
— Vamos morrer — Isiton fala comigo entre os dentes.
— Cala essa boca — respondo para ele.
— Somos a maioria — diz Metrim —, não há como comparar. Eles não podem m***r a todos nós.
— É assim que se fala, meu bem, otimismo sempre — digo, mas Isiton tem razão, as chances de morrermos são bem maiores.
Que inferno!
***
Os árvomes estão bem longe de nós, e estão parados, não sei o que esperam.
Quando penso que não, uma porta se abre no centro do tanque de guerra e uma plataforma se projeta para fora, então sai um Árvo vestido como Rei, até microfone o desgraçado tem. Ele diz:
— Árvomes de Virell, ouçam bem, a era de vocês chegou ao fim. Após centenas de anos isolados do resto do mundo, nós, os Árvos, os verdadeiros donos deste planeta, viemos para tomar o que é nosso, e vocês perecerão. Fiquem para morrer, não pretendemos deixar sobreviventes aqui, o resto do mundo será tomado para a e********o. Darei a oportunidade de se lamentarem. Apontar armas — este grito do Rei dos Árvos faz todo mundo tremer na base.
— Escudos — grita a Rainha Matid e todo mundo levanta o seu escudo. — Resistam, árvomes, não vamos nos entregar, nem nos render.
— Rainha, vá embora — eu digo entre os dentes para ela.
— Não, Rosy de Aster, se este será o meu fim, morrerei com honra.
Eu tentei, espero que consigamos m***r alguns.
— Fogo! — grita o Rei dos Árvos depois de alguns segundos que nos deixou com o coração na mão.
Todos os que estão montados nos automóveis flutuantes atiram várias bolas de luz contra nós. Eu aperto os olhos esperando a morte eminente, não a minha, mas verei muitos dos meus sofrerem as consequências.
Mas como toda boa história, sempre aparece alguém para salvar o dia, primeiro eu sinto uma vibração no ar e depois vejo as bruxas chegarem na hora certa.
Elas pousam em nossa frente montadas em suas vassouras mágicas e sacam as suas varinhas para rebaterem as bolas de luz. A Grão-Mestra está no meio e é a que mais rebate os ataques, tanto que manda uma de volta e acerta um dos automóveis que explode. Então, o Rei dos Árvos cessa o ataque.
— Uh hu! — comemoro. — Vai, suas lindas, nunca julguei.
— Suas bruxas malditas — o Rei dos Árvos fica indignado. — Vocês não aprenderam nada? A sua magia não é párea para a nossa tecnologia, vocês vão ser extinguidas sem piedade. Eu não queria que fosse agora, mas não estou vendo outra opção.
O Rei dos Árvos ordena que o arvomecida seja acionado e um cano gigantesco surge de cima do tanque de guerra, é apontado para nós e agora tudo parece perdido.
— Atacar! — ordena a Rainha Matid enquanto pode.
Todos nós corremos contra os Árvos, as bruxas vão na frente comigo, toda aquela multidão decora o solo daquele Reino de uma maneira que se torna uma visão única para este momento.
A maior guerra deste mundo.
— JÁ BASTA! — grita uma voz potente e feminina que ecoa por toda a região e abala a atmosfera.
O tanque de guerra dos Árvos é desativado, os seus automóveis caem e as suas armas se desligam.
Tudo para.
Os árvomes param de correr e fazem silêncio absoluto. De repente, sentimos uns tremores que abalam tanto a terra quanto as nossas estruturas.
Do nosso lado direto vemos as árvores gigantescas se agitarem como se estivessem sendo empurradas, provavelmente uma gigante vem lá, e quando aparece, todos os árvomes ficam estatelados, depois, jogam as suas armas no chão e se ajoelham.
Apenas os Árvos e eu continuamos de pé.
— n******e ser — diz o Rei dos Árvos.
— Meu Deus, quem é ela? — digo deslumbrada.
A mulher gigante usa um vestido que não tem mais tamanho, parecem folhas cozidas, ela inteira tem uma coloração verde como as plantas, seus enormes cabelos cacheados são plantas, seus lindos olhos são castanhos como madeira e ela tem uma margarida enorme pendida na orelha direita, fora várias outras flores decorarem suas madeixas. Ela está descalça e é lindíssima.
— Parece a Beyoncé — admiro.
Enquanto anda em nossa direção, o tanque de guerra volta a funcionar e o cano é apontado para a mulher gigante, nem sei mesmo se é uma mulher, e atiram.
Uma enorme esfera reluzente e pipocante voa em direção àquele ser que a segura com as mãos, depois a aperta e a diminui até não existir nada lá.
Ela então olha para os Árvos que já estão apreensivos a bate as suas palmas na direção deles, toda a sua tecnologia se desmonta com o impacto e eles ficam todos desprotegidos, após isso, correm para salvarem as suas vidas.
A mulher gigante olha para mim e anda na minha direção. Eu quero correr também, o seu poder é incrível, ela é tão única.
Ela olha para baixo e diz:
— Rosy de Aster, a humana — enquanto fala, nenhum dos árvomes tem coragem para se levantar do chão. — Você foi a criatura mais imprevisível que eu permiti que viesse para cá. Quem te fecundou?
— O Mandante Isiton, mi… Minha senhora — gaguejo. — Quem é você mesmo? — eu não quero acreditar nos meus olhos.
— Eu sou Virell.
— A deusa? — fico boquiaberta, olho para trás e os árvomes não movem um músculo do chão. — Como? Quando? Por quê? Onde? Quem?
— Não há resposta para esta pergunta — a mulher faz um simples gesto com a sua mão e eu flutuou até parar de frente para o rosto dela. — Você está grávida, Rosy Aster e a sua criança não sobreviveria ao seu mundo.
— Eu sei, deusa Virell, por isto eu quero ficar, para ter a criança e cuidar dela até se tornar adulta.
— Esta criança é incomum, única, ao contrário de você, Rosy Aster, não há outra espécie dele, fruto de uma humana e um meta-árvome e nutrido através do meu corpo. Ele será grande, se tornará o intermédio entre todos os seres pensantes deste planeta. A sua Seiva da Vida é o que trará a ordem é a justiça para este mundo enquanto eu estiver ausente.
— Poxa! Eu fico muito feliz em ouvir… — eu paro de falar quando a deusa faz um gesto com a mão e a minha barriga murcha na hora, fica tão seca quanto antes e eu fico de boca aberta, impressionada, mas a tristeza começa a invadir meu coração. — O que a Senhora fez?
— Eu conceberei a criança, o Império de Metrimna ficará incumbido de cuidar dela, o Príncipe Metrim será o seu mentor, os meta-árvomes não existirão mais, vou modificar a Seiva da Vida.
É daí que começo a chorar.
— Por que você está fazendo isto?
— Você não pertence a este mundo, agradeço pelo que fez, e fez mais do que devia, na verdade, não devia nada. Não tenho controle sobre os portais do seu mundo. Adeus!
A deusa faz mais um último gesto com a mão e eu vôo bem rápido para o céu.
***
Eu me vejo subir numa nuvem branca, o meu corpo está mais pesado que o normal, porém, vai ficando mais leve e tudo ganha forma.
Estou deitada num chão com pouca vegetação e mais terra, há vários carros ao meu redor e me percebo numa área da Delegacia Territorial de Candeias, ouço fogos de artifício vários gritos e vaias. Não sei o que está acontecendo.
Eu sinto o oxigênio da Terra entrar em meus pulmões e sinto a mesma queimação que senti no mundo de Virell. Não me sinto mais tão hábil e rígida como antes, minha visão fica uma porcaria, parece que tudo voltou ao normal.
É nesta hora que começo a passar a mão na barriga a procurar pelo meu bebê. Que deusa mais desgraçada. Eu começo a chorar, eu queria ter o meu filho, independente de qualquer coisa, eu sou a mãe.
Começo a caminhar pela pista onde há poucas pessoas, faço a volta no centro de abastecimento e ando em direção ao Supermercado Bompreço. De repente, uma viatura da polícia passa por mim, depois dá a ré, estou muito angustiada para prestar atenção.
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— Moça — diz um dos policiais —, você está bem?
Eu olho para o policial com os olhos bem tristes e começo a soluçar. O homem sai da viatura e tenta me consolar, eu ouço os outros se questionarem sobre a minha roupa, mas nada pode me fazer parar de pensar sobre o que ocorreu na minha vida.
— Moça, como é o seu nome, o que aconteceu? — insiste o policial, mas não respondo nada.
No fim, eles me levam para casa, já é Ano Novo, 2021. Julgaram que eu fui para uma festa a fantasia e sofri alguma decepção muito traumática ou fui drogada, o que é mais provável.
Ao me levarem para casa, minhas irmãs me abraçam como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo, dizem que eu estava desaparecida há meses e que nunca pararam de me procurar desde então.
Será que é isto que acontece quando alguém desaparece e ninguém nunca encontra? Vão para outro mundo?
Elas me fazem uma enxurrada de perguntas, mas tudo o que eu respondo é "não sei". Acho que nunca vou contar, vão dizer que estou louca, que fui sequestrada ou me perdi em alguma aventura e fantasiei tudo.
Jamais acreditarão em mim. A única prova que tenho é a minha túnica que usei para lutar belíssima na Guerra Mundial de Árvomes contra Árvos.
Será que nunca mais verei os árvomes? O Príncipe Metrim? O Mandante Isiton? Temos uma história inacabada. Poxa, velho! E o meu filho? Nunca o verei? Que ódio da Deusa. Por que ela foi tão má comigo?
Só o que me resta agora é continuar a minha vida.