Capítulo 20

2078 Palavras
Passaram-se dois meses depois do ocorrido comigo que até hoje não contei para ninguém, pararam de perguntar e eu fingi que nada aconteceu. Eu voltei a morar com as minhas irmãs, é Março de 2021 e eu também voltei à minha rotina de me prevenir contra o novo coroavírus. Continuo gravando os meus vídeos de dança para o i********: e status do w******p, quanto mais seguidores, melhor para mim. Passo um tempo com o meu filho e isso me dá um gatinho enorme. Não era para eu ser assim, mas o que eu posso fazer? Aprendi a ser mãe cedo, aprendi a amar um filho bem nova. O tempo passa e eu começo a trabalhar numa loja de roupas vendendo através das redes sociais para me manter nesta pandemia maldita. A saudade que eu tinha das coisas da Terra no Mundo de Virell perdeu o sentido. Exceto o meu filho, eu preciso de algo novo, algo empolgante, e vender roupa não se enquadra nem um pouquinho. Minha mãe quer que eu faça um curso na faculdade, mas ensino a distância não é o meu forte, apesar de eu me manter constantemente on-line. Isso não importa, não costumo navegar na internet pra estudar, é tudo questão de costume. Não posso ser julgada. A vida não tá sendo fácil, pelo menos, não estou passando dificuldades, e dou graças a Deus. Nem quero muito pensar em divindade, isso me faz pensar em coisas que quero esquecer, mas é praticamente impossível. Nada consegue me fazer esquecer do outro mundo. Eu conheci os árvomes, uma espécie híbrida de humanos e elfos — que em Virell são chamados de Árvos. Estava gestante de um meta-árvome, que são árvomes com características de Árvos, o último da raça seria o meu filho. Contudo, o meu filho era uma raça evoluída dos evoluídos. Que coisa! Eu não suportava mais fingir que nada daquilo aconteceu. Ou será que não aconteceu? Por que ainda tenho dúvidas? Até hoje eu guardo o vestido que ganhei no dia da Segunda Guerra Mundial. Não aguento de saudades, eu vou até o meu guarda-roupa, pego uma caixa guardada num canto bem isolado, retiro o vestido que a Rainha Matid havia me dado e o visto. Ele é lindo e ainda cai como uma luva em mim. Eu me admiro no espelho, me acho impecável, o material do vestido é tão incomum que eu nunca tive a coragem de mostrar para uma costureira para ela tentar saber do que era feito. — Rosy, você não vai lavar os… — minha irmã mais nova Daisy, que também é albina, passa pela frente do meu quarto com a porta aberta e hesita em falar quando me vê com o vestido do Império de Metrimna. — Pratos — ela conclui. — Eu vou daqui a pouco — me apresso em fechar a porta, mas Daisy é mais rápido e a segura, depois invade o quarto e me encara com as mãos cerradas na cintura. — Você disse que tinha dado um fim neste vestido. — Eu disse que vocês não veriam mais ele. — E agora estou vendo ele. — Culpa sua, você aparece aqui silenciosa, senão eu já teria trocado e guardado. Para de implicar comigo, mulher chata. — Rosy, você ficou sumida por vários meses, não contou a ninguém até hoje o que aconteceu com você, te achamos desnorteada e vestida com esse vestido no meio da rua à noite, espera mesmo que a gente finja demência? Eu respiro fundo diante das declarações da minha irmã, sento na cama e ela continua de pé me encarando. — Quer que eu conte mesmo? — Óbvio que eu quero. Você disse que não lembrou de nada e não insistimos mais nessa conversa, mas eu sempre soube que você escondia alguma coisa. Por que fez isso, é muito vergonhoso? É grave? — É que vocês não iriam acreditar. Daisy se senta ao meu lado e pega nas minhas mãos bem firme. — Rosy, eu sou a sua irmã, eu jamais deixaria de acreditar em você, aprendemos desde novas a confiar uma na… — Eu fiz uma viagem para outro mundo — interrompo o discurso da Daisy e ela hesita. Minha irmã albina fica me olhando com os olhos arregalados atrás dos óculos, depois limpa a garganta e começa a agir naturalmente. Forçado, né!? — Você precisa denunciar, Rosy. Lembra quem foram as pessoas? Sabe lá Deus o que mais fizeram com você. — Espera, você tá falando do quê? — Não te deram drogas? — Não, Daisy, estou falando literalmente. Eu fui mesmo para outro mundo, atravessei um portal e caí num mundo de conto de fadas. Daisy fica em silêncio, ela é muito séria e eu sei que ela não está achando nada engraçado. — Rosy, eu tenho certeza que te drogaram. — Tá vendo por que eu não queria contar? Eu sabia que ninguém iria acreditar em mim, depois você vem com esse discursinho sobre confiança e família. — Não, Rosy, pelo amor de Deus, isso é diferente. — Por quê? — Porque esse mundo mágico que você foi era efeito das drogas que te injetaram, foi tudo ilusão, psicodelia... Eu fico de pé imediatamente. — Eu nem sei o que é isso… Olha, Daisy, eu não quero falar mais sobre isso, e por favor, não conta pra ninguém o que te falei. Não quero sentir mais arrependimento e frustração. Eu vejo o quanto Daisy fica abalada pelas minhas palavras. — Rosy, me desculpe, eu acredito em você. — Agora? Para de forçar, já pode sair, eu quero ficar sozinha. Abatida Daisy, se levanta da minha cama e se dirige à porta, antes de sair por completa me diz: — Vamos para a praça hoje à noite para comer uma pizza. — Vou pensar se eu vou — digo ajeitando o meu vestido na frente do espelho. — Então tá — Daisy fecha a porta e eu ouço as suas pisadas se afastarem. Em seguida eu me sento na cama e começo a pensar se foi um erro ter contado, eu não quero ser tratada como doida, e Daisy não me tratou assim, mas outra pessoa pode fazer isto. Porém, a Daisy me tratou como uma ingênua que não sabe quais são os efeitos das drogas. Não sei mesmo, mas eu não fui drogada, não é possível que somente eu tenha tido esta experiência. Se eu soubesse quem foram os outros humanos que passaram para o mundo de Virell, poderia pelo menos provar para mim mesma que não estou louca, nem fui drogada. Preciso de testemunhas. Mas a longevidade em Virell é diferente daqui da Terra, bem provável que estes já estejam velhos ou mortos, há mais ou menos vinte anos que os portais não se abrem, fora que isso acontece em locais diferentes da Bahia que é enorme, além do mais, a própria Virell é responsável por abri-los. Que situação. Daí é que tenho a ideia mais doida, eu ligo para uma amiga e peço a ela pra deixar eu ir usar o computador dela, procurar pelo navegador da web por pessoas que tenham tido a coragem de publicar na internet que viajou para outro mundo. *** Eu chego na casa dela em dez minutos, não tenho paciência para fazer pesquisas pelo celular. Assim que começo a pesquisar, não encontro nada que possa aproveitar, apenas relatos sobre vida após a morte, no entanto, achei um site qual dizia que um cientista poderia provar a vinda de serem de outro mundo para o nosso, nesse caso, tentei me aprofundar para saber se alguma coisa tinha a ver com o que eu vivi. E mais uma vez, nada. Acho que devo deixar isso para lá, eu vivi um conto de fadas, não posso provar nada, a única prova que tenho é o vestido e ainda assim, não é o suficiente. Preciso deixar isso para lá, tocar a vida pra frente, esquecer o que ficou no passado, deixar de procurar o significado de tudo aquilo que passei, a importância de eu ter ido para um mundo mágico, como se eu fosse uma espécie de escolhida. Vou para a minha casa frustrada, porém, determinada a viver como se nada tivesse acontecido, também, vou dizer a minha irmã Daisy que é pra ela esquecer aquilo, vou dizer que inventei tudo, talvez tenha sido mesmo drogada e não conheça os efeitos da d***a. Que deprimente. A gente quer provar uma coisa e não consegue. Assim que chego em casa, a minha irmã mas velha, Iris, que também é albina, está lendo um livro no sofá da sala e antes que eu suba a escadaria para ir para o meu quarto ela diz: — O que você e a Daisy conversaram hoje que eu me bati com ela na rua e ela não estava muito bem. Eu paro no primeiro degrau da escadaria e me volto para ela. — Por que você acha que a gente conversou? Ela disse alguma coisa? Iris deixou o seu livro de lado, retirou os óculos, todas nós temos problemas na visão, e me encarou. — Porque eu perguntei para ela onde você estava e ela me disse que você estava no seu quarto, só isso. Mas eu senti que ela estava diferente e deduzi que vocês tiveram uma conversa em particular. — Nossa! Iris você devia ser detetive. — Rosy. — Eu fui um pouco grossa com ela, só isso. — Por quê? — Porque ela não acreditou em mim. Iris cruzou as pernas e os braços e demonstrou toda a sua curiosidade com o assunto. — No quê que ela não acreditou? Eu hesito. Falei demais, justamente agora que decidi não tocar mais no assunto, parece que isso nunca vai ter fim. — Não foi nada demais. — Você não confia em mim? Eu sou sua irmã mais velha. — É que eu não quero falar sobre isso. — E agora você está me deixando preocupada. — Não fique, foi besteira, pode voltar a ler o seu livro — eu começo a subir os degraus da escadaria, mas Iris me pega de surpresa. — É sobre o seu desaparecimento? — Que inferno, Iris — digo descendo os degraus. — Acertei, não foi? — Por que você acerta tudo? — Sei lá, é um dom. Agora, me conta exatamente o que você contou pra ela. — Pra você desfazer de mim como a Daisy? Vamos esquecer esse assunto, por favor. — Relaxa, eu não vou te julgar, nem desfazer de você, eu prometo. Só mate a minha curiosidade. — Iris, se você... — Conta logo, Rosy, depois de três meses sem sabermos de nada, não consegui simplesmente deixar isso pra lá... — Eu fui para um mundo mágico. Primeiro, Iris fica atônito, depois olha para os lados para desviar o olhar, no fim segura uma risada. Pelo menos, não deixa o clima tenso como fez a Daisy. — Me desculpe, eu não resisti — diz ela. — Ta vendo, eu sabia que você não ia acreditar. — Eu não disse que não acreditava, só achei engraçado. Eu me aproximo dela e me sento no sofá ao seu lado. — Iris, eu não estou louca, eu não fui drogada, eu não bati com a cabeça numa pedra... Bom, eu recebi uma martelada, mas isso foi lá no outro mundo. — Calma, eu só preciso ouvir mais um pouco. Eu não vou desacreditar, mas não vou absorver desta maneira, preciso de mais detalhes. Como você foi parar nesse tal mundo mágico? A pergunta e o interesse de Iris me fazem abrir a boca, eu começo a falar sem parar, desde o momento em que eu fui para a praça até o dia em que eu surgi na área da delegacia da cidade. Conto tudo, e eu dou tantos detalhes que o tempo passa e a gente nem vê. Começou a escurecer e Daisy aparece em lá em casa com o seu amigo. — Gente, vocês não vão se arrumar para a pizzaria não? — Vamos sim — responde Iris e nós subimos juntas para o andar de cima —, me esperem que em trinta minutos vou estar pronta — ela olha pra mim e sussurra. — Depois terminamos esta conversa, quero saber os detalhe do final. — Certo — respondo. Cada uma vai para um banheiro, já que temos dois na casa, e depois nos aprontamos para irmos à pizzaria, o amigo de Daisy vai pagar tudo.
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