O Mandante Isiton, a Rainha Matid, o Príncipe Metrim e eu estamos sozinhos dentro de um quarto vazio. O mandante está acorrentado na parede, estou de frente para ele, que com seu único olho bom e verde-limão olha para baixo, e os demais estão atrás de mim.
Os guardas estão do lado de fora para intervir caso seja necessário, além disto, Metrim está muito bem armado e com a expressão mais austera que ele pode demonstrar.
— Mandante Isiton… — começa a Rainha a falar, mas ele olha diretamente para mim e me interrompe.
— Eu vou me aliar a vocês — ele nos pega de surpresa, a ideia inicial era convencê-lo e isso não será mais necessário.
— Interessante, não foi necessário ter uma conversa em particular — diz Matid. — O que há? — intrigou-se.
Eu fico lá, parada, encarando ele, estou com a testa enrugada, bastante nervosa, sei muito bem o que vem a seguir.
— Creio que tudo o que ouvi, principalmente da humana, Rosy de Aster, foi o suficiente para eu entender o que devo fazer, fui t**o e peço perdão por tudo — diz Isiton.
Ele parece bastante arrependido, não sei se ele está blefando para não morrer, mas não parece que ele é do tipo que passa por cima dos próprios princípios para fugir da morte. Depois de tudo o que ele fez. Sei muito bem o que ele quer, ele já declarou para mim.
— Você somente será perdoado jurando toda a sua lealdade à coroa de Metrimna e dando a própria vida pelo bem deste Império e pelo bem da espécie árvome — rebate a Rainha. — Jamais esqueceremos dos seus crimes de uma noite para o dia.
— Sim, eu juro. Juro proteger a espécie árvome com a minha própria vida.
Um silêncio constrangedor paira sobre o quarto, até que o Príncipe Metrim decide indagar:
— Você quer dizer mais alguma coisa, Isiton? Não parece que você acabou. Eu tenho te observado, o seu sorriso de canto de boca revela mais sobre você do que a suas próprias palavras. Você não tem medo de morrer, isto sabemos, mas você quer ficar vivo por uma razão. O que é?
Nossa!
Metrim foi profundo, além do mais, fez uma pergunta que parece retórica. Eu estou tão nervosa que não consigo dizer mais nada.
Por pirraça, Isiton sorri daquele mesmo jeito descrito pelo Príncipe e diz:
— Rosy de Aster pode explicar melhor o que eu quero dizer agora.
Estas palavras de Isiton me faz arregalar os olhos. Metrim e Matid olham para mim esperando uma resposta, a curiosidade deles é tão intensa que me deixa diminuta.
Eu fico de costas para Isiton, encaro os outros, depois fecho os olhos para respirar fundo e tomar coragem para contar.
— Majestade, Alteza, eu estou grávida… Do Mandante Isiton — quero me sentir podre nessa hora, envergonhada, mas estou triste e sei que não é por mim, é pelo Príncipe.
As reações são de se esperar, Matid põe as mãos sobre a boca, ela fica chocada, e Metrim expressa toda a sua tristeza, depois raiva. Desta vez, não faço ideia do que pode me acontecer.
Metrim olha para Isiton enfurecido, ele pega a sua espada aos gritos para cortar a cabeça do árvome prisioneiro, mas eu me coloco na frente pedindo que Metrim não faça m*l a ele.
— Como você pode defendê-lo, Rosy? Ele te violentou — berra Metrim.
— Ele não me violentou, eu engravidei dele por um descuido meu — tento justificar, mas estou muito nervosa.
— Explique-se, querida — pede Matid —, não estou conseguindo entender nada.
— O Mandante Isiton havia me capturado com o propósito de me ter como troféu, e eu fiquei enjaulado por dois dias. Então, no terceiro dia, já não aguentado mais o confinamento, eu seduzi o Mandante e me deitei com ele para depois tentar escapar, e eu tentei. Poderia ter conseguido, mas ele deu um jeito para me capturar de novo e depois disto, conheci o Rocadi que me ajudou a sair daquele lugar. Mas eu acabei engravidando. Ups!
Estou super sem graça relatando isso, só espero que eles entendam.
— Rosy, por quê? — Metrim me questiona com os olhos tão tristes, como faz o Isiton.
O que esses pensam, que vou me sensibilizar com lágrimas masculinas? E vou mesmo.
— Filho, essa foi a única ideia que ela teve para escapar do inimigo, não a julgue — eu fico perplexa que a Rainha me entende, na verdade, eu fico bastante aliviada, pensei que Matid seria a primeira a me julgar.
— Mas isso acabou sendo em vão, mãe. Agora, este maldito está preso, não foi necessário eles terem tido intercurso s****l, fora que o menino Rocadi a salvou do cárcere.
— Na verdade — Isiton se intromete —, se ela não estivesse gestante do meu primeiro filho, eu jamais seria capturado. Eu fiquei no meu esconderijo, eu chamei reforços, eu sabia que vocês viriam, tudo por ela, senão, eu já estaria no Arquipélago dos Árvos, eles saberiam de tudo e viriam para executar o seu plano de arvomecídio em massa urgentemente. A cada sessenta dias um Árvo aparecia no meu esconderijo para saber sobre o progresso dos planos. Agora, ele já deve estar a caminho para notificar aos outros o que aconteceu. Estou disposto a ajudar, mas como você falou, Príncipe Metrim, eu quero viver por uma causa, quero ver o meu filho, pelo menos, carregá-lo em meus braços, nem que seja uma única vez…
— Suas palavras não me emocionam, maldito — Metrim está bastante irritado, principalmente comigo, ele não olha pra mim.
— Metrim… — eu digo, mas ele agora acaba me interrompendo.
— Não fale comigo — o Príncipe simplesmente vai embora e me deixa lá com a mãe dele e o prisioneiro.
— Deixe-o ir — diz a Rainha —, ele só precisa de tempo para digerir a informação. — A Rainha faz uma pausa antes de me perguntar: — O que pretende fazer com a criança, fruto de uma humana e um meta-árvome? — este termo foi dado pelo Conselho aos árvomes que consumiram a Seiva da Vida de outros árvomes e se transformaram em uma raça mais poderosa e, tecnicamente, superior. — Você entende que esta criança é a primeira e, no momento, única da raça?
— Sim, Majestade, entendo. Eu pretendo ter o bebê, não permitiria a interrupção de uma gravidez nem por todo o dinheiro do mundo.
— Ninguém neste mundo é a favor de interromper uma gestação. A maternidade, o nascimento, é algo sagrado para nós. É um dom que Virell nos deu. Interromper uma gestação é afrontar a própria Virell, por isto os Árvos são escassos neste mundo, mesmo sendo imortais, são tão poucos que nem se atrevem a se manifestarem contra a majoritária espécie árvome. Foram amaldiçoados por afrontarem Virell.
Eu fico muito feliz pelo que acabo de ouvir, e lá no fundo eu sei que Matid está do meu lado. As mulheres se entendem.
— E o Mandante Isiton? — questiono.
Matid suspira, ela parecia cansada.
— Infelizmente o Castelo precisa saber desta criança. Você é a primeira humana fêmea que veio ao Mundo de Virell. Os humanos machos que vieram para este mundo tiveram prole com as árvomes fêmeas, são crianças fortes, mas não são mais poderosas que qualquer outro árvome. A sua prole é diferente, não tanto por sua causa, sinto em dizer, mas por causa do Mandante Isiton, ele é um meta-árvome, pode ter apenas um filho, e está sendo gerado na única humana existente. Por isto perguntei o que pretende fazer com a criança, ela é sua, independentemente de qualquer coisa. Saiba que a sétima lua cheia está chegando, e o portal se abrirá e você, humana, pode voltar para o seu mundo se quiser, porém, o seu fruto não sobreviveria à atmosfera de lá como vocês humanos sobrevivem à nossa. Você ficaria bem, mas a gestação seria interrompida, certamente, a criança morreria. Seria possível até nascer, mas não sobreviveria por muitos dias. Estás ciente de todas as consequências, Rosy de Aster, não preciso dizer mais, e o Mandante Isiton… Faremos uma reunião para decidir o que fazer com ele depois, não podemos soltá-lo para conviver entre nós como um simples cidadão.
Matid não fala mais nada, ela me dá as costas e sai do quarto. Eu fico lá, olhando para o nada, pensativa, distraída até Isiton limpar a garganta para chamar minha atenção. Eu olho para ele e ele me diz:
— Por favor, não volte para o seu mundo…
Quem ver, pensará que é o homem mais educado de todos.
— Eu não vou fazer isto, sua b***a, vou ter que aguentar os nove meses para ter a criança — a minha resposta faz Isiton respirar de alívio. — Eu jamais perderia um filho de propósito.
— Eu fico muito contente em ouvir isto. Agora, Rosy de Aster, quando tudo isto passar, eu quero te pedir que aceite uma Aliança de Compromisso comigo, seremos esposo e esposa. Teremos uma família linda e poderosa.
— Você só pode estar brincando. Quer que eu me case com você? Ai meu Deus — lamento —, eu tô muito ferrada.
— Você não pretende ir atrás daquele Príncipe mimado, está? Ele é como uma frutinha doce — debocha Isiton.
— Você está perto de morrer, mas não perde o deboche, não é? — eu acabo saindo da sala também e deixo Isiton falando sozinho.
Não quero mais continuar com esta conversa, pois, o pior de tudo é que ele tem razão.
Metrim tentou esconder, mas ele é mimado, sempre achei que ele não era homem o suficiente para mim, mas ele é um doce de pessoa, me agrada muito. Ao contrário de Isiton, que é um homenzarrão, muito atraente, mas o jeito dele não me agrada nem um pouco, apesar de ser muito atraente.
Tô ferrada de novo.
Agora, preciso me preparar para a possível maior guerra deste mundo e estou grávida.
Estou várias vezes ferrada.
***
Amanheceu, faltam 30 dias para o portal interplanetário se abrir — aprendi muitas coisas aqui.
Metrim está sumido, por um dia, mas eu fico preocupada. O que eu vou fazer agora, Jesus Cristinho?
Estou numa enrascada daquelas, era para eu não ter me envolvido com nada neste mundo, esperar o tempo e voltar para casa, senão, teria evitado muita coisa.
Mas sabendo de tudo, não ia conseguir permitir que as coisas continuassem como estavam tendo consciência de que eu podia fazer alguma coisa para ajudar.
Agora, só ando arfando pelo quarto. Que inferno!
Alguém bate na porta.
— Pode entrar — digo.
Imagino que seja a Rainha, eu fui para o quarto ontem antes que ela me chamasse para mais uma reunião, eu não aguento mais, mas quem entra é o Príncipe Metrim, parece mais calmo que ontem.
— Olá, Rosy de Aster — ele saúda com uma voz bem acanhada.
Eu não resisto e corro para abraçá-lo.
— Metrim, seu i****a, nunca mais me assuste assim.
— Como?
Eu o solto para encará-lo.
— Como? Eu pensei que você nunca mais ia falar comigo.
— Eu não iria conseguir nem se eu quisesse.
Ele é tão fofo, meu Deus, tão apaixonante. Ai, esses homens me deixam tão confusa.
— Metrim…
— Ah! Não diga nada, eu fui muito infantil — ele quase matou uma pessoa na minha frente e acha que foi infantil porque ficou chateado com a minha tentativa de fuga que envolvia s**o. — Eu te devo desculpas. Rosy… Eu sou um pouco tímido quanto a isto, mas já está evidente que eu gosto de você.
— Eu sei, amor, eu também gosto de você.
— Mas eu queria fazer um Pacto de Compromisso contigo, seria minha noiva, tinha planos.
— E agora desistiu?
— No começo sim, você conhece as regras deste Reino.
— Sei que agora não poderemos ficar juntos porque estou grávida. Mas, Metrim, você já parou para se perguntar se eu quero um Pacto de Compromisso?
— Você não quer?
— Metrim, eu vim de um mundo diferente, de uma cultura diferente. eu gosto muito de você, você é lindo, fofo, tem um caráter incrível, muitas qualidades. Eu gosto muito de você mesmo, e posso repetir isto sem enjoar, mas não quero me casar, não me sinto preparada.
— Então vamos fugir.
Desta vez ele me deixa completamente desconsertada.
— O quê?
— Sim, fugir.
— Pra onde?
— Para bem longe.
— E a guerra?
— Esta guerra não vai acontecer.
— Como você sabe, Metrim?
— O Conselheiro Víuti…
— É um arrombado que não sabe de nada. Que bosta de Conselheiro vocês têm, hein!?
— Eu não entendo o seu linguajar, Rosy — diz Metrim aos risos.
— Metrim, a única que pode fugir disto tudo sou, se der tempo, pois o portal está perto de se abrir, e nem faço ideia de como vai ser isso, eu caí do céu, mas… Não podem vir comigo, vocês não podem respirar o meu ar, senão morrem. A guerra parece inevitável, não haverá um lugar neste mundo que possamos nos esconder, o único jeito é ficar e lutar. Caso você não saiba, eu já me decidi, não vou embora, vou passar a minha gestação aqui, vou ter este bebê e depois eu penso no que fazer. Além de tudo, você é um Príncipe, se a gente fugir, perderá a coroa.
— E se a gente ficar, vou perder você.
Ah, não, cara.
Olha o que este garoto acaba de falar comigo. Se eu estava desconsertada antes, agora estou desmontada. Os meus olhos estão tão esbugalhados que nem consigo piscar.
Ele continua a falar:
— Eu conversei com minha mãe, tentei convencê-la a me deixar fazer o Pacto com você mesmo nas suas condições, mas ela fez questão de me lembrar as regras, jamais permitiria que um Czar imperasse ao lado de uma fêmea gestante de outro macho.
— Nossa! Que machista.
— É a Lei, por isso quero fugir com você.
— Metrim, eu nem sei o que dizer sobre isso, acho que precisamos de tempo para pensar.
Antes que Metrim me responda, a Rainha Matid invade o quarto, a porta está semiaberta, e para na entrada para nos encarar por alguns segundos.
Eu fico gelada, apesar de ela ter se mostrado uma doce árvome no começo, agora me parece mais azeda. Toda esta responsabilidade que ela tem de ser uma boa regente em meio a tanto caos a deixou ríspida.
— Não imaginei que viria procurá-la tão rápido, Metrim — diz a Rainha, seu tom de voz é um pouco irônico.
— Sim, mãe, a Senhora sabe que gosto dela.
A Rainha respira para respondê-lo, mas olha para mim rapidamente e diz calmamente:
— Já falamos sobre isso, Metrim. Agora, temos assuntos mais preocupantes para resolvermos. A guerra.
— Mãe, tem certeza que esta guerra existe? Os Árvos não se revelam para a espécie árvomes há gerações, eu mesmo, nunca vi um de verdade, só retratos.
— O que você quer dizer com isto, meu filho?
— Desculpe, Majestade — eu me intrometo —, mas estas ideias são do Conselheiro Víuti.
— Rosy… — Metrim me repreende, mas eu insisto.
— Ele está negando para as pessoas a ideia de que uma guerra está por vir.
Fanfiquei um pouquinho a história, mas este Víuti tem que parar, gente, que velho insuportável. Percebo que a Rainha fica um pouquinho com raiva, mas ela tem muita classe para deixar óbvio.
— Muito bem, parece que aquele velho árvome precisa se aposentar — diz a Rainha e eu comemoro interiormente. — Ontem tivemos uma das reuniões mais tensas, as pessoas mais importantes que deveriam participar não estavam lá, e estão neste quarto — Metrim e eu nos encaramos. — Enfim, vocês precisam saber sobre as nossas decisões, estamos montando um g***o de árvomes para ir em busca das bruxas-amarelas, elas podem ajudar muito nesta situação. Na verdade, esperamos que elas ajudem, nos devem isto.
— E a Senhora quer que a gente participe desta busca? — questiona Metrim já feliz.
— Óbvio que não — responde Matid. — Eu apenas vim comunicar-lhes sobre as decisões tomadas. Vocês sãos os melhores combatentes deste Reino, e se vocês estiverem longe e acontecer alguma coisa contra nós?
— Poxa, eu queria tanto ir — digo dramaticamente.
A Rainha me encara.
— Por quê?
— Eu nunca vi uma bruxa — respondo dando de ombros.
— Ora, todos nós já vimos uma bruxa, pelo menos, duas ou três vezes em toda a nossa vida, não é nada demais, não fazem nada. Mas se você quer m***r a sua curiosidade, eu permito que vá, no entanto, se receber alguma mensagem para que volte, faça isto imediatamente.
— Sim, Majestade, eu fico muito feliz — nem me esforço muito para a Rainha deixar eu ir ver as bruxas.
Curiosa demais.
— Eu também vou, mãe — diz Metrim.
— Não, Metrim, você fica e está decidido — Matid dá as costas e sai do quarto para cancelar qualquer protesto do filho.
Eu sei que ela não resistiria à persuasão e charme dele e iria acabar cedendo o que ele quer.
Mimado que amo.
Metrim olha para mim triste a querer dizer que ficaremos afastados um do outro por mais algum tempo. Eu dou de ombros, o que eu posso fazer, se eu quero ver as bruxas?
Ele que lute.