Ela saiu do banheiro devagar.
Os cachos ainda úmidos caíam soltos pelos ombros, escurecidos pela água, colando levemente na pele morena. A blusa que Nick tinha dado nela ficava grande, quase como uma camisola, indo até um pouco acima do joelho. O short ela nem usou — ficou largo demais, perdido em algum canto do quarto.
Mesmo assim, ela parecia… leve.
Não leve de vida fácil. Leve de quem finalmente tinha conseguido respirar depois de afundar.
Meggie passou a mão de leve no próprio braço, meio sem jeito com o silêncio que se formou quando ela entrou na sala de volta.
Por um segundo, ninguém falou nada.
Os cinco a olharam.
Mas não era aquele olhar agressivo, invasivo. Era como se todos tivessem sido pegos de surpresa por algo que não combinava com o caos que eles estavam acostumados.
Jefferson foi o primeiro a quebrar o silêncio, desviando o olhar rápido, como se tivesse sido pego fazendo algo errado.
— …caralho...
Machado soltou um riso baixo, passando a mão na nuca, desconfortável sem saber por quê.
Jackson só balançou a cabeça, ainda encarando por um segundo antes de olhar pro lado.
Yuan piscou lentamente, voltando a postura neutra.
Nick, que tinha escolhido as roupas, ficou parado por meio segundo a mais que o normal — depois soltou o ar pelo nariz, como se estivesse tentando manter a compostura.
Meggie percebeu na hora e riu baixinho, tímida, ajeitando a barra da blusa com as mãos.
— O short ficou largo… — ela disse, dando de ombros. — mas a blusa cobriu bem, então tá tudo certo.
A forma simples como ela falou aquilo quebrou um pouco a tensão do ambiente.
Jefferson coçou a cabeça.
— Tá… tá bom. Isso resolve um problema então.
Machado apontou com a cabeça pra cadeira perto da mesa.
— Vem comer. Você tá pálida.
Nick já tinha voltado ao foco prático de antes, como se aquilo fosse mais seguro do que pensar demais.
— A gente pediu comida. Vai chegar daqui a pouco.
Meggie assentiu devagar e foi até a cadeira, sentando com cuidado, como se ainda estivesse testando se aquele lugar era real.
— Vocês… — ela começou, olhando um por um. — fazem isso sempre?
Yuan franziu levemente a testa.
— Isso o quê?
Ela deu um meio sorriso sem humor.
— Ajudar alguém assim… do nada.
Jackson encostou na parede, braços cruzados.
— Não.
Silêncio.
Ele completou, mais baixo:
— Mas também não é comum a gente achar alguém como você na rua desse jeito.
Meggie baixou o olhar por um segundo.
Mas não desabou de novo.
Dessa vez, ela só respirou fundo.
— Eu não tinha pra onde ir.
Jefferson puxou uma cadeira e sentou de lado, olhando pra ela com mais seriedade.
— Agora tem por enquanto.
Nick ficou de pé, observando a porta como se ainda esperasse perigo entrar a qualquer momento.
— E sobre o cara que fez isso com você… — ele falou, a voz mais baixa. — a gente vai resolver.
Meggie ficou em silêncio por alguns segundos.
Quando falou, a voz dela saiu mais firme do que antes.
— Eu não quero mais ser quebrada por ninguém.
E dessa vez, ninguém riu, ninguém comentou.
Só assentiram.
Porque ali, naquele “ninho”, alguma coisa tinha acabado de mudar.
Jefferson ficou alguns segundos em silêncio, olhando pra ela com uma seriedade que não combinava com o tamanho do corpo dele nem com a máscara que ele tinha usado mais cedo naquela noite.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se escolhesse bem as palavras.
— Não vai ser assim. — ele disse, firme.
Meggie piscou, sem entender de imediato.
Ele continuou, mais baixo, sem pressão, sem invadir:
— E quando você tiver pronta pra falar sobre você… a gente vai te ouvir.
O ambiente pareceu desacelerar por um segundo.
Meggie ficou parada, os dedos apertando de leve a barra da blusa grande. Aquilo não era uma promessa vazia. Não tinha cobrança no meio. Não tinha aquela urgência que sempre vinha com “me explica agora”.
Era… escolha.
Ela desviou o olhar, engolindo em seco.
— Vocês nem me conhecem… — ela murmurou.
Machado soltou um suspiro curto, encostando na parede.
— A gente conhece o suficiente.
Nick cruzou os braços, o olhar ainda atento, mas a voz mais calma do que antes.
— E o que a gente viu já é o bastante pra não te deixar sozinha hoje.
Yuan, sempre mais quieto, completou sem drama:
— Você não precisa contar nada agora.
Jackson passou a mão no cabelo, olhando pra ela de forma mais suave.
— Nem depois, se não quiser.
Meggie sentiu o peito apertar — não de medo agora, mas de uma coisa diferente. Estranha. Quase desconfortável de tão nova.
Ela soltou um riso fraco, olhando pro chão.
— Eu não tô acostumada com isso.
Jefferson inclinou um pouco o corpo pra frente.
— Com o quê?
Ela levantou os olhos, sinceros.
— Com pessoas não me cobrando nada.
O silêncio que veio depois não foi pesado. Foi respeitoso.
Nick se moveu primeiro, indo até a mesa e puxando um copo de água pra ela.
— Então acostuma devagar. Aqui ninguém vai te forçar a nada.
Machado deu um meio sorriso torto.
— Só não some no meio do processo, beleza?
Ela pegou o copo com as duas mãos, como se aquilo fosse mais importante do que parecia.
E pela primeira vez naquela noite…
Meggie não se sentiu descartável.
Nem apressada.
Só… presente.