Pré-visualização gratuita o encontro
A noite estava fria demais pra quem já não tinha mais nada.
O vento atravessava a rua quase vazia, batendo no corpo dela como se quisesse lembrar que ela ainda estava ali — viva, exposta, quebrada. A luz da lanchonete piscava fraca, e o vidro sujo refletia um rosto que ela nem reconhecia direito mais.
Meggie puxou os braços contra o próprio corpo, como se aquilo pudesse segurar alguma coisa no lugar. O celular no chão, trincado em mil pedaços, já não servia nem como lembrança de socorro. Só silêncio. Só fome. Só aquele nó na garganta que não deixava respirar direito.
Ela nem percebeu quando os passos começaram a se aproximar.
Primeiro um.
Depois mais.
Cinco homens surgiram do outro lado da rua, atravessando a luz fraca do poste como sombras pesadas demais para aquela noite leve de Halloween. Um deles usava a máscara do filme Pânico. Outro tinha algo parecido com um capacete escuro. Os outros três estavam sem máscara — rostos marcados, fortes, tatuagens subindo pelos braços como histórias que ninguém ali queria ler.
E todos eles tinham tacos nas mãos.
Meggie levantou o rosto devagar.
O corpo inteiro dela travou por um segundo.
Não era medo imediato… era cansaço. Um tipo de exaustão tão profundo que nem adrenalina sabia mais onde começar.
— O que houve, moça bonita? — um deles perguntou, voz baixa, sem deboche.
Outro se abaixou um pouco, analisando ela, e os outros três ficaram em volta, não como ameaça… mas como se estivessem decidindo algo.
Um deles tocou de leve o ombro dela.
Ela não se afastou.
Só riu.
Uma risada quebrada, sem humor nenhum, enquanto as lágrimas continuavam caindo.
— Vocês… — ela passou a mão no rosto, tentando limpar sem sucesso. — Vocês saíram de que livro de dark romance, hein?
Por um segundo, o silêncio ficou estranho.
Então um deles soltou uma risada curta.
— A gente tá bem longe de romance aqui.
Ela engoliu em seco, olhando de um pra outro.
— Desde que eu não seja a vítima que vai ser machucada… tá tudo bem. — a voz dela falhou, mas ela continuou, quase num desabafo que já não tinha força pra virar defesa. — Já me machucaram demais.
O riso morreu.
O homem da máscara do Pânico inclinou a cabeça, observando ela com atenção real agora.
Não era curiosidade vazia.
Era reconhecimento.
Como se ele soubesse exatamente o tipo de dor que não grita… só apaga a pessoa por dentro.
— Ninguém vai te encostar pra te machucar — ele disse, firme. Sem brincadeira agora.
Um dos outros olhou ao redor da rua vazia, depois voltou pra ela.
— Você tá sozinha assim por quê?
Meggie deu de ombros, mas o movimento saiu torto, pesado.
— Porque ele me colocou pra fora… sem roupa, sem nada… — a voz quebrou no final. — eu nem sei onde eu tô.
Um dos homens respirou fundo, passando a mão na própria nuca, irritado com algo que não era com ela.
Outro chutou de leve uma pedrinha no chão, como se segurasse raiva.
E então o que estava em pé deu um passo mais perto — não invasivo, só presente.
— Tá. Escuta. — ele falou mais baixo. — Você não vai ficar aqui.
Meggie levantou o olhar de novo, desconfiada por reflexo.
Mas não havia sorriso m*****o. Nem pressão. Nem aquele tipo de perigo que ela conhecia bem demais.
Só decisão.
— A gente vai te levar pra um lugar seguro. Você come alguma coisa, se aquece… e depois você decide o resto.
Ela ficou em silêncio.
A rua continuava vazia.
O mundo continuava duro.
Mas pela primeira vez naquela noite… ninguém estava tentando acabar com ela.
Só estavam ali.
E isso, depois de tudo, já parecia perigoso demais para ser real.
Ela seguiu com eles sem muitas perguntas.
A casa era grande demais pra parecer real naquele tipo de noite. Luzes quentes iluminavam a fachada, o jardim bem cuidado contrastando com o caos que ainda parecia grudar nela. Quando passaram pela porta, Meggie parou por um segundo, olhando ao redor.
— Nossa… muito bonita a casa. — ela murmurou, sincera, quase sem voz.
Um dos homens soltou um riso curto, encostando a porta atrás deles.
— Não é casa. — ele respondeu, passando por ela. — É o nosso ninho. E a gente não traz mulheres pro nosso ninho… então sinta-se lisonjeada.
Ela soltou um sorriso pequeno, ainda meio perdida entre o alívio e a desconfiança.
— Eu me chamo Meggie. — disse, como se precisasse se lembrar de si mesma em voz alta.
Eles foram se apresentando um por um, como se aquilo fosse uma regra silenciosa.
O homem do taco, com uma tatuagem de caveira no pescoço, deu um leve aceno.
— Eu sou Machado… Taylor.
O loiro de sorriso fácil passou a mão no cabelo, encostando na parede como se a casa fosse dele desde sempre.
— Jackson.
O terceiro, de traços asiáticos, observou ela por um segundo antes de falar.
— Yuan.
O homem do capacete, que agora estava sem ele, revelou o rosto moreno coberto de tatuagens. O olhar era firme, mas não duro.
— Nick.
O último, o da máscara do Pânico, ruivo, com uma expressão que parecia sempre no limite entre irritação e proteção, soltou um meio sorriso.
— Jefferson.
Meggie respirou fundo, assentindo devagar.
— Prazer em conhecer vocês… e obrigada pela ajuda. Eu… recompenso depois. Eu só preciso de um banho e comer alguma coisa.
Nick cruzou os braços, olhando pra ela de cima a baixo com um tipo de avaliação prática.
— Por aqui. Vem.
Eles a levaram por um corredor amplo até um quarto confortável, bem arrumado, nada parecido com o que ela esperava de homens daquele tipo. Era grande, silencioso, seguro demais pra quem vinha de uma rua fria e c***l.
Nick abriu uma gaveta e puxou algumas peças.
— Minhas roupas talvez sirvam em você. Ou pelo menos vão te cobrir. — ele disse, jogando uma blusa dobrada, uma calça curta e um short sobre a cama. — Toma.
Meggie pegou devagar, ainda processando.
Ela era pequena — 1,60 — e eles eram gigantes perto dela, todos acima de 2 metros, musculosos, tatuados, presença pesada. Mesmo assim, não havia ameaça naquele espaço. Só controle. Só vigilância.
— O banheiro é ali. Tem toalha. — Nick apontou.
— Obrigada… — ela respondeu, já indo em direção à porta.
Quando entrou no banheiro e fechou, por um segundo, ela encostou as costas na porta.
Respirou.
E deixou o corpo finalmente perceber o que tinha acontecido.
Do outro lado, na cama, os cinco homens se espalharam sem relaxar de verdade. Nenhum deles estava à vontade.
Jefferson passou a mão no rosto, a expressão fechando.
— Tá legal… — ele falou baixo. — A gente precisa descobrir quem foi o filho da p**a que fez isso com ela.
Yuan cruzou os braços, o olhar frio.
— E rápido.
Jackson parou de mexer no celular, a mandíbula travando.
— Ninguém deixa uma mulher assim na rua… e sai impune.
Machado soltou um som curto, sem humor.
— Ele não sabe o que fez.
Nick olhou na direção do banheiro por um instante, depois virou pros outros.
— Não é mais sobre ele “saber”. — a voz dele saiu baixa, firme. — Agora é sobre a gente decidir o que acontece com ele.
E o silêncio que veio depois não era vazio.
Era promessa.