A fábrica de Artefatos de Latão Connell ficava a apenas cinco minutos de carro de Hurricane Beach. Situava-se numa grande propriedade atravessada por uma extensa faixa de águas tranqüilas, o riacho Jacaré; embora não tivesse recebido o nome pitoresco devido à presença de algum desses animais no local. Entre arvoredos, erguiam-se os três prédios que constituíam a fábrica: o que abrigava os escritórios; um que servia de setor de acabamento e estocagem; e o terceiro, onde ficava a fundição propriamente dita, uma monstruosidade de tijolos desbotados com todo o charme arquitetônico de um bordel vitoriano. Uma ponte de madeira atravessava o riacho, que fluía na direção do golfo.
Dean supunha que apenas a idade dos prédios já emprestava à Artefatos de Latão Connell um certo charme rústico. A fábrica constava nos guias turísticos, e a visita às suas antigas instalações sempre recebia a classificação cinco estrelas. Ali se fabricava pelo processo artesanal, o que rendera a aclamada reputação de produção pequena mas de alta qualidade, consistindo de aldravas de portas, maçanetas e dobradiças, puxadores de gavetas, cabos de bengalas, entre outros objetos.
Ele parou seu conversível ao lado do único carro no estacionamento: um velho Thunderbird amarelo. Como fosse domingo, a fábrica estava fechada, mas ficara sabendo que isso não impediria que sua prima estivesse ali. Segundo Bea o informara na conversa que haviam tido naquela manhã, recentemente Joanne parecia obstinada a levar a fábrica que fora de vovô Connell à falência, fazendo dessa repentina meta a razão de sua vida. A avó pedira a Dean que interferisse. Ele sabia que a tarefa não seria nada agradável e nem estava muito ansioso pelo confronto a seguir.
Ao descer do carro, contornou rapidamente o Thunderbird, notando a ferrugem na pintura, os estofamentos rasgados e os pneus gastos. Ao que parecia, a fábrica não era a única coisa que sua prima estava tentando levar à ruína.
Seguiu até o prédio dos escritórios. Subiu os poucos degraus da frente devagar. Céus, será que seus joelhos jamais iriam sarar por completo? Tocou a campainha e bateu à porta várias vezes, mas não obteve resposta. Olhando através de uma vidraça, tudo lhe pareceu familiar: o papel de parede desbotado, os cartões de ponto no corredor, a escada em caracol conduzindo ao antigo escritório particular do avô. Tudo parecia exatamente igual.
Batendo com os nós dos dedos na vidraça, chamou em voz alta:
— Joanne, você está aí?
Ainda não houve resposta. Dean desceu os degraus, pretendendo investigar nos outros prédios. Mas, então, notou alguém ao longe, parado na ponte... uma pessoa magra, com longos cabelos castanhos. Encaminhou-se até lá com relutância.
Enquanto observava o lugar, foi-lhe inevitável evocar uma de suas mais agradáveis lembranças dali, quando pescara ao final da ponte com o avô, com o sol do fim de tarde cintilando na água e as horas longas e árduas na fundição parecendo menos cansativas em retrospectiva.
Joanne o viu agora. Embora não dissesse nada, não parecia surpresa com sua presença. Dean continuou se aproximando devagar, amaldiçoando as circunstâncias que o tinham levado até ali, desejando estar em qualquer outro lugar no momento.
— Prima Joanne... É bom encontrá-la aqui.
Ela não tentou esconder a contrariedade e ignorou-lhe a tentativa de quebrar o gelo.
— Você não espera realmente que eu fique contente com esta situação, não é?
Ele transferiu o peso de um joelho dolorido para o outro.
— Não há nenhuma "situação". Bea está apenas preocupada com a fábrica e pediu-me para verificar...
— Corte a conversa fiada. Ela lhe pediu para assumir o controle.
Enquanto Joanne o encarava com uma expressão dura, Dean ficou admirado em se dar conta do quanto a prima e a avó se pareciam: partilhavam dos mesmos traços determinados, dos cabelos castanhos e olhos cinzentos... com a exceção de que os olhos de Bea sempre se suavizavam quando o neto estava por perto. O rosto de Joanne parecia uma máscara de frieza e indiferença.
— Você tem deixado muita gente descontente — observou ele. — Pelo que eu soube, tem sido rude com funcionários, distribuidores... enfim, praticamente qualquer um que cruze o seu caminho. A produção está baixa. Morale se foi. A fábrica está operando no vermelho pela primeira vez em cinco décadas.
Por apenas um instante, o rosto de Joanne adquiriu uma expressão hesitante, como se tivesse que se proteger desses fatos. Mas seu ar obstinado voltou em seguida.
— Bea me pediu para assumir o controle da fábrica depois que vovô morreu. Ninguém mais queria fazer isso. E mais tarde, depois do desastre de avião... — A voz de Joanne falhou-lhe por um momento, embora a atitude hostil não se dissipasse. — Até mesmo nessa época eu continuei tocando os negócios adiante. Você não estava por aqui para fazer isso. Assim, agora, eu vou dirigi-la como bem entender. — Ela fez uma pausa, estudando-o com um ar desdenhoso. — Qual o problema? Depois de todo esse tempo, Bea espera que você venha até aqui e comece a espalhar seu dinheiro pelo lugar? Seu pai lhe deixou uma herança e tanto, não foi?
Não foi apenas o tom zombeteiro da prima que irritou Dean. Foi também a menção à sua herança; algo com que nunca se sentira à vontade.
— De repente, você começou a querer levar a fábrica à ruína. Por quê? Você não é tola.
— Afinal, o que Bea pensa? Que você virá num cavalo branco e salvará o lugar para ela? Mas ir em socorro dos outros não é seu forte, certo?
Dean viu o ressentimento e a raiva nos olhos da prima, ouviu o tom acusador em sua voz. Mas já acusara a si mesmo centenas de vezes. Não havia nada que Joanne pudesse dizer que piorasse mais as coisas em seu íntimo.
— Parta daqui. Vá embora antes que destrua o resto desta família também — disse-lhe ela, num tom glacial.
O que ele mais gostaria seria partir, sem dúvida. Mas, pelo bem de Bea, ficaria. Ao menos por enquanto.
Duas vezes num único dia... Infelizmente, numa cidade pequena como Hurricane Beach, deparar com Dean Connell novamente não deveria surpreender Lauren. Mas surpreendeu...
Dessa vez, estava com Patrick e tinham acabado de entrar num restaurante de frutos do mar. Dean já se achava lá, na frente deles, esperando por uma mesa vaga.
Ela observou-o de costas, os ombros largos, os cabelos pretos e lustrosos sob as luzes. Por um momento, sentiu-se quase desorientada, como se tivesse voltado no tempo e estivesse com dezesseis anos outra vez, torcendo para que Dean a notasse. De repente, como sentindo a intensidade de seu olhar, ele se virou. Os olhos azuis percorrem-na de maneira rápida e impassível, como se m*l tivesse se dado conta de sua presença. Mais uma vez, parecia fechado em si mesmo, reticente. Mesmo no restaurante apinhado, parecia alguém à parte, distanciado das conversas e risos à sua volta.
Não fez menção de falar com ela, como se o encontro daquela manhã já tivesse sido o bastante. Toda aquela indiferença irritou-a.
— Olá, Dean — disse, deliberadamente.
— Olá, Lauren. — Havia um quê de ironia na voz dele. Fitando-a, seu jeito continuou reservado como antes.
— Como vai? Sou Patrick Dannon.
Com uma ponta de culpa, Lauren deu-se conta de que acabara se esquecendo momentaneamente do namorado.
—Este é Dean Connell — disse-lhe, embora se perguntasse por que estava se dando ao trabalho de apresentá-lo. Ele deixava bem claro que não estava com pa
ciência para amenidades sociais de qualquer tipo. Apertou brevemente a mão que Patrick lhe estendeu, meneando a cabeça de leve.
Ele, claro, não se deu por satisfeito:
— Bela cidade que vocês tem aqui — disse, expansivo. — E a minha primeira visita.
Era uma introdução perfeita e cordial para uma conversa, mas Dean não a levou adiante. Não disse uma só palavra.
— Dean não é de Hurricane Beach — disse Lauren, sem poder ocultar a aspereza da voz.
Patrick pareceu intrigado.
— Não? Achei que talvez vocês tivessem estudado juntos, ou algo assim.
— Não. — Ela usou de um tom definitivo, esperando desencorajá-lo. Mas foi Dean quem falou:
— Nunca estudei aqui. Eu só vinha passar os verões.
— Oh, um veranista. Mas é a mesma coisa em Danfield, Connecticut, onde Lauren e eu moramos. Quando chega o verão, a cidade lota. Vão turistas, trabalhadores querendo fugir do estresse da cidade grande. É uma pena que sempre haja ressentimento entre os recém-chegados e os moradores da cidade.
— Sim, é uma pena — concordou Dean. Tornou a lançar um olhar a Lauren. Ela não soube o que dizer, mas felizmente o maitre aproximou-se para conduzi-lo a uma mesa que ficara disponível. Observou-o afastando-se sem nem sequer lançar um olhar para trás.
— É ele, não é? — perguntou Patrick, num tom discreto.
— Quem? — Lauren sabia que continuava um tanto aturdida. Mas não gostava de se sentir dessa maneira. Ter visto Dean uma segunda vez abalara-a. Sob circunstâncias normais, não era do tipo que se desconcertava facilmente.
— O antigo namorado — respondeu Patrick, ainda com um ar conspirativo. — Aquele que a deixou inquieta o dia inteiro.
Ela lançou-lhe um olhar exasperado.
— É mesmo verdade. Sem as suas lojas para administrar, você não tem o bastante para ocupar a mente. E eu não fiquei inquieta.
Patrick dirigiu-lhe seu costumeiro sorriso bem-humorado e segurou-lhe a mão, entrelaçando os dedos de ambos.
— Você deve ter tido uma queda e tanto pelo sujeito. Por que não admite? Para que tanto mistério?
— É você que está criando mistério onde não existe. Apenas esqueça.
— Se encontrássemos alguma antiga namorada minha ao acaso, eu esperaria que você ficasse curiosa e quisesse saber de cada detalhe.
— Certo. Vamos falar sobre as suas ex-namoradas. Pode me contar sobre a primeira que teve.
Patrick estudou-a por um momento.
— Então... esse tal Dean Connell foi o seu primeiro namorado, hein? É sempre o que marca mais uma pessoa. Não é à toa que esteja tão nervosa..
Lauren apertou os lábios antes que pudesse dizer algo rude quanto a Patrick cuidar da própria vida. Não adiantaria, de qualquer modo. Com ele, quando mais protestasse, mais o instigaria a tentar lhe arrancar a verdade.
Mas ninguém... nem mesmo Dean... sabia a verdade acerca daquele verão de quinze anos antes. E ela pretendia preservar seu segredo.
Sentiu uma opressão no peito. Ocasionalmente, uma onda de tristeza a dominava, como se fosse um soldado que nunca tivesse se recuperado por completo dos ferimentos de guerra. Mas, de algum modo, sempre conseguia colocar a dor de lado e prosseguir com sua vida.
Enfim, o maitre voltou para sentá-los a uma mesa. Lauren ficou aliviada por estarem a uma certa distância de Dean, que se achava a uma mesa de canto, junto a uma janela, e estudava o menu. Ela procurou fazer o mesmo.
— O sujeito não é do tipo mais amistoso, não é? — disse Patrick, recostado em sua cadeira.
— Se está falando sobre Dean, não faço a menor idéia. — Lauren tomou o cuidado de manter um tom neutro. — Não mantivemos contato ao longo dos anos.
— Um primeiro amor nunca termina bem. Ficam arrependimentos, recriminações...
Ela deu-se conta de que segurava o menu com força e esforçou-se a relaxar, abstendo-se de comentários. Disse a si mesma que Patrick estava apenas querendo ser espirituoso ao insistir naquele assunto, não tendo como saber quanto, no fundo, aquilo a incomodava.
Tornou a lembrar-se das inúmeras qualidades dele, especialmente o fato de ser uma pessoa agradável, sempre agindo cordialmente com todos, como se quisesse que o mundo inteiro partilhasse de seu contentamento. Sim, essa talvez fosse uma de suas características mais admiráveis... era um homem feliz. Lutara arduamente para alcançar algo em sua vida e estava contente com os resultados. Então, por que ela se sentia tão insatisfeita a seu lado? Por que se aborrecia tão facilmente com os gracejos dele?
Como por vontade própria, seu olhar desviou-se até o outro lado do restaurante, pousando em Dean. Pelos contornos tensos de seu perfil, não parecia ser uma pessoa feliz. Não pôde deixar de se perguntar como teria sido a vida dele durante todos aqueles anos.
— Sim — disse Patrick, interrompendo-lhe os pensamentos. — O sujeito parece solitário, sentado lá naquela mesa. Sabe, talvez esteja pensando em você também.
Lauren soltou um profundo suspiro.
— Que tipo de jogo está fazendo, afinal? É melhor me contar para podermos encerrá-lo logo.
Patrick pareceu sério de repente:
— Bem... não é exatamente um jogo, é? Deixe-me dizer-lhe como vejo a situação. Nos últimos meses começamos a ficar mais próximos em relação um ao outro. Pelo menos, eu sim. Mas sabe como tenho me sentido? E como se eu estivesse num daqueles filmes românticos. Só que não consigo descobrir se sou o ator principal ou um mero coadjuvante. O cenário está perfeito, tudo conduzindo a um duradouro romance... mas talvez eu não seja o herói.
Lauren estudou-o por um longo momento. Ele não parecia mais tão contente. Era como se estivesse confuso e até um tanto magoado.
— Bobagem — assegurou-lhe. — Nós dois estamos mantendo um ótimo relacionamento.
— Acho que eu só gostaria de ter certeza quanto a isso. Queria saber exatamente o que você sente a meu respeito. — Pela primeira vez, Patrick não parecia mais tão confiante, a gravidade em seu semblante desconcertando-a.
— Nós concordamos que iríamos dar um passo de cada vez lembrou-o ela. — E achei que estivéssemos indo muito bem...
— Há algo que a está impedindo de entregar seu coração a mim por completo. Algo profundo, talvez do seu passado. Pode ser até que seja esse sujeito, Dean Connell. E se for assim, eu gostaria de saber. E por isso que estou insistindo tanto no assunto.
Lauren começava a ficar com raiva, sem mencionar sua indignação.
— Estamos falando sobre alguém que conheci quinze anos atrás. Eu era só uma garota. Apenas esqueça, sim?
— Receio não poder fazer isso. Mas não se preocupe. Volto num minuto. — Patrick deixara a cadeira e estava atravessando o restaurante antes que ela tivesse chance de esboçar uma reação. Horrorizada, viu-o aproximando-se da mesa de Dean Connell.
Observou-o dirigindo-se a ele, começando a conversar e gesticular na sua direção. Era evidente o que estava fazendo: convidando-o a juntar-se a ambos.
— Não — sussurrou Lauren, tomada de repente pela mesma insegurança de quando tivera dezesseis anos.
Bobagem, era uma mulher adulta agora. Mas as sensações eram exatamente as mesmas da adolescência: o medo e a esperança travando uma batalha, até que teve vontade de se levantar e deixar o restaurante.
Não. Continuaria sentada ali, calma e controlada. Não deixaria que Dean Connell interferisse com a chance que havia em suas mãos de ter um relacionamento bom e estável. Provaria isso a Patrick, a qualquer custo.
Observou-o ainda falando com Dean, que acabou dando de ombros. O gesto breve pareceu significar que lhe era indiferente onde estaria sentado... Então, por que não aceitar o convite? Instantes depois, os dois se adiantaram na direção dela.
Ao vê-los lado a lado, as comparações foram inevitáveis. Ambos eram altos, mas a compleição um tanto mais esguia de Patrick contrastava com o físico mais musculoso e proporcional de Dean. Enquanto ele usava jeans e uma camisa azul um tanto amarrotada, Patrick vestia uma de suas impecáveis camisas brancas e uma calça caqui. A expressão de seu rosto era alegre, afável, ao passo que a de Dean mantinha-se reservada, circunspecta. O que lhe acontecera durante todo aquele tempo?, perguntou-se Lauren novamente.
Os dois chegaram à mesa e sentaram-se.
— Assim está bem melhor — declarou Patrick, jovial. — Como eu estava dizendo a Dean, vocês não se vêem há tanto tempo. Então, por que não aproveitar a oportunidade para colocar a conversa em dia?
Lauren lançou-lhe um olhar de aviso e, então, virou-se para Dean:
— Como tem passado? — perguntou secamente.
— Bem. E você? — disse ele, usando o mesmo tom um tanto sarcástico.
— Bem.
Patrick ergueu as sobrancelhas de maneira expressiva. Pareceu prestes a dizer algo, mas o garçom aproximou-se para anotar os pedidos. Lauren foi tomada por imenso alívio, enquanto a conversa girou apenas em torno das especialidades do restaurante.
Quando o garçom se foi, porém, voltou a ficar apreensiva. Não sabia exatamente o que Patrick estava tramando, mas parecia disposto a levar aquilo até as últimas conseqüências.
— Camarões para o jantar — disse ele, aprovador, comentando a própria escolha. — Uma maneira perfeita de seguir o excelente almoço. A irmã de Lauren faz um espaguete delicioso, mas é provável que você já saiba disso.
— Na verdade, não — respondeu Dean. — Eu m*l conheci algum m****o da família de Lauren.
— É mesmo? Por alguma razão, tive a impressão de que vocês dois se conheciam bem.
Ela pôde sentir a tensão dominando-a.
— Não — esclareceu. — Nós nunca nos conhecemos bem.
Os olhos de Dean pareceram adquirir um certo brilho quando a fitaram. Lauren teve certeza de que ele estava se lembrando da única maneira em que haviam se conhecido muito bem. Não pôde desviar o olhar e sentiu o rubor subindo-lhe às faces.
— Bem. — O tom de Patrick era especulativo. — Acho que eu não havia entendido direito. Mas, contem-me, como vocês dois se conheceram?
Foi Dean quem falou. Estava recostado na cadeira, mas não parecia relaxado, uma certa tensão nunca lhe deixando o semblante.
— Eu entrei para um clube de aviação naquele verão. E Lauren também.
Não mencionou o fato de que ela entrara no clube apenas porque soubera que ele estaria lá. De qualquer forma, como poderia saber?, perguntou-se Lauren. Nunca lhe contara...
— Eu não sabia que você se interessava por aviação — disse-lhe Patrick, fazendo aquilo soar como se ela tivesse lhe ocultado uma informação de importância vital.
— Foi há um longo tempo. Eu nunca aprendi a voar.
— No fundo, Lauren tivera pavor de voar, passando verdadeira agonia durante os passeios de avião. Mas fora algo que fascinara Dean na época e, portanto, fingira interesse também.
— Ora — começou Patrick, filosófico —, você acha que conhece alguém e, de repente, algo novo vem à tona; algo que nem sequer se imaginaria.
— Já lhe disse que foi há muito tempo.
Dean estudava-a com uma expressão séria.
— Sim, foi — concordou.
Patrick alternou um olhar atento entre ambos. Lauren foi tomada por nova irritação. Dean a desconcertava, sim, mas, com certeza, tal reação era apenas em decorrência do que houvera no passado. Talvez fosse natural, algo a ser esperado num reencontro com o primeiro amor... amor imaturo e adolescente, lembrou-se. Sem dúvida o choque inicial passaria e voltaria a ser a adulta equilibrada de sempre.
A comida chegou, e ficou grata por ter algo com que se ocupar. Dean, também, pareceu achar o salmão defumado que pedira ocupação o bastante. Mas Patrick não se contentou em apenas saborear seus camarões.
— E então, Dean? Está na cidade para rever os velhos amigos, ou algo assim?
— Tenho alguns negócios a resolver aqui. — Ele ignorou o olhar curioso do outro, não explicando que negócios seriam.
Mas nada parecia capaz de deixar Patrick se a****r.
— Eu estou no ramo de segurança. Tenho lojas de trancas e fechaduras — contou. — Já Lauren aqui, teve grande êxito profissional.
Ela lançou-lhe um olhar de aviso, que foi prontamente ignorado.
— Sozinha, Lauren iniciou uma fundação para adolescentes grávidas. E não há nada de impessoal na instituição também. É uma espécie de lar comunitário, com aconselhamento psicológico, treinamento profissional e todo tipo de apoio. Ela nunca realiza nenhum projeto pela metade.
— Não fiz tudo sozinha — corrigiu-o ela. — Tenho uma sócia. Trabalhamos em conjunto. — Não prosseguiu porque detestava ter que falar a seu respeito diante de Dean. Que interesse ele poderia ter em sua vida atual? Mas a observava, pensativo dessa vez.
— Lauren não gosta quando tento elogiá-la. Mas eu me orgulho muito dela. — Patrick pousou a mão sobre a dela na mesa, o tipo de gesto que uma mulher esperaria do homem de sua vida. E de repente, Lauren entendeu seu propósito. Não queria apenas anaLaurenr o seu antigo e breve envolvimento com Dean. Também queria deixar claro a ele que era sua namorada. Ela é minha, parecia estar dizendo. Se a quiser, terá que lutar para tirá-la de mim. Até havia algo de tocante naquela atitude. De qualquer modo, precisou fazer um tremendo esforço para não desvencilhar sua mão abruptamente.
— Se quer saber a verdade — prosseguiu ele —, Lauren é obstinada quanto a seu trabalho. Claro, tem uma sócia e deixa que voluntários ajudem... mas é teimosa quando se trata de dinheiro. Está com a corda no pescoço na parte financeira, mas não deixa que nem eu nem ninguém mais ajude.
Lauren lançou-lhe um olhar contrariado e, dessa vez, libertou a mão.
— Essa é uma questão pessoal. Tenho certeza de que Dean não está interessado em ouvir a respeito.
Dean, no entanto, observava a ambos como se os achasse uma companhia razoável, até divertida, mas não digna de grande parte de sua atenção. Era aquele desinteresse que deixava Lauren mais irritada. Um ou dois comentários sarcásticos chegaram a lhe ocorrer, mas conteve-os a tempo. O pior que poderia fazer no momento era deixá-lo saber quanto a desconcertava.
— Deveria ouvir como nós dois nos conhecemos — sugeriu Patrick.
— Estou certa de que Dean não quer...
— Ela entrou na minha loja, a que fica em Danfield, dizendo que precisava trocar todas as fechaduras de sua casa. Em geral, mando um dos meus funcionários fazer o serviço, mas dessa vez eu cuidei do caso. Instalei as fechaduras pessoalmente... e depois convidei-a para sair.
Sabe o que me impressionou mais? Foi o fato de ela ter aceitado, mesmo pensando que eu fosse um empregado da loja. Ainda não sabia que eu era o dono.
Enquanto Patrick tornava a pegar-lhe a mão num gesto afetuoso, Lauren sentia-se desconfortável com o fato de estar expondo detalhes íntimos e pessoais de ambos. Lançou um olhar a Dean, que embora não esboçasse reação de qualquer tipo, parecia saber exatamente como ela estava se sentindo. Não sabia explicar, mas tinha a sensação de que alguma compreensão tácita estivesse passando entre ambos.
Foi tomada por súbita confusão. Aquele simples momento foi o bastante para fazê-la sentir-se impelida de volta ao mundo intenso e particular que havia partilhado com Dean no passado. Mas esse mundo fora como um mar de águas traiçoeiras.
Gradativamente, deu-se conta da mão de Patrick na sua outra vez. De repente, sentiu-se desleal. Havia quase seis meses que estavam namorando. E recentemente tinham de fato começado a levar o relacionamento mais a sério. Eram um casal.
Quanto a Dean Connell, era parte de um passado remoto. Esse encontro fora algo casual, passageiro. O que tinha com Patrick prometia ser estável, duradouro.
Apertou-lhe a mão na sua; talvez com um pouco de força demais, pois ele lhe dirigiu um olhar inquiridor.
Dean continuou observando-os com aquela expressão reservada. Então, afastou o prato que deixara pela metade.
— Preciso ir andando — anunciou. Tirou a carteira do bolso, extraindo algum dinheiro.
— Ei, o jantar é por minha conta.
— Eu cuido disso. — Dean falou com autoridade. Deixando algumas cédulas na mesa, levantou-se. Apertou a mão de Patrick brevemente e, então, virou-se para Lauren. — Adeus — murmurou.
Ela observou:o saindo, ainda com o tom derradeiro daquele "adeus" ecoando em sua mente. Disse a si mesma que não havia razão para aquele turbilhão em seu íntimo, para o indefinível anseio.
Afinal, Dean Connell saíra de sua vida vários anos antes.