04

2893 Palavras
Patrick sentou-se na cama em seu pijama curto de algodão, parecendo, como de cos­tume, impecável. Não importava que tivesse dormido com aquele pijama a noite inteira; não parecia nem sequer amarrotado. Lauren, por outro lado, sentia-se péssima, can­sada, com os cabelos em desalinho, os olhos sonolentos. Não dormira bem naquela noite; seus sonhos repletos de imagens perturbadoras de Dean Connell. Deixando a cama, vestiu seu robe e rumou para o ba­nheiro anexo. Talvez conseguisse se sentir melhor tão logo escovasse os dentes e lavasse bem o rosto. — Lauren, espere — chamou-a Patrick. — Volte aqui. Ele usara sua voz amorosa... Lauren permaneceu onde estava, junto à porta. — Não podemos — disse ela, veemente. — Por que não? — Este lugar é tão pequeno... Não há muita privacidade. — A pousada em que se achavam era um sobrado bem-cuidado e acolhedor, de propriedade de Constance Valentine. Tinha, porém, poucos quartos para alugar, situados perto demais uns dos outros, e estavam todos ocupados. — Não faremos barulho — prometeu Patrick, com um sorriso charmoso. — Apenas não podemos — disse Lauren, num tom vago. — Eu falei a Amy que iria visitá-la em sua loja nesta manhã. O sorriso dele se dissipou, dando lugar a uma expres­são perspicaz. — Não é por essa razão que não quer vir para a cama. Por que não admite? — Não comece... — Vamos encarar os fatos. Há alguém mais neste quar­to com a gente. Seu antigo amor, Dean? — Está se deixando levar pela imaginação. — Então, diga-me por que não fizemos amor desde que aterrissamos nesta cidade. — Foram apenas dois dias. — É um tempo longo para nós, e você sabe — lembrou-a Patrick. Desde que o relacionamento se aprofundara, pou­cos meses antes, a vida s****l de ambos tinha sido... ativa. Não devia se esquecer do quanto tinha sorte em contar com um homem tão atencioso a seu lado, pensou Lauren. — Procure entender — argumentou, num tom razoável. — Esta cidade mexe com meus nervos. Há toda essa tensão na minha família. Assim que tivermos voltado a Connecticut, tudo será diferente... — Ao menos podia ser franca comigo. A razão para essa cidade incomodar você tem a ver com seu antigo namorado? Ela conteve um suspiro de impaciência. Por que Patrick não esquecia o assunto? — Na verdade, Dean Connell nunca foi meu namorado. Não oficialmente, ao menos. E tudo aconteceu há uma eternidade. — Então, venha para a cama. Tudo o que tinha que fazer era dar alguns passos e permitir que os braços carinhosos de Patrick a envolves­sem, pensou Lauren. O resto aconteceria naturalmente. Tal­vez, se fizessem amor, pudesse apagar a vívida imagem de Dean de sua mente... Ela virou-se e entrou no pequeno banheiro anexo, tran­cando a porta atrás de si. Inclinou-se sobre a pia, sentindo o coração disparando de modo absurdo. Sabia que, inad­vertidamente, acabara de magoar Patrick. Apesar da fa­chada de confiança, era evidente que estava preocupado com o efeito que Dean exercia sobre ela. E era essa a razão de estar insistindo em testar esse efeito, como para descobrir se era realmente sério. Parecia ter se esquecido de um detalhe. Seu suposto rival deixara bem claro que não nutria mais o menor interesse por ela. Lançou um olhar para a porta. Tudo o que tinha que fazer era destrancá-la e ir para os braços de Patrick. Chegou a estender a mão para a maçaneta. Mas, então, virou-se para a pia e começou a escovar os dentes furiosamente. A butique de Amy, a Reve Rags, parecia-se muito com a proprietária. Desde a decoração até as roupas coloridas, bijuterias finas e demais acessórios que oferecia, era ale­gre, cheia de boas vibrações e vivacidade. Naquela manhã, assim que Lauren entrou na loja, a irmã saudou-a com entusiasmo, mandando-a direto para o pro­vador com um sensual vestido vermelho. — Eu sabia que iria ficar perfeito em você! — exclamou ela, satisfeita, quando observou o resultado. — Veja por si mesma. Lauren estudou seu reflexo no espelho. O vestido era, de fato, maravilhoso, com alças finíssimas que lhe destaca­vam os ombros. O corte impecável acentuava-lhe a cin­tura esguia e moldava-se às curvas de seu corpo; a saia era um tanto ampla mas o tecido sedoso delineava-lhe ligeiramente os contornos das pernas. — Terá que usá-lo para Patrick — prosseguiu Amy. — E um vestido muito sexy. — Não seria de muita ajuda no momento — murmurou Lauren. De imediato, a irmã pareceu preocupada. — Vocês não estão tendo nenhum problema, não é? Lauren tentou se imaginar contando-lhe sobre o pequeno incidente na pousada: "na verdade, não pude f********r com Patrick nesta manhã, e ele parece pensar que é porque ainda sinto algo pelo rapaz dos meus sonhos da adolescência..." Ela jamais contara algo sobre Dean Connell às irmãs, porque a maneira como se sentira a seu respeito parecera intensa e íntima demais para colocar em palavras. Nem sequer mencionara seu nome; guardara-o consigo. Então, quando o pior acontecera, não soubera como falar a res­peito. Seu fardo silencioso tornara-se cada vez mais as­sustador, até que achara que a destruiria por completo. —Lauren... O que houve? — perguntou-lhe a irmã. — Achei que você e Patrick estivessem se entendendo tão bem... Ela esforçou-se para voltar ao presente. Fitando-a, perguntou-se se Amy teria alguma razão mais pessoal em se mostrar tão ansiosa para que fosse feliz com Patrick. Será que ainda se sentia culpada por ter ficado com o ex-marido da irmã? Seria essa a razão de ainda não terem escolhido uma data para o casamento? Talvez ela não pudesse desfrutar plenamente sua própria felicidade en­quanto não se convencesse de que a vida amorosa de sua irmã caçula estivesse resolvida. —  Está tudo bem entre mim e Patrick — disse-lhe. — Não fique se preocupando conosco. E em vez de tentar incrementar meu guarda-roupa, você não deveria estar providenciando o seu próprio vestido de casamento? —  Haverá tempo. — Amy, sempre tão radiante, limitou-se a tal resposta evasiva e pareceu melancólica de repente. Já ia se adiantando até um dos balcões para lhe mostrar uma nova linha de bijuterias, quando Lauren deteve-a, pousando a mão em seu braça com gentileza. —  Por favor, diga-me que você não está adiando o casamento com Luke porque, bem... por achar que eu estou aborrecida a respeito. —  Mas você está aborrecida, não é? Lauren não sabia como responder. Ainda não podia negar que a idéia de Amy e Luke juntos causava-lhe uma es­tranha ponta de dor. Ela própria falhara terrivelmente em seu casamento com ele... ao passo que sua irmã e seu ex-marido representavam o que o amor deveria ser. Era difícil aceitar o próprio fracasso, mesmo não sentindo mais nada por Luke. — Não importa o que eu ache ou sinta. E sabe disso. Se há algo mais acontecendo entre vocês dois, é melhor você descobrir o que é e fazer algo a respeito. Amy permaneceu em silêncio por um longo momento. — Há algo mais, sim. Mas... não posso falar a respeito. Lauren estudou-a longamente. A irmã a acusava de ser reservada demais, mas agora era ela quem estava agindo da mesma maneira. Não pôde deixar de se lembrar da época em que tinham sido irmãs unidas, partilhando de tudo. Quando criança, Lauren venerara as irmãs... Amy, três anos mais velha do que ela, e Maggie, cinco. Seguira as duas por todos os cantos, às vezes sentindo-se como o insistente bebê da família, mas sempre radiante por ser incluída nas aventuras das irmãs. Tudo isso, claro, fora antes de ter visto Dean Connell caminhando pela praia num dia de verão. Agora, podia ver o brilho saudoso também nos olhos de Amy. Sabia que ela queria recuperar a proximidade que as três tinham tido no passado. Mas tanta coisa acontecera desde então. Lauren construíra uma vida nova para si em Connecticut. Maggie refizera a vida também, no Estado de Nebraska... longe da Flórida, onde seu filho, Derek, desaparecera doze anos antes. No que deveria ter sido um passeio comum e rotineiro ao shopping center, o pequeno Derek, de quatro anos de idade, simplesmente desaparecera. A polícia fizera uma investigação completa, mas não fora encontrada nenhuma pista do garotinho. Era compreensível que Maggie se sentisse arrasada a cada rara vez que voltava à cidade para uma visita, partindo o mais depressa possível. Ela, talvez ainda mais do que Lauren, tinha razões para manter-se distante. De que maneira todas as lembranças dolorosas poderiam ser esquecidas? Um murmúrio de vozes despertou-a dos pensamentos. Antes que pudesse aproveitar a chance para tentar fazer Amy se abrir, três freguesas entraram na butique e a irmã adiantou-se para recebê-las. Lauren, então, continuou mergulhada em suas reflexões, aproximando-se distrai­damente da ampla janela, olhando para a rua. A alameda Gulfview tinha três quarteirões de extensão e era para­lela à praia. Havia a costumeira efervescência dos turis­tas de verão, em meio aos moradores da cidade que ela conhecera desde criança. O que não esperou foi ver um certo conhecido outra vez... Quando já estava prestes a se afastar da janela, viu-o se aproximando pela calçada. Carregando um pa­cote da Padaria Costas, Dean Connell estava prestes a passar diante dela. Lauren olhou freneticamente em torno da butique à pro­cura de um lugar para se esconder, mas quando tornou a olhar pela vidraça, viu-o observando-a. Ele parara na calçada e estudava-a com um olhar intenso, não facili­tando nada a situação, nem sequer abrindo um sorriso. Com o coração descompassado, ela amaldiçoou as cidades pequenas, onde se podia deparar com as pessoas nos mo­mentos mais inoportunos. De qualquer modo, obrigou-se a agir racionalmente, em vez de se esconder detrás do primeiro mostruário que en­contrasse pela frente. Adiantou-se até a porta ao lado e saiu para a calçada, cumprimentando-o num tom neutro: — Olá. Quase desejou que a vidraça estivesse entre ambos novamente. Aquela proximidade era desconcertante. Es­tava consciente demais, da intensidade daqueles olhos azuis, dos cabelos pretos soprados pela brisa do golfo, como no passado. Logo ficou evidente que Dean não estava disposto a jogar conversa fora. Limitou-se a retribuir seu "olá" e continuou observando-a com aquele olhar perscrutador. Foi somente então que ela se deu conta de que estava descalça, seus sapatos tendo ficado no provador. E usava aquele provocante vestido vermelho que Amy insistira que experimentasse! A saia um tanto ampla ameaçava flutuar ao seu redor com a brisa, precisando segurá-la. Os minutos se arrastaram. Enfim, concentrou-se no pacote que ele segurava. — Vejo que já esteve na padaria. — Sim. — Deveria experimentar os doces que fazem lá. — Já experimentei. — Eu praticamente cresci comendo aqueles doces. De­pois, casei-me com eles. Dean pareceu um tanto confuso, e Lauren quis morder a língua. Por que, afinal, fora dizer uma tolice daquelas? Mas era tarde demais. Agora, teria que se explicar, se não quisesse parecer uma lunática qualquer. — Eu me casei com Luke Costas. A família dele é dona da padaria. Freqüentamos a mesma universidade. — Entendo. — O tom de Dean soou indiferente. E de repente, Lauren soube por que mencionara o lastimável fato de seu casamento. Queria que ele soubesse que não estivera chorando pelos cantos à sua espera. Não... ela to­cara a vida adiante e se casara, logo depois que terminara a faculdade. Depois, ela e Luke tinham se mudado para Nova York, indo para bem longe de Hurricane Beach... para longe de suas lembranças com Dean Connell. — De qualquer modo — prosseguiu, incapaz de se conter —, Luke está de volta à cidade. Retornou para ajudar a família com a padaria e tudo mais, mas agora vem cuidando da área financeira de uma empresa que está estabelecendo sua matriz aqui mesmo em Hurricane Beach. — Impressionante — murmurou Dean. —  Não estou tentando impressionar você. É óbvio que estou divorciada agora; há anos, aliás — declarou Lauren, ir­ritada. — Do contrário, não estaria namorando com Patrick. —  É óbvio. Por um breve instante, ela viu o brilho de humor na­queles olhos azuis. Mas dissipou-se depressa, como se ele não tivesse nenhuma inclinação para o riso atualmente. E podia prosseguir seu caminho a qualquer momento. Podia dizer adeus e continuar andando pela alameda Gulfview. Mas por que não o fazia? Por que permanecia ali, deixando-a dizer uma tolice atrás da outra? —  E quanto a você? — viu-se Lauren perguntando em seguida. — Casou com alguém? —  Não. —  Nunca nem sequer chegou perto? —  Nunca. —  Bom para você — resmungou ela. — Ao menos isso lhe deixou tempo de sobra para aperfeiçoar as respostas monossilábicas. Mais uma vez o ar divertido naquele olhar dissipou-se tão depressa quanto surgira. —  É verdade. Não sou do tipo comunicativo. Talvez seja por isso que continuo solteiro. — O quê de amargura na voz dele levou a crer que houvera outras razões. Mas certamente não teria sido por falta de candidata. As mu­lheres sempre tinham disputado as atenções dele. —  Como está a sua amiga? A que gosta de bombons? —  Bem. Mas está quase terminando com eles. Terei que comprar outra caixa. —  Uma mulher que não se importa em admitir que tem um fraco por doces... Gosto disso. — Lauren conseguia manter um tom indiferente, mas estava ali novamente... a inevitável ponta de ciúme. — Bem, peça a ela que experimente os doces da Padaria Costas. Vai adorar. —  Acha mesmo? — Não tenho dúvida. É o caminho mais rápido até o coração de uma mulher. Dean sacudiu a cabeça ligeiramente. — Eu não sei... Ela gosta de doces, mas não são muito bons para sua dentadura. Lauren perguntou-se se ouvira direito. — Dentadura? —  Claro, mas ela só começou a perder os dentes depois dos setenta. Vovó Bea gosta de deixar esse de­talhe bem claro. —  Está falando sobre a sua avó? —  Sim. Vovó Bea, a mulher dos bombons. Lauren sentiu as faces queimando. Céus, agira como uma grande tola. Durante vinte e quatro horas estivera com ciúmes da avó de Dean Connell. —  Acho que eu deveria ter me lembrado. Eu sabia que você costumava vir para cá, todos esses anos atrás, para passar os verões com os seus avós. —  E por que deveria ter se lembrado? Ela achou que talvez estivesse imaginando coisas, mas a voz de Dean acabara de soar com uma peculiar gentileza. Virou-se para entrar de volta na loja. Afinal, já fizera tolices o bastante por um dia. Então, disse-lhe por sobre o ombro: —  Vivemos nos encontrando ao acaso. Suponho que ainda nos vejamos por aí. —  Adeus, Lauren. E ali estava novamente... o tom definitivo na voz de Dean, como se não esperasse revê-la, nem fizesse questão disso. Dean viu-a enquanto dirigia pela rodovia de duas pistas que deixava Hurricane Beach. Estava a caminho do aero­porto de Tallahassee para se encontrar com um dos an­tigos distribuidores da Artefatos de Latão Connell, mas a tabuleta próxima à estrada atraiu-lhe a atenção. "Vende-se Avião" era o que dizia em letras irregulares, e es­tava afixada junto a um desvio asfaltado. Ele entrou pelo desvio, parando perto de um grande gal­pão de madeira e desceu. Como de costume, seus joelhos protestaram com os vários movimentos exigidos deles. Ele ignorou a dor fraca que nunca parecia deixá-lo, e caminhou até uma casa que ficava a uma curta distância do galpão. Era cercada por carvalhos frondosos que a envolviam com sua sombra fresca. Bateu à porta algumas vezes, mas não obteve resposta. Retornou, então, ao galpão, espiando pela grande porta dupla que encontrou entreaberta. O pequeno avião ali dentro estava desmontado, o motor exposto, um emaranhado de peças ao redor. Mas era um antigo avião Stinson de combate, uma pequena máquina resistente quando em plena forma, e Dean experimentou um momento de puro contentamento quando entrou no galpão. Correu a mão ao longo da lateral do avião, pressionando-a. Ainda era sólido, apesar de todos os anos de evidente negligência. Era destinado a voar, não a ficar ali se deteriorando. Dean ainda fora um menino no Novo México quando o fascínio por aviões começara a desabrochar dentro de si. Mais tarde, como o adolescente fadado aos verões em Hurricane Beach, o ingresso no clube de aviação local o impedira de enlouquecer de tédio. Fora nesse mesmo clube onde conhecera Lauren MCCALISTER. Parecera entender, na época, o que voar significava para ele: liberdade, empolgação, o des­prendimento de qualquer vínculo terreno. Fora o que o atraíra nela, além de sua tímida e instigante beleza. Lauren não era mais tímida. E sua beleza adquirira a plenitude. Naquela manhã, quando a vira pela vidraça da butique, os cabelos loiros tinham-lhe cascateado em torno do rosto e cada curva feminina e tentadora naquele vestido vermelho anunciara que era uma mulher extre­mamente desejável, com quem se deveria ter cautela. Era linda e sensual, mas sua força anterior não podia ser ignorada. Observara-o daquela janela como vendo-o a uma grande distância... e ele tivera vontade de tocá-la. Mas não tinha mais esse direito. Aliás, provavelmente não o tivera nem mesmo no início, quando fora um garoto arrogante, cheio de si... e do poder que voar podia lhe dar. Seu breve momento de prazer dissipou-se. Ainda es­tava no galpão com o pequeno Stinson, mas não lhe cau­sava mais nenhuma empolgação. Não voara desde aquele dia fatídico, cinco anos atrás... o dia em que sua vida deveria ter terminado. Para ele, a liberdade se fora.  
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR