Capítulo- XIII. Selar
"O selar do destino está na troca de olhares, é por eles que as almas se reconhecem."
Varuna
O dia seguinte amanhece. Acordo com o barulho dos pássaros, pego o celular e me deparo com a tela escura.
A bateria descarregou.
Sorrio feito um bobo, me lembrando da menina.
Passo as mãos pelo rosto. Jogo o edredom para o lado e me levanto disposto, com vontade de fazer mil coisas.
Tomo um banho, troco de roupa e desço para o café. A casa toda está em silêncio. Todos ainda dormem — é o que penso — até que chego à cozinha e me deparo com meu avô sentado à pequena mesa, segurando um livro entre as mãos. Olho a capa: é algo tétrico — uma caveira tomando uma mulher de carne e osso como esposa. Os dedos ossudos da caveira deslizam a aliança no dedo da bela jovem.
Leio o título na capa: Paixão Póstuma.
Um arrepio percorre meu corpo feito uma corrente elétrica.
— Bom dia, Varuna. — Os olhos do meu avô deixam as páginas do livro para me encarar.
— Bom dia, vô. Caiu da cama?
Sigo até a cafeteira para preparar um expresso.
— Não. Gosto de acordar cedo para ver os raios de sol tingirem o céu.
Me viro em sua direção e aponto para o livro.
— Mais um romance daqueles estranhos que o senhor costuma ler?
Ele estreita o olhar em minha direção. Fecha o livro mantendo o dedo indicador no meio para não perder a página e dá uma olhada na capa.
— Esse é especial. Li incontáveis vezes e não me canso de repetir a dose. Te dei um exemplar desse.
— Ah, sim. Agora me recordo do título.
Pego duas xícaras e nos sirvo.
— Fala sobre o quê? — pergunto, colocando a xícara próxima dele.
— Obrigado, meu neto. — Ele beberica o café, enquanto vou até a geladeira pegar os frios para preparar um misto-quente.
— Fala de amor, puro e genuíno. Não falarei mais, você precisa ler. Se eu contar a história, vai perder a curiosidade.
Sorrio. Abrindo o armário aéreo, pego um saco de pão e coloco em cima do balcão.
— Não tenho curiosidade, vô. Esses romances que o senhor lê são góticos, mórbidos... não atraem minha atenção.
— Uma pena. Está perdendo a chance de conhecer uma história linda e cheia de encanto.
— É, pode ser... Quer um misto, vô?
— Pão integral e queijo branco. Se sua avó ou sua mãe acordarem e me flagraram com um misto nas mãos, apanho das duas.
Gargalho da forma como ele fala.
— Sabe o que eu amo em você, meu neto?
— Não, vô. O quê?
— Sua gargalhada. Eu quase não via seu tio gargalhar espontaneamente... quase não via a alegria dele...
Isso me causa uma pequena irritação. É como se eles buscassem em mim os traços profundos de alguém que não mais existe.
Mudo de assunto.
— Sabe me dizer se minha mãe ou minha avó têm uma cesta dessas de piquenique?
— Não sei. Olha na despensa. Pretende fazer o quê?
— Ir à beira da lagoa de Extremoz.
— Está gostando mesmo daqui?
— Sim, o lugar é incrível.
— Isso é bom. Seu pai vai gostar muito. Faça. Se for bom, me avisa que quero fazer um programa com a Anice. Faz tempo que não levo sua avó para sair.
— Aviso sim, pode deixar.
Preparo o meu misto e um sanduíche para o meu avô como sua dieta recomenda.
Coloco em um prato e o entrego.
— Meus pais estavam discutindo ontem. Sabe a razão? — sondo, relembrando o fato.
— Não. Coisa de casal, Varuna. — responde meu avô, retornando à leitura.
— O piquenique fará sozinho? — Meu avô é esperto demais.
— Não. Será com uma pessoa que conheci.
— Isso é bom, conhecer novas pessoas, fazer amigos. Everaldo que te apresentou?
— Não. Foi coisa do acaso. Nos encontramos nas ruínas. Ela me pediu para fotografá-la e começamos a conversar.
— Que interessante. As ruínas os juntaram. Qual o nome da felizarda?
Sorrio, mordo o misto e levo algum tempo sentindo o gosto do queijo e do presunto em minha língua.
— Camila. — revelei, não sei por qual razão. Apenas senti vontade de dividir com meu avô.
Raul desvia os olhos do livro. Seus olhos ficam em mim.
— Nome bonito, Varuna. Como fará? Será sincero com a menina?
Um pouco da minha alegria some.
— Não tenho nada com a menina. Apenas gosto de conversar com ela.
— A presença dessa jovem te faz bem, não?
Olho intrigado em sua direção.
— Não posso negar, vô.
— Isso significa que está atraído, Varuna. Como fará, meu neto?
— Não sei... ainda não sei... por favor, não comente com minha mãe ou os demais. Muito menos com o meu pai. Iria se formar uma tempestade aqui nessa casa.
— Farei com uma condição: que sempre me procure para falar sobre Camila e sobre você.
Não entendi o pedido, no entanto, concordei. Meu avô é muito mais próximo de mim do que meu pai.
— Tudo bem, vô.
Tomamos nosso café. Meu avô chora com o livro em algumas partes, chega a soluçar. Não entendo como pode chorar com ficção.
Me abstenho de levar ao seu conhecimento a minha opinião.
Depois, decido caminhar na praia. O vento está frio, mas quero passar o tempo de uma maneira produtiva, fazendo algum exercício, visto que na casa do meu pai não existe um espaço destinado para uma academia particular.
A praia é deserta. Há poucas pessoas, e a faixa de areia é extensa.
São vinte minutos contados de caminhada. Faço algo que me relaxa e me deixa em paz com meu silêncio, embora a temperatura do meu corpo pareça ter parado nesse estado febril e não regrida.
Paro de frente para o mar. Me sento na areia e olho para a imensidão divina, que possui sua força e seus mistérios. Olho para o mar: uma divindade que, quando quer algo para si, pega e guarda em suas profundezas.
Me perco no barulho das ondas. Me perco na imensa maravilha que é estar vivo.
"Obrigado, Deus, por poder contemplar tamanha beleza."
Agradeço com a mente limpa e o coração curvado à imensidão.
De repente penso em Camila. Sorrio.
— Te darei uma tarde de presente, Camila... minha menina.
E, seguindo essa linha de pensamento, me retiro da praia e sigo para casa.
Entro e vejo meu avô tomando banho de sol, ainda lendo o livro tétrico.
Caminho até a cozinha, vou à despensa e, por sorte, temos uma cesta de piquenique.
Pego-a e vou em busca de uma toalha de mesa. Encontro uma vermelha. Depois organizo tudo o que irei levar e deixo preparado dentro da despensa.
Saio da cozinha, indo direto para o meu quarto. Ansioso, pego o celular e envio uma mensagem para Camila:
"Bom dia, linda moça! Parabéns por mais um ano de vida! O mundo faz mais sentido com sua existência. Está tudo certo para a nossa tarde? Vou poder ir te ver?"
Espero pela resposta. Não demora para chegar:
"Bom dia, obrigada por se lembrar de mim. Sim, estarei te aguardando."
Sorrio com o peito em chamas.
"Estarei aí. Aproveite o seu dia, linda moça."
A mensagem chega, e recebo outra acompanhada de um emoji cheio de corações:
"Obrigada"
Largo o celular, sigo até a mesinha, abro a pasta e retiro de dentro o MacBook. Era o momento de verificar como andam os negócios.
Fico imerso no serviço até por volta das onze e meia, entre verificações de e-mails, documentos e algumas ligações.
Até que batidas na porta me fazem encerrar a análise de um balanço.
— Desculpa interromper, meu filho, mas vamos sair para almoçar. Seu pai insistiu. Vamos conosco?
— Pode ser, vou encerrar aqui e desço.
Assim procedi. Fomos almoçar em um restaurante especializado em frutos do mar. Entre conversas e algumas risadas, a hora passou apressada.
Retornamos para casa por volta das três e meia.
Enquanto todos subiram para descansar, eu entrei no meu quarto para tomar outro banho, trocar de roupas, escovar os dentes e sair.
Passei na despensa, peguei a cesta e saí de casa com destino a Extremoz.
No caminho, envio uma mensagem para Camila:
"Moça linda, estou chegando. Me espera."
A resposta chega rápida:
"Estou te esperando."
Sorrio, ansioso por vê-la.
Minutos depois, estou parando com o carro na frente da pousada.
Meus olhos varrem o local à procura dela. Não a vejo. Uma agonia cresce no peito. Uma aflição tenta me derrubar. Penso em sair do veículo, ir até a recepção e pedir que me chamem Camila.
No entanto, quando estou prestes a fazer isso, ela passa pela porta. Linda, com um vestido branco acima dos joelhos, decote discreto e tecido delicado como a pele da menina.
Desço do veículo, impactado. Retiro os óculos escuros.
Camila acena em minha direção com um sorriso lindo no rosto. Detesto o aceno — é um tchau. Não gosto do adeus. Não gosto desses acenos.
No entanto, passo por cima desse m*l-estar. Sorrio de volta, me aproximando do portão de entrada.
Camila passa por ele, e eu a recebo com um abraço — tudo o que sempre quis fazer desde que a conheci. Ela retribui.
Aperto a menina pequena em meu peito, aspirando o seu cheiro. Meus dedos deixam suas costas para se infiltrar nos fios sedosos.
O cheiro de crisântemo adentra por minhas narinas.
— Vamos? — sussurro.
— Sim... vamos.
Me afasto com vontade de ficar. Pego em sua mão, abro a porta do carro para Camila, que entra cheia de timidez.
Contorno o carro com a felicidade arrebentando o meu peito.
Embarco, tomando meu assento atrás do volante. Olho em direção à menina.
— Onde vamos? — Camila pergunta, segurando uma bolsa feita de linha entre os dedos, cujas unhas estão pintadas de um rosa clarinho.
— Comemorar o seu aniversário. Somente nós dois.
Ela sorri.
Sigo até o estacionamento da lagoa, onde deixo o carro. O estacionamento fica do lado oposto da direção da lagoa — precisamos atravessar a pista. Hoje, por ser um dia de semana, a movimentação não é tão intensa. Apenas alguns banhistas aproveitam a água.
— Gosta do pôr do sol? — pergunto, ao retirar o cinto.
— São lindos...
— Vamos assistir a um hoje.
Desembarcamos. Camila faz o mesmo. Vou até o porta-malas, pego a cesta e, depois de ativar o alarme do veículo, pego a mão de Camila. É incrível que, toda vez que a toco, o calor em minha palma aumenta, como se um laço de fogo envolvesse nossas mãos.
Caminhamos até uma área sombreada pelos coqueiros.
Camila não diz nada. Há algumas famílias com crianças brincando, pessoas no pedalinho.
— Queria te levar para um jantar mais sofisticado, porém a sua...
— Está perfeito, Varuna. Estou adorando.
A fala dela me retalha a frase. Prefiro nem concluir.
Escolho um lugar mais afastado das pessoas, forro a toalha, estendo a mão para a menina, que retira as sandálias antes de se sentar, com as pernas juntas, protegendo seu sexo casto de ser visto.
Acho encantadora sua maneira pudica.
Sento ao seu lado, abro a cesta e retiro de dentro uma rosa, que peguei do buquê da minha avó. Acho que combina com ela — a cor, a singeleza.
— Posso? — pergunto, apontando para o cabelo da menina.
— Sim. — Camila responde, corando.
Retiro o caule da flor e prendo entre a orelha de Camila.
Eu a olho e a sensação de ter feito isso em algum momento me é avassaladora. Dou um beijo em seu rosto.
— Felicidades, linda moça.
Camila sorri, tímida.
— Obrigada. — responde baixo.
Curtimos o momento a sós. Retiro da cesta as frutas e tudo mais que trouxe para complementar nosso encontro.
Para ser sincero, nunca fui dado a esses impulsos românticos, mas com essa garota a necessidade de ser diferente é gigantesca.
Comemos, conversamos sobre a beleza do lugar — sempre olhos nos olhos, sempre com uma energia forte entre nós, nos puxando um de encontro ao outro.
Os minutos passam. Uma hora se vai, e aos poucos o sol dá sinais de que está se retirando — mescla o céu com tons laranja e dourado. As nuvens, antes brancas, ficam azul-acinzentadas. As pessoas se retiram como se soubessem que o momento é nosso — dela e meu.
— É lindo... — Camila diz, com os olhos presos no horizonte. Os barulhos dos veículos transitando não quebram o encanto do rosto dela cheio do mais puro deslumbramento.
— Você é mais...
Camila vira o rosto em minha direção.
Toco sua face, fazendo um breve carinho.
Aos poucos, trago os lábios da menina para mim. E então uma tempestade dentro de mim ocorre quando minha boca domina a dela.
O beijo é calmo, aos poucos. Minha língua busca pela dela, que está retraída.
Estremeço quando o contato ocorre. Meu corpo treme, o coração acelera e o estômago gela.
É como me reencontrar depois de muito tempo.
Encerro o beijo bem devagar, sempre olhando dentro dos olhos da linda menina.
Puxo Camila para o meu peito. Não falamos nada. Não há necessidade. Deixamos que o pôr do sol fale por nós.