Capítulo-XXIV. Até breve.
" Não diga adeus, diga até breve quando quiser rever alguém que ama."
Camila
Não sei o que está me deixando mais nervosa: se é chegar em casa de madrugada, às 4:00 da manhã, orando para não ter ninguém fumante perambulando pelo lado de fora da pousada, com cigarro entre os dedos, e me flagrar entrando de fininho; ou se é o medo de que meu pai tenha descoberto a minha fuga. Creio que não, porque meu celular não tocou nenhuma vez com qualquer ligação vinda da parte dele. Mesmo assim, nós, filhos, nunca temos certeza do que se passa pela cabeça dos nossos pais.
Além disso, carrego em mim a delícia e a vergonha de saber que agora eu sou mulher, não sou mais apenas uma moça. Olho para Varuna e meu peito acelera com força. A mão dele vem parar em minha coxa, dando um leve aperto. Olho em sua direção e meus olhos sorriem.
O carro desliza devagar pelas estradas. A madrugada está linda e a maresia ainda pesa no ar quando Varuna estaciona o carro diante da pousada.
— Chegamos, minha linda — seus olhos fixam em mim.
Olho o relógio no painel e vejo os números vermelhos marcando 04:00 em ponto. Aperto rapidamente os lábios, virando a cabeça para observar o exterior através dos vidros escuros do veículo.
— Você está bem, Camila? — Varuna pergunta com a voz preocupada.
Meus dedos tremem levemente sobre o colo, mas não é de frio. É de medo de que esse instante acabe. É receio de abrir a porta, pisar no chão lá fora e ter de aceitar que nossa noite terminou.
— Sim, estou bem — respondo, arrumando a bolsa pequena que levei comigo.
Memórias da noite surgem em minha mente. A cada piscar de olhos, ainda sinto a pele quente, os lábios ardendo pelo tanto que nos beijamos, e o corpo inteiro impregnado com o cheiro dele. A lembrança da cama no apartamento em Areia Preta me vem como um turbilhão — os lençóis desarrumados, nossos sussurros, o suor que grudava na minha nuca, o jeito dele me olhar como se eu fosse a única mulher do mundo. Eu nunca vou esquecer. Ser dele, pertencer a esse homem lindo, fez marcas profundas no meu interior, na minha alma.
— Olha para mim, Camila. Quero ver o seu rosto — pediu com o tom de voz cálido.
Estremeço levemente, sentindo meu corpo arrepiar.
Eu atendo ao seu desejo. Olho para o paulista que consegue fazer meu coração cantar.
Varuna apoia o braço sobre o volante e me encara. Seus olhos têm um brilho que não sei descrever, um misto de cansaço e ternura, desejo e promessa. Ele se inclina e segura minha mão, como se quisesse me prender ali para sempre. Eu ficaria sem objeções.
— Vou te ligar — ele diz com voz firme, como quem faz um juramento. — A gente vai combinar outra saída. Isso aqui não vai ficar só nessa noite, Camila.
Meu peito se aperta. Tento sorrir, mas sei que meus olhos denunciam a angústia.
— Promete? — indago, sentindo minhas mãos perderem calor.
— Prometo — ele responde sem hesitar.
Tomando minha mão, entrelaçamos nossos dedos. Varuna se aproxima, pega-me pelo pescoço com suavidade.
Nossos lábios se encontram de novo. É um beijo lento, cheio de despedida, e ao mesmo tempo carregado de uma urgência estranha, como se nenhum de nós dois quisesse admitir que precisa se soltar.
A sensação da separação machuca. Mexe comigo de uma forma dolorida.
— Vamos ficar longe... — deixo escapar antes de abraçá-lo pelo pescoço. Me perco no calor, e quando me dou conta, já estou fungando baixinho, sem querer chorar, mas quase deixando escapar.
— É por pouco tempo, eu prometo — ele sussurra, com a mão deslizando por minhas costas.
— Eu não quero descer do carro — confesso, escondendo o rosto no ombro dele. Me sinto patética, fazendo um papelão i****a, porém a força com que as palavras pedem para serem ditas é tamanha que não consigo segurar a língua.
Ele acaricia meu cabelo.
— Eu também não quero que você vá, mas precisa. Se alguém te ver entrando muito depois... pode dar problema — Varuna me chama à razão, por mais que meu coração não aceite e a parte racional do meu cérebro esteja abandonada dentro de um baú feito de titânio.
Deixo o calor do seu abraço. Fecho os olhos, respiro fundo, e só então estendo a mão para a maçaneta. Abro devagar, cada segundo se arrastando como se fosse uma eternidade. Antes de sair, volto-me rapidamente. Beijo Varuna mais uma vez. O gosto dele fica em mim, colado, tatuado na minha boca.
— Até breve, Varuna.
— Até breve, Camila.
Coloco os pés para fora e sinto o vento frio da madrugada me envolver. Dou dois passos hesitantes. Olho para trás e vejo que o veículo permanece parado, como se Varuna estivesse me observando. O motor do carro segue ligado, o ronco baixo se misturando ao som das folhas balançadas pelo vento. Me aproximo do portão, coração na mão e alma leve.
Empurro o portão da pousada com cuidado. A ferrugem range e meu coração dispara, temendo que alguém acorde. Só relaxo quando o ferro se fecha atrás de mim. Viro o rosto para espiar pela última vez: só então ele manobra o carro, lentamente, e parte acelerando. Minha cabeça pesa, a vontade de correr para o meio da rua e gritar para que ele retorne e não me deixe é grande.
Fico ali parada por alguns segundos, com a respiração suspensa, como se uma parte de mim tivesse acabado de ser arrancada. Não faço. Forço meus pés a andarem até a entrada do pátio. Paro, olho para os meus pés, temendo que o som dos meus passos chame atenção. Retiro meus sapatos, seguro-os nas mãos e sigo descalça, pisando no piso que cobre o pátio silencioso da pousada.
O chão frio arrepia meus pés. Caminho devagar, sentindo um leve incômodo entre minhas pernas a cada passo que dou. É o lembrete de um segredo: sou uma mulher e não mais uma menina. A lua ilumina o caminho, como se fosse a minha fada madrinha, e eu me sinto uma princesa travessa voltando para casa depois de uma aventura proibida. Porém, diferente de abóboras e sapos, eu vim de carro com um príncipe de verdade.
Penso no que minha mãe diria se soubesse. Talvez sofresse com suas broncas. Meu pai iria querer arrancar as tripas de Varuna pela boca. Sacudo levemente a cabeça para que o remoto pensamento caia no esquecimento. Mas dentro de mim não existe arrependimento, apenas felicidade e um amor que não sei dimensionar. Talvez seja daqueles que ganham o infinito — e além dele.
Chego à janela do meu quarto, que deixei apenas encostada antes de sair. A madeira range quando empurro e seguro a respiração, com medo de algum ruído despertar os outros hóspedes. Apoio as mãos no peitoril e me preparo para pular, mas o imprevisto acontece: o vestido prende em um pequeno prego que se projeta da madeira.
— Ah, não... — murmuro, tentando puxar com delicadeza. Mas não adianta. O tecido rasga com um estalo seco.
Perco o equilíbrio e caio para dentro do quarto, bem em cima das almofadas que deixei estrategicamente espalhadas no chão. Pareço um saco de batatas: pernas abertas em uma posição estranha, cabelo desgrenhado. A bolsa cai perto da cama e, depois do susto, tenho uma crise de riso. Coloco a mão na frente da boca para abafar a risada que me escapa. O coração dispara pela travessura, mas ao mesmo tempo sinto uma alegria absurda. Sou uma adolescente às escondidas, mas também sou uma mulher que acaba de se entregar por inteiro ao homem que ama.
Posso ter feito a pior besteira da minha vida. Mas foi lindo e... e diferente... gostoso.
Levanto devagar, fecho a janela e encosto a testa na madeira. Suspiro fundo. Ainda sinto Varuna em mim — no corpo, na pele, no meio das coxas. Fecho os olhos e lembro do instante em que ele me tomou para si, da entrega total, do calor, da intensidade. Meu corpo ainda pulsa.
Abro a mala e pego um pijama simples, quase infantil, mas é tudo que tenho. Visto-o devagar, observando o r***o no vestido. Acaricio o tecido como se fosse um troféu daquela noite inesquecível e depois o enrolo em um bolinho, escondendo-o no fundo da mala.
Pego a minha bolsa do chão. Abro e retiro de dentro o celular. Deito na cama e puxo o lençol até o queixo. Mas o sono não vem. Meus olhos brilham no escuro, meu coração insiste em bater rápido demais.
Olho para a tela do aparelho com hesitação. Penso em mandar uma mensagem. Penso também que talvez seja cedo demais, que ele pode achar exagero. Mas não consigo segurar.
Digito devagar, cada palavra medida:
"Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Obrigada por existir. Te gosto muito."
Leio, releio, sorrio e mordo a ponta do dedo indicador, nervosa. Tomo coragem e envio. O ícone azul aparece, confirmando que a mensagem foi entregue. Seguro o celular contra o peito, fechando os olhos como se quisesse me proteger da resposta — ou da falta dela.
— Você é louca, Camila. O homem se foi há pouco e já está toda derretida querendo vê-lo outra vez — falo comigo mesma.
Dou um beijo no aparelho e o coloco debaixo do travesseiro. Tento me acalmar olhando para o forro pintado de branco. No entanto, meus olhos ficam enormes quando, poucos minutos depois, sinto a vibração do meu celular. Meu coração quase explode. Meu rosto é tomado por ondas quentes e frias. Puxo o celular às pressas, deslizo a tela e leio:
"Eu é que tenho que te agradecer por mostrar a mim que o mundo tem mais cor, mais vida e mais sabor. Também te gosto muito."
As lágrimas brotam nos meus olhos. Aperto o celular contra o peito com força, como se fosse o próprio Varuna. Suspiro fundo, fecho os olhos e sussurro baixinho:
— Eu te amo, Varuna. Te amo muito. Te amo mais do que amo a minha própria vida, mais do que amo a minha existência. Vou te amar para sempre.
Um sorriso sereno se abre nos meus lábios. Minha respiração vai se tornando lenta, os pensamentos se dissolvem em lembranças doces da noite. Aos poucos, me entrego ao sono, ainda abraçada ao celular, como se estivesse abraçada a ele.
E antes de apagar completamente, faço uma última oração silenciosa: agradeço a Deus por ter colocado Varuna no meu caminho, peço que Ele o guie, que o proteja sempre. Porque eu sei, com cada fibra do meu ser, que meu coração é inteiramente dele.
Adormeço com esse amor latejando dentro de mim, certa de que nunca mais serei a mesma.
A parte mais bonita da minha vida esta sendo é a chegada dele. Tudo que parecia normal, não é mais.