Pré-visualização gratuita Capítulo 01
Capítulo 01
Narradora: Isadora
A exaustão tem um cheiro específico. Para mim, ela cheira a óleo de fritura barato, desinfetante de baixa qualidade e o suor de quem passou dez horas em pé atrás de um balcão. Mas, assim que viro a esquina do beco onde moro, esse cheiro é atropelado por algo pior: o odor da negligência.
Meu nome é Isadora. Tenho vinte e dois anos e a sensação de que já vivi cem. Minha vida nunca foi feita de sonhos, mas de uma luta bruta pela sobrevivência. Enquanto outras garotas da minha idade postavam fotos em festas ou comemoravam a entrada na faculdade, eu estava decidindo se comprava um caderno novo ou se comprava arroz. O ensino médio foi um luxo que quase não consegui terminar; era estudar com a barriga roncando ou largar tudo para garantir que o teto sobre nossas cabeças não caísse. Ganhei o diploma, mas perdi a juventude no processo.
Sou o fruto amargo de um relacionamento fracassado, uma conta que nunca fechou. Meu pai? Uma lembrança borrada de promessas vazias que nunca chegaram a ser cumpridas. Ele foi o mestre em dizer "eu volto", "eu vou mandar dinheiro", "as coisas vão melhorar". As palavras dele eram como fumaça: sumiam antes mesmo de a gente tentar agarrar. E minha mãe... bom, ela ficou fisicamente, mas sua mente partiu há muito tempo para algum lugar onde a realidade não dói. Ela se afundou no vício, e eu me afundei nas responsabilidades dela.
Minha rotina se resume a um ciclo infinito: trabalhar para pagar as dívidas que ela faz. Trabalho como atendente em uma lanchonete bem no pé do morro. É um lugar barulhento, onde o som do rádio se mistura com o ronco das motos que sobem e descem a ladeira. Cada centavo que entra na minha mão já tem destino certo. Não é para uma roupa nova, nem para um batom. É para o "consumo" dela.
Minha mãe não consome apenas álcool e drogas; ela consome a minha vida. É um processo doentio. Quanto mais eu me mato de trabalhar, mais ela se sente livre para gastar o que não tem nas bocas de fumo lá no alto. Ela me usa como um escudo financeiro, uma máquina de fazer dinheiro que sustenta o vício que a destrói e me enterra junto. Cada dia que passa, ela parece querer que eu trabalhe mais, para que ela possa consumir ainda mais. É um buraco sem fundo.
— Isa? Ei, acorda para a vida, menina. — A voz de Amanda me traz de volta.
Amanda é a minha melhor amiga, a única razão de eu ainda não ter surtado completamente. Estamos na calçada da lanchonete, e ela me observa com aquele olhar de preocupação que eu tento evitar.
— Só estou cansada, Amandinha. O movimento hoje acabou comigo — minto, ajeitando o avental manchado.
— Você sabe que lá em casa sempre tem um prato para você. Minha mãe perguntou por você hoje cedo.
Tia Rose. Se o céu existe, ela tem um lugar reservado na primeira fileira. Ela é a mãe da Amanda e, por muitas vezes, foi a minha também. Quando eu era pequena, era na casa dela que eu descobria o que era ter uma refeição de verdade e um ambiente limpo. Ela tentou me levar para morar com elas várias vezes quando eu ainda era menina. "Vem, Isadora, aqui você vai ter paz", ela dizia. Mas minha mãe... o escândalo era garantido. Ela aparecia na porta da Tia Rose gritando, fazendo um inferno, dizendo que estavam tentando "roubar a filha dela".
A verdade é que ela nunca teve medo de me perder por amor; ela tinha medo de perder a empregada e a provedora. Ela precisava que eu estivesse ali para afundar junto com ela. Precisava de alguém para arrumar o dinheiro das carreiras e das garrafas.
— Obrigada, Amanda. Diz para a Tia Rose que eu passo lá assim que der — respondo, sentindo um nó na garganta.
— Toma cuidado na subida, Isa. O clima está estranho hoje. Ouvi dizer que os avisos do dono do morro acabaram.
Meu estômago dá um nó. Eu já recebi os sinais. Os "vapores" já passaram pela lanchonete só para me encarar. Eu sei que ela está devendo na boca, e sei que não tenho como pagar. Já vendo meu tempo, meu sono e minha alma para aquela lanchonete. Uma hora, o dono do morro vai acabar fazendo alguma coisa comigo, e sinceramente? Quero ver o que ela vai fazer quando não tiver mais ninguém para limpar a sua sujeira.
Despeço-me de Amanda e começo a subida íngreme. Meus pés latejam a cada passo no asfalto quente. Quando finalmente chego na frente da nossa casa, o cheiro de álcool e algo químico atravessa a fresta da porta.
Respiro fundo e empurro a madeira que range.
Lá está ela. Jogada no sofá velho, fedendo a bebida e droga, com a roupa suja e os olhos vidrados no teto. A casa está uma imundície. Pratos sujos, garrafas vazias, o chão pegajoso. O descaso me atinge como um soco. Ela nem sequer se vira para me ver chegar.
— Mãe, você viu o estado disso aqui? — pergunto, mas a resposta é apenas um resmungo ininteligível.
Sinto uma onda de nojo tão profunda que minha pele chega a formigar. Ela está se matando e me levando junto, e não dá a mínima. Não suporto ficar ali, olhando para aquela cena. Passo por cima da bagunça e vou direto para o banheiro. Preciso de um banho. Preciso lavar essa sensação de que o mundo é um lugar imundo.
Enquanto a água cai, eu tento não pensar no que Amanda disse. Mas o silêncio da casa, interrompido apenas pelo ronco da minha mãe no sofá, parece o anúncio de uma tempestade. A conta chegou, e eu sei que o pagamento não será em dinheiro.
A água do chuveiro não é quente o suficiente para relaxar meus músculos, mas é fria o bastante para me manter alerta. Encosto a testa no azulejo encardido e deixo o jato bater na minha nuca. Às vezes, o silêncio do banheiro é o único momento de paz que eu tenho, embora seja uma paz emprestada. Eu sei que, do outro lado da porta, o mundo continua desabando.
Saio do banho e me enrolo em uma toalha gasta. Evito me olhar no espelho; as olheiras estão cada vez mais fundas e aquele brilho que eu tinha nos olhos quando criança parece ter sido tragado pelo balcão da lanchonete. Visto uma roupa limpa, mas simples, e volto para a sala. O cheiro de álcool ainda está impregnado nas paredes, como se a própria casa estivesse embriagada.
Olho para a minha mãe. Ela agora ronca, uma mão caída no chão, as unhas sujas, o rosto marcado pelo tempo e pelo abuso de substâncias. Por um segundo, sinto uma raiva tão forte que minhas mãos tremem. Eu queria sacudi-la, gritar que eu não aguento mais, que eu tenho apenas vinte e dois anos e que minhas costas estão curvadas como as de uma velha de oitenta. Mas o que adiantaria? Ela só me olharia com aqueles olhos vazios e pediria dinheiro para a próxima dose.
Respiro fundo e começo a recolher as garrafas. É um ritual que eu odeio. Jogo os restos de comida no lixo, passo um pano na mesa pegajosa e tento trazer um mínimo de dignidade para esse lugar que chamamos de lar. Cada movimento meu é mecânico. Eu faço isso porque, se eu parar, eu desabo. E se eu desabar, quem vai nos segurar?
Enquanto limpo, meus pensamentos voltam para os avisos que recebi no trabalho. O dono do morro, o tal do Fúria, não é um mito. Ele é a lei aqui. E a lei dele não aceita atrasos. Minha mãe deve na boca há meses. Ela achou que, por ser uma "viciada inofensiva", eles deixariam passar. Mas no morro, ninguém é inofensivo quando o assunto é lucro.
Vou até a janela e afasto a cortina encardida. Lá embaixo, as luzes da comunidade começam a se acender. O movimento das motos aumenta, o funk começa a ecoar de algum ponto distante, e os "olheiros" já estão em seus postos. Eu me sinto como um animal encurralado. Sei que a qualquer momento a conta vai bater na minha porta, e eu não tenho nada para oferecer além da minha própria pele.
— Isadora... — a voz da minha mãe sai rouca, quase um sussurro.
— O que foi? — respondo, sem me virar.
— Tem... tem algum trocado? Só um pouquinho... minha cabeça está explodindo.
Viro-me lentamente. Ela está sentada, coçando os braços, os olhos vermelhos implorando. É a mesma cena, o mesmo roteiro de todos os dias.
— Não tem dinheiro, mãe. O que eu ganhei hoje já foi para o aluguel e para o arroz que você não comprou. Não tem trocado. Não tem nada.
— Você é uma filha ruim... — ela resmunga, a voz falhando. — Seu pai tinha razão... você é seca.
A menção ao meu pai é como um estilete na minha ferida mais profunda. Engulo o choro e a raiva.
— Se eu sou seca, é porque você bebeu toda a minha doçura anos atrás. Agora cala a boca e tenta dormir. Amanhã eu tenho que acordar às cinco.
Ela se vira de lado no sofá, resmungando ofensas baixas. Volto para a cozinha, pego um copo de água e me sento na cadeira de plástico. Fico ali, no escuro, ouvindo o som da favela e o silêncio da minha própria alma. Eu sinto que hoje é a última noite de uma vida que, embora r**m, era a única que eu conhecia.
O perigo não é mais uma sombra. Ele está aqui dentro. Ele está no ar que eu respiro. E enquanto olho para a porta trancada apenas por um trinco frágil, percebo que não importa o quanto eu limpe esta casa, o rastro de sangue que minha mãe deixou para trás nunca será apagado.