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1069 Palavras
📖 CAPÍTULO 5 — ASSUNTOS DE HOMEM GRANDE 👨‍🌾 FAEL NARRANDO Depois de descarregar metade da minha vida da caminhonete — e deixar a outra metade pra depois, porque ninguém é de ferro — eu paro por um segundo no meio do terreiro da fazenda. O sol já subiu. E junto com ele… O movimento. ⸻ Tem gente passando com cavalo. Tem funcionário levando ração. Tem barulho de caminhão lá no fundo. A fazenda nunca dorme de verdade. Ela só muda de ritmo. ⸻ Eu passo a mão no rosto, respirando fundo. O cheiro da terra misturado com ração, com madeira, com sol quente… Isso aqui não muda. E ainda bem. ⸻ Olho na direção da estrada que leva pra cidade. Ela começa ali, depois da porteira. Uma linha de terra batida que corta o verde. ⸻ — Quinze quilômetros… Murmuro baixo, quase sorrindo. ⸻ Quinze quilômetros. Não é longe. Nunca foi. ⸻ Aqui, a gente faz esse caminho todo dia. Pra resolver coisa. Pra comprar. Pra vender. Pra ir na loja da dona Arlete… Pra ir no banco. Pra resolver papel. ⸻ A cidade não é distante. Mas também não invade. E isso é perfeito. ⸻ Porque aqui… A gente trabalha. E lá… A gente resolve. ⸻ Sem misturar demais. Sem bagunçar as coisas. ⸻ Dou uma última olhada ao redor e sigo em direção ao escritório do meu pai. Fica ali, separado da casa principal. Não muito longe. Mas o suficiente pra deixar claro que ali… É trabalho. ⸻ Sempre foi assim. Desde pequeno, eu já sabia: Casa é casa. Escritório é assunto sério. ⸻ A porta está encostada. E, antes mesmo de abrir, eu já sei o que vou encontrar. ⸻ Empurro devagar. ⸻ E lá está ele. ⸻ Sentado atrás da mesa. Óculos baixo no nariz. Papel espalhado. Caneta na mão. ⸻ Meu pai. ⸻ — Já começou sem mim? — digo, encostando na porta. ⸻ Ele nem levanta o olhar. ⸻ — Você que chegou atrasado na vida. ⸻ Eu entro, rindo. ⸻ — Não exagera, cheguei hoje. ⸻ — Poderia ter chegado antes. ⸻ — Poderia. — concordo, puxando uma cadeira e sentando na frente dele — Mas não quis. ⸻ Ele levanta os olhos. Me encara. ⸻ — Pelo menos é sincero. ⸻ — Sempre fui. ⸻ Ele balança a cabeça de leve, voltando a olhar os papéis. ⸻ — O que é isso aí? — pergunto, inclinando o corpo pra frente. ⸻ — Nota de gado. ⸻ — Compra? ⸻ — Venda. ⸻ — Boa? ⸻ Ele respira fundo. ⸻ — Razoável. ⸻ — Traduz. ⸻ Ele apoia a caneta na mesa. ⸻ — Podia ter sido melhor. ⸻ — Sempre pode. ⸻ — Mas não foi. ⸻ Silêncio. ⸻ Eu observo os papéis. Os números. As anotações. ⸻ — De quem? ⸻ — Do lote da Boa Esperança. ⸻ Minha favorita. Claro que eu ia prestar atenção. ⸻ — E por que não foi melhor? ⸻ Ele cruza os braços. ⸻ — Mercado oscilando. — pausa — E decisão tardia. ⸻ — Sua ou de quem? ⸻ Ele me encara. ⸻ — Agora é minha. ⸻ Eu sorrio de canto. ⸻ — Justo. ⸻ Ele volta a mexer nos papéis. Mas eu sei. ⸻ Ele está pensando. ⸻ — Você precisa voltar pra dentro disso aqui. ⸻ — Eu já voltei. ⸻ — Não, você chegou. — ele corrige — Voltar é outra coisa. ⸻ — E qual a diferença? ⸻ — Responsabilidade. ⸻ Eu me recosto na cadeira. ⸻ — Já começou a cobrança? ⸻ — Já devia ter começado antes. ⸻ — Relaxa, velho. — digo, passando a mão na nuca — Eu não desaprendi. ⸻ — Espero que não. ⸻ — Confia. ⸻ Ele me encara de novo. Mais sério. ⸻ — Eu confio. — pausa — Mas não posso confiar só nisso. ⸻ — E no que mais? ⸻ — Em atitude. ⸻ Silêncio. ⸻ Eu sustento o olhar dele. ⸻ Porque sei exatamente o que ele quer dizer. ⸻ — Você vai ter. ⸻ Ele segura meu olhar por mais um segundo. E então… Assente. ⸻ — Hoje à tarde tem reunião. ⸻ — Já começou. ⸻ — No sindicato rural. ⸻ — Sobre? ⸻ — Festa de laço. — ele começa a organizar os papéis enquanto fala — Organização geral. ⸻ — E? ⸻ — Leilões. — ele continua — Venda de gado, compra, negociação de lote. ⸻ — Normal. ⸻ — Equinos também. ⸻ — Interessante. ⸻ — Suínos. — ele continua — Aves. ⸻ — Então vai ser cheio. ⸻ — Vai. ⸻ Ele para. Me encara. ⸻ — E importante. ⸻ — Sempre é. ⸻ — Não. — ele corrige — Esse mais. ⸻ — Por quê? ⸻ — Movimento maior esse ano. — pausa — Mais gente de fora. ⸻ Eu levanto uma sobrancelha. ⸻ — Turista? ⸻ — Investidor. ⸻ Melhor ainda. ⸻ — E? ⸻ — E que todos os sócios devem comparecer. ⸻ Eu solto um pequeno riso. ⸻ — “Devem”. ⸻ — Devem. ⸻ — Ou seja… — cruzo os braços — Eu vou. ⸻ — Você vai. ⸻ Silêncio. ⸻ — Que horas? ⸻ — Quatro. ⸻ — Dá tempo. ⸻ — Dá. ⸻ Ele junta os papéis, batendo levemente na mesa pra alinhar. ⸻ — Quero você comigo. ⸻ — Eu vou. ⸻ — Não é “ir”. — ele insiste — É participar. ⸻ — Eu sei. ⸻ — Então mostra. ⸻ Eu levanto. ⸻ — Vou mostrar. ⸻ Ele observa. ⸻ — Vai fazer o quê até lá? ⸻ — Arrumar minhas coisas. ⸻ — Só isso? ⸻ — Por enquanto. ⸻ Ele balança a cabeça. ⸻ — Não perde tempo. ⸻ — Nunca perdi. ⸻ — Perdeu sim. ⸻ Eu paro na porta. Olho pra ele. ⸻ — Mas já voltei. ⸻ Silêncio. ⸻ Ele me encara. E, dessa vez… Não corrige. ⸻ Só assente. ⸻ Saio do escritório. ⸻ O sol já está mais forte agora. O movimento aumentou. ⸻ Mas minha cabeça… Está em outro lugar. ⸻ Reunião. Negócio. Responsabilidade. ⸻ E, pela primeira vez em muito tempo… Eu sinto isso diferente. ⸻ Não como obrigação. Mas como… início. ⸻ 🌾 GANCHO FINAL Talvez voltar pra casa não fosse só sobre trabalho. Talvez… Fosse sobre finalmente encarar coisas que eu sempre evitei.
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