📖 CAPÍTULO 5 — ASSUNTOS DE HOMEM GRANDE
👨🌾 FAEL NARRANDO
Depois de descarregar metade da minha vida da caminhonete — e deixar a outra metade pra depois, porque ninguém é de ferro — eu paro por um segundo no meio do terreiro da fazenda.
O sol já subiu.
E junto com ele…
O movimento.
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Tem gente passando com cavalo.
Tem funcionário levando ração.
Tem barulho de caminhão lá no fundo.
A fazenda nunca dorme de verdade.
Ela só muda de ritmo.
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Eu passo a mão no rosto, respirando fundo.
O cheiro da terra misturado com ração, com madeira, com sol quente…
Isso aqui não muda.
E ainda bem.
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Olho na direção da estrada que leva pra cidade.
Ela começa ali, depois da porteira.
Uma linha de terra batida que corta o verde.
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— Quinze quilômetros…
Murmuro baixo, quase sorrindo.
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Quinze quilômetros.
Não é longe.
Nunca foi.
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Aqui, a gente faz esse caminho todo dia.
Pra resolver coisa.
Pra comprar.
Pra vender.
Pra ir na loja da dona Arlete…
Pra ir no banco.
Pra resolver papel.
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A cidade não é distante.
Mas também não invade.
E isso é perfeito.
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Porque aqui…
A gente trabalha.
E lá…
A gente resolve.
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Sem misturar demais.
Sem bagunçar as coisas.
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Dou uma última olhada ao redor e sigo em direção ao escritório do meu pai.
Fica ali, separado da casa principal.
Não muito longe.
Mas o suficiente pra deixar claro que ali…
É trabalho.
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Sempre foi assim.
Desde pequeno, eu já sabia:
Casa é casa.
Escritório é assunto sério.
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A porta está encostada.
E, antes mesmo de abrir, eu já sei o que vou encontrar.
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Empurro devagar.
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E lá está ele.
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Sentado atrás da mesa.
Óculos baixo no nariz.
Papel espalhado.
Caneta na mão.
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Meu pai.
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— Já começou sem mim?
— digo, encostando na porta.
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Ele nem levanta o olhar.
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— Você que chegou atrasado na vida.
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Eu entro, rindo.
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— Não exagera, cheguei hoje.
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— Poderia ter chegado antes.
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— Poderia.
— concordo, puxando uma cadeira e sentando na frente dele — Mas não quis.
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Ele levanta os olhos.
Me encara.
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— Pelo menos é sincero.
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— Sempre fui.
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Ele balança a cabeça de leve, voltando a olhar os papéis.
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— O que é isso aí?
— pergunto, inclinando o corpo pra frente.
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— Nota de gado.
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— Compra?
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— Venda.
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— Boa?
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Ele respira fundo.
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— Razoável.
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— Traduz.
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Ele apoia a caneta na mesa.
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— Podia ter sido melhor.
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— Sempre pode.
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— Mas não foi.
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Silêncio.
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Eu observo os papéis.
Os números.
As anotações.
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— De quem?
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— Do lote da Boa Esperança.
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Minha favorita.
Claro que eu ia prestar atenção.
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— E por que não foi melhor?
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Ele cruza os braços.
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— Mercado oscilando.
— pausa — E decisão tardia.
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— Sua ou de quem?
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Ele me encara.
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— Agora é minha.
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Eu sorrio de canto.
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— Justo.
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Ele volta a mexer nos papéis.
Mas eu sei.
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Ele está pensando.
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— Você precisa voltar pra dentro disso aqui.
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— Eu já voltei.
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— Não, você chegou.
— ele corrige — Voltar é outra coisa.
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— E qual a diferença?
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— Responsabilidade.
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Eu me recosto na cadeira.
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— Já começou a cobrança?
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— Já devia ter começado antes.
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— Relaxa, velho.
— digo, passando a mão na nuca — Eu não desaprendi.
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— Espero que não.
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— Confia.
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Ele me encara de novo.
Mais sério.
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— Eu confio.
— pausa — Mas não posso confiar só nisso.
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— E no que mais?
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— Em atitude.
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Silêncio.
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Eu sustento o olhar dele.
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Porque sei exatamente o que ele quer dizer.
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— Você vai ter.
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Ele segura meu olhar por mais um segundo.
E então…
Assente.
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— Hoje à tarde tem reunião.
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— Já começou.
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— No sindicato rural.
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— Sobre?
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— Festa de laço.
— ele começa a organizar os papéis enquanto fala — Organização geral.
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— E?
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— Leilões.
— ele continua — Venda de gado, compra, negociação de lote.
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— Normal.
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— Equinos também.
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— Interessante.
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— Suínos.
— ele continua — Aves.
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— Então vai ser cheio.
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— Vai.
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Ele para.
Me encara.
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— E importante.
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— Sempre é.
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— Não.
— ele corrige — Esse mais.
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— Por quê?
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— Movimento maior esse ano.
— pausa — Mais gente de fora.
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Eu levanto uma sobrancelha.
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— Turista?
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— Investidor.
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Melhor ainda.
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— E?
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— E que todos os sócios devem comparecer.
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Eu solto um pequeno riso.
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— “Devem”.
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— Devem.
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— Ou seja…
— cruzo os braços — Eu vou.
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— Você vai.
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Silêncio.
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— Que horas?
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— Quatro.
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— Dá tempo.
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— Dá.
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Ele junta os papéis, batendo levemente na mesa pra alinhar.
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— Quero você comigo.
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— Eu vou.
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— Não é “ir”.
— ele insiste — É participar.
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— Eu sei.
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— Então mostra.
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Eu levanto.
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— Vou mostrar.
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Ele observa.
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— Vai fazer o quê até lá?
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— Arrumar minhas coisas.
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— Só isso?
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— Por enquanto.
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Ele balança a cabeça.
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— Não perde tempo.
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— Nunca perdi.
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— Perdeu sim.
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Eu paro na porta.
Olho pra ele.
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— Mas já voltei.
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Silêncio.
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Ele me encara.
E, dessa vez…
Não corrige.
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Só assente.
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Saio do escritório.
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O sol já está mais forte agora.
O movimento aumentou.
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Mas minha cabeça…
Está em outro lugar.
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Reunião.
Negócio.
Responsabilidade.
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E, pela primeira vez em muito tempo…
Eu sinto isso diferente.
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Não como obrigação.
Mas como… início.
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🌾 GANCHO FINAL
Talvez voltar pra casa não fosse só sobre trabalho.
Talvez…
Fosse sobre finalmente encarar coisas que eu sempre evitei.