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1040 Palavras
📖 CAPÍTULO 4 — DE VOLTA PRA CASA 👨‍🌾 FAEL NARRANDO Tem um momento exato em que a estrada muda. Quem não é daqui… nem percebe. Mas eu percebo. Sempre percebi. ⸻ O asfalto vai acabando aos poucos. As casas vão ficando mais espaçadas. O movimento diminui. O barulho também. E, de repente… É só estrada de terra. Campo aberto. E silêncio. ⸻ Eu reduzo a velocidade da caminhonete, apoiando o braço na janela aberta. O vento entra forte. Seco. Quente. Com cheiro de terra. De mato. De casa. ⸻ Faz tempo. Tempo demais. ⸻ Solto um meio sorriso sozinho. ⸻ — É… não tem jeito. ⸻ Pode passar anos fora. Pode conhecer cidade grande. Pode se acostumar com prédio, barulho, gente demais… ⸻ Mas nada… Nada substitui isso aqui. ⸻ Minha caminhonete vem carregada. E quando eu digo carregada… É carregada mesmo. ⸻ Tem mala. Tem caixa. Tem roupa. Tem bota. Tem papel. Tem coisa que eu nem lembro mais por que trouxe. ⸻ Metade disso tudo eu provavelmente nem vou usar. Mas trouxe mesmo assim. ⸻ Porque voltar não é só chegar. É trazer a vida que eu estava vivendo comigo. Mesmo sabendo… Que aqui ela muda. ⸻ A fazenda aparece no horizonte. Grande. Imponente. Do jeito que sempre foi. ⸻ E, por mais que eu não fale isso em voz alta… Tem um orgulho ali. ⸻ Porque isso aqui… É nosso. ⸻ Viro a caminhonete devagar, entrando pelo portão principal. E já vejo movimento. ⸻ Claro que tem. Aqui nunca para. ⸻ Mas o que me chama atenção mesmo… É a casa. ⸻ A varanda cheia. A mesa posta. Gente sentada. ⸻ Minha família. ⸻ — Ah, não… — murmuro, rindo sozinho — já estão comendo sem mim. ⸻ Acelero um pouco. Só de propósito. ⸻ A caminhonete levanta poeira quando eu paro. E antes mesmo de desligar o motor… A porta da casa já abre. ⸻ — RAFAEL! ⸻ Minha mãe. Claro. Sempre ela. ⸻ Desço da caminhonete já rindo. ⸻ — Bom dia, dona Helena! ⸻ Ela vem rápido. Me abraça forte. Do jeito que só mãe abraça. ⸻ — Meu filho! Finalmente! ⸻ — Eu avisei que vinha hoje. ⸻ — Mas você demora tanto que a gente até duvida. ⸻ Eu rio. ⸻ — Dramática como sempre. ⸻ — E você irresponsável como sempre. ⸻ — Aí não, já começou cedo. ⸻ Antes que ela responda, outra voz entra. Mais firme. ⸻ — Chegou fazendo barulho como sempre. ⸻ Meu pai. ⸻ Ele está sentado, mas já me olhando. Sério. Do jeito dele. ⸻ Eu me aproximo. ⸻ — Bom dia, velho. ⸻ Ele levanta. E me puxa pra um abraço rápido. Forte. ⸻ — Demorou. ⸻ — Tava com saudade, né? ⸻ Ele me encara. ⸻ — Não se acha tanto. ⸻ Mas dá um leve sorriso. E isso já diz tudo. ⸻ — Tá melhor? ⸻ — Tô. ⸻ E ele está mesmo. ⸻ Não é homem de demonstrar muito. Mas eu conheço. ⸻ E então… A peça rara aparece. ⸻ — OLHA QUEM VOLTOU! ⸻ Meu irmão. ⸻ Dezoito anos. Energia de cinquenta. Juízo de cinco. ⸻ — Fala, praga — digo, já rindo. ⸻ Ele vem correndo. Quase me derruba. ⸻ — Achei que você tinha morrido! ⸻ — Calma aí, também não exagera. ⸻ — Você some, ué! ⸻ — Tava estudando. ⸻ Ele me olha. Depois olha pro meu pai. ⸻ — Ele tá mentindo. ⸻ Meu pai levanta uma sobrancelha. ⸻ — Eu sei. ⸻ Eu balanço a cabeça. ⸻ — Eu odeio essa casa. ⸻ — Mas não vive sem — meu irmão responde. ⸻ — Infelizmente. ⸻ Ele ri. ⸻ — Trouxe o quê pra mim? ⸻ — Eu? Nada. ⸻ — Como assim nada? ⸻ — Ué, não sou seu pai. ⸻ — Mas você é melhor. ⸻ — Isso é verdade. ⸻ — Eu ouvi isso! — meu pai fala da mesa. ⸻ — Mas ignorou, né? — respondo. ⸻ Ele me encara. ⸻ — Senta e come. ⸻ — Agora sim, ordem que eu gosto. ⸻ Me sento. ⸻ E, por alguns minutos… É só isso. ⸻ Café da manhã. Família. Bagunça leve. Conversa atravessada. ⸻ Minha mãe me serve como se eu ainda tivesse dez anos. ⸻ — Come mais. ⸻ — Já tem comida demais aqui. ⸻ — Você emagreceu. ⸻ — Eu tô bem. ⸻ — Tá nada. ⸻ — Mãe… ⸻ — Come. ⸻ Eu desisto. ⸻ Porque discutir com ela… É perder tempo. ⸻ — E aí, como foi lá? — meu pai pergunta. ⸻ — Foi bom. ⸻ — Aprendeu? ⸻ — Alguma coisa. ⸻ — Espero. ⸻ — Confia em mim. ⸻ — Eu confio. Só não confio no seu foco. ⸻ — Isso aí é detalhe. ⸻ Meu irmão ri. ⸻ — Ele só foca em mulher. ⸻ Eu olho pra ele. ⸻ — E você só foca em repetir de ano. ⸻ — Foi uma vez só! ⸻ — Duas. ⸻ — UMA E MEIA! ⸻ Minha mãe intervém. ⸻ — Chega vocês dois. ⸻ A gente se olha. E ri. ⸻ Porque, no fundo… É assim que funciona. ⸻ Caótico. Barulhento. Mas… completo. ⸻ Depois do café, levanto. ⸻ — Vou descarregar a caminhonete. ⸻ — Vai nada — meu irmão fala — eu vou. ⸻ — Você vai ajudar. ⸻ — Isso que eu quis dizer. ⸻ — Eu sei. ⸻ Saímos. ⸻ Abro a caçamba. ⸻ Ele olha. ⸻ — Você trouxe uma loja inteira? ⸻ — Eu sou organizado. ⸻ — Você é acumulador. ⸻ — Respeita. ⸻ — Pra quê tudo isso? ⸻ — Trabalho. ⸻ — E essas caixas? ⸻ — Também. ⸻ — E essa mala? ⸻ — Essencial. ⸻ — E essa outra? ⸻ — Mais essencial ainda. ⸻ Ele ri. ⸻ — Você não mudou nada. ⸻ Eu paro. Penso por um segundo. ⸻ — Ainda não. ⸻ Ele não entende. Claro que não. ⸻ E nem precisa. ⸻ Porque, naquele momento… Eu também não entendia. ⸻ 🌾 GANCHO FINAL Eu achava que estava voltando pra casa… Mas não fazia ideia… Que era aqui que minha vida ia mudar de verdade.
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