📖 CAPÍTULO 4 — DE VOLTA PRA CASA
👨🌾 FAEL NARRANDO
Tem um momento exato em que a estrada muda.
Quem não é daqui… nem percebe.
Mas eu percebo.
Sempre percebi.
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O asfalto vai acabando aos poucos.
As casas vão ficando mais espaçadas.
O movimento diminui.
O barulho também.
E, de repente…
É só estrada de terra.
Campo aberto.
E silêncio.
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Eu reduzo a velocidade da caminhonete, apoiando o braço na janela aberta.
O vento entra forte.
Seco.
Quente.
Com cheiro de terra.
De mato.
De casa.
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Faz tempo.
Tempo demais.
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Solto um meio sorriso sozinho.
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— É… não tem jeito.
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Pode passar anos fora.
Pode conhecer cidade grande.
Pode se acostumar com prédio, barulho, gente demais…
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Mas nada…
Nada substitui isso aqui.
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Minha caminhonete vem carregada.
E quando eu digo carregada…
É carregada mesmo.
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Tem mala.
Tem caixa.
Tem roupa.
Tem bota.
Tem papel.
Tem coisa que eu nem lembro mais por que trouxe.
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Metade disso tudo eu provavelmente nem vou usar.
Mas trouxe mesmo assim.
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Porque voltar não é só chegar.
É trazer a vida que eu estava vivendo comigo.
Mesmo sabendo…
Que aqui ela muda.
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A fazenda aparece no horizonte.
Grande.
Imponente.
Do jeito que sempre foi.
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E, por mais que eu não fale isso em voz alta…
Tem um orgulho ali.
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Porque isso aqui…
É nosso.
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Viro a caminhonete devagar, entrando pelo portão principal.
E já vejo movimento.
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Claro que tem.
Aqui nunca para.
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Mas o que me chama atenção mesmo…
É a casa.
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A varanda cheia.
A mesa posta.
Gente sentada.
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Minha família.
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— Ah, não… — murmuro, rindo sozinho — já estão comendo sem mim.
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Acelero um pouco.
Só de propósito.
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A caminhonete levanta poeira quando eu paro.
E antes mesmo de desligar o motor…
A porta da casa já abre.
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— RAFAEL!
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Minha mãe.
Claro.
Sempre ela.
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Desço da caminhonete já rindo.
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— Bom dia, dona Helena!
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Ela vem rápido.
Me abraça forte.
Do jeito que só mãe abraça.
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— Meu filho! Finalmente!
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— Eu avisei que vinha hoje.
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— Mas você demora tanto que a gente até duvida.
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Eu rio.
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— Dramática como sempre.
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— E você irresponsável como sempre.
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— Aí não, já começou cedo.
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Antes que ela responda, outra voz entra.
Mais firme.
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— Chegou fazendo barulho como sempre.
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Meu pai.
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Ele está sentado, mas já me olhando.
Sério.
Do jeito dele.
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Eu me aproximo.
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— Bom dia, velho.
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Ele levanta.
E me puxa pra um abraço rápido.
Forte.
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— Demorou.
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— Tava com saudade, né?
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Ele me encara.
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— Não se acha tanto.
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Mas dá um leve sorriso.
E isso já diz tudo.
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— Tá melhor?
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— Tô.
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E ele está mesmo.
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Não é homem de demonstrar muito.
Mas eu conheço.
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E então…
A peça rara aparece.
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— OLHA QUEM VOLTOU!
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Meu irmão.
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Dezoito anos.
Energia de cinquenta.
Juízo de cinco.
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— Fala, praga — digo, já rindo.
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Ele vem correndo.
Quase me derruba.
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— Achei que você tinha morrido!
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— Calma aí, também não exagera.
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— Você some, ué!
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— Tava estudando.
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Ele me olha.
Depois olha pro meu pai.
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— Ele tá mentindo.
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Meu pai levanta uma sobrancelha.
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— Eu sei.
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Eu balanço a cabeça.
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— Eu odeio essa casa.
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— Mas não vive sem — meu irmão responde.
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— Infelizmente.
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Ele ri.
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— Trouxe o quê pra mim?
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— Eu? Nada.
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— Como assim nada?
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— Ué, não sou seu pai.
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— Mas você é melhor.
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— Isso é verdade.
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— Eu ouvi isso! — meu pai fala da mesa.
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— Mas ignorou, né? — respondo.
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Ele me encara.
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— Senta e come.
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— Agora sim, ordem que eu gosto.
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Me sento.
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E, por alguns minutos…
É só isso.
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Café da manhã.
Família.
Bagunça leve.
Conversa atravessada.
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Minha mãe me serve como se eu ainda tivesse dez anos.
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— Come mais.
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— Já tem comida demais aqui.
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— Você emagreceu.
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— Eu tô bem.
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— Tá nada.
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— Mãe…
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— Come.
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Eu desisto.
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Porque discutir com ela…
É perder tempo.
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— E aí, como foi lá? — meu pai pergunta.
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— Foi bom.
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— Aprendeu?
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— Alguma coisa.
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— Espero.
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— Confia em mim.
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— Eu confio. Só não confio no seu foco.
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— Isso aí é detalhe.
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Meu irmão ri.
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— Ele só foca em mulher.
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Eu olho pra ele.
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— E você só foca em repetir de ano.
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— Foi uma vez só!
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— Duas.
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— UMA E MEIA!
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Minha mãe intervém.
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— Chega vocês dois.
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A gente se olha.
E ri.
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Porque, no fundo…
É assim que funciona.
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Caótico.
Barulhento.
Mas… completo.
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Depois do café, levanto.
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— Vou descarregar a caminhonete.
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— Vai nada — meu irmão fala — eu vou.
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— Você vai ajudar.
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— Isso que eu quis dizer.
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— Eu sei.
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Saímos.
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Abro a caçamba.
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Ele olha.
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— Você trouxe uma loja inteira?
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— Eu sou organizado.
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— Você é acumulador.
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— Respeita.
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— Pra quê tudo isso?
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— Trabalho.
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— E essas caixas?
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— Também.
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— E essa mala?
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— Essencial.
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— E essa outra?
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— Mais essencial ainda.
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Ele ri.
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— Você não mudou nada.
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Eu paro.
Penso por um segundo.
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— Ainda não.
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Ele não entende.
Claro que não.
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E nem precisa.
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Porque, naquele momento…
Eu também não entendia.
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🌾 GANCHO FINAL
Eu achava que estava voltando pra casa…
Mas não fazia ideia…
Que era aqui que minha vida ia mudar de verdade.