📖 CAPÍTULO 3 — ROTINA DE UMA VIDA QUE NÃO É SÓ MINHA
🌸 JÚLIA NARRANDO
O despertador toca antes mesmo do sol nascer.
E, por alguns segundos…
Eu esqueço onde estou.
Não completamente.
Mas o suficiente pra sentir aquele pequeno alívio…
aquele instante raro em que minha mente ainda não lembrou de tudo que eu preciso fazer.
Mas ele dura pouco.
Dura quase nada.
Porque, no segundo seguinte, a realidade volta.
E, com ela… a responsabilidade.
⸻
Abro os olhos devagar, encarando o teto do meu quarto.
O mesmo quarto que sempre foi meu.
O mesmo onde cresci.
O mesmo onde, anos atrás, eu só me preocupava com prova, roupa e futuro.
Engraçado pensar nisso agora.
Porque hoje…
O futuro virou presente.
E o presente não me dá escolha.
⸻
Respiro fundo e me sento na cama.
O chão frio toca meus pés e me desperta de vez.
Mais um dia.
Mais uma rotina.
Mais uma sequência de coisas que precisam de mim.
⸻
Olho para o relógio.
Ainda está cedo.
Muito cedo.
Mas nunca cedo demais.
⸻
Levanto, prendo o cabelo em um r**o baixo e caminho até a janela.
O céu ainda está em tons escuros, mas já dá sinais de que o dia vai começar.
E comigo…
Ele sempre começa antes.
⸻
Não fico muito tempo ali.
Não posso.
⸻
Saio do quarto e caminho pelo corredor silencioso.
A casa ainda dorme.
E, por um instante, eu gosto disso.
Gosto desse silêncio.
Dessa pausa.
Porque eu sei que, em poucos minutos…
Tudo ganha vida.
⸻
Vou direto para a cozinha.
E lá já tem alguém acordada.
Como sempre.
⸻
— Bom dia, minha filha.
A voz da minha avó, Arlete, preenche o ambiente com aquele tom calmo que só ela tem.
Ela está de pé, já organizando algumas coisas.
Café passado.
Pão separado.
Tudo no lugar.
⸻
— Bom dia, vó — respondo, me aproximando e dando um beijo em seu rosto.
Ela segura meu braço por um segundo.
Aquele gesto simples.
Mas cheio de significado.
⸻
— Dormiu bem?
Eu poderia mentir.
Dizer que sim.
Mas ela me conhece demais.
⸻
— Dormi o suficiente.
Ela sorri de canto.
Como se entendesse exatamente o que isso significa.
⸻
— Já é mais do que muita gente tem.
⸻
E é.
⸻
Pego uma caneca e sirvo café.
O cheiro invade tudo.
Aquece.
Acalma.
Mas não desacelera.
⸻
— As meninas ainda estão dormindo? — pergunto.
— Estão. Mas já já eu vou acordar as duas.
— Deixa que eu acordo — respondo automaticamente.
⸻
Porque isso também faz parte.
⸻
Antes disso, começo a organizar o café da manhã.
Nada exagerado.
Mas também não é qualquer coisa.
⸻
Corto frutas.
Arrumo pão.
Separo queijo.
Coloco tudo com cuidado.
Porque, mesmo sendo rotina…
Eu gosto que seja bem feito.
⸻
Também começo a preparar os lanches.
Cada uma tem seu gosto.
E eu sei todos.
⸻
Cecília prefere algo mais leve.
Catarina gosta de doce.
E eu faço questão de equilibrar.
⸻
Enquanto faço isso, sinto os passos leves vindo pelo corredor.
⸻
— Bom dia…
A voz ainda sonolenta de Catarina aparece antes dela.
Ela surge na porta, com o cabelo bagunçado e os olhos meio fechados.
⸻
Eu sorrio.
Sempre sorrio quando vejo ela assim.
⸻
— Bom dia, minha pequena.
Ela vem direto pra mim.
Me abraça.
Aquele abraço apertado, quente…
Que parece dizer tudo sem precisar de palavra.
⸻
— Eu não queria ir pra escola hoje…
Eu rio baixo.
⸻
— Isso não é novidade.
⸻
Ela faz uma careta.
⸻
— Mas hoje é mais sério.
⸻
Antes que eu responda, outra voz surge.
⸻
— Ela fala isso todo dia.
Cecília aparece, já mais desperta, cruzando os braços e encostando na parede.
⸻
— Eu não falo todo dia!
— Fala sim.
— Não falo!
— Fala.
⸻
Eu balanço a cabeça, segurando o sorriso.
⸻
— Chega vocês duas.
⸻
As duas me olham.
E, mesmo com a pequena discussão…
Se aproximam.
⸻
— Vem, senta — digo.
⸻
Elas obedecem.
Sempre obedecem.
Não por medo.
Mas por respeito.
E isso…
Significa mais do que qualquer autoridade.
⸻
Sentamos juntas.
E, por alguns minutos…
Somos só isso.
Uma família.
⸻
Sem problemas.
Sem peso.
Sem passado.
⸻
Só nós três.
E a vó, observando tudo com aquele olhar que entende mais do que fala.
⸻
— Já fizeram a tarefa? — pergunto.
⸻
Cecília revira os olhos.
⸻
— Já, Júlia.
⸻
Eu levanto uma sobrancelha.
⸻
— Quer que eu confira?
⸻
Ela suspira.
⸻
— Não precisa…
— Então traz aqui.
⸻
Ela levanta.
Vai até a mochila.
E traz o caderno.
⸻
Confiro.
Com calma.
Com atenção.
⸻
Porque não é só sobre estudar.
É sobre cuidado.
⸻
— Tá certo — digo.
⸻
Ela sorri de leve.
E isso já vale tudo.
⸻
— E você? — olho para Catarina.
⸻
Ela abaixa o olhar.
⸻
— Eu fiz… mais ou menos…
⸻
— Mais ou menos não existe.
⸻
Ela suspira.
E levanta.
⸻
— Vou pegar…
⸻
Enquanto isso, Cecília já está de pé.
⸻
— Júlia, me ajuda com a roupa depois?
⸻
— Ajudo.
⸻
E ajudo mesmo.
⸻
Depois do café, seguimos a rotina.
⸻
Subimos.
Cada uma para seu quarto.
⸻
Primeiro vou com Catarina.
Arrumo o cabelo dela.
Escolho algo confortável.
Simples.
Mas bonito.
⸻
Ela gira no espelho.
⸻
— Tô bonita?
⸻
— Sempre.
⸻
Depois vou para Cecília.
⸻
Com ela, é diferente.
Ela já tem opinião.
Já quer escolher.
Já questiona.
⸻
Mas ainda pede minha ajuda.
E eu gosto disso.
⸻
— Essa ou essa? — ela pergunta, segurando duas blusas.
⸻
Eu analiso.
⸻
— Essa.
⸻
Ela confia.
⸻
E veste.
⸻
Quando descemos, a casa já está mais viva.
Cleusa chegou.
Como sempre.
Pontual.
⸻
— Bom dia, meninas!
⸻
Ela já está organizando tudo.
⸻
— Bom dia, Cleusa — respondemos quase juntas.
⸻
Ela trabalha com a gente há anos.
É mais que ajuda.
É parte da casa.
⸻
Com tudo pronto…
Pegamos as mochilas.
⸻
— Vamos?
⸻
As duas assentem.
⸻
Saímos.
⸻
O ar da manhã ainda está fresco.
⸻
Caminhamos até a garagem.
⸻
E lá está ela.
⸻
Minha Hilux.
Nova.
Impecável.
⸻
Não é luxo.
É necessidade.
⸻
Entro.
Elas entram.
⸻
E seguimos.
⸻
O caminho até a cidade é conhecido.
⸻
Mas nunca automático.
⸻
Sempre atento.
Sempre consciente.
⸻
Deixo Catarina primeiro.
Depois Cecília.
⸻
Antes de sair, Catarina me abraça.
⸻
— Te amo.
⸻
— Eu também.
⸻
Cecília apenas sorri.
Mas o olhar dela diz tudo.
⸻
E então…
Eu sigo.
⸻
Sozinha.
⸻
De volta pra fazenda.
⸻
De volta pra vida que eu escolhi.
Ou que me escolheu.
⸻
🌾 GANCHO FINAL
Todo mundo acha que força é não sentir.
Mas ninguém nunca me ensinou…
Como continuar sendo forte…
Quando alguma coisa começa a mexer comigo de verdade.