Uma vida por outra

1564 Palavras
Estou sentado no sofá da sala olhando para o próprio di@bo. Duvido muito que ele se lembre de mim, que se lembre de uma simples recepcionista. Para meu azar estou errado. “Você continua linda passarinho” ele fala com frieza. Os homens dele estão vasculhando a casa, ouvindo eles quebrarem algumas coisas no andar de cima e estremeço a cada barulho. Meu pai está ao meu lado tremendo de frio. Depois que eles invadiram a casa, arrastaram meu pai para o banheiro e o colocaram embaixo do chuveiro gelado, enquanto eu fazia companhia para Leonardo. “Então senhor Zenatti ficou sabendo que gastou quinze mil reais na minha casa de aposta, sendo que eu me deve cinquenta mil” Leonardo começa a falar arrepios na minha pele. “Sinto muito” meu pai diz e eu o encaro com ódio. A facilidade com que ele diz essas palavras quando sua vida está em perigo me irrita. “Não quero seus sentimentos, quero meu dinheiro” Leonardo responde irritado. “E-eu não tenho” ele fala baixo e fecho os olhos para não precisar encarar esse infeliz. “Então vai morrer” as palavras saem da boca de Leonardo como se falasse da previsão do tempo. Vejo os homens dele retornarem com algumas coisas que julgam ser valiosas, eles entregam para Leonardo avaliar e ele ri. “Isso não paga nem o começo da dívida” ele fala jogando as coisas no chão e se levanta. Vejo quando ele saca a arma e a engatilha para em seguida mirar na cabeça do meu pai. “Espere, espere” meu pai cai de joelhos implorando. Eu deveria sentir pena, estar em lagrimas e implorando com ele, mas tudo o que eu faço é assistir com satisfação. “Você vai me pagar?” Leonardo pergunta em um tom sarcástico. “Eu posso te pagar com outra vida” Meu pai fala e fico confuso “O termo dizia que a dívida vale uma vida, não necessariamente a minha” Leonardo demonstra um pouco de surpresa por um instante antes de assumir sua faixada sombria. “Eu vou pagar, vou dar minha filha como pagamento” as palavras do meu pai apertam um nó na minha garganta. Pulo do sofá me afastando deles. “Não, eu não tenho nada a ver com isso” respondeu rápido em claro desespero. Olho para Leonardo que está pensativo. “Quando é seu aniversário de vinte e um anos?” ele perguntou com a voz fria. Como ele sabe a minha idade? “Em uma semana” respondo com uma pequena esperança. Os olhos de Leonardo escurecem antes dele responder. “Sinto muito passadorinho, você ainda pertence a ele” Leonardo fala me olhando com seus olhos cheios de segredos “Ou melhor, pertence a mim”. As palavras dele cravam o último prego no meu caixão. “Não, não, não” digo em pânico “Eu não sou a posse de ninguém, não posso ser usado para pagar uma dívida que não é minha” Leonardo guarda a arma no cós da calçada e caminha em minha direção com tranquilidade. “Prometo não te machucar muito passarinho” ele fala e para na minha frente, sua mão encosta no meu queixo e ele ergue meu rosto. “Não faça isso” imploro com os olhos cheios de lágrimas. “Eu faço o que eu quero” ele respondeu com o tom sombrio. Sua mão solta o meu queixo e se fecha sobre meu pulso como algemas. Tento meu soltar, puxo meu corpo para trás e esmurro ele numa tentativa falha. Meu pai assiste tudo isso sem se importar. “Pai não faça isso, pai” grito desesperada “Pai, por favor, por favor”. Meu pai me encara e depois Leonardo. Ele se aproxima de nós e uma esperança se acende no meu peito. “Acho que ela vale mais do que a dívida que tenho com você” meu pai fala olhando para mim. Leonardo para de se mover e encara meu pai com aquele olhar que me faz arrepiar. "Posso ter um bônus nas casas de apostas? Sabe, para quitar a diferença" suas palavras quebram meu coração e me cegam de ódio. Consigo me aproveitar do aperto fraco de Leonardo e me solto, correndo. Não em direção à rua, ou para a possível liberdade, mas em direção ao meu pai. Eu me jogo nele, arranhando seu rosto e gritando de raiva, meus gritos se misturando às lágrimas e a todo o ódio que sinto por aquele homem. Os homens de Leonardo demoram muito para me tirar de cima do meu pai. E quando encaro a cara dele estou satisfeita com o resultado; seu rosto está sangrando e machucado, assim como meu coração. "Bom espetáculo, passarinho, agora vamos", diz Leonardo, apreciando a situação. Não protesto enquanto sou levada a um carro preto completamente filmado, estacionado em frente à casa. Leonardo entra em outro carro sem me olhar. Minhas mãos tremem, não sei se é pela dor, pela traição ou pelo fato de eu estar uma bagunça. Sou espremida entre dois homens de Leonardo. Percebo que um deles está me encarando e, ao me notar olhando, sorri com malicia. "Sabe, boneca, para onde você está indo, sugiro que se acalme e melhore o temperamento", diz o homem. "Se quiser, posso te ensinar a se comportar." Eu me encolho, e os homens no carro riem. "Você está com medo?", continua o mesmo homem que estava me incomodando. "Devia estar. O Leonardo mandou a gente te levar direto para a boate. Quem sabe você começa a trabalhar hoje." Meu estômago revira e minha visão fica turva. Muita informação, muitas emoções. "Talvez ela goste; seu corpo vai fazer dela uma estrela na balada", comenta o motorista. "Eles adoram carne fresca." Cada uma das palavras deles faz meu estômago revirar ainda mais. "Talvez Leo te teste primeiro. Aposto que você vai adorar que ele te fod@, gatinha", diz o homem ao lado do motorista com sotaque latino. "Quem sabe, talvez ele te divida com a gente mais tarde", comenta finalmente o homem que começou a me provocar. Minha mente evoca a imagem deles em cima de mim, me tocando. "Preciso vomitar", digo, cobrindo a boca com a mão para conter a vontade de vomitar. Os sorrisos dos homens somem quando percebem que não estou brincando. "Pare o carro, droga!" grita o homem ao meu lado, com medo de que eu vomite nele. O carro freia bruscamente e sou puxada para fora bem a tempo de esvaziar o estômago no meio-fio. Lágrimas mancham meu rosto enquanto meu corpo convulsiona de náusea. Tenho que segurar meu cabelo para trás para evitar que fique sujo; me sinto impotente, fraca e miserável. A culpa é toda daquele desgraçado; eu deveria ter ido embora, não sentido pena dele. Como sou idiot@! Quando termino, estou exausta. Os homens ao meu redor torcem o nariz para mim e, de longe, vejo Leonardo encostado no carro, fumando um cigarro como se nada estivesse acontecendo. Estou pronta para entrar no carro quando a voz fria do di@bo corta a noite. "Ela vai no meu carro", sua voz não é alta, nem precisa ser. Imagino que, se ele sussurrasse, seu tom ainda soaria como uma ordem. Os homens não protestam, mas eu protesto. Travo meu pé contra o asfalto e prefiro morrer a entrar no carro com ele. Seus homens podem ser porcos imundos, mas não me tocariam a menos que ele dê uma ordem. Leonardo, por outro lado, não precisa de permissão; ele pega o que quer. "Garota, não piore sua situação", diz um dos homens no meu ouvido antes de agarrar meu braço. "Eu não vou entrar no carro com ele", digo em voz alta para que Leonardo possa ouvir. "Prefiro morrer." A risada de Leonardo é sombria e me assusta mais do que a escuridão da noite. Ele se aproxima de mim, saca a arma, aponta-a para minha cabeça e me encara, desafiando-me a pedir a morte novamente. Minha teimosia vai me matar um dia. Levanto a cabeça e olho em seus olhos furiosamente. "Não sou seu brinquedo, não sou sua prostituta para você me arrastar para seus clubes de striptease, e muito menos sou sua para você comandar minha vida", as palavras saem da minha boca. Leonardo me encara com diversão, e isso me dá vontade de quebrar seus dentes. "Entre na porr@ do carro, ou eu te arrasto até lá do meu jeito", diz ele friamente. "Deixe-me ver você tentar", digo, sem me importar com a arma apontada para minha cabeça. Sinto que ele quer minha resistência, que ele adora quando eu luto. A primeira coisa que ele faz é guardar a arma, depois coloca a mão na minha nuca e puxa minha cabeça para trás. Deixo escapar um gemido de dor, e seu sorriso aumenta. "Toda ação tem uma consequência, passarinho", diz ele, enquanto aperta meu cabelo com mais força. Ele me arrasta consigo, e cada vez que tento me afastar, ele aperta mais forte. Sou jogada dentro do carro dele, que mais parece uma limusine do que um carro comum. "Lilian, espero que você se comporte e tudo ficará mais fácil para você", diz Leonardo, como se estivesse ensinando um cachorro. "Vá para o inferno", respondo, e ele sorri. "É para lá que vamos, passarinho."
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