Dividas

1203 Palavras
O som de algo quebrando no andar de baixo me desperta. O relógio na cômoda marca duas da manhã, e estou pronto para simplesmente me virar e voltar a dormir quando uma discussão começa dentro de casa. Ouço a voz do meu pai e de outros dois homens. "Você têm até o fim do dia ou pagara com a vida", ameaça o homem. "Eu vou arrumar o dinheiro, só tenham paciência comigo", implora meu pai. Não é preciso ser um gênio para saber que isso se trata de dívidas de jogo. Mais um dos vícios do meu pai. "Vamos voltar aqui com o chefe, e se vocs não tiver o dinheiro, vai morrer", diz um dos homens. Ouço a porta da frente bater, seguida os passos do meu pai subindo as escadas. Ele caminha direto para o seu quarto; ouço coisas sendo jogadas no chão. O som dura um tempo até a porta da frente se abrir novamente. Quanto ele deve? Ou a pergunta certa seria: para quem? Os poucos cassinos da cidade pertencem à máfia, e os pequenos bares alugam espaço deles. Pelo amor de Deus, que ele não deva nada ao di@bo. Levanto-me da cama, agitada, abro o armário e pego uma caixa com fundo falso. Guardo parte das minhas economias aqui; são apenas para emergências, já que minha renda principal é depositada no banco. Conto quinze mil reais e meu coração aperta ao pensar em ter que gastar o dinheiro da minha formatura com esse desgraçado. Você não é como sua mãe, Lilian. Lembro-me mentalmente: não vou abandonar meu pai, não como ela fez comigo. Separo o dinheiro para dar ao meu pai quando ele voltar e ligo para uma clínica de reabilitação. Essa será minha condição para ele. Desço para a sala e sento no sofá que cheira a cerveja. Olho para a casa, que está destruída. Coloco a cabeça entre as mãos e me pergunto onde errei. Fui uma pessoa horrível na minha vida passada? Meu pai logo retorna; pela primeira vez em meses, o vejo sóbrio. Seu olhar parece perdido; ele está cansado, com um olho roxo e parece estar com dor. Uma parte de mim fica feliz em vê-lo assim, que ele sabe exatamente como me sinto. "Filha?", ele chama quando nota minha presença. "Quanto você deve?", minha voz é fria. Em algum momento, perdi meu afeto por ele, perdi meu amor. A única coisa que nos conecta hoje é o mesmo sangue. "O quê?", ele pergunta, confuso, e eu reviro os olhos. "Perguntei quanto você deve na mesa de apostas", repito, com o tom irritado. Fod@-se. "E-eu", ele gagueja, envergonhado, "cinquenta mil reais." Faz tempo que não o vejo tão vulnerável. "Eu te ajudo a pagar isso, mas tem uma condição", digo com firmeza. "Quero que você se hospede em uma casa de recuperação amanhã." Ele me olha surpreso, abre a boca para protestar, mas eu o interrompo. "Se não fizer isso, você vai ter que dar um jeito de conseguir o dinheiro que precisa", digo, expondo minhas condições. "É isso ou nada de dinheiro." "Lily, querida, estou bem. Não preciso ficar internado", diz ele, aproximando-se. Dou alguns passos para trás e levanto a camisa, revelando meu abdômen, manchado pelos hematomas que ele causou. "Você não está bem, porr@!", grito para ele, e ele para de gozar. "Como alguém que está bem pode fazer isso com a própria filha?" Ele abre e fecha a boca algumas vezes, sem saber o que dizer. "Eu faço do seu jeito", diz ele após alguns segundos de silêncio. Pego o envelope com o dinheiro e o coloco na minha bolsa. "Chame-os para virem buscar o dinheiro", digo, mantendo o tom calmo e distante. "Aqui está um pouco, e eu pego o resto amanhã." Deixo que ele combine o método de entrega com os homens e subo para o meu quarto com o dinheiro. Chego à porta quando ouço meu pai se desculpar atrás de mim. Algo duro me atinge na cabeça, e o meu mundo escurece instantaneamente. **** Acordo com a cabeça latejando de dor. Toco o local e os meus dedos saem molhados de sangue. Levo alguns minutos para entender o que aconteceu e, quando me lembro, olho ao redor em busca da bolsa onde guardei o dinheiro. Encontro-a vazia ao meu lado. Lágrimas queimam em meus olhos, mas me recuso a chorar. Levanto-me ainda tonta. Meu celular marca que já são cinco da tarde. Passei o dia todo desmaiada. Ligo para meu pai e a ligação cai na caixa postal. Tento várias vezes e até deixo algumas mensagens na caixa postal. Como pude ser tão estúpida? Troco de roupa, determinada a sair e procurar aquele idiot@ bêbado. Coloco uma calça jeans preta e uma blusa branca, prendo o cabelo e calço um tênis Nike preto. Estou prestes a sair de casa quando a porta se abre. Vejo meu pai entrar cambaleando, o cheiro de álcool nele é repulsivo e me faz revirar o estômago. "Preciso de mais dinheiro", sua voz sai arrastada, e não consigo conter a risada amarga que me escapa. "Você gastou o dinheiro", a afirmação sai de mim em tom de descrença. "Todo o dinheiro que ia te salvar." "Eu ia multiplicar, fui à casa de apostas dobrar o valor", explica ele, encostado na parede, sem conseguir ficar de pé. "Bem, onde está o dinheiro?", pergunto, mesmo sabendo que ele não tem mais nada. "Perdi, mas sei que se apostar mais uma vez, vou ganhar", diz meu pai com uma convicção distorcida. Ele não percebe o que fez, não sabe que está arriscando a própria vida. "E onde você perdeu o dinheiro?", pergunto, com medo da resposta. "Na casa do El Diablo", ele responde, e eu tenho que me sentar. Meu mundo gira por um momento, e me encontro em uma espiral de desespero. "Pelo menos você não saiu de lá devendo mais, não é?", pergunto com uma ponta de esperança. Ele olha para mim, depois para o chão, cambaleia um pouco e ri sozinho como se a situação fosse engraçada. "Talvez eu deva um pouco mais", diz ele, coçando a lateral da cabeça. "Meu Deus", digo, sentada na beira da escada. "O que eu fiz para merecer isso?" Ele me encara e franze a testa, mostrando que não gosta do tom da conversa. "Me respeite, eu ainda sou seu pai", diz ele, apontando o dedo para mim. "Não, você não tem o direito de me dizer isso. Você é só um bêbado que agride a própria filha e não vai parar até morrer", grito para ele, perdendo toda a paciência. "Você é uma vadi@ igual à sua mãe", ele xinga, e eu rio de desgosto. "Talvez eu devesse ter sido inteligente como ela", as palavras saem da minha boca, e eu nem me importo mais. "Você vai me dar o dinheiro ou não?", ele pergunta, sem se importar nem um pouco com as minhas palavras. Por um momento, quero me jogar em cima dele e bater nele do mesmo jeito que ele faz comigo. E a única razão pela qual não faço isso é porque alguém arromba a porta da frente, e nós dois prendemos a respiração quando Leonardo Bianchi entra em casa.
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