O som de algo quebrando no andar de baixo me desperta.
O relógio na cômoda marca duas da manhã, e estou pronto para simplesmente me virar e voltar a dormir quando uma discussão começa dentro de casa.
Ouço a voz do meu pai e de outros dois homens.
"Você têm até o fim do dia ou pagara com a vida", ameaça o homem.
"Eu vou arrumar o dinheiro, só tenham paciência comigo", implora meu pai.
Não é preciso ser um gênio para saber que isso se trata de dívidas de jogo. Mais um dos vícios do meu pai.
"Vamos voltar aqui com o chefe, e se vocs não tiver o dinheiro, vai morrer", diz um dos homens.
Ouço a porta da frente bater, seguida os passos do meu pai subindo as escadas.
Ele caminha direto para o seu quarto; ouço coisas sendo jogadas no chão.
O som dura um tempo até a porta da frente se abrir novamente.
Quanto ele deve? Ou a pergunta certa seria: para quem?
Os poucos cassinos da cidade pertencem à máfia, e os pequenos bares alugam espaço deles.
Pelo amor de Deus, que ele não deva nada ao di@bo.
Levanto-me da cama, agitada, abro o armário e pego uma caixa com fundo falso.
Guardo parte das minhas economias aqui; são apenas para emergências, já que minha renda principal é depositada no banco.
Conto quinze mil reais e meu coração aperta ao pensar em ter que gastar o dinheiro da minha formatura com esse desgraçado.
Você não é como sua mãe, Lilian.
Lembro-me mentalmente: não vou abandonar meu pai, não como ela fez comigo.
Separo o dinheiro para dar ao meu pai quando ele voltar e ligo para uma clínica de reabilitação. Essa será minha condição para ele.
Desço para a sala e sento no sofá que cheira a cerveja. Olho para a casa, que está destruída.
Coloco a cabeça entre as mãos e me pergunto onde errei. Fui uma pessoa horrível na minha vida passada?
Meu pai logo retorna; pela primeira vez em meses, o vejo sóbrio.
Seu olhar parece perdido; ele está cansado, com um olho roxo e parece estar com dor.
Uma parte de mim fica feliz em vê-lo assim, que ele sabe exatamente como me sinto.
"Filha?", ele chama quando nota minha presença.
"Quanto você deve?", minha voz é fria.
Em algum momento, perdi meu afeto por ele, perdi meu amor. A única coisa que nos conecta hoje é o mesmo sangue.
"O quê?", ele pergunta, confuso, e eu reviro os olhos.
"Perguntei quanto você deve na mesa de apostas", repito, com o tom irritado. Fod@-se.
"E-eu", ele gagueja, envergonhado, "cinquenta mil reais."
Faz tempo que não o vejo tão vulnerável.
"Eu te ajudo a pagar isso, mas tem uma condição", digo com firmeza. "Quero que você se hospede em uma casa de recuperação amanhã."
Ele me olha surpreso, abre a boca para protestar, mas eu o interrompo.
"Se não fizer isso, você vai ter que dar um jeito de conseguir o dinheiro que precisa", digo, expondo minhas condições. "É isso ou nada de dinheiro."
"Lily, querida, estou bem. Não preciso ficar internado", diz ele, aproximando-se.
Dou alguns passos para trás e levanto a camisa, revelando meu abdômen, manchado pelos hematomas que ele causou.
"Você não está bem, porr@!", grito para ele, e ele para de gozar. "Como alguém que está bem pode fazer isso com a própria filha?"
Ele abre e fecha a boca algumas vezes, sem saber o que dizer.
"Eu faço do seu jeito", diz ele após alguns segundos de silêncio.
Pego o envelope com o dinheiro e o coloco na minha bolsa.
"Chame-os para virem buscar o dinheiro", digo, mantendo o tom calmo e distante. "Aqui está um pouco, e eu pego o resto amanhã."
Deixo que ele combine o método de entrega com os homens e subo para o meu quarto com o dinheiro. Chego à porta quando ouço meu pai se desculpar atrás de mim.
Algo duro me atinge na cabeça, e o meu mundo escurece instantaneamente.
****
Acordo com a cabeça latejando de dor. Toco o local e os meus dedos saem molhados de sangue.
Levo alguns minutos para entender o que aconteceu e, quando me lembro, olho ao redor em busca da bolsa onde guardei o dinheiro.
Encontro-a vazia ao meu lado. Lágrimas queimam em meus olhos, mas me recuso a chorar.
Levanto-me ainda tonta. Meu celular marca que já são cinco da tarde. Passei o dia todo desmaiada.
Ligo para meu pai e a ligação cai na caixa postal. Tento várias vezes e até deixo algumas mensagens na caixa postal.
Como pude ser tão estúpida?
Troco de roupa, determinada a sair e procurar aquele idiot@ bêbado.
Coloco uma calça jeans preta e uma blusa branca, prendo o cabelo e calço um tênis Nike preto.
Estou prestes a sair de casa quando a porta se abre.
Vejo meu pai entrar cambaleando, o cheiro de álcool nele é repulsivo e me faz revirar o estômago.
"Preciso de mais dinheiro", sua voz sai arrastada, e não consigo conter a risada amarga que me escapa.
"Você gastou o dinheiro", a afirmação sai de mim em tom de descrença. "Todo o dinheiro que ia te salvar."
"Eu ia multiplicar, fui à casa de apostas dobrar o valor", explica ele, encostado na parede, sem conseguir ficar de pé.
"Bem, onde está o dinheiro?", pergunto, mesmo sabendo que ele não tem mais nada.
"Perdi, mas sei que se apostar mais uma vez, vou ganhar", diz meu pai com uma convicção distorcida.
Ele não percebe o que fez, não sabe que está arriscando a própria vida.
"E onde você perdeu o dinheiro?", pergunto, com medo da resposta.
"Na casa do El Diablo", ele responde, e eu tenho que me sentar.
Meu mundo gira por um momento, e me encontro em uma espiral de desespero.
"Pelo menos você não saiu de lá devendo mais, não é?", pergunto com uma ponta de esperança.
Ele olha para mim, depois para o chão, cambaleia um pouco e ri sozinho como se a situação fosse engraçada.
"Talvez eu deva um pouco mais", diz ele, coçando a lateral da cabeça.
"Meu Deus", digo, sentada na beira da escada. "O que eu fiz para merecer isso?"
Ele me encara e franze a testa, mostrando que não gosta do tom da conversa.
"Me respeite, eu ainda sou seu pai", diz ele, apontando o dedo para mim.
"Não, você não tem o direito de me dizer isso. Você é só um bêbado que agride a própria filha e não vai parar até morrer", grito para ele, perdendo toda a paciência.
"Você é uma vadi@ igual à sua mãe", ele xinga, e eu rio de desgosto.
"Talvez eu devesse ter sido inteligente como ela", as palavras saem da minha boca, e eu nem me importo mais.
"Você vai me dar o dinheiro ou não?", ele pergunta, sem se importar nem um pouco com as minhas palavras.
Por um momento, quero me jogar em cima dele e bater nele do mesmo jeito que ele faz comigo.
E a única razão pela qual não faço isso é porque alguém arromba a porta da frente, e nós dois prendemos a respiração quando Leonardo Bianchi entra em casa.