Olho para o relógio pela milésima vez.
— Aconteceu algo?— Doutora Alma me avalia.— Você está inquieta hoje, Sophie.
Até pensei em inventar uma desculpa qualquer, mas Alma era minha psicóloga fazia quinze anos. Praticamente minha vida inteira, enganar ela estava fora de cogitação. Nem adiantava tentar, sabia que ia fracassar.
— A Gemma me convidou para dormir na casa dela.— Dou um grande suspiro.
— Você aceitou?
— Aceitei.— Exito um pouco antes de responder.
— Para mim está parecendo que ela te pressionou, até você ceder.
— Não foi bem assim.— Defendo minha namorada.— Ela me ama... e quer... t*****r*...
— Estamos aqui para falar de você, e como você se sente com isso.
Brinco com um cacho do meu cabelo, enrolando em meu dedo.
— Não sei porque para as pessoas sexo* é tão importante... é algo doloroso.
Minhas sobrancelhas se juntam quando algumas lembranças voltam a memória.
— Isso que aconteceu com você não foi sexo*, foi abuso. Não leve a relação s****l* como algo doloroso, ela deve ser prazerosa e quando feita com amor é melhor ainda. Você tem que se dar chance de viver essa nova experiência.
— E se eu quiser viver sem t*****r* o resto da minha vida?
Era um opção, quem sabe posso ir para o convento.
— Está no seu direito, há pessoas que vivem bem sem sexo. É isso que você quer?
Tapo meu rosto.
— Não sei, Alma... não sei. Gosto da Gemma, mas toda vez que ela me pressiona me sinto m*l, tento de todos os jeitos mudar de assunto. Só que chegou o fatídico dia que não tenha onde me esconder. Não quero ver aquele olhar de desaprovação no rosto dela, queria ser capaz de fazer isso com ela.
— Se você tem tantas incertezas não é a melhor hora para dar esse passo, converse com a Gemma, fale como se sente.
— Sei que para Gemma isso é importante, mas eu não sinto vontade... de... de fazer. Os beijos, os carinhos são suficientes para mim.
— Então você não sente desejo s****l?
— Nem sei definir o que é desejo sexual... como vou indentificar uma coisa que nunca senti?
— Pergunta difícil.— Ela ajeita os óculos.— Vai chegar o ponto que os beijos não serão suficiente, você vai querer ter uma conexão maior com a pessoa. Muitas vezes é algo tão irracional que você nem se dá conta do que está acontecendo, é como se teu corpo tivesse vontade própria.
— Parece algo bem difícil de indentificar, nunca senti nada nem perto disso.
Não consigo esconder a decepção em minha voz.
— Prometa que irá conversar com Gemma, melhor vocês esperarem mais um pouco.
A conversa não funcionou.
— Claro doutora.
Sabia que o amor não era algo simples, olha toda loucura que aconteceu com Anya e Reinier. Ela amou meu irmão, ele quebrou o coração dela, ela passou a odiar ele, ele se arrependeu, ela já estava namorando outra pessoa, ele correr atrás dela e agora os dois tão juntos, vão casar. Sinto também que com Athena e Oli será um caminho bem tortuoso também.
Então... isso pode ser um momento complicado agora, mas futuramente será apenas uma lembrança distante.
Depois da minha consulta semanal, volto para casa. Eu não bato bem da cabeça, sou toda ferrada psicologicamente, após tantos anos de terapia melhorei mas ainda não me encaixo. Gemma é a primeira garota que gostei, e ela me correspondeu, não posso continuar a desapontando.
Tomo um banho demorado, passo um hidratante para ficar cheirosa. Eu não sou tão vaidosa quanto minha irmã Athena, tenho um estilo bem mais discreto. Pelo menos aprendi alguma coisa sobre maquiagem com ela, está vindo a calhar agora. Quando termino me olho no espelho, admirando meu trabalho, não ficou tão r**m.
Durante todo o trajeto até a casa de Gemma, giro os anéis em meus dedos freneticamente. Ao ser deixada na porta respiro fundo para depois entrar.
Ao colocar os olhos em mim, Gemma sorri e me beija, ela não para, parece desesperada, empurro ela.
— Calma... — Digo tentando respirar com calma.
— Sim, você está certa, não preciso ter pressa.— Me abraça.— Temos a noite toda.
Essa frase dela me arrepia, não de um jeito bom.
Enquanto nós jantamos fiquei aeria, pensando num jeito de me acalmar, para o que ia acontecer. Dizia inúmeras vezes que eu queria aquilo, que amava Gemma.
Até vir para no quarto dela, enquanto minha namorada beija meu pescoço, subindo minha blusa, uma sensação estranha se cria em meu peito*. Ela me empurra para a cama
Não pense nisso, Sophie.
Gemma vai tirar minha calça e eu a impeço.
— O que foi agora, Sophie?— Gemma senta na cama.
— Nada, pode continuar.
Fecho os olhos, sinto quando ela abre minha calça e tira, seus dedos percorrem minha coxa. Quando eles alcançam minha calcinha, pulo da cama, é mais forte que eu.
Gemma me olha furiosa.
— Eu não consigo fazer isso.— Digo por fim.
— Você não me ama?
— Amo, Gemma... só não estou pronta para isso.
— Faz mais de seis meses que estamos juntas.— Dá para perceber que ela está furiosa.— Por mais quanto tempo terei que te esperar? Você sabe muito bem à quanto tempo quero fazer isso, quero te conhecer melhor. Mas você coloca barreiras em tudo, nem a sua casa conheço ainda.
— Por favor, tenha mais um pouco de paciência...
— Mais do que já tenho?— Ela ri sarcástica.— Não sei nada sobre você. Por acaso você é um agente da CIA disfarçado?
Não, sou da Máfia Italiana.
— Você diz que me ama mais não prova isso, só estou te pedindo uma prova do seu amor. — Gemma continua.
— Desculpa...— Coloco minha calça.— Devia ter dito que não queria fazer isso.
— Se sair por essa porta, tudo está terminado.— Gemma agarra meu braço.
— Você diz que me ama,mas vive me pressionando... não entende meu lado.
— Me diz qual o problema, então?... Você nunca fala sobre você.
Puxo meu braço.
— Vou ir para casa.
Saio daquele quarto, sei pelo tanto que meu coração batia que estava prestes a ter uma crise. Fico na porta da casa de Gemma olhando as estrelas, sei que mesmo que não veja sempre tem um segurança me escoltando.
O carro para na minha frente, entro reconhecendo o motorista como um dos homens que faz a segurança lá de casa.
— Me leva para casa.— Digo.
Apoio minha cabeça no vidro, vejo as casas passando pela janela. Logo estou na garagem de casa, caminho para meu quarto.
Porque minha cabeça tem que ser tão ferrada?
Algo que é normal para todos, é um bicho de sete cabeças para mim.
— Achei que ia dormir fora...
Dou um pulo ao escutar a voz do meu pai.
— Que susto.— Coloco a mão no peito.
— Não era minha intenção, picolla.
Pappa está fumando, a fumaça sai de sua boca se dissipando no ar.
Vou até a poltrona ao seu lado, sentando. Esse homem me acolheu como filha, antes dele a palavra "pai" era carregada de dor para mim. As vezes não me acho digna de tudo que ele e a mamma me deram.
— Aconteceu algo, Sophie?
Eles já tinham feito tanto por mim, era injusto mais uma vez os encher com meus problemas.
— Nada... já vou ir deitar.— Levanto da poltrona.
— Você não ia dormir na casa da sua namorada?
— Aconteceu um imprevisto, nada sério.
Não deixava de ser verdade.
Vou para meu quarto, ao olhar meu celular tinha uma série de mensagens de Gemma. Todas me cobrando uma conversa, que não podíamos continuar daquele jeito.
Só de pensar nisso minha cabeça doía.
A última coisa que queria era ter essa dita conversa com Gemma, precisava de um tempo para pensar. Se conseguisse colocar meus pensamentos no lugar, talvez conseguisse a dar o que ela tanto queria.
[...]
Na manhã seguinte as mensagens não pararam de chegar, como o semestre da faculdade terminou, não tem como nos encontramos por acaso. Estou distraída em meus pensamentos enquanto todos conversam durante o café da manhã. Hoje até Zayn está aqui, eles conversam algo sobre a máfia.
— Quando vai fazer sua viagem para San Petesburgo?— Pappa pergunta.
— Hoje à noite.— Zayn responde.— Reinier não irá comigo?
— Se dependesse dele sim.— Mamma diz.— Reinier não pode ficar o tempo todo emrabiçado com Anya, por mais que ele queira.
— O que você vai ir fazer mesmo em San Petesburgo?— Pergunto.
— Algo com a parte jurídica dos hotéis Continental, Ava gosta que dê tempo em tempos alguém cheque tudo. Ela é precavida até demais, com um negócio daquele tamanho, tem seus motivos.— Zayn explica.
— Posso ir junto?
Todos param e ficam me olhando.
San Petesburgo não era meu lugar preferido de férias, achava os primos Wallerius assustadores, tirando Anya. Mas eu queria sair da Itália sem ter que responder um monte de perguntas. E tinha a desculpa perfeita, afinal estava fazendo faculdade de Direito, e Zayn era advogado.
— Seria bom para mim aprender enquanto observo Zayn trabalhar.— Justifico.
— Se quiser pode acompanhar seu tio.— Minha mãe diz.
Então irei passar minhas férias cercada pelas serpentes Wallerius, devo estar desesperada mesmo. Se não der para trás até embarcar serei mais corajosa do que penso.
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