Henry Fontinelle
Até que enfim, Nova York.
Saio do jatinho e vejo meu irmão Juliano me esperando no estacionamento, encostado no carro com cara de poucos amigos.
— E aí, maninho. — ele fala, vindo em minha direção.
— E aí, cara. Como o pai tá?
— Igual. Estável… mas ainda na UTI. E a mãe? Só chora.
— Então vamos direto pro hospital.
— Achei que ia querer passar em casa…
— Não. Agora, é prioridade.
Subimos no carro e seguimos em silêncio. O caminho até o hospital parece ainda mais frio do que de costume. Quando estacionamos, minha mãe já está na recepção e vem em nossa direção com os olhos vermelhos e a voz embargada.
— Henry, meu amor… seu pai… — ela começa a chorar antes mesmo de terminar.
— Calma, mãe. O pai vai sair dessa. Ele é forte. Teimoso, mas forte.
— Eu avisei… falei tantas vezes pra ele parar de fumar, pra diminuir o ritmo no trabalho, mas aquele cabeça dura nunca me ouviu.
— A senhora sabe como ele é. Louco pela empresa, pelo controle. Nada que dissesse ia mudar isso.
— E foi isso que quase o matou…
— Algum médico já falou com vocês? — pergunto, tentando ser racional.
— Ainda não. — Juliano responde.
— E a universidade, meu filho? Você largou tudo?
— Já resolvi. Avisei que ficaria alguns dias fora. Tá tudo certo.
— Sabe… você devia voltar pra Nova York e assumir a empresa. — minha mãe diz, com o olhar firme.
— Mãe… a senhora sabe que eu não nasci pra ficar preso em sala de reunião, gravata e mesinha de café. Além disso, o Juliano tá à frente de tudo. Ele sabe dos processos, conhece os contratos…
— Mas você é o mais velho.
— E o mais impaciente. — falo sorrindo de leve. — Mas se um dia precisarem de mim… eu volto. Só não me peça pra ser algo que eu nunca fui.
Nesse momento, o médico aparece.
— Familiares do senhor Fontinelle?
— Aqui. — Juliano se adianta.
— Sou o doutor Valter Santin.
— Doutor… como meu pai está? — pergunto, direto.
— Ele está bem agora, mas tivemos que realizar um cateterismo de urgência.
— Um cateterismo? — minha mãe repete, assustada.
— Sim. Havia obstruções em duas artérias coronárias. Fizemos uma angioplastia para desobstruí-las.
— Isso é sério? — ela pergunta.
— Já foi. Agora o importante é ele descansar, evitar estresse e, claro, parar com o cigarro de vez.
— Posso vê-lo?
— Claro. Está sedado, mas pode entrar.
Minha mãe vai até o quarto primeiro. Eu e Juliano ficamos esperando. Depois de alguns minutos, seguimos juntos.
Horas depois, já na casa da família, estamos na sala tomando café.
— Mãe, eu vou precisar voltar. Minhas aulas recomeçaram, e eu tenho responsabilidades em Chicago.
— Henry Fontinelle… você devia assumir a empresa do seu pai, ao invés de viver correndo atrás de estudante.
— Já tivemos essa conversa. O pai mesmo decidiu que o Juliano ficaria à frente de tudo. E eu confio nele.
— Mas você…
— Mãe… — interrompo — eu amo o que faço. Ensino porque me desafia, me dá liberdade, e me mantém longe de tudo o que um dia quase me destruiu.
— Ele só ama isso porque pega metade da sala. — Juliano resmunga.
— Engraçadinho. Nunca me envolvi com aluna, e você sabe disso. O que recebo são olhares, cantadas, nudes… mas eu não sou burro. Sei que basta um erro e minha carreira vai pro lixo.
— E aquela história do ano passado? — ele insiste.
— Fake. A menina se formou e inventou que teve algo só para chamar atenção.
— Um dia, você vai se aquietar, Henry. Me dar um neto.
— Nunca mãe, esta muito cedo para isso. Por enquanto… sem amarras.
— Tá bom. Vai lá se despedir do seu pai.
Subo com o meu café na mão e bato na porta do quarto. A voz dele responde, fraca, mas presente.
— Entra.
— Pai…
— Meu filho. Já vai?
— Preciso voltar para Chicago. Minhas aulas começaram.
— Hm… é, você tem a sua vida. Só tenta não demorar tanto para voltar dessa vez.
— Vou tentar. E pai… me desculpa por não assumir a empresa. Eu sei que esperavam isso de mim.
— Henry, você nunca foi de ficar onde não queria. E isso… é até admirável. Só me prometa uma coisa.
— Qual?
— Cuida de você. E pare de recusar a felicidade só porque teve o coração partido uma vez.
— Vou tentar. E pare você com os cigarros, entendeu?
— Tá… vou tentar.
Dou um leve abraço no velho e desço para me despedir da minha mãe e de Juliano. No carro, sigo direto para o aeroporto.
Já é noite quando chego em casa.
Entro, largo a mala no chão, vou pro banho e visto uma calça de moletom. Pela primeira vez hoje, não estou no modo “p*****a noturna”. Estou exausto, cheio de coisa na cabeça… e um pouco abalado.
Sento na cama com o notebook e começo a preparar a aula do dia seguinte. Esse semestre precisa ser diferente. Mais foco. Menos distração. E, com sorte, zero problema com alunas tentando subir no meu colo.
Apesar de tudo… algumas são mesmo provocantes. Tem umas carinhas novas este ano… e umas bundas que Deus caprichou.
Mas não. Sem isso. Sem riscos.
Olho o relógio. Meia-noite. Salvo os arquivos, desligo o notebook e me deito.
Dia seguinte
O despertador toca e me arranca do pouco sono que tive. Levanto, vou pro banho, me visto e desço pra preparar meu café. Elisa só vem à tarde, então me viro como posso.
Tomo o café, pego minhas coisas e sigo pra universidade. No caminho, o som alto ajuda a espantar o torpor.
Estaciono, vou direto pra sala dos professores, dou uma última revisada nas anotações, e quando faltam dez minutos pra aula começar, saio com meu material em mãos.
Estou prestes a entrar na sala quando alguém esbarra em mim. De novo.
— D-desculpa… — a voz feminina tropeça nas sílabas.
É ela.
A garota da diretoria. A dos papéis caídos. Dos olhos perdidos e inocentes.
— A gente precisa parar de se encontrar desse jeito. — digo, levantando uma sobrancelha.
Ela sorri, sem dizer nada, e sai andando rápido.
Só quando ela some, noto que deixou cair um livro.
“Orgulho e Preconceito” — Jane Austen.
Passo os dedos pela capa. Um clássico. Aparentemente, a garota tem bom gosto.
Guardo o livro e sigo para a sala. Ao entrar, os alunos já estão todos em seus lugares. Meus olhos automaticamente encontram os dela. Sentada lá no fundo.
Ela me encara, surpresa. E então desvia, como se tivesse sido pega em flagrante.
Tomo a palavra.
— Bom dia. Meu nome é Henry Fontinelle. Estaremos juntos neste semestre.
Alguns alunos murmuram “bom dia” de volta, outras — especialmente as meninas — me encaram como se eu fosse o próprio pecado encarnado.
— Vou ser direto. Não tolero atrasos, bagunça, celular, falta de respeito nem ‘corpo mole’. Quem quiser moleza, tem um fast food ali na esquina. Aqui, quero seriedade. Eu não sou babá. Quem perder prazos, não me procure com chororô.
Os olhares se ajustam.
— Agora, vamos nos apresentar. Quero nome, de onde veio e por que escolheu Direito.
Um a um, os alunos começam a falar.
E eu? Espero a apresentação daquela que... por acidente ou destino, anda caindo nos meus caminhos.