Capítulo 4

2117 Palavras
 Na verdade, eu sentia em meu âmago que eu já estava morta. Embora o meu pai não fosse muito presente em minha vida, ele me protegia de outras formas. Ele me policiava, administrava minha lista de amigos e os lugares onde eu podia ir. Isso mudou muito depois que minha mãe se foi, ele ficou cada vez mais distante, dormia na maior parte do tempo que eu estava em casa e chegava todo dia de manhã bêbado em casa. Quando ele finalmente disse que queria mudar, que iria parar, parte de mim quis acreditar, mas eu simplesmente não conseguia.    Ao ver meu pai parado na frente de casa com a cara zangada, eu senti um misto de alívio e pânico. Alívio por ele realmente não ter saído pra beber e pânico por ele estar me esperando chegar e eu ficar dentro carro de um menino suspeito por vários minutos antes de sair e entrar em casa.    Meu Deus, eu estou muito morta.   Eu só conseguia pensar nisso. Há poucos dias eu ainda limpava o vômito do meu pai e finalmente eu iria ser repreendida por ele, como um bom pai faria. Eu não sabia o que sentir. Alegria, frustração, medo, fúria. Eu só consegui ficar quieta e entrar com a cabeça baixa. Minha avó estava na sala vendo televisão e rapidamente se levantou ao me ver chegar.    - Oh, minha querida! Como está?    - Estou bem, vó. - ela colocou a mão em minha testa e juntou as sobrancelhas.    - Mas é claro que não está. O diretor do colégio ligou. Você estava tão febril que desmaiou e bateu forte a cabeça.    Atrás de mim, ouvimos a porta da frente se fechar fortemente.    - Acho que ela já está melhor, já que estava aos beijos com o filho dos Mayer no carro bem em frente a nossa casa.    - Pai!    - Katrinna Goldberg, isso é verdade?    Eu me virei e minha vó tinha um brilho sinistro nos olhos.    - Não!    - Não minta para mim, eu vi o carro balançando.    - Pai, o que o senhor está insinuando?   - Isso mesmo que está ouvindo.    - Katty, você...?   Eu não podia acreditar. Eles realmente achavam que eu era do tipo de garota que se entrega dentro de um carro?    - Vocês estão se ouvindo? O Tony é meu namorado agora, o que nós fazemos não é da conta de vocês e vocês insinuarem coisas tão impuras de mim eu nunca vou aceitar.    - QUEM PERMITIU QUE NAMORASSE? - meu pai começou a gritar e isso me deixou com muita raiva.    - Pra um pai tão presente como você , quase me convenceu que se importa. E não pai, ninguém precisa permitir que eu faça qualquer coisa. - ele ficou possesso com o sarcasmo em minha voz e ia gritar algo, quando o corte. - E não, vó. - disse olhando para ela agora. - Eu não estava transando no carro dele, eu ainda sou virgem.    Meu pai riu, como se não acreditasse e eu subi as escadas, batendo forte a porta do meu quarto.  Quem ele pensava que era? Passou longos anos enchendo a cara e fingindo que eu não existia e agora queria me dar lição de moral? Querendo se passar por bom pai? Isso eu não podia aceitar. Eu cuidei mais dele do que ele jamais cuidaria de mim numa vida.    - Bom, pelo menos agora ela parece uma adolescente normal. - ouvi minha vó dizendo no andar de baixo.   - Eu não gostei do tom de voz dela.  - E o que você esperava? Que ela fosse te aceitar de volta com os braços abertos? Sua figura paterna sumiu pra ela faz tempo, filho.    - Eu sei, mas...   - Você foi muito duro com ela. Ela nunca namorou por que ficava preocupada de te deixar sozinho e você acabar morrendo afogado no próprio vômito. Deixe ela aproveitar. Sabemos que não vai durar muito.    - Eu sei...    - A vida sempre cobra. Espere um pouco e seja mais gentil com essa filha tão doce que você possui.    - Tão doce que já está sendo atacada. Ela só tem 16 anos e está se esfregando em qualquer um.    - Filho, ele não é qualquer um.    - Ele ainda teve a audácia de abaixar o vidro e me dar boa noite, como se nada tivesse acontecido.    - Pelo menos o rapaz foi educado!   - Malandro, eu diria! Deveria ter descido e pedido mil perdões por molestar minha filha na frente de casa!   Eu não queria mais ouvir aquilo. Meu pai ainda achava estava com razão. Nossa casa era pequena, então se podia ouvir tudo. Eu decidi tomar um banho e tentar esquecer daquilo tudo, mas o Tony não devia ter me tirado da cabeça, pois assim que pisou em casa, me ligou.    - Oi. - disse ao atender.    - Oi, como foi?    - Péssimo. Ainda estão lá embaixo se questionando se eu ainda sou ou não virgem. - ouvi ele gargalhar.    - Que coisa!   - Ele ainda teve a audácia de dizer que o carro estava balançando!   - Meu Deus! Ele deve ter odiado quando eu abaixei o vidro e acenado, então.   - Com toda certeza! Achou desrespeitoso.    - Se eu soubesse, tinha te aproveitado um pouco mais.   - Tony!  - Brincadeira!    Nós dois rimos bastante. Ele era tão bom. Ele sabia que eu estaria sobrecarregada e me ligou para me acalmar. Claro que havia funcionado tão bem, que nem me lembrava mais o por que estava tão chateada. Só sua voz já aquecia meu corpo e minha alma. A imagem de seus olhos azuis me fazia delirar aos poucos e rir sozinha pelo quarto.   - Eu não acredito que eu namoro o garoto mais fofo do colégio.   - Eu não acredito que namoro a menina mais perfeita do Estado!   Esse lance de romance nunca fora minha praia. Odiava novelas, dramas românticos, comédias românticas e pessoas muito melosas na minha presença. Isso me dava calafrios. Até então eu nunca havia me apaixonado de verdade por alguém. Sempre fui muito centrada nos estudos e minhas competições pelo primeiro lugar com meus amigos me mantinham distraída. É claro que sempre tive uma quedinha por Tony Mayer, mas quem que um dia já o tenho visto na vida, não tinha? Forte, alto, a pele branquinha sem qualquer cicatriz, olhos azuis intensos e aquele sorriso maravilhoso que nem existem palavras que o descreva apropriadamente. Isso sem contar seus cabelos cor de mel, perfeitamente alinhados, como se um anjo tivesse acabado de esculpi-los.    Pela manhã eu me demorei para sair do quarto. Ficava olhando o relógio a cada dois minutos para ver se ele já estava perto de chegar. Eu andava tanto pelo quarto que o chão deve ter ficado gasto. Finalmente, quando faltavam cinco minutos pra hora marcada, ele buzinou suavemente, eu agarrei a bolsa e sai voada pelas escadas, sem me despedir de ninguém. Antes de fechar a porta da frente num baque, vislumbrei meu pai e minha avó surpresos na cozinha, ao me verem saindo furtivamente.    Me apressei na saída e já fui entrando no banco do carona arfando.    - Nossa, até parece que está fugindo da prisão.    - É quase isso, Tony. Agora por favor, vamos antes que eles venham atrás de mim.    A caminho da escola, Tony parecia tenso. Ele constantemente olhava a tela do telefone, verificando se havia mensagens. Eu estranhei.    - Está tudo bem, Tony?    - Está sim. - eu sabia que ele estava mentindo, mas preferi não insistir tanto. Pelo olhar era algo muito pessoal que ele não queria compartilhar naquele momento.    Sempre gostei de como a gente se entendia, mesmo quando palavras não eram necessárias. Ele estacionou na vaga de sempre e se demorou para sair do carro. Eu repousei minha mão na sua e lhe enviei um sorriso reconfortante.    - Não sei o que te aflige, mas espero que fique tudo bem.    - Vamos, Katty. Não quero que se atrase por minha causa. Já perdeu muitas aulas ontem.    - Não se preocupe comigo, não é como se eu fosse reprovar ou algo do tipo. - fiz um 'joinha' mostrando que eu era a melhor da turma.      Tony me deu um beijo e nos despedimos já no corredor do colégio.   - Te vejo no almoço. - disse ele.    É claro que o colégio inteiro não irou os olhos de nós dois desde que descemos do carro e ele me beijou no corredor. Todos cochichavam ao me ver passar, radiante, pelos corredores. Fui para a ala nos armários do segundo ano e me deparei com duas meninas me esperando chegar.    - Olá, Katrinna. - falou uma.    - Acho que precisamos conversar. - disse a outra.   Elas nem sequer uniformes usavam e eu não me lembrava de tê-las visto antes.   - Quem são vocês?  - Se nos acompanhar, vai descobrir. - a menina de longos cabelos trançados deu alguns passos em minha direção. Eu não gostei nada daquela situação.   - Não, muito obrigada. Eu preciso ir pra aula.    - Eu acho que não. - disse uma terceira voz, um menino. Ele estava atrás de mim e colocou uma faca em minha cintura.    Eu me assustei e fiquei dura como uma rocha, com o medo.   - Por favor. Eu não... deve ser um engano.    - Fique quieta e saia pelos fundos do colégio, agora.    Eu obedeci enquanto ele me pegava pelo braço e me arrastava a força pra fora. As meninas riam e nos seguiam com seus olhares sinistros.    Não sei se foi sorte ou não, mas um inspetor passava bem na hora e nos chamou a atenção.   - Ei! Onde pensam que estão indo.    Isso acabou assustando o menino e ele acabou enfiando a faca em mim. Eu na hora cai no chão, segurando a faca firmemente. Dependendo de onde tenha sido, se eu a retirasse, poderia morrer na hora.  As meninas passaram por mim e cuspiram, mostrando a língua em seguida.    - O seu fim está próximo, vagabunda.    - Espero que morra! - disse a outra.    Eles correram e sumiram no estacionamento. O inspetor me socorreu e me levo às pressas para a enfermaria. Alguns que me viram passar quando desfalecida cochichavam entre si. Eu sabia. Qual a probabilidade da mesma pessoa ir para a enfermaria dois dias seguidos? Seria karma? Por que estava acontecendo isso comigo... A ultima coisa que pensei foi em Tony. Tony... desde que entrara em minha vida, ela estava uma bagunça.    Hermin veio rapidamente me ver e solicitou que ligassem para a minha avó. O enfermeiro me olhou e nem mexeu na faca, agilmente pegou o telefone e solicitou a emergência, para que eu fosse levada ao hospital. Eu achei que desmaiaria logo, mas fiquei lúcida a maior parte do tempo. Mas... quando Tony adentrou a enfermaria, estava em estado de fúria.   - ...COMO NINGUÉM VIU TRÊS PESSOAS ESTRANHAS ENTRANDO NO COLÉGIO...? - ele gritava a plenos pulmões, como se as pessoas que estavam ali tinham qualquer culpa.    - Tony... não sei o que aconteceu, mas fique calmo, por favor. - tentava acalmá-lo a Hermin.    - Me acalmar? Se a mulher que eu amo morrer por causa dessas pessoas... Não sei do que serei capaz de fazer!   - Tony...?    Todos olharam para mim, que estava pálida na cama, parecendo morta. Acho que não haviam percebido que eu ainda estava acordada.    -Você acabou de dizer que me ama?    - Eu sei que não é o melhor dos momentos...   - É péssimo. - retrucou Hermin, de braços cruzados.    - Mas eu te amo. Mais do que tudo, Katty.    Eu não sabia me expressar. Seus olhos brilhavam, enquanto apertava fortemente minha mão, mostrando que dizia a verdade. Eu sabia que eu gostava muito dele, mas eu não queria mentir pra ele. A gente m*l se conhecia e tudo podia não passar do calor do momento, já que havia o perigo de eu morrer ali.    - Obrigada. - disse sorrindo e chorando ao mesmo tempo. - Isso me deixa muito feliz.    Típico namorico de ensino médio, minha avó diria. m*l se conhecem, nem uma semana de namoro e já diem "eu te amo". Poderia ser mais clichê? Meu estômago revirava só de pensar em um romance como esse, cheio de dengo e carinho, grude e 'mimimi'. E no entanto, eu estava ali. Nesta típica cena adolescente. Ao vivo e em cores. Chorando por uma declaração que eu acreditava ser vazia, mas que me emocionava até os ossos e me fazia chorar de alegria. Esta sou eu, senhoras e senhores. A menina mais hipócrita que existe. E é claro que depois de dizer tais palavras e chorar de alegria eu desmaiei finalmente, dando lugar à escuridão fria e vazia da minha mente.      
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