Capítulo 9

1899 Palavras
Preparo várias coisas para o piquenique e me ajudando, mamãe, ainda me sonda, tentando adivinhar algo que provavelmente já sabe. Não dou esse gostinho a ela e só digo que vou passar o dia com alguns amigos, sem citar nomes. Ela me olha com um sorriso quando vou dar boa noite a ela e papai que estão na sala e só posso imaginar o que ela já está planejando futuramente. Odeio pensar no quanto ela se decepcionará, mas não sei se posso evitar. Ela e todo o resto da aldeia é quem estão se alimentando com aquelas expectativas tolas e sem fundamento. Não posso fazer nada quanto a isso. Jenny vem antes do sol passar do meio do céu, um pouco antes do combinado de encontrarmos Hobi. Ela sente que tem algo me incomodando, e isso só deve se reforçar no instante em que ela entra no meu quarto. O meu cheiro está quase encoberto pelo cheiro dos vários vasos com jasmim, que decoram o lugar de maneira exagerada. Só preciso esperar por alguns instantes para ver Jenny tentando entender e quando o faz, a compreensão passa por seus olhos, deixando até que seu cheiro fique confuso. - Por quê? Não! Eu, nem sei qual é a pergunta certa aqui, amiga! – Jenny olha mais uma vez em volta e solta um suspiro alto. – Desde quando isso...? – Minha amiga desiste de tentar colocar a confusão em palavras e só se aproxima e se joga na minha cama. Me deito ao seu lado e ficamos olhando para o meu teto em silêncio, até ela quebrar. – Estamos ferradas... Bom, não posso fazer nada além de concordar. Encontramos com Hobi na saída dos espinhos, e seguimos para a cachoeira, andando devagar e aproveitando o clima agradável, conversando e brincando. Mesmo querendo esquecer tudo ainda me sinto meio presa. Assim que colocamos as toalhas no chão, embaixo de uma das árvores grandes com galhos baixos, a primeira coisa que Hobi faz, é começar a tirar a roupa. - Ya! Tá louco? – Jenny entra quase em combustão, de tão vermelha ao ver o corpo magro, porém esbelto do beta, que já só de calção, pisca para ela e sai correndo, se jogando na água. Rio alto de minha amiga ainda exalando um forte cheiro de algodão com uma pitada de limão ao fundo, o que me faz até levantar para dar espaço a ela, enquanto arrumo as roupas no nosso amigo. Jenny quando relaxa um pouco, se vira para mim. – Como vamos fazer amiga? O festival é daqui a três noites e eu ainda não sei o que dizer para meus pais. Eu não quero nenhum alfa, eu já quero alguém... – Jenny para na metade da frase, para olhar para Hobi, nadando tranquilamente com o sorriso de costume aberto em seu rosto. Ainda não colocamos nomes e nem falamos em voz alta o que nós duas sabemos o que acontece, mas eu entendo. Minha amiga pisca e se volta para mim, deixando um suspiro sair. – Você vai conversar com o Jin? Tenho vontade de dizer para ela o que descobri, mas percebo que não posso. Aquele não é meu segredo para contar. Mesmo que durante hoje, talvez minha amiga perceba, Jenny é incrivelmente observadora e intuitiva, até mais que eu. Antes que eu possa responder, Jin aparece por entre as árvores, vindo de uma parte um pouco mais ao leste de onde estávamos e de onde está nossa aldeia. Estranho, mas não pergunto, só pego uma das garrafinhas de suco de dentro de umas das nossas cestas e ofereço ao alfa, que parece um pouco ofegante. - Obrigado, Liv. Como está, Jenny? – Jin é educado, mas vejo que enquanto nos cumprimenta, olha ao redor. Procurando por algo, ou melhor, alguém. – Hoseok está animado, né? - Ele se jogou assim que chegamos aqui. – Jenny abre um sorriso amarelo e depois de olhar para nós dois, só se levanta. – Vou até lá molhar um pouco os pés. Sei que ela quer dar espaço para nós, e entendo o que tenho que fazer. Quanto mais cedo melhor, mas sinceramente depois da minha descoberta, não sei exatamente o que dizer ou fazer. Jin parece tanto, se não mais, desconfortável e confuso do que eu, mas ainda assim, tenta começar. - Nunca me interessei por ômega nenhum. – A voz dele é baixa, a ponto de a cachoeira quase conseguir se sobressair, mas como estamos lado a lado, eu não tenho problema de ouvi-lo. – Os cheiros doces demais me enjoavam, os cheiro suaves demais não me causavam euforia, até mesmo cheiros mais neutros não surtem efeito. – Jin se encosta contra a árvore soltando um suspiro e esfregando o rosto com força. – Eu percebi minha...preferência, desde que meu melhor amigo entrou no hut enquanto caçávamos. Ele tinha esquecido o dia certo que estava para vir e não teve nenhum sintoma que indicasse. Hyungsik nem ao menos ficou irritadiço e rude, como a maioria dos alfas fica. – Jin dá uma risada, balançando a cabeça, como se a lembrança fosse engraçada, mas vejo como aquilo é algo mais para ele. - E o que aconteceu? Não lembro de vê-lo juntos já tem... – Paro de falar quando Jin desvia o olhar. Não preciso de mais nada para entender, mesmo assim, Jin me conta. - Nós estávamos em forma de lobo quando ele começou a sentir o calor o atingindo, e o cheiro dele me tomou como um balde de água na cara e era tão bom, Liv. Eu tinha completa noção de que eu não deveria sentir aquilo, mas não é como se eu conseguisse controlar isso. – O vejo fechar os olhos, e seu rosto sempre tão belo se retorce um pouco em uma careta dolorida. – Ele voltou a ser humano e eu não queria, porque sabia como estaria minha situação, se é que me entende. – Assinto, mesmo nunca tendo passado exatamente por isso. Bom, não é bem verdade, lembrando quando ajudei Jimin, mas não é como se eu não conseguisse disfarçar, sou fêmea de qualquer jeito. Jin sendo macho não tem muita escapatória, principalmente estando nu. – Hyung percebeu, mesmo eu tentando controlar. Ele estava irritado por estar no calor e querer um corpo de uma ômega, por querer alívio, e mesmo que eu estivesse liberando o feromônio certo, ainda era o errado. O lobo dele me rejeitou é claro, e ele correu para a ala de cios. – Estendo minha mão, pegando a de Jin, que sorri e aperta meus dedos no dele. – Depois do cio, eu tentei conversar com ele, mas ele só disse que não iria contar para ninguém por nossos anos de amizade, mas que eu não era normal e que seria melhor ficar longe dali em diante. Ele participou no último festival e agora está esperando seu primeiro filhote com a ômega que ele escolheu. Não sabia o que dizer. Jin teve seu coração quebrado depois de descobrir o porquê de nunca ter se interessado por ômegas ou betas. E não foi a melhor experiencia, ainda perdendo o melhor amigo, que foi tão c***l em deixa-lo só. Ficamos em um silêncio confortável, vendo Hobi e Jenny brincando e brigando um com o outro, jogando água para todos os lado e rindo. Vejo minha amiga olhando de esguelha para nós, só para depois disfarçar, o que me faz rir. - Não acho que você seja anormal. – Digo, por fim, chamando atenção de Jin. Ele me olha confuso e até abre a boca para retrucar, mas me adianto. – Acho que todo o tipo de amor é válido, Jin. Penso totalmente o oposto de nossos anciões que dizem quem temos que amar e que precisamos de alguém para amar. – Sei que preciso me explicar e ele merece a explicação. – Acho que tenho sofrido tanta pressão de todos os lados, para ser a ômega educada, prendada, inteligente, dócil, enfim, a ômega perfeita, que isso mexeu comigo. Não posso dizer que não sinto atração por alfas, porque sei que tem alguns cheiros mais agradáveis a meu ver que outros, mas sinceramente, depois de tanta pressão, eu acho que todos os cheiros, passaram a ser rejeitados por mim e por meu lobo. - Sinto muito por isso. – Jin diz devagar, voltando a entrelaçar nossa mão e minha confusão o faz abrir um sorriso sem dentes. – Acho que papai tem algo a ver com isso, com sua fama aumentar. E ele torce tanto para nós que chego a ficar mais tempo fora de casa e da cabanas dos chefes, exatamente para não ouvir algo sobre você. – Balanço a cabeça, mas ele volta a rir. – Mas, vamos ser justos, ômega, será que você não podia maneirar em seus feitos? – Solto uma gargalhada e Jin me acompanha, rindo do jeito divertido dele. – Toda vez que eu passo, ouço algo do tipo: Liv foi cantar para os filhotes; Liv tricotou uma colcha para o ancião Kinoa; Liv abriu o caminho dos lagos e flutuou até os cogumelos da lua... Dou um t**a pelo último comentário inventado, mas continuo a rir. Nós nos daríamos bem juntos, e essa percepção só me faz fechar o sorriso e voltar a me preocupar com nosso futuro. - O que faremos, Jin? – Sinto meus olhos encherem, e fungo baixinho, o sentindo suavizar seu cheiro para me confortar. – Eu não acho que consiga aceitar seu alfa, ou qualquer outro alfa no festival e ainda tem meu cio e o inverno... - Talvez... Jin para de falar e se levanta em uma rapidez estranha. Hoseok também puxa Jenny para perto dele, e se levanta, ficando perto da beirada da água. Os dois atentos e em postura de defesa. Não entendo até que um lobo n***o enorme saia devagar na trilha. Só leva alguns curtos instantes até que a postura dos dois se acalmem em reconhecimento. - Que d***a, Joonie! Quase me fez rasgar meu calção preferido com esses passos de fantasma! – Hoseok quase grita, mas só volta a se jogar para trás, fazendo Jenny reclamar sobre a água que espirrou nela. – Vem! A água tá perfeita! O lobo n***o se abaixa e vemos Jimin saindo de cima com cuidado, carregando uma cestinha. Jenny vai cumprimenta-lo e os vejo sorrindo, já vindo em nossa direção. Sinto meu coração acelerar, meu cheiro se expande e não consigo evitar sorrir ao vê-lo, ouvi-lo, senti-lo. Jin parece perceber, mas é rápido para disfarçar e ainda completa nosso assunto, enquanto vemos o lobo imponente e grande, se tornar um filhote, correndo e pulando, se jogando na cachoeira perto de Hobi que ri alto. - Talvez, a gente só deva criar coragem para mudar as coisas? – Olho para ele tão rápido que meu pescoço estala. - O que quer dizer? - Que a mudança tem que começar com alguém, não é? – Jin suspira, mas parece logo mudar de decisão, e balança a cabeça negativamente, deixando um aperto de leve em meu ombro. – Podemos tentar, Liv. Sinceramente, entre ter que escolher alguém aleatório e uma amiga que eu sei que posso confiar... – Não tenho uma resposta, mesmo que já tenha pensado nisso antes. Jin deixa a proposta no ar, e volta a sorrir para os ômegas que se aproximam. – Pense nisso.
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