Uma parte de mim nunca entendeu o porquê de ômegas terem tantas expectativas jogadas em cima, desde quando a apresentação dos nossos subgêneros ocorre, os ensinamentos sobre os novos lupinos classificados mudam e tudo parece só ficar mais intenso conforme crescemos.
Alfas aprendem defesas e ataques, a caçar e a proteger. São mais fortes, rápidos e os seus instintos de p******o são maiores. Estão no topo da nossa cadeia e tem contato direto com os lobos internos. Alguns, até mesmo se transformam em lobo gigantes.
Betas são os mais tranquilos, a meu ver, eles vão para escola normalmente, aprendem de tudo, e quando estão mais velhos, decidem o que querem seguir. Um trabalho no mercado da cidade? Por que não? Talvez, podem gostar de trabalhos manuais e serem os novos marceneiros. Podem até mesmo decidir que serão confeiteiros. Quem sabe gostem de lutar e se tornem membros betas de elite como guardas? Tanta opções... Eles só não se transformam e os seus lobos são mais controlados e focados e geralmente são os que se mantêm como neutros. Entre as duas classificações.
E tem os ômegas. Ômegas de modo geral são tratados como sagrados. Estão na base na pirâmide, onde tem que ser protegidos e cuidados, já que são os principais responsáveis por gerar uma nova geração de lupinos. Os ômegas aprendem desde novos a serem delicados e gentis, aprendem os deveres de como se cuidar de uma casa e como agradar o seu futuro alfa. Tem também, os que desenvolvem habilidades, na sua maioria, arte, como dança, pintura e costura. Mesmo que geralmente os ômegas que trabalham, decidam parar quando encontram os seus alfas destinados na nossa famosa noite da Luna.
Uma parte de mim, quando mais nova adorava ser ômega. Gostava da atenção que recebia, do cuidado que todos tinham e adorava que todos me tratassem com uma princesa. Olhando por fora agora, talvez tenha sido minha culpa o que estou passando hoje.
Deixando que o vento gélido demais para meu corpo ômega entrasse em contato com a minha pele, já arrepiada, fico voltando a minha mente para onde foi que eu errei. Toda aquela pressão que eu estava sentindo, já a tempos, vinha me incomodando ainda mais agora que o meu primeiro cio está chegando perto, e para piorar, será logo depois do festival de La Luna.
Deixo a minha mente voltar a alguns anos antes, onde me lembro de ajudar uma ômega mais velha a carregar suas compras até em casa. Eu era pequena, mamãe e papai sempre me disseram para ser gentil com todos. Não via aquilo como problema. Mais anos na frente, me prontifiquei a ajudar no maternal, onde tivemos perda de alguns ômegas e betas em um ataque de uma aldeia inimiga, que acabaram colocando fogo em uma parte da floresta e da nossa aldeia. Perdemos vidas naqueles dias, e eu só queria ajudar. Anos depois, eu já era conhecida por uma boa parte da aldeia, só por ser gentil e doce, e isso chegou aos ouvidos do nosso alfa líder e do nosso ômega líder. Foi daí em diante que eu comecei a ser chamada de a ômega perfeita. E olhando para trás, eu só achava que estava fazendo o que podia, eu não estava querendo atenção, não estava querendo ser invejada por outros ômegas, ou admirada por betas e ser alvo de cortejos constantes de alfas.
Fechando os olhos e tentando acalmar meu lobo, que igual a mim, está tenso com tanta expectativas, com tanta pressão. Era h******l sentir como se todos estivessem constantemente esperando algo de mim e ai de mim se eu não cumprisse. Talvez seja só eu me cobrando demais, ou talvez todos realmente enlouqueceram e esqueceram que eu tenho a p***a de livre arbítrio independente eu ser uma ômega, que eles julgam perfeita!
— Inferno! — Fecho as minhas mãos com força, sentindo as minhas garras cortarem minhas palmas e o sangue começaram a escorrer, mas não ligo. A dor é boa para tirar o meu foco da pressão que sinto no peito. Como se algo fosse explodir de dentro de mim. É demais e não sei mesmo como lidar.
“- Liv é tão gentil! Ela ajudou a fazer várias tortas para minha loja.” — Eu só estava passando, e vi que a beta estava sozinha e quando perguntei, me disse que a ômega que a ajudava, tinha entrado em trabalho de parto antes do tempo e agora focaria na sua família. Não estava fazendo nada e gostava de fazer doces, então me ofereci por alguns dias até ela conseguir outra pessoa para colocar no lugar.
Não foi nada.
“— Liv, cantou no casamento de Josh e Silvia. Uma voz abençoada por Luna!” – A mãe de Silvia é nossa vizinha, e amiga de mamãe, então ela comentou em cima da hora, que o beta que cantaria no casamento, tinha pegado um baita resfriado e estava sem voz alguma e só avisou no início da manhã. Eu adoro cantar e as vezes canto para os filhotes recém-nascidos, para acalma-los antes de voltar para seus pais, então mamãe veio me perguntar se eu poderia substituir.
Não foi nada.
“— Liv é tão inteligente! Ela vai começar a dar aula para os filhotes.” – Filhotes sempre foram minha fraqueza, então quando o beta que dava aulas para os filhotes de seis a dez anos, resolveu se aposentar, me ofereci para tomar seu lugar. Também estava querendo fazer o meu próprio dinheiro e quem sabe me mudar com Jenny para uma casinha na parte sul da aldeia, perto do lago.
Não foi nada.
“- Liv é gentil...
- Liv é tão bonita...
- Liv cozinha bem...
- Liv tem um cheiro muito bom...
- Liv vai ser uma ótima esposa...
- Liv é tão perfeitinha...”
O grito que soltei ecoou alto e doloroso o bastante para sentir minha garganta arder, ainda assim, foi tão libertador que por um momento, sorri, mas não durou. As lágrimas corriam sem parar, mesmo que eu tentasse parar e nem as deixasse cair, já secando com as mãos. Sentia meu lobo choramingando também, e isso me partia o coração, mas infelizmente, eu não conseguia impedir todos aqueles sentimentos intensos demais.
A espera de que eu escolha um alfa era o que estava mesmo me preocupando, já que nenhum dos alfas que me cortejaram, me fizeram sentir algo. E a esperança que meu pai estava alimentando era que o filho do alfa líder, seria meu parceiro escolhido no festival, o que me deixava ainda mais nervosa. E isso definitivamente não me apetecia, mesmo que já tenha ouvido algumas vezes, pessoas comentando que a ômega perfeita merecia o alfa perfeito, o que eu não podia negar que Seokjin era de fato um belo e talentoso alfa, mas...
Todos os meus pensamentos se foram, no momento que o meu lobo se atentou. Me virei devagar, olhando para a floresta atrás de mim, procurando com os olhos algo que denunciasse a presença de algo ou alguém. Eu estava um pouco mais distante de todas as trilhas e áreas pertencentes a nossa aldeia, era um lugar que eu gostava de chamar de meu e que desde que senti a pressão ficando maior, eu me pegava vindo para relaxar a mente e treinar um pouco. Ninguém poderia saber, já que uma ômega perfeita não deveria ter habilidades de alfas. Sem falar que geralmente, eu me transformava em meu lindo lobo marrom para chegar até ali e isso, era algo que somente ômegas acompanhados de alfas eram permitidos fazer, ou seja, ômegas casados. De todo modo, o fato de eu estar ali afastada, não seria bem-visto.
As duas adagas médias que eu mantinha escondidas no tronco de uma das árvores dali, estavam em minhas mãos em segundos, e deixei minhas presas a mostra, mostrando que não estava com medo. O que eu não esperava era o belíssimo lobo branco que saiu dos arbustos cheios de uma parte da beirada da clareira. Ele também estava na defensiva, agachado, com as presas de fora e garras que arranhavam o chão, mas em um momento, o vento vindo de trás de mim, pareceu ter levado meu cheiro até o lobo, que de imediato fechou a boca e endireitou a postura, só abaixando a cabeça, para demostrar que não apresentava ameaça. Cheguei um pouco mais perto, e me surpreendi, abaixando minhas armas, já que aquele lobo, também era um ômega e se estava batendo a pata dianteira direita no chão, quer dizer que era da Aldeia de Lunária também, algo que todos os lúpus são ensinados a fazer desde pequenos, quando aprendemos a nos transformar, é como uma identificação entre os nossos.
— Me assustou, ômega. – Digo abrindo um sorriso. Mesmo que não estivesse com humor para ser simpática, minha natureza e meu costume de ser legal sempre, não me permitia não fazê-lo. – Está longe da aldeia. É perigoso...
Penso ver um revirar de olhos vindo do lobo e realmente sorrio daquela vez, porque aquilo foi tão humano de se fazer e sei que deve estar pensando o mesmo, já que eu estou aqui.
Para minha surpresa, o lobo, que mesmo sendo enorme comparado a um humano, ainda era pequeno comparado a um alfa, se aproxima devagar de mim, e para cumprimentá-lo estendo a minha mão. O pelo é macio e bem limpo, mas o que me pega desprevenida é que na primeira liberação para combinarmos os nossos aromas, eu sinta o maravilhoso cheiro de jasmim. Por Luna, aquele é o melhor cheiro que já senti vindo de outro lobo. Feromônios ômegas geralmente me causam enjoos, são muito doces ou muito fortes, e eu sempre evito cumprimentar outros assim, tirando minha melhor amiga, Jenny, que tem cheirinho de lavanda e algodão, e ela sabe controlar o quanto vai liberar. Betas não tem cheiros fortes e geralmente só liberam quando se interessam por alguém e sempre é muito fraco. Alfas, com seus cheiros marcantes, amadeirados e masculinos, me dão dor de cabeça ou deixam meu lobo irritadiço, porque eles sempre querem marcar território, o que deixa os cheiros por demasiado forte. Outros ômegas acham isso atraente e quanto mais forte quer dizer que o alfa é mais poderoso. Para mim, isso só reforça a teoria que eles não se garantem e que quando são rejeitados, precisam reafirmar sua masculinidade frágil sendo brutos e rudes, caçando animaizinhos inocentes e deixando na nossa porta.
Aquele lobo tinha o cheiro maravilhoso e me envolvendo completamente, me distraindo ao ponto de ter chegado perto sem perceber. Estava prestes a esfregar meu rosto contra a glândula de cheiro, mas me parei a tempo. Aquilo era definitivamente muito íntimo para pessoas que não se conheciam bem, na verdade, nunca cumprimentei ninguém assim, o que me deixou bem surpresa por meus instintos quase terem me feito fazer aquilo. O lobo não pareceu se importar, já que ele estava completamente encostado no meu corpo, mas aquilo tinha que parar, era errado em até certo ponto dois ômegas se misturarem assim, por isso me afastei, com muita relutância e algumas reclamações de meu lobo.
— Acho melhor voltar. — Falo baixinho, vendo os olhos, cor de mel do lobo branco me fitarem com curiosidade. — Fiquei de ajudar os anciões a organizar a biblioteca.
Guardo as minhas adagas no tronco da árvore e recolho minha bolsa, tomando um pouco da água da minha garrafinha, quando me viro, o lobo branco estava deitado na beirada do pequeno penhasco, onde eu estava pouco tempo atrás. Ele estava de olhos fechados com o focinho levantado recebendo o ventinho, parecendo tão em paz, que me fez sorrir.
— Parece que esse lugar não é só o meu refúgio de tranquilidade, não é mesmo? — Me aproximo devagar, e faço um último carinho na sua cabeça. O lobo me lambe de brincadeira e eu reclamo, mesmo não me importando. — Que nojo, ômega! – Rio e o lobo solta um espirro parecendo uma risada. — Aproveite seu momento de paz.