— Além disso — completou Heitor, recostando-se na cadeira —, parte dos materiais de construção virá de nossas próprias unidades e de subsidiárias da Vértice Global. É assim que executaremos o projeto dentro do orçamento, caso vençamos esta licitação.
Julietta, atônita, apenas deixou escapar um sussurro:
— Uau…
— Srta. Sampaio, já que a Srta. Nogueira não está aqui… deseja me trazer algo? — perguntou Heitor após alguns segundos de silêncio.
— Claro, senhor.
Ele pensou por um instante.
— Tenho uma reunião virtual em breve. Pode preparar um café para mim?
— Com certeza.
— Forte. Preto. Meia colher de açúcar.
Julietta assentiu e seguiu para a copa. O ambiente estava bem abastecido. Ligou a máquina de café e ajustou as medidas com cuidado. Enquanto esperava, colocou duas fatias de pão na torradeira. Encontrou alface, tomate e cream cheese no pequeno refrigerador. Quando o pão dourou, preparou um sanduíche simples.
“Vai que ele precise de algo a mais”, pensou. Encheu dois potes com nozes e biscoitos, montando uma bandeja improvisada para acompanhar o café.
O aroma quente se espalhou pela sala, quando retornou ao gabinete e colocou a bandeja sobre a mesa, ao lado do buquê deixado por Vanessa Lins.
Os olhos de Heitor brilharam como os de uma criança diante de uma vitrine de doces. Pela expressão, parecia faminto — mas, como sempre, não havia notado a própria exaustão.
— Sr. Vasconcellos, não sei suas preferências alimentares, então preparei um lanche simples para acompanhar o café. — A voz de Julietta tinha um fio de ansiedade. Café é algo pessoal. Um erro no sabor poderia arruinar tudo.
Heitor levou a xícara aos lábios. Julietta segurou a respiração, atenta a cada detalhe.
— O café está bom — disse, enfim.
Ela soltou o ar, aliviada. Ele olhou para a bandeja, depois para ela.
— Muito atenciosa. As contratações da Vértice Global nunca falham em escolher pessoas inteligentes.
Um elogio simples, mas que fez o coração de Julietta explodir de orgulho. O sorriso iluminou seu rosto. Heitor estendeu a mão. E pela segunda vez naquele dia, Julietta tocou a pele quente do CEO. Dois segundos que a fizeram sentir-se nas nuvens.
Logo em seguida, ele caminhou até o armário de arquivos e pegou a pasta que ela havia organizado.
— Será que vou encontrar outra arte rabiscada aqui dentro? — perguntou, com ironia.
Julietta corou violentamente.
— Nunca mais vou me distrair ou desenhar durante uma reunião, senhor.
Ela não sabia se ele estava brincando ou a advertindo. Mas quando ergueu os olhos, ouviu a risada baixa dele. O som a desarmou.
— Pode se retirar, Srta. Julietta.
— Boa noite, Sr. Vasconcellos.
Fechou a porta atrás de si com um sorriso que não conseguia conter. No corredor, encontrou Rita, já impaciente.
— Vamos? Já passa das cinco e meia.
Julietta desceu os andares sorrindo como quem escondia um segredo. Olhava para a própria mão com devoção. Rita estranhou.
— O que foi? Mostra aqui.
Julietta puxou a mão de volta, dramática:
— A mão icônica me cumprimentou. Quero sentir o formigamento até acabar.
— Quem? — Rita arregalou os olhos.
Julietta ergueu o queixo, teatral:
— O CEO da Vértice Global. O próprio Heitor Vasconcellos. E não foi uma vez… foram duas.
Rita quase caiu da cadeira.
— Você vai me contar cada detalhe, Julietta!
As duas saíram juntas, conversando animadamente até se despedirem, já que moravam a poucos quarteirões de distância. Julietta caminhava para casa ainda em êxtase, como se estivesse flutuando.
Julietta chegou em casa leve como uma pluma. Trocou a roupa de trabalho, vestiu o pijama e foi direto para a cozinha, ainda sorrindo sozinha. O dia tinha sido intenso, mas uma frase não saía de sua cabeça:
“As contratações da Vértice Global nunca falham em escolher pessoas inteligentes.”
Era a voz de Heitor Vasconcellos ecoando na sua mente.
Determinada a celebrar, decidiu cozinhar um dos pratos que mais gostava. Abriu a geladeira e encontrou coxas de frango, brócolis e tomates-cereja. Temperou a carne com especiarias, lavou e cortou os legumes, depois colocou tudo no forno. Enquanto o cheiro começava a se espalhar pela cozinha, Julietta sentou-se num banco, revivendo cada detalhe da tarde.
“Ele poderia ter me julgado pelos erros… mas escolheu reconhecer meu valor. Não sou a melhor, ainda, mas posso ser. Preciso refinar meu potencial. Preciso crescer.”
O “bip” do forno a tirou do transe. O aroma delicioso invadiu o apartamento. Retirou a assadeira e serviu-se com cuidado. Cada garfada parecia mais saborosa que a anterior. Talvez fosse a comida… talvez fosse a euforia de um coração que, pela primeira vez, se sentia visto.
E naquela noite, Julietta adormeceu grata, com a sensação de que o mundo finalmente sorria para ela.
***
Do outro lado da cidade, Heitor chegava exausto a sua luxuosa cobertura. O motorista colocou a pasta, o buquê de Vanessa e a cesta de presentes sobre a mesa da sala. Ele olhou para as flores por um instante e pegou o celular.
— Vanessa, obrigado pelas flores.
— Heitor! — a voz dela soou animada. — Viu os mimos? São artesanais, trouxe do Afeganistão na última viagem.
— Acabei de chegar do escritório. Vou experimentar. Obrigado novamente.
— Só um “obrigado”? — ela provocou.
Ele suspirou.
— E o que você quer além disso?
— Não vou dizer. Descubra.
Após um silêncio calculado, Heitor respondeu:
— Sábado teremos a festa dos funcionários da Vértice Global. Quer ser minha convidada?
— Querida, você acabou de me pedir para ser sua acompanhante — Vanessa gargalhou. — É claro que sim. Nos vemos no sábado. Bye!
Desligou antes que ele pudesse acrescentar qualquer coisa. Heitor abriu o cesto: sabonetes orgânicos, óleos essenciais, cremes e pacotinhos de bebidas herbais. Chamou o chef Valentin.
— Prepare uma dessas infusões, mas só um copo pequeno. Não tenho fome.
Subiu para um banho rápido, vestiu roupas confortáveis e desceu novamente. Valentin já o esperava com a bebida quente. Heitor tomou um gole. O sabor era exótico, forte, misturado. Antes do segundo, o telefone tocou.
Era o avô, o patriarca da família Vasconcellos. A conversa se estendeu por dez minutos em seu escritório. Heitor bocejou, desligou, subiu as escadas… e esqueceu a bebida sobre a mesa.
Heitor saiu até a varanda da cobertura e lançou um olhar para a esteira que mantinha ali. Normalmente, corria por trinta minutos quase todos os dias. Mas, surpreendentemente, naquela noite o corpo estava pesado, tomado por uma sonolência estranha.
Deitou-se na cama quase sem perceber, mas o descanso não veio. O sono foi agitado, incômodo. Durante a madrugada, acordou diversas vezes com uma sensação estranha no corpo, como se algo não estivesse certo. Pela manhã, levantou-se abatido, recusou o café da manhã e murmurou para si mesmo que devia ser apenas uma indigestão.
“Melhor comer quando me sentir melhor.”