Capítulo 7

1152 Palavras
— Além disso — completou Heitor, recostando-se na cadeira —, parte dos materiais de construção virá de nossas próprias unidades e de subsidiárias da Vértice Global. É assim que executaremos o projeto dentro do orçamento, caso vençamos esta licitação. Julietta, atônita, apenas deixou escapar um sussurro: — Uau… — Srta. Sampaio, já que a Srta. Nogueira não está aqui… deseja me trazer algo? — perguntou Heitor após alguns segundos de silêncio. — Claro, senhor. Ele pensou por um instante. — Tenho uma reunião virtual em breve. Pode preparar um café para mim? — Com certeza. — Forte. Preto. Meia colher de açúcar. Julietta assentiu e seguiu para a copa. O ambiente estava bem abastecido. Ligou a máquina de café e ajustou as medidas com cuidado. Enquanto esperava, colocou duas fatias de pão na torradeira. Encontrou alface, tomate e cream cheese no pequeno refrigerador. Quando o pão dourou, preparou um sanduíche simples. “Vai que ele precise de algo a mais”, pensou. Encheu dois potes com nozes e biscoitos, montando uma bandeja improvisada para acompanhar o café. O aroma quente se espalhou pela sala, quando retornou ao gabinete e colocou a bandeja sobre a mesa, ao lado do buquê deixado por Vanessa Lins. Os olhos de Heitor brilharam como os de uma criança diante de uma vitrine de doces. Pela expressão, parecia faminto — mas, como sempre, não havia notado a própria exaustão. — Sr. Vasconcellos, não sei suas preferências alimentares, então preparei um lanche simples para acompanhar o café. — A voz de Julietta tinha um fio de ansiedade. Café é algo pessoal. Um erro no sabor poderia arruinar tudo. Heitor levou a xícara aos lábios. Julietta segurou a respiração, atenta a cada detalhe. — O café está bom — disse, enfim. Ela soltou o ar, aliviada. Ele olhou para a bandeja, depois para ela. — Muito atenciosa. As contratações da Vértice Global nunca falham em escolher pessoas inteligentes. Um elogio simples, mas que fez o coração de Julietta explodir de orgulho. O sorriso iluminou seu rosto. Heitor estendeu a mão. E pela segunda vez naquele dia, Julietta tocou a pele quente do CEO. Dois segundos que a fizeram sentir-se nas nuvens. Logo em seguida, ele caminhou até o armário de arquivos e pegou a pasta que ela havia organizado. — Será que vou encontrar outra arte rabiscada aqui dentro? — perguntou, com ironia. Julietta corou violentamente. — Nunca mais vou me distrair ou desenhar durante uma reunião, senhor. Ela não sabia se ele estava brincando ou a advertindo. Mas quando ergueu os olhos, ouviu a risada baixa dele. O som a desarmou. — Pode se retirar, Srta. Julietta. — Boa noite, Sr. Vasconcellos. Fechou a porta atrás de si com um sorriso que não conseguia conter. No corredor, encontrou Rita, já impaciente. — Vamos? Já passa das cinco e meia. Julietta desceu os andares sorrindo como quem escondia um segredo. Olhava para a própria mão com devoção. Rita estranhou. — O que foi? Mostra aqui. Julietta puxou a mão de volta, dramática: — A mão icônica me cumprimentou. Quero sentir o formigamento até acabar. — Quem? — Rita arregalou os olhos. Julietta ergueu o queixo, teatral: — O CEO da Vértice Global. O próprio Heitor Vasconcellos. E não foi uma vez… foram duas. Rita quase caiu da cadeira. — Você vai me contar cada detalhe, Julietta! As duas saíram juntas, conversando animadamente até se despedirem, já que moravam a poucos quarteirões de distância. Julietta caminhava para casa ainda em êxtase, como se estivesse flutuando. Julietta chegou em casa leve como uma pluma. Trocou a roupa de trabalho, vestiu o pijama e foi direto para a cozinha, ainda sorrindo sozinha. O dia tinha sido intenso, mas uma frase não saía de sua cabeça: “As contratações da Vértice Global nunca falham em escolher pessoas inteligentes.” Era a voz de Heitor Vasconcellos ecoando na sua mente. Determinada a celebrar, decidiu cozinhar um dos pratos que mais gostava. Abriu a geladeira e encontrou coxas de frango, brócolis e tomates-cereja. Temperou a carne com especiarias, lavou e cortou os legumes, depois colocou tudo no forno. Enquanto o cheiro começava a se espalhar pela cozinha, Julietta sentou-se num banco, revivendo cada detalhe da tarde. “Ele poderia ter me julgado pelos erros… mas escolheu reconhecer meu valor. Não sou a melhor, ainda, mas posso ser. Preciso refinar meu potencial. Preciso crescer.” O “bip” do forno a tirou do transe. O aroma delicioso invadiu o apartamento. Retirou a assadeira e serviu-se com cuidado. Cada garfada parecia mais saborosa que a anterior. Talvez fosse a comida… talvez fosse a euforia de um coração que, pela primeira vez, se sentia visto. E naquela noite, Julietta adormeceu grata, com a sensação de que o mundo finalmente sorria para ela. *** Do outro lado da cidade, Heitor chegava exausto a sua luxuosa cobertura. O motorista colocou a pasta, o buquê de Vanessa e a cesta de presentes sobre a mesa da sala. Ele olhou para as flores por um instante e pegou o celular. — Vanessa, obrigado pelas flores. — Heitor! — a voz dela soou animada. — Viu os mimos? São artesanais, trouxe do Afeganistão na última viagem. — Acabei de chegar do escritório. Vou experimentar. Obrigado novamente. — Só um “obrigado”? — ela provocou. Ele suspirou. — E o que você quer além disso? — Não vou dizer. Descubra. Após um silêncio calculado, Heitor respondeu: — Sábado teremos a festa dos funcionários da Vértice Global. Quer ser minha convidada? — Querida, você acabou de me pedir para ser sua acompanhante — Vanessa gargalhou. — É claro que sim. Nos vemos no sábado. Bye! Desligou antes que ele pudesse acrescentar qualquer coisa. Heitor abriu o cesto: sabonetes orgânicos, óleos essenciais, cremes e pacotinhos de bebidas herbais. Chamou o chef Valentin. — Prepare uma dessas infusões, mas só um copo pequeno. Não tenho fome. Subiu para um banho rápido, vestiu roupas confortáveis e desceu novamente. Valentin já o esperava com a bebida quente. Heitor tomou um gole. O sabor era exótico, forte, misturado. Antes do segundo, o telefone tocou. Era o avô, o patriarca da família Vasconcellos. A conversa se estendeu por dez minutos em seu escritório. Heitor bocejou, desligou, subiu as escadas… e esqueceu a bebida sobre a mesa. Heitor saiu até a varanda da cobertura e lançou um olhar para a esteira que mantinha ali. Normalmente, corria por trinta minutos quase todos os dias. Mas, surpreendentemente, naquela noite o corpo estava pesado, tomado por uma sonolência estranha. Deitou-se na cama quase sem perceber, mas o descanso não veio. O sono foi agitado, incômodo. Durante a madrugada, acordou diversas vezes com uma sensação estranha no corpo, como se algo não estivesse certo. Pela manhã, levantou-se abatido, recusou o café da manhã e murmurou para si mesmo que devia ser apenas uma indigestão. “Melhor comer quando me sentir melhor.”
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