Julietta parecia brilhar. Entrou no escritório de Augusto Ribeiro com a leveza de quem carregava boas notícias.
— Bom dia, Sr. Ribeiro.
Ele respondeu com um sorriso discreto.
— Senhor, gostaria de ler mais sobre projetos semelhantes ao que discutimos. Onde posso encontrar material de referência?
— A sala de registros será útil. É muito bem abastecida.
— Ótimo. Ah, concluí os relatórios que me pediu. Posso me retirar agora?
— Leve o seu crachá de funcionária. É necessário para ter acesso.
— Obrigada, Sr. Ribeiro.
Ao retornar ao setor, Julietta encontrou os colegas mergulhados na euforia da festa dos funcionários. Rita, como sempre, liderava a conversa, explicando a um estagiário sobre a decoração, o cardápio, a programação de entretenimento e até os brindes que seriam distribuídos. Julietta apenas pegou suas anotações e o crachá, avisou a amiga e saiu.
Quando abriu a porta da sala de registros, ficou boquiaberta.
Esperava um depósito empoeirado, com caixas empilhadas e papéis amarelados. Mas não. O espaço era imponente, quase como uma biblioteca de luxo reservada para uma elite corporativa. Estantes impecáveis, iluminação aconchegante, tudo organizado com perfeição.
Ela começou a garimpar relatórios sobre projetos de construção, inclusive de outras empresas. Havia também uma seção inteira dedicada a contratos governamentais. Depois de quase uma hora de busca, juntou uma pilha de documentos e se sentou para analisar.
Abriu quatro pastas ao mesmo tempo, traçando comparativos e cálculos, completamente imersa no trabalho. Foi então que percebeu uma sombra se mover na cabine de acesso restrito. Ignorou, acreditando ser algum arquivista, e voltou a seus números.
O que ela não sabia era que Heitor Vasconcellos havia parado ao seu lado, observando-a em silêncio. Ficou ali alguns segundos, curioso com a concentração dela, antes de se afastar para pegar o jornal do dia.
Julietta só percebeu quando alguém o cumprimentou em voz alta:
— Bom dia, Sr. Vasconcellos.
Ela se sobressaltou, levantando-se num pulo. Heitor estava a poucos metros. Ele devolveu o olhar, frio, quase distante. Respondeu ao cumprimento de forma mínima e seguiu para a saída com o jornal em mãos.
Julietta ficou intrigada.
O encarregado da sala comentou em voz baixa:
— O chefe hoje está diferente. Não cumprimentou ninguém, nem sequer sorriu. Muito estranho… algo deve estar errado.
Julietta voltou da sala de registros com a energia de quem tinha descoberto um tesouro e foi direto ao escritório de Augusto Ribeiro. Sentou-se diante dele e começou a falar com entusiasmo, como uma criança contando à mãe os detalhes do dia na escola.
Ribeiro a ouviu com paciência, aquele olhar de mentor que nunca a fazia sentir-se apenas uma subordinada. Quando ela terminou, ele lhe deu novas orientações.
— Leia também esses pontos. Vai ampliar sua visão sobre o projeto.
Antes que ela saísse, ele acrescentou:
— Já que todos estão ocupados com os preparativos da festa, quero que você assuma a supervisão da decoração do palco junto com Theo. Está bem para você?
— Claro, senhor — respondeu Julietta, feliz pela confiança.
De volta à sua mesa, encontrou Rita cercada de dois colegas, organizando a lista de convidados. Mais tarde, quando a amiga voltou para o cubículo ao lado, Julietta percebeu que ela estava com um brilho diferente nos olhos.
— Você está escondendo alguma coisa… — provocou Julietta.
Rita, animadíssima, se inclinou para sussurrar:
— Vanessa Lins está na lista de convidados. E acho que você terá que colocá-la ao lado do Sr. Vasconcellos no palco.
Julietta franziu a testa.
— Mas por quê?
— Porque eles estão juntos, não é óbvio? — Rita arqueou as sobrancelhas. — Vimos os dois no Hi-Roam, ela manda flores para ele, e agora foi convidada oficialmente para a festa da empresa.
Julietta mordeu o lábio, surpresa.
— Como não percebi isso antes?
— Ainda não é oficial, mas os sinais estão todos aí — concluiu Rita.
Julietta assentiu, mesmo sem querer aceitar totalmente a ideia.
***
Os dois dias seguintes foram tomados por uma energia contagiante nos corredores da Vértice Global. Todos corriam com preparativos para a festa. Julietta dividia-se entre o trabalho na decoração com Theo e suas visitas diárias à sala de registros.
Ela se sentia em casa ali, cercada por arquivos e relatórios, como se estivesse numa biblioteca particular. Entre as pilhas de documentos, encontrava paz e inspiração.
Naquela noite, já passava das oito quando deixou o prédio. No saguão, o chefe de segurança, Bernardo, a interceptou.
— Srta., espere um momento. Vou providenciar um táxi para levá-la.
Julietta sorriu.
— Não precisa, Sr. Bernardo. Posso pegar o ônibus.
— Desculpe, mas é ordem direta: todas as funcionárias devem ser acompanhadas com segurança após o expediente.
Ela riu de leve.
— Então, por favor, me chame de Julietta. Eu entendo, mas meu bairro é tranquilo, não precisa se preocupar.
Ele insistiu, entregando-lhe um cartão.
— Está bem, mas me ligue quando chegar em casa.
Julietta agradeceu, tocada pelo cuidado.
— O Sr. Vasconcellos é mesmo um chefe atencioso.
Bernardo sorriu.
— Sim, ele é.
No caminho para casa, Julietta pensava nisso com o coração aquecido. Trabalhar para a Vértice Global não era apenas um emprego — era um privilégio, um orgulho. Saber que alguém tão poderoso se preocupava com a segurança dos funcionários fazia com que ela se sentisse protegida.
Era um conforto raro… quase como ter alguém cuidando dela.
No sábado à noite, todos chegaram com suas melhores roupas à festa. O evento anual da Vértice Global era um marco no calendário corporativo e, como sempre, a imprensa se aglomerava do lado de fora para registrar cada detalhe. Dignitários e convidados especiais foram recebidos em um lounge privado, onde desfrutavam de refrescos antes do início oficial.
Então, o momento mais aguardado: Heitor Vasconcellos chegou em sua limusine. Vestia um terno de seda marfim feito sob medida pela Brioni. Na tela gigante dentro do salão, a transmissão mostrava a entrada do CEO. O público prendeu a respiração em uníssono.
No mesmo instante, Vanessa Lins surgiu, deslumbrante em um vestido verde-esmeralda de f***a alta e um ombro só, combinando com o traje claro de Heitor. Os fotógrafos se inflamaram, flashes disparando sem parar. Perguntas eram atiradas de todos os lados, mas o chefe de segurança, Bernardo, e sua equipe abriram caminho para que o casal atravessasse sem problemas. A música começou a tocar, anunciando a entrada triunfal.
Em segundos, eles se tornaram o assunto da noite.
Heitor acompanhou Vanessa até a primeira fila, onde ela se sentou, antes de seguir até a mesa da organização para dar instruções finais. Pouco depois, o evento começou oficialmente, com os dignitários ocupando seus lugares no palco.
Rita, atenta, arregalou os olhos.
— Julietta! — correu até a amiga, indignada. — Por que Vanessa não está no palco?
Julietta deu de ombros.
— Você acha que eu decido isso? O arranjo dos assentos foi feito pelos executivos seniores e aprovado pessoalmente por Vasconcellos.
Rita respirou fundo e sussurrou:
— Então há um motivo. Mas você viu os dois entrando juntos? Pareciam…
— Um espetáculo — Julietta completou, sonhadora. — A sala inteira ficou hipnotizada.
A cerimônia avançou e logo Heitor foi chamado ao palco para discursar. Sua voz, firme e controlada, ecoou pelo salão:
— Tenho imensa admiração pelo talento e pelo esforço de todos vocês. É graças a cada funcionário que a Vértice Global se tornou uma das maiores corporações do mundo.
Houve aplausos fervorosos. Em seguida, ele anunciou prêmios de desempenho e, então, surpreendeu a todos:
— Nosso vice-presidente, Cássio Orlando, está se aposentando. E seu sucessor será Augusto Ribeiro, que a partir de agora estará diretamente abaixo de mim na hierarquia da empresa.