09

4092 Palavras
Eu olhava para o espelho, pensativa. Dois dias atrás eu estava exatamente aqui, vestida de noiva, contemplando o meu reflexo. A diferença é que a minha única preocupação naquele dia era se o Buffet daria conta de atender todos os convidados, ou se as flores combinariam com a ornamentação da igreja. Não haviam mensagens anônimas no meu celular, insinuando que minha melhor amiga fazia algo pelas minhas costas, muito menos a hipótese de que meu noivo, o homem com quem eu dividiria o resto da minha vida, fora responsável pelo envenenamento do irmão. Não, o Ricardo jamais faria isso. — Larah, eu posso entrar? — Madá perguntou do outro lado da porta. — Claro — respondi com a mão agarrada em meu pingente. — Desde que tenha me trazido uma barra de chocolate. — Por Dio, não me diz isso — ela resmungou abrindo a porta —, só de pensar meu estômago revira. — Problemas com enjôo? — Perguntei preocupada, olhando para ela através do espelho. — Ah, bambina, eu estou vomitando tanto que eu aposto que vou parir seu irmão pela boca! — Ela exclamou, sentando-se na beirada da cama e eu ri. — Por falar em aposta — eu disse virando-me para ela —, o s**o do bebê está em jogo. — Ideia do Rodolfo — ela concluiu revirando os olhos. —Ele mes... Ai, meu Deus! — Apontei histérica para a caixa vermelha ao seu lado — Você... Você fez compras nessa loja chiquérrima, Madá?! — Ah, não, bambina — ela negou dando risada —, é para você. O vendedor acabou de entregar. Me aproximei, atordoada, e peguei a caixa de cima da cama, de dentro dela retirei um embrulho preto bem sofisticado onde encontrei um vestido perfeitamente branco, de pano fosco e caimento leve, as alças finas e rendadas davam um ar delicado àquela peça. — É do Ricardo — eu disse assim que notei o cartão dentro da caixa, com a caligrafia dele. — Esse ragazzo tem bom gosto — Madá elogiou e eu pesquei o bilhete —, está tudo bem, bambina? — Vamos saber agora — falei jogando-me na cama, ela aproximou o rosto de mim e, juntas, lemos o cartão deixado pelo meu noivo. “ Oi, querida. Estive passando por essa loja quando avistei esse vestido e pensei em você. Use-o em nosso ensaio matrimonial. Estou passando aí às dez para irmos ao Stella, um DJ super f**a ficou de tocar lá essa noite, vamos nos divertir! Prometo que será uma noite especial. Fique Larah.” — Fique Larah? — Madá perguntou desentendida. — É a forma de ele dizer pra eu ficar maravilhosa — expliquei meio boba —, não parece, mas o Ricardo é fofo quando quer. — Gostei! Vou procurar algo para você ficar ainda mais Larah! — ela anunciou animada, levantando-se de imediato — Ô, Dio, bambina, quanto vestido lindo! — Comprei todos em promoção, Madá — eu disse —, me fala, como foi o almoço com o tal amigo do Guga? — Dio Mio, bambina, você precisava conhecer aquele ragazzo! — ela exclamou ainda enfiada em meu guarda-roupa — Ele é encantador, Larah, e tão educado. Ah, e que seu pai não me ouça, ele é lindo de roer. — Doer, Madá! — eu corrigi, engasgada de tanto rir.— Onde ele e o meu irmão se conheceram? — Parece que foi em uma das viagens do Gustavo — ela respondeu jogando algumas roupas sobre a cama —, os dois dividiram um apartamento em... algum lugar do país que eu não estou lembrada. — Ele é tão lindo assim? — perguntei como quem não queria nada. — Se é?! Santo Dio, o rapaz parece que saiu de um comercial de TV, Larah! Além de tudo é um amor de pessoa, não me deixou encostar na louça suja um segundo sequer— Ela então virou-se, com uma peça na mão, e sorriu para mim, maliciosa — e ainda por cima ele está solteiro. — Como se eu tivesse interesse, né, dona Madá? — Perguntei, mostrando-lhe meu anel de noivado. — É, tem esse pequeno detalhe — disse ela, jogando-me um vestido —, aqui, vai ficar lindo em você! — Obrigada — agradeci assim que aparei a peça de roupa. — Me diz, como é o nome desse tal cara encantador? — Lu... AAAH! — Madá gritou de repente, toda agitada — Santo Dio! — Que foi? — Eu quis saber preocupada, indo logo em sua direção. Ela me olhou, seus olhos castanhos brilharam e um sorriso bobo tomou conta do seu rosto. — Meu bambino chutou — Madá disse eufórica —, ele chutou, Larah! — Ai, meu Deus! — me abaixei e colei o rosto em sua barriga, mas não consegui ouvir nada — d***a, eu perdi o primeiro chute do meu irmão. — Eu vou avisar ao Rodolfo — ela anunciou apressada —, e vou esfregar na cara dele que meu bambino chuta tão bem como um jogador do corinthians! — Vai lá — eu ri —, ti amo. — Eu também ti amo, bambina — disse ela, carinhosa, depois de depositar um beijo em minha testa —, divertire! Assim que ela saiu, eu fui me ajeitar para a balada com o tal do DJ famoso. Talvez lá eu pudesse deixar de lado as minhas preocupações e curtir meu noivo, antes de ele se tornar um marido pançudo e enfiado em reuniões de negócios. Por incrível que pareça, fiquei pronta em minutos. O vestido que Madá escolheu, com estampas de oncinha e cheio de pregas volumosas, caiu bem com o batom coral e o salto preto que optei por usar. Só demorei um tempinho avaliando uma mecha do meu cabelo, perdida na indecisão de pintá-lo ou de permanecer com a mesma cor de sempre, mas então meu celular apitou, com inúmeras mensagens do Ricardo, e eu acordei para a vida. Enfiei o aparelho em minha bolsa de mão, coloquei mais um pouco de perfume no corpo e desci as escadas, decidida em manter o castanho natural. Eu nunca fui muito fã de mudanças mesmo. Madá e papai estavam concentrados no jogo de bisca, e pelo olhar dos dois, a partida era decisiva. — Esteja em casa antes das dez — papai ordenou ainda analisando o jogo —, e não aceite bebida de estranhos. — Também te amo, senhor Rodolfo — zombei assim que pesquei as chaves na mesinha de centro — e as suas cartas estão horríveis. — Larah! — Ele me censurou e eu corri para a porta. Ainda deu tempo de ver Madá obrigar o jogo e, em questão de segundos, vencer a partida. Fechei a porta antes que papai me enchesse de bronca e fui direto para a frente de casa esperar por Ricardo, a noite estava fria, mas a faísca de esperança que brotou em mim foi o suficiente para aquecer meu coração, e, consequentemente, o meu corpo. O barulho de um carro desconhecido, que vinha com toda velocidade lá no fim da esquina, me fez recuar. Eu já estava prestes a correr para dentro de casa quando o avistei. Tranquilo, num sorriso presunçoso e o olhar seguro, lá estava a minha dor de cabeça constante. — Ricardo! — Exclamei assim que ele freou bruscamente e o vidro da janela se abriu. — Você vai acabar se matando qualquer dia, sabia?! — É adrenalina — ele sorriu nervoso e destravou as portas para eu entrar —, o que achou do carro novo? — Hum... ele é... bem veloz — eu disse já me acomodando no banco de passageiro —, e tão macio. — Só isso? — meu noivo perguntou ansioso. — Ah, e ele é vermelho!— eu falei empolgada. — E tá combinando com minhas unhas, olha. Ricardo riu tanto que engasgou, depois estalou um beijo quente em minha bochecha e a faísca dentro de mim se transformou num fogaréu, que logo espalhou suas chamas pelo meu corpo. — Tá legal — falei numa tentativa de pensar em algo que não fosse aquilo — , eu não entendo nada de carros. — Eu não me importo de explicar — Ricardo disse paciente, e deu partida logo em seguida—, mas antes, coloque o cinto. — Uhum — soltei, frustrada. — É um Sportage — Ricardo começou, empolgado — 166 cavalos e velocidade máxima de 181 por hora.Os farois, você não vai acreditar, eles acendem sozinhos quando escurecem e... — bocejei, entediada. Tudo o que eu queria era estar aos amassos com meu noivo e fazer o que não fazemos há... semanas. Não que eu fosse uma tarada s****l, mas eu tinha hormônios, e como toda mulher, eu precisava liberá-los. Urgentemente. —... eu ganhei do meu pai — Ricardo continuou, me livrando dos pensamentos pervertidos — presente de aniversário. — Mas você só completa anos em outubro — contestei. — Considerei como um presente de aniversário adiantado — ele respondeu rodando pelas ruas da cidade —, em todo caso, a gente não questiona presente, não é mesmo? — É — concordei —, por falar nisso, eu amei o vestido que você me deu, Ricardo. Obrigada. — Não foi nada, querida — ele disse concentrado no volante —, você merece o mundo. Derreti feito manteiga na panela e, sorridente, descansei a cabeça sobre seu ombro, crente de que depois da balada, nós dois nos aninharíamos em uma cama de motel e ali ajustaríamos nossos ponteiros. E tudo ficaria bem outra vez. Então o celular do Ricardo vibrou sobre seu colo e a foto de uma garota com cabelos azuis e ondulados preencheu toda a tela. Meg. Passei o caminho inteiro de cara fechada. Além de Ricardo ter ficado longos minutos ao telefone com sua amiga e ex-namorada, ele ainda teve a audácia de passar pela sua casa para pegá-la, pois, segundo ele, a coitadinha tinha brigado f**o com o ficante e consequentemente perdido sua carona para a festa. Pura lorota, eu podia apostar. Então aqui estava eu, ainda enfiada no carro, ouvindo Meg tagarelar com meu noivo toda cheia de i********e. E pior, ela estava linda! Seus cabelos azuis caíam em cascatas onduladas até o ombro e a sua roupa — uma camiseta preta com estampas de caveira que ia até o joelho e uma botinha de couro cru — deixava-a cheia de estilo. Eu e Beto, amigo em comum dos dois, permanecíamos em silêncio, enquanto eles conversavam super empolgados sobre o tal DJ que tocaria na boate. — Ele é demais, Rick! — Meg exclamou eufórica.— Você precisava ter ido ao show que a gente foi, fala sério! Eu fiquei bem loucona, igual aquele dia que a gente acampou na praia do Bob, lembra? — É claro que eu lembro — ele respondeu cheio de sorrisos —, foi uma noite e tanta. Bufei, para deixar bem claro que eu estava irritada, e aumentei todo volume do som, abafando em instantes a conversinha dos dois. Ricardo tossiu, envergonhado, e a sua tão querida amiga por fim calou a boca. Sorri, vitoriosa, e olhei para ela através do espelho. Pela forma como Meg me encarou, constatei que eu não era a única furiosa por ali. Que pena! O resto da viagem foi em total silêncio, até o momento em que Ricardo estacionou em frente da boate e, ao invés de acompanhar os “amigos”, olhou para mim, raivoso, e anunciou para os dois: — Vão indo na frente, eu e a Larah precisamos conversar. — Era exatamente o que eu queria fazer — respondi assim que ficamos a sós —,vamos lá, Ricardo. Ou melhor, Rick. — Pelo amor de Deus, Larah — ele bufou —, não já falamos sobre isso antes? — Mas é difícil de aceitar, Ricardo! — protestei.— Vocês namoraram, não vem me dizer que ela não é importante pra você porque tá escrito na sua cara que é. — É claro que ela é importante pra mim, p***a! — ele respondeu alterado.— Fomos amigos antes disso, eu já te expliquei. Eu e você tínhamos terminado e eu e Meg acabamos confundindo as coisas, foi um período bom, mas acabou. Será que é difícil de entender isso? — É — respondi na lata —, a partir do momento em que ela começa a relembrar coisas do tempo em que vocês se pegavam e fala com você com tanta i********e, é bem difícil de entender mesmo! — Eu não vou deixar a minha amizade com ela por causa de um ciúme sem sentido, Larah — ele decretou —, e também não vou tolerar que você continue agindo assim. Aumentar o volume do carro só pra acabar com a nossa conversa? Percebe o quão mimada você é? — Mimada?! — Perguntei ofendida.— Primeiro você fica dias sem sequer dar uma notícia, Ricardo! Depois me leva pra uma festa na sua casa e me deixa praticamente o tempo inteirinho sozinha! Então me compra um vestido caro, como se isso fosse compensar suas atitudes, e fica de papinho com a sua ex que me odeia, caramba! — A Meg não te odeia — ele objetou. — Ela me chamou de vaca, Ricardo! — exclamei. — Foi um m*l-entendido — ele explicou, cansado —, nós voltamos e Meg não conseguiu aceitar de imediato, por isso te insultou naquele dia, mas ela já superou, por que você não acredita em mim? — E por que eu deveria? — Questionei, com os braços cruzados.— Você já me decepcionou de todas as formas possíveis, por que eu deveria acreditar que você se importa com a gente? — Porque se eu não me importasse eu não teria feito a porcaria do pedido, Larah! — Ele gritou e eu pisquei, ofendida. — A porcaria do pedido — repeti, magoada —, então é assim que você vê tudo isso? — Eu não quis diz... — Chega — interrompi com a palma da mão para a frente e os olhos cheios d’água —, a gente vai descer do carro, você vai curtir a sua balada com seus amigos e eu vou entrar no primeiro táxi que encontrar e ir para a minha casa. É assim que termina a nossa noite especial, Ricardo. — Por favor, não — ele pediu segurando gentilmente em meu braço. — Me desculpe, Larah. Na maioria das vezes eu só penso em mim e esqueço o quanto você é maravilhosa, acredite, eu quero que isso dê certo. E eu juro que nada mais ficará no nosso caminho. Depois disso Ricardo me beijou. Eu até tentei impedi-lo, mas não resisti e acabei me rendendo, beijando-o com mais intensidade. Perdi o controle e o puxei pela gola da camisa, trazendo seu corpo contra o meu, numa tentativa de, ao menos, m***r um tiquinho da vontade que eu estava dele. — Vamos lá — ele falou interrompendo o beijo, para meu desgosto —, vamos nos divertir, mas antes, quero que guarde isso com você — e me entregou um cartão de crédito em seu nome. — Por que você tá me dando isso? — Eu quis saber, avaliando a senha escrita num papel. — É para você comprar as últimas coisas que faltam para o nosso grande dia ou, sei lá, para nossa lua-de-mel — ele explicou já destravando as portas — e é ilimitado. — Cartão de crédito nas minhas mãos é um perigo — avisei — tem certeza que vai me entregar um mesmo assim? — Eu confio em você, Larah — ele disse convicto —, muito mais do que imagina. O pior de tudo é que eu sabia que ele estava sendo sincero, então aquela faísca de esperança acendeu-se novamente dentro de mim e eu sorri, toda abobalhada. — Vamos lá — falei empolgada, agarrada em sua mão —, vamos dançar muito, Ricardo, até cansar! “E terminarmos a noite embolados numa cama, depois de muita champanhe e s**o baunilha”, acrescentei mentalmente. Eu precisava parar de criar expectativas quando o assunto era o Ricardo, porque, uma hora ou outra, ele sempre arranjaria um jeito de me desapontar. E hoje não foi diferente. Assim que colocamos os pés na boate, Ricardo foi logo anunciando que iríamos para o camarote do Stella Drinks, pois, assim, teríamos uma visão privilegiada do tal DJ, além de desfrutar do conforto que a área vip oferecia e blá, blá, blá. Só que eu não ligava para nada disso, na verdade tudo o que eu queria era me enfiar no meio da pista e puxar meu noivo para o meu mundo, nem que fosse por alguns instantes. Então, por isso, fiquei de cara amarrada e tudo ali virou motivo para eu me irritar. As pessoas dançando enlouquecidas, esbarrando-se acidentalmente em nós, as luzes coloridas que ofuscavam minha visão e o barulho eletrônico ameaçando estourar meus tímpanos me fizeram praguejar mentalmente. Isso sem falar do meu noivo, claro, que nem se dava ao trabalho de fazer minhas vontades uma vez na vida. Ele me conheceu no meio da muvuca, toda suada e fedendo à cerveja, já rouca de tanto gritar. Então, por que raios achar que eu preferiria passar a noite num camarote repleto de gente com cara de tacho a me esbaldar no meio da pista, onde as pessoas eram bem mais animadas e cheias de vida? Fala sério. — Um sorriso não mata ninguém, Larah — Ricardo resmungou m*l-humorado. Eu me sentia tão cansada de discutir, que simplesmente dei de ombros e continuei subindo os degraus que dava para a área VIP da boate. O camarote do Stella era enorme, lindo e rico em cada detalhe, desde as paredes em tons de neon até os pequenos sofás luxuosos dispostos por todo canto. Os garçons transitavam em ritmos frenéticos, com bandejas cheias de petiscos apetitosos. Em cima do balcão, o barman dava um show de criatividade ao preparar drinques tão coloridos e convidativos, e isso não era por causa do seu abdome definido ou da sua pouquíssima peça de roupa — pelo menos não para mim. Eu não era santa, longe disso, eu só não costumava ficar desejando outro cara que não fosse meu noivo. Isso me parecia tão... errado. — Olha — Ricardo falou se pondo em minha frente —, eu sei que você está chateada. — Irritada — corrigi. — Tudo bem, irritada. — ele repetiu e em seguida sorriu malicioso —, eu prometo te compensar depois. Eu pigarreei, envergonhada, e tentei ignorar o rumo que meu pensamento tomou de repente. — Meus amigos estão me esperando — Ricardo continuou, me trazendo para a realidade —, por favor, Larah, trate-os bem. — Como se eles vivessem beijando os meus pés — retruquei. — Eu sei que eles implicam com você, mas custa agir com maturidade e tratá-los com educação? — Me dê um motivo para eu fazer isso — pedi, desafiando-o. — Beto — ele respondeu apontando para o amigo, que estava sentado num dos sofás, meio cabisbaixo —, ele acabou de levar um pé na b***a da namorada, não me impeça de ampará-lo nesse momento, Larah. Como eu poderia? Se Linda ou Bela estivessem com problemas, eu também não pensaria duas vezes e correria para consolá-las. É isso que os amigos de verdade fazem nessas horas. — Tudo bem — concordei —, só por causa do Beto. Ele sorriu, aliviado, e colou sua boca na minha, silenciando-me com um beijo terno e carregado de gratidão, me apeguei a isso para ter fé na gente, mais uma vez. Meg então gritou meu noivo e o nosso momento foi interrompido. Distraído, Ricardo soltou minha mão e caminhou em direção à garota, que continuava acenando para ele, toda cheia de sorrisos. Fechei os punhos e tentei conter meus desejos homicidas, arrastando-me logo depois até sua turma de amigos, que era tão divertida quanto uma ida ao médico. Meia hora depois lá estava eu, jogada num dos sofás, de braços cruzados e cara emburrada, assistindo meu noivo e seu fã- clube posando para mais uma foto, batida, como sempre, pelas mãos da adorável e tão caridosa Meg. — Essa função deveria ser sua — ela falou exausta, estendendo uma taça de bebida para mim, peguei apenas por educação. — Tudo bem que eu e o Rick já tivemos um lance, mas não sou eu quem vai botar os pés em Nova Iorque. — Paris — corrigi levando a bebida à boca —, e eu não ligo para isso, Megali. Ela me olhou f**o e depois jogou o corpo no sofá, mantendo uma certa distância de mim. — Meu pai quer processar o tabelião — ela contou —, soube que o seu é um dos melhores advogados da cidade, quem sabe... — Era — interrompi, segurando minha correntinha —, ele encerrou a carreira logo que mamãe... se foi. — Sinto muito — ela falou complacente. — Bem, eu vim aqui soltar um comentário m*****o, mas acho que vou abrir uma exceção. — Eu agradeço — respondi. — Não precisamos ser rivais, Larah. — Não somos. O fato de meu noivo ter te trocado por mim não é motivo pra você me odiar. — Provoquei. — Eu não te odeio — ela disse sincera —, eu só quero o melhor para o Rick, e no fundo nós duas sabemos que não é você. — Acabou de soltar um comentário m*****o — falei. — Você começou — disse ela —, mas eu só quero que saiba que eu amo mesmo o Rick, de verdade. — Eu também amo— estalei a língua —, e se você tem a intenção de brigar por ele, saiba que eu não sou muito boa em desistir. Ela me encarou, surpresa, tomou um bom gole da bebida e levantou-se. — Faça o Rick feliz — Meg pediu.— Se você é capaz disso, eu tô disposta a sair do caminho. — Pode começar agora — falei, abrindo-lhe caminho com as mãos, ela ajeitou os cabelos azulados e saiu, mantendo a compostura. Revirei os olhos, irritada, e olhei novamente para Ricardo, que havia esquecido completamente de mim e, sem camisa, levava a garrafa da cerveja à boca enquanto seus amigos bombados gritavam frases de incentivo. Isso era tão patético. Meg ergueu a taça de bebida para mim e eu fiz o mesmo, com o rosto já quente de raiva. Tá legal, eu não esperava que fôssemos passar o tempo inteiro grudadinhos feito dois adolescentes apaixonados, mas eu também não imaginei que sua ideia de noite perfeita era me deixar sozinha e curtir a festa com sua turma e sua ex-namorada apaixonada. Isso era demais para mim. — Aceita companhia? — Alguém perguntou surgindo de supetão. — Claro, Beto — falei oferecendo lugar para o rapaz sentar —, só não garanto que serei das melhores. Ele anuiu com a cabeça, como se me entendesse, e sentou-se ao meu lado, também pensativo. De todos, Beto era o único com quem eu me sentia à vontade para conversar, pois, ao contrário do restante, ele não ficava o tempo inteiro falando sobre suplementos, exercícios físicos, e formas de tirar proveito das mulheres nas academias. Além de legal, ele também era um rapaz bonito — alto, poucos músculos, barba rala e cara de menino estudioso. — Eu também não sou a companhia mais animada por aqui — disse ele, melancólico, enquanto procurava algo pelo bolso. Ah, sim, o tal pé na b***a. — O Ricardo me contou o que houve — eu disse —, sinto muito. — É claro que contou — Ele riu, irônico, depois tirou dois cigarros do bolso, acendeu um e me ofereceu o outro. — Eu não fumo — falei —, obrigada. — Eu comecei semana passada — Beto contou, com certa armagura na voz —, está me ajudando a lidar com a rejeição. — Então talvez eu devesse experimentar hoje — disse eu, agarrada em meu pingente. — Deixa de bobagem — ele falou descansado —, o Rick vai mudar. — Vai? — Perguntei, descrente, olhando-o nos olhos. — Vai — ele confirmou, cheio de certeza. — E o bom disso é que será por alguém que vale a pena. Aquiesci, esperançosa. Virei o rosto em direção ao meu noivo e o avistei ao lado da Meg. Ele cochichando em seu ouvido; ela sorrindo, toda derretida. — Sabe — falei, magoada —, eu quase acreditei.
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