08

3851 Palavras
Três dias antes do casamento... O despertador estrilou de cima do criado-mudo, me fazendo acordar. Não foi preciso checar as horas para eu saber que estava muito, muito atrasada. Pulei da cama, e, com meu celular e minha toalha nas mãos, fui direto para o banheiro. Lavei bem o rosto, escovei os dentes e tomei um bom e gelado banho — tudo isso com o som da Anitta rolando solto. Saí, com uma toalha no corpo e outra envolta dos cabelos ensopados, e fui direto para o guarda-roupa, tirei de lá uma calça jeans clara e uma camiseta branca. Já vestida, peguei meu secador, sentei na cama e comecei minha tarefa. —... Eu sempre digo nãão... — chacoalhei os cabelos para adiantar o processo —... faço você se perdêer... Depois que terminei, calcei meu par de tênis e levantei. Alcancei minha bolsa, onde enfiei meu celular, coloquei o vestido da noite passada cuidadosamente dentro de uma sacola e desci correndo os degraus da escada. Encontrei Madá sentada no sofá, cantando uma música italiana enquanto batia um bolo, papai estava do seu lado, com um papel e caneta nas mãos, pensativo. Me posicionei atrás dele e espiei seu jogo. — Marca o sete — aconselhei. — Obrigado, boneca — ele agradeceu preenchendo o círculo. Estalei um beijo em sua careca e depois outro na bochecha da Madá. — Para onde você vai tão cedo? — Ela quis saber quando eu caminhei para a porta. — Trabalho comunitário — respondi —, vejo vocês no almoço — joguei outro beijo para os dois e saí. Para minha sorte, foi só eu colocar os pés para fora que já avistei um táxi dobrando à esquina. Era meu último dia na autoescola. Antônio, meu professor, resolveu que esticaríamos o passeio pela cidade, como um brinde por eu ter sido uma aluna aplicada e obediente. Tá legal, ele não deveria ter tido aquela ideia. — Você se saiu bem nas últimas provas, Larah — ele elogiou assim que entramos no carro —, não demora e já estará com sua habilitação em mãos. — Eu m*l vejo a hora — falei dando partida. — Vamos lá, professor, suas últimas observações. — Eu começo aconselhando-a a andar mais devagar — ele apontou para o velocímetro e ajeitou seus óculos —, não precisa ser tão apressada. — Entendido — obedeci e comecei a rodar pela cidade —, mais alguma coisa? — Digamos que você tem certa tendência a se distrair — ele continuou —, não estou insinuando que seja avoada, mas é como se qualquer coisa tirasse sua atenção facilmente... De dentro do carro, eu observava o caos ao redor. Vendedores em frente às lojas, implorando a atenção das pessoas — que transitavam apressadas pelas calçadas —, salões de beleza por todo canto, prédios enormes, um casal trocando beijos numa pracinha, Ricardo saindo despreocupado de um motel... Espera. Ricardo? —... é como eu te disse, dirigir é questão de paciência e atenção... O que diabos ele foi fazer em um motel?! Sem mim...?! — ... e você está se saindo bem nisso, o que me orgulha muito e... Será que ele não se cansa de me decepcionar? — como eu ia dizendo...— Ah, como eu sou i****a —, é só você... FREAR ESSE CARRO AGORA! FREIA ESSE CARRO, LARAH! Mas já era tarde demais. Quando me dei conta, eu já havia ultrapassado o sinal vermelho e tudo saiu do meu controle. Os pedestres correram desesperados, os carros se livraram de nós em uma agilidade impressionante, buzinas pipocaram em meus ouvidos e Antônio chorava, pois tinha cinco filhos para criar. Por sorte consegui desviar de um ônibus, mas o mesmo não aconteceu com a reforma à minha frente. A batida foi inevitável. No total foram vinte cones destruídos, um par de óculos quebrados e a perna de um guarda fraturada em três lugares diferentes. A partir daí tudo desandou. Minha carteira de motorista foi reprovada e a família da vítima abriu um processo — o traíra do Antônio testemunhou contra mim. Papai teve que vender ao meu tio sua parte no escritório para poder pagar a indenização, sob a condição de que o cargo de secretária seria meu, e por fim, o juiz me sentenciou a prestar serviços comunitários em uma escola pública, no subúrbio da cidade. Ah, e o Ricardo me chamou de maluca quando eu fui exigir explicações. — Pode parar aqui — falei ao motorista assim que avistei a fachada com o nome do colégio, olhei para o taxímetro e me espantei: — A gente veio na bandeira dois? — Tivemos um aumento, dona — ele respondeu m*l-humorado. — Tô vendo — resmunguei e lhe estendi o dinheiro —, da próxima vez avisa que eu paro um ponto antes. Ainda inconformada, abri a porta do carro e desci. Entrei no colégio, cumprimentei o porteiro, me esbarrei com a diretora, que me lançou um olhar furioso por causa do meu atraso, e fui direto para a cozinha. Lá, enfiei meus cabelos numa touca, vesti meu avental e comecei a ajudar nas tarefas — depois que eu fui pega lendo na biblioteca quando minha função era espanar e organizar os livros, a dona Albertina concluiu que eu me sairia melhor lavando louça. Mas ao menos era uma escola infantil, seria pior se eu fosse prestar serviços noutra cheia de adolescentes revoltados e barulhentos. Ah, o bendito ensino médio... — Deu minha hora — falei assim que a sirene do colégio tocou, anunciando o fim do recreio —, vou lá ver meus pestinhas. — Boa sorte com eles — Dona Lise, a merendeira, me desejou sincera. Sorri para ela, peguei minha bolsa, e corri em direção à sala abandonada. Maio será mês de gincana, São Domingos e mais dois colégios irão competir em uma série de categorias, a dança é uma delas. Como os alunos não puderam bancar uma profissional, eu me ofereci para ajudá-los. A diretora aprovou a ideia e como recompensa diminuiu minhas tarefas, desde que eu me comprometesse a ensiná-los depois do intervalo, três vezes na semana. Eu ia até dizer que era tranquilo, mas foi só eu abrir a porta que um garotinho ruivo e sapeca esbarrou em cheio comigo. — Te peguei, André — falei agarrando-o. Olhei em volta, todos já estavam por aqui —, agora, quero todo mundo posicionado em seus lugares. Os alunos cumpriram minha ordem em questão de segundos, coloquei o DVD sobre a mesa e caminhei até eles. — Vamos lá, animem-se — falei.— E lembrem-se: Quem canta seus males espanta, mas quem dança, meus amigos, faz faxina na alma. — Eu não gosto de faxina — Sabrina resmungou e eu ri, em seguida liguei o som. Apostei nos sucessos dos anos 80 e tentei bolar uma coreografia mais moderna, de início foi complicado fazê-los aprender, mas eles eram tão esforçados que dava até gosto de ensinar. — A Maria pisou no meu pé! — Fernanda acusou e eu interrompi a música. — Não fui eu — Maria se defendeu —, o Alberto que me empurrou. — Mentira, professora, foi o Daniel. — Ana Luisa interveio. — Sua fofoqueira, você vai me pagar! E então Daniel partiu para cima dela, mas a garota escapou e começou a correr pela sala de aula, a turma se dividiu e logo uma guerra fora iniciada. Tá legal, haviam suas desvantagens. Eu já estava preparada para colocar todos de castigo quando eles voltaram para os meus braços, assustados. Daniel ficou parado, lá no canto da sala, com uma arma nas mãos. Uma. Arma. — Daniel, me devolve isso já — ordenei afastando as crianças para trás —, eu atropelei um guarda e tive que lavar tanto prato aqui, imagina se você... aperta.. essa... coisa. Eu m*l fechei a boca e as crianças abriram o berreiro, o danado do Daniel sorriu, todo travesso. — É de mentira, professora — ele falou e só então eu me aproximei, aliviada —, foi só pra assustar. — Onde você arranjou isso?! — Perguntei abaixada de frente para ele.— Trate de me falar a verdade, senão é direção na certa, Dan. — Meu pai comprou — ele respondeu — , pra enganar os bandidos. — Tudo bem, me dá isso aqui — pedi com a palma da mão para cima —, por mais que seja falsa não é coisa pra criança usar. — Eu só quis brincar, professora — ele argumentou cabisbaixo —, se eu te der, você jura que não conta pra minha mãe? — Juro — assegurei —, mas me prometa que você nunca mais vai chegar perto disso aí. — Prometo — ele garantiu. — Combinado, eu vou dar um jeito de devolver isso para o seu pai sem que ele saiba que foi você quem pegou. Daniel abriu um sorrisão e se atirou em mim, as outras crianças vieram em seguida e eu fui envolvida em um abraço coletivo bem apertado e repleto de carinho. Pensando bem, aquele acidente com os cones não foi tão r**m assim. O Guatemala estava, como sempre, lotado. Encontrei Demitri servindo as mesas, todo apressado. Ele sorriu para mim e, com as mãos, me indicou onde a irmã estava — enfiada no balcão do quiosque, instruindo os novos funcionários. Depois que minha aula acabou, enfrentei dois ônibus e vim para cá, com a missão de entregar o vestido emprestado e pedir mil desculpas à Bela por causa da mancha que acabei deixando nele. — Tá tudo bem, flor — ela dissera pegando o embrulho —, eu dou um jeito de deixá-lo novinho em folha, pode ficar tranquila. — Ah, Bela, obrigada — agradeci, apoiando as mãos sobre a bancada de madeira —, se não tiver jeito me avisa que eu compro outro. — Já falei pra não se preocupar — ela disse me estendendo um copo de suco —, depois que eu consegui deixar a camiseta do Demitri branquinha quando ele resolveu se banhar de vinho, uma manchinha de champanhe é coisa pouca. — Que mulher prendada — brinquei tomando um gole da bebida. — Humm... e ainda faz um suco de melancia pra ninguém botar defeito. — Viu só? Não me subestime — ela riu — Agora, me conta como foi o jantar na mansão? Deixou os granfinos no chinelo, não deixou? — Sinto te desapontar — eu disse, derrotada —, a minha amada sogra me presenteou com uma festa de noivado. Uma festa de gala, Bela! — Que p*****a! — Bela protestou. — Por que ela fez isso? — O Eduardo disse que eles queriam me intimidar — respondi, agarrada em meu pingente —, e depois, quando eu fui procurar pelo Ricardo, ouvi uma baita briga dele com os pais. O Julius chamou nosso romance de nojento e a Carmem perguntou quanto eu cobrava por noite. — Ah, Larah — ela disse compadecida, segurando em minha mão. — Eu me sinto culpada — confessei, passando os dedos pela boca do copo —, quando eu estava escondida atrás da porta eu olhei para o meu noivo e... Ele estava tão... triste. Parecia que o peso do mundo inteiro estava sobre suas costas e... e era tudo culpa minha. — É claro que não! — Bela contestou indignada.— O Ricardo já tem vinte e cinco anos, Larah, tá na hora de ele sair da barra dos pais e viver sua vida. Agora, me diz, por que você tem culpa ao fazê-lo feliz? — Você tem razão — abri um sorriso cheio de esperança —, quando voltarmos da nossa lua-de-mel, o Ricardo vai dar entrada em nosso apartamento e eu só preciso aguentar seis meses naquela mansão, mas vai dar tudo certo. — É claro que vai — ela falou confiante.— E se não der, temos vagas aqui no quiosque. Com esse corpo bonito e esse rostinho de anjo, flor, minha concorrência vai à falência. Eu abri a boca para agradecer, mas o barulho do telefone, que estrondou de dentro do quiosque, me interrompeu. Bela fez um sinal para que eu esperasse e esticou a mão para atender. — É a Linda — ela sussurrou, tampando o bocal, depois voltou a falar, animada: — Sim, flor... Tô te ouvindo... Babado?... Que cretina, conta logo! A Larah tá aqui... hum... vou falar pra ela... Ok... Beijos, estamos te esperando! — O que ela disse? — Eu quis saber assim que Bela desligou. — Não me adiantou muito — ela respondeu —, mas parece que ela tem novidades! Ah, ela disse pra você esperar aqui que vem nos ver, vou reservar uma mesa pra gente e já volto. Eu assenti e Bela saiu do balcão, toda saltitante, mas antes virou-se para mim, com o cenho franzido. — Tá tudo bem entre você e a Linda, não tá? — Ela perguntou desconfiada. — Claro que tá — respondi convicta e movi o pingente de um lado a outro. Ela sorriu aliviada e tornou a caminhar, mas eu fiquei ali, com a mensagem da noite passada rondando minha cabeça. Não, Bela, não está nada bem. — Desculpe o atraso, Larinha — Linda falou colocando a bolsa sobre a mesa, em seguida puxou uma cadeira de frente para mim —, o trânsito estava terrível. — Tá tudo bem — falei e fingi avaliar o cardápio do Guatemala, numa tentativa de evitar olhar para ela. — Não tem muito tempo que estou aqui. — Tudo certo, flor — Bela falou animada, juntando-se a nós —, dei uma lavadinha no vestido e consegui tirar a mancha da bebida. — Ah, que bom — suspirei aliviada —, valeu, Belinha. — Não foi nada — ela deu de ombros. — E aí, Linda, qual foi o motivo pra você convocar essa reunião? Fui vencida pela curiosidade e olhei para ela. Linda estava serena, seus olhos brilhavam e os cantos da boca teimavam em subir, e eu sabia, com toda a certeza do mundo, que apenas uma pessoa tinha esse efeito sobre ela. — Guga — eu soltei, deixando o cardápio de lado —, essa reunião tem a ver com ele não é? — Sim — ela miou, escorregando o corpo pela cadeira —, ele foi lá na clínica. — Pra uma terapia...? — Bela quis saber, confusa. — Meu irmão tá com problemas? — Perguntei preocupada. — Por que ele não veio falar comigo? — Não é bem um probl... — Ai, flor, geralmente as pessoas deprimidas não gostam de se abrir com os parentes — Bela me respondeu —, sabe, é complicado. — Vocês não estão entend... — Ai, meu Deus! — levei a mão ao peito — Ele tá com depressão?! — Larinha, me escut... — O papai precisa saber — falei alcançando o celular, já discando o número de casa. — Isso, flor, todo apoio é importante. — Parem! — Linda gritou, silenciando-nos de imediato — Ele não foi interessado numa sessão, caramba! Desliguei o celular, tranquila, e depois me virei para Linda, esperando uma explicação. — Então — Bela começou, cuidadosa —, o que ele foi fazer lá? — Me convidar — ela respondeu baixinho — para sair. — Tipo um encontro? — Indaguei, surpresa. — É — ela disse nervosa —, ele meio que enfatizou essa palavra. Umas três vezes. Ou quatro. — Finalmente! — Bela exclamou com empolgação. — Alguém vai se dar bem hoje, hein? Esperei ver Linda contente, mas ela olhou para mim, aterrorizada. — Ei — falei pegando em sua mão —, isso é bom. Não precisa ter medo. — Eu não... eu não quero me machucar — ela confessou num fiapo de voz. — E não vai, flor — Bela garantiu segurando em sua mão também —, se isso acontecer eu arranco as bolas dele e sirvo como prato principal aqui no Guatemala. — E eu não vou poder comer porque é i*****o — brinquei. Linda riu, e seus olhos marejaram. — Vocês são as melhores amigas que alguém poderia ter — ela disse, apertando nossas mãos —, mas às vezes eu sinto que não as mereço. —Que é isso, flor — Bela deu de ombros e eu olhei para Linda, em silêncio. Naquele instante tudo fez sentido, porque eu soube, no momento em que ela me olhou, que aquilo era apenas sobre mim. — Eu preciso ir — anunciei, agarrada em minha bolsa, e me levantei. — Mas, já? — Bela estranhou. — Ah, err... eu fiquei de almoçar com a Madá e o papai — respondi dando as costas —, vejo vocês depois. — Espera, Larinha — Linda me alcançou pelo braço —, eu te dou carona. — Não! — Exclamei e ela recuou.— Quer dizer, você acabou de chegar... Eu me viro. — Claro — ela concordou meio sem graça —, nos vemos amanhã então? Na prova do bolo...? — Sim — eu falei e seu olhar se encheu de esperança, me rendi e puxei-a para um abraço — Boa sorte com o encontro, Linda. — Obrigada, Larinha — ela fungou —, obrigada mesmo. Depois abracei Bela e corri para o ponto de ônibus, deixando as duas para trás. O celular vibrou de dentro da bolsa, mas eu ignorei, em três dias todo esse tormento irá embora e minha relação com Linda melhorará. Éramos amigas, e amigas de verdade sempre se entendiam no final das contas. Mal pisei os pés em casa e papai me arrastou para o carro, pois, segundo ele, eu ainda não tinha recebido meu presente de casamento. — O que é que o senhor aprontou? — Perguntei, passando o cinto de segurança. — Você vai descobrir, boneca — ele falou ansioso —, espero que goste. — Eu vou gostar, papai — falei sincera, pousando a mão em seu ombro —, prometo. Ele assentiu, seguro, e deu partida. Passamos o caminho inteiro conversando bobagens. Papai me contou, todo empolgado, que Madá havia saído para sua primeira consulta, depois começamos a falar sobre o enxoval do bebê, e rimos quando eu sugeri que o quarto fosse decorado por cuecas e âncoras, no fim já estávamos organizando outra aposta, dessa vez para adivinhar o s**o do bebê. — Eu faço dupla com o Guga — falei animada, desprendendo o cinto — e o senhor com a Linda, a dupla vencedora escolhe o nome. — Ah, é claro que eu vou ganhar — ele dissera confiante, em seguida estacionou o carro e sorriu para mim: — Agora, seu velho precisa te mostrar uma coisa. Foi quando descemos, bem em frente a um prédio, que eu comecei a desconfiar do que se tratava o tal presente de casamento. Papai cumprimentou o porteiro com certa i********e, e juntos entramos no elevador, que subiu direto para o quinto andar. Assim que ele abriu a porta do apartamento 41, minhas suspeitas se concretizaram. — Papai — eu meio que sussurrei emocionada e entrei, observando tudo ao meu redor —, isso é... — Eu sei — ele disse envergonhado —, não é tão grande como aquela mansão que... — Ei — eu o interrompi —, aquela mansão não chega aos pés disso aqui. Ele soltou um suspiro de alívio e, com a mão grudada na minha, me guiou por aquele espaço todo mobiliado e harmonioso. O apartamento, apesar de pequeno, era lindo. Na sala, havia um sofá todo vermelho e com almofadas brancas, uma mesinha de centro amadeirada e uma Tv de plasma grudada numa parede em tom pastel, logo ao lado tinham três prateleiras decoradas com os enfeites que comprei recentemente pela internet, uma bancada dividia a sala e a cozinha, ao redor dela estavam acomodados cinco bancos redondos e giratórios. A tão famosa cozinha americana. — Eu e Madá viemos pela manhã para decorá-lo — papai falou atrás de mim, quando eu já estava conhecendo a minha cozinha —, colocamos as caixas com os seus pertences em seu quarto, assim você pode ajeitar do seu jeito. Comecei a tocar em cada coisa ali, só para ter certeza de que aquilo estava realmente acontecendo. Corri os dedos pelo armário embutido, o fogão elétrico, a geladeira enfeitada com post-its coloridos, uma linda pia de mármore... — Papai — eu falei meio boba, olhando para ele toda emotiva —, muito obrigada. — Eu não pude te dar o mundo, boneca— disse ele —, mas você pode trazê-lo para cá. — Então o senhor trate de ficar feito estátua — ordenei carinhosa —, porque o meu mundo tá bem aqui na minha frente. Os olhos de papai brilharam de emoção nesse instante. — Vamos, tem mais uma coisinha para você ver — ele anunciou me puxando pelo braço e me guiando pelo apartamento. Passamos pelo meu quarto, que ainda estava sem móveis, porque, segundo ele, cabia a mim escolher, pelo banheiro de visitas — que era acanhado, mas dava para o pessoal se virar — e por fim entramos em um cômodo um pouco mais espaçoso, onde havia uma mesa, cheia de papeis e meu notebook prateado sobre ela. Não era nada tão grandioso, mas ali era como se fosse...um escritório. O meu escritório. — Então — papai falou coçando a careca — o que achou do seu local de trabalho? — Hum... é bem... formal — eu disse, correndo os dedos pela mesa oval —, é aqui que eu vou atender meus clientes? — Ah, não — papai respondeu de frente para mim —, esse é o canto para você se concentrar nos casos, estudar documentos importantes, sabe, fazer coisas de advogados. — Eu prometo que serei uma boa advogada — jurei —, e prometo que te deixarei muito orgulhoso, papai. — Você já me deixa orgulhoso, Larah — papai falou sincero e tocou meu queixo, me fazendo olhar para ele —, e se as coisas com aquele sem verg... rapaz... se as coisas com ele não derem certo, as portas de casa sempre estarão abertas para você, boneca. — O senhor me aceitaria de volta? — perguntei meio surpresa. — Mas é claro que sim. — E se eu voltar com um filho na barriga e outros cinco catarrentos para o senhor sustentar? — Insisti, cutucando-o de leve, e ele riu. — Eu sempre te aceitarei de volta, Larah — papai me assegurou. — Se eu pudesse, você nunca sairia dos meus braços. Tudo bem, eu sei que chegou a hora de você voar, mas se a rota for muito difícil, o caminho de volta ainda será os braços desse velho aqui. Entende isso? Assenti e, meio rindo, meio chorando, eu abracei meu herói, que me apertou bem forte, como se quisesse roubar de mim todas minhas inquietações. — Eu tô com tanto medo, papai — confessei com o rosto colado em seu peito. — Eu sei, boneca — ele disse descansando a mão em meu cabelo —, eu sei.
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