07

3663 Palavras
Segui à risca o plano da Bela. Depois de pronta — vestido no corpo, salto vermelho, bolsa de mão, cabelo amarrado num r**o de cavalo, bem no topo da cabeça, e maquiagem básica — , pulei a janela do quarto, que dava para a varanda, e caminhei direto para o quintal. Linda me acompanhou até o fundo da casa e me ajudou a saltar o muro, que para minha sorte, não era tão alto. Anabela ficou encarregada de tapear Demitri, inventar que eu havia recebido uma ligação da Madá e avisar ao Ricardo que eu o esperava no calçadão, próximo à praia. Funcionou. Apesar de só termos trocado apenas algumas palavras, Ricardo não se mostrou irritado por conta da minha demora, pelo contrário, ele estava tão mais leve, com um sorriso no canto da boca, a expressão relaxada e um cheirinho gostoso de sabonete. Dirigindo, com os cabelos claros ao vento e o olhar descansado, meu noivo parecia aquele rapaz pelo qual me apaixonei — num show da Ivete, onde ele me roubou um beijo —, seis anos atrás. Trocamos os números na mesma noite, combinamos de nos ver no próximo fim de semana e no primeiro mês eu já estava caidinha por ele. Mas não foi fácil, Ricardo sempre foi o cara mais mulherengo e também cobiçado da cidade. Me deu muita dor de cabeça esse Albuquerque, tanto que jurei muitas vezes esquecê-lo e partir para outra, mas não funcionava. Logo ele voltava como um cão arrependido e toda minha raiva ia embora. Então parei de lutar contra o destino e aceitei seu pedido de namoro, quatro meses depois do nosso primeiro beijo. Nosso relacionamento sempre foi como uma montanha-russa, mas já faz um tempão que ela emperrou e empacou aqui embaixo. Só precisamos encontrar um jeito de ir para cima outra vez. Repousei a cabeça em seu ombro, fechei os olhos, e me perdi em pensamentos, lá encontrei Ricardo no altar, me olhando como se eu fosse a coisa mais preciosa desse mundo. — Larah — meu noivo chamou apreensivo assim que parou o carro —, você precisa saber de algumas coisas antes. Olhei para o enorme portão que se abria diante de nós, segurei minha correntinha e encarei Ricardo, tudo o que eu vi nele foi medo e ansiedade. E uma veia saltitante em suas têmporas. — Não é apenas um jantar, Larah — Ricardo começou assim que saímos do carro. — Não um simples jantar. — Por isso o terno e a gravata — constatei.— Bem que eu tinha achado essa roupa super exagerada. — Encare como uma reunião de negócios — ele falou tenso —,os amigos do meu pai estarão presentes, suas esposas também. E o Eduardo. O que era óbvio, já que o jantar era para ele. — Eu sei que você o adora, mas o meu irmão... Bem, ele é impossível. — Eu o acho fofo — opinei. — Eu não quero te colocar contra ele, mas... — Boa noite, senhor Ricardo — o porteiro cumprimentou, todo animado. — Boa noite, seu Alexandre. Já conferiu o jogo hoje? — Ricardo perguntou descontraído. — Acabei de conferir — o senhor respondeu, tirando o boné —, mas não foi dessa vez. — Quem sabe da próxima, hein? — meu noivo o animou. — É, quem sabe. — Tenho um jantar para ir, até mais seu Alexandre. — Até mais, menino — ele respondeu todo gentil, depois olhou para mim e fechou a cara. — O seu Alexandre já foi mais bacana — cochichei, mas meu noivo pareceu não me ouvir, ou talvez não quisesse começar mais uma discussão. O porteiro sempre foi um homem legal comigo, inclusive até já descolou informações sobre o paradeiro do Ricardo quando eu precisei. Mas aí eu quebrei um jarro na cabeça do meu noivo, e, bem, as coisas mudaram. O único que me tratava normalmente era o Eduardo, por isso era difícil de entender tamanha implicância com ele. Quer dizer, no fundo não tão difícil. — Sabe, essa birra sua com o Edu... Isso é coisa de irmão — eu falei enlaçando sua mão na minha —, eu e o Guga também já nos desentendemos algumas vezes. Ricardo não respondeu e, de mãos dadas, caminhamos em silêncio pelo corredor ladrilhado. A mansão dos Albuquerques era puro luxo. Ao nosso redor havia um jardim todo capinado e tão extenso que qualquer pessoa poderia se perder ali. Chafariz em formato de anjo, piscina grande e de águas limpas, campo de beisebol, área para churrasco... Era um verdadeiro paraíso. Um paraíso que nunca foi capaz de encher meus olhos. Quando paramos em frente à porta, meu noivo deteve os passos e voltou-se para mim: — Larah, você não entende — Ricardo falou com cautela —, mas não é sua culpa, já que eu não tenho sido totalmente sincero com você... É só que... Certo, presta atenção. — Sou todo ouvidos, senhor Albuquerque — brinquei, ajeitando o nó da sua gravata. — Tudo bem você gostar do Eduardo, eu também gosto. Ele é meu irmão, p***a, mas... — ele coçou a cabeça, preocupado. — Por favor, não confie nele. — Ricardo! — Censurei. — Não confie, Larah — ele pediu —, essa é uma noite importante. — Importante por quê? — Eu quis saber. — Se tudo der certo — ele falou —, eu estarei à frente da presidência. Esse pessoal está aqui para nos avaliar, e o meu irmão só está esperando uma falha minha para convencê-los do contrário. — Então é disso que se trata? — Perguntei.— Mostrar pra esse bando de engravatados que você é um cara capaz de dirigir uma empresa? — Sim — ele respondeu envergonhado —, se eles verem que temos uma relação sólida... — Irão te julgar apto para ser um bom presidente— concluí. Ele assentiu com a cabeça. — Então vamos nessa — falei puxando-o pela mão —, vamos passar por isso juntos. Ele me olhou, atônito. —É isso que um casal de verdade sempre faz, não é? — Perguntei. Seus olhos verdes cintilaram e um sorriso confiante formou-se em seus lábios. — É — Ricardo respondeu, enlaçando-me pela cintura. Assim que a porta se abriu e toda aquela gente me encarou, eu esperei pelo momento em que alguém saíria das cortinas, com uma câmera nas mãos, nos avisando que tudo não passara de uma pegadinha. Mas isso não aconteceu. Agarrei minha correntinha e assisti a classe nobre ostentar na mansão dos Albuquerques . — Tem mais gente do que eu imaginava — Ricardo cochichou forçando um sorriso. — E todos estão tão... formais — sussurrei em pânico. Os homens, parrudos e de expressões sérias, conversavam entre si — enfiados em ternos escuros e caros. E as mulheres, todas elas, usavam longos vestidos suntuosos. Puxei a barra do vestido, tentando deixá-lo mais longo, mas ele não alcançou nem meus joelhos. Desisti, derrotada, e senti meu rosto inteiro queimar de vergonha. — Aí estão eles — a mãe do Ricardo anunciou sorridente e veio até nós —, os pombinhos. Sua cabeleira loura estava envolta de um penteado esquisito e seu vestido verde arrastava pelo salão. “Tá parecendo um papagaio, sogrinha.” Carmem abraçou o filho, toda receptiva, depois me encarou, com seu famoso sorriso de plástica. — Espero que tenha gostado da surpresa, querida — ela dissera em meu ouvido —, não é todo dia que se ganha uma festa de noivado, não é mesmo?. Apenas balancei a cabeça, muda. Minha sogra logo se despediu, depositando mais alguns beijinhos em minha bochecha, e saiu, com um enorme sorriso de vitória estampado em sua cara de bolacha. Apertei a mão de Ricardo, num pedido de socorro silencioso. — Está tudo bem, Larah — ele me acalmou guiando-me até os convidados. Alguns pararam para nos desejar felicitações, outros apenas sorriram, discretos. — Mostre confiança — Ricardo pediu —, e um pouco de simpatia. Converse pouco, responda o necessário, não mencione nada sobre o envenenamento do Eduardo... na verdade, evite-o. — Eu acho que quando alguém te convida para um jantar não precisa entregar um manual de instruções junto — retruquei mau-humorada. Ele suspirou, exausto, mas não rebateu. Ao invés disso aproximou-se do grupo onde seu pai estava e me apresentou para os executivos da empresa. Eu só sorria, bebericava um champanhe oferecido por um garçom, e ouvia quieta Ricardo repetir a todo instante o quanto eu era maravilhosa. Em outro momento eu teria achado aquilo lindo e me derretido toda. Mas ali, diante de tanto luxo e conversas chatas, eu só conseguia me imaginar sentada no tapete de casa, fazendo apostas com papai e rindo de alguma piada da Madá. Pela primeira vez, senti medo de fazer parte daqui. Para sempre. A única pegadinha da noite é que não teve jantar nenhum, e eu estava faminta. Depois de ouvir, com muita sofreguidão, a conversa de negócios entre Ricardo e os sócios do seu pai, fui arrastada por Carmem até seu grupo de amigas, onde ela fez questão de se referir a mim como sua querida nora. Quem visse a cena juraria que ela morria de amores por mim. Logo iniciou-se um papo sobre roupas e cosméticos, que eu até estava participando com certo interesse. Mas então a conversa rumou para o novo produto da linha dos Albuquerques — um creme facial que custava apenas dois mil reais. Quando foi questionada por uma das amigas sobre o preço tão barato e acessível, Carmem deu de ombros: — Foi feito pensando no proletariado — e sorriu orgulhosa, como se fosse a rainha da pátria —, os pobres coitados também merecem uma pele de pêssego, não é mesmo? Aquilo foi de dar nojo, na boa. Forcei um sorriso e pedi licença, alegando uma enxaqueca inexistente. Já de costas olhei acuada para o grupo de executivos à procura do meu noivo, mas ele e seu pai já não estavam mais por ali. Continuei a andar meio sem rumo e me enfiei no primeiro corredor que encontrei. Só percebi que estava na cozinha da mansão quando uma empregada, assustada com minha chegada repentina, topou-se comigo e derrubou a bandeja, acertando respingos de champanhe em meu vestido. Ah não, não no meu vestido. Merda. — Mil desculpas, senhorita Larah — a jovem suplicou em desespero —, eu não tive a intenção. — Tudo bem, Ângela — falei, com a palma da mão para frente, e me abaixei para ajudá-la com a bandeja —, quem mandou eu ter entrado sem bater, não é? Ela me olhou surpresa e me agradeceu. — Não foi nada — eu disse levantando-me —, acho melhor eu... hum... procurar outro lugar para... pensar. — Está tudo bem? — Ela perguntou preocupada. — Não é da minha conta, mas a senhorita parece tão... — Aflita...? — Tentei e ela confirmou. Soltei os ombros, cansada, e agarrei em minha correntinha. — Eu nem sabia dessa festa de noivado — desabafei encostando-me na parede, movendo o pingente —, vim preparada para um jantar e me deparo com um monte de mulheres vestidas como se fossem receber o Óscar. — Ninguém te avisou que era uma festa de gala? — Ela perguntou puxando uma cadeira. Fiz que não com a cabeça e me sentei, desolada, com os cotovelos apoiados sobre a mesa de mármore. — E pra completar tô morrendo de fome — funguei —, e eu só tô com uma champanhe no estômago. Ela me olhou compreensiva, depois caminhou até o armário e voltou para a mesa, onde depositou um pote de vidro cheio de biscoitinhos. — Espero que quebre o galho — ela arrastou uma cadeira e sentou-se de frente para mim —, eu quem fiz. — Aaah, obrigada! Eu amo bolinho de nata — pesquei um dos biscoitos e experimentei. — Hummm, está uma delícia! — Meu namorado também ama. — ela contou empolgada — E quanto à senhorita, não sei por que a insegurança, está maravilhosa! E esse vestido... Ele é perfeito! Eu estava de olho nele há tempos. — É, ele é lindo mesmo, mas nem é meu, sabe? — pisquei para ela.— Peguei emprestado da cunhada de uma amiga que nem sabe da minha existência. — Meu Deus — ela cobriu a boca, abafando uma risada. Eu ri também. — O plano era devolvê-lo intacto, mas... — apontei para a mancha de champanhe rente à barriga. — Eu o estraguei — ela falou, levando sua mão ao peito, seus olhos escuros mostravam pânico. — Eu sinto muito, senhorita Larah. — Me chame só de Larah — pedi — e fique tranquila, Ângela. Minha amiga é esperta, tenho certeza que ela vai arranjar um jeito de tirar isso aqui fácil, fácil. — Fico aliviada então — ela sorriu, exibindo dentes bonitos e brancos, que entravam em contraste com sua pele n***a. Ângela era tão linda, tão jovem. Eu nunca entendi por que ela se prendia aos Albuquerques quando podia arranjar algo melhor. — Bom, eu preciso ir — anunciei e, antes de levantar, aproveitei para pegar mais alguns biscoitos — Muito obrigada, Ângela. Por tudo. — Não foi nada — ela respondeu sincera e me acompanhou até a saída, onde me encarou com ternura: — Boa sorte com o vestido. Larah. — Ah, eu vou precisar mesmo — revirei os olhos —, valeu. Sorri para ela e voltei, mais leve e menos entediada, para a enorme sala de estar. O clima estava até agradável — alguns convidados já tinham ido embora e o som do violino deixara o local mais tranquilo. Ainda assim continuava sendo um porre. Não tinha gritaria. Nem sessão de fotos. Nem um tio que bebeu além da conta e arriscava dançar no meio da pista. Festa de rico não rendia boas histórias no dia seguinte, quando todos se reuniam para almoçar. Tudo era tão... monótono. Peguei mais uma taça com o garçom e caminhei à procura de Ricardo. Subi escadas, desci escadas, vasculhei pelos cômodos, passei pelo jardim, dei uma espiada no banheiro... Meu noivo não estava em canto algum! Acabei parando na sacada da mansão, onde fiquei bebericando o champanhe, contemplando aquela vista toda à minha volta. — Ele está no escritório — uma voz masculina falou ao meu lado —, seu noivo. Olhei para Eduardo e não pude conter meu espanto. Tudo bem que ele nunca foi um galã de novela — meio pálido, estatura baixa, e corpo franzino —, mas ao menos era ajeitadinho. Nessa noite, bem mais magro que o habitual, olhos cansados e barba por fazer, parecia que ele tinha envelhecido uns dez anos de repente. O visual também não ajudava, enfiado em uma calça jeans surrada, camiseta folgada e chinelo de dedo, ele não parecia nem um pouco com o cara sofisticado que eu conhecia. — Eu sei — Eduardo disse levando sua taça à boca —, não estou na minha melhor fase. — Eu... hum... não quis... — soltei os ombros, sem graça. — Sinto muito, Edu. — Tudo bem — ele deu de ombros —, depois do que aconteceu comigo não era de se esperar que eu estivesse brilhando, não é? “Não mencione nada sobre o envenenamento do Eduardo”. Ok, eu conseguia fazer isso. Segurei em meu pingente e forcei um sorriso para ele, que pousou seus olhos escuros nos meus, e ali ficou por segundos, procurando alguma coisa que eu não soube decifrar. Depois, Eduardo voltou a observar a paisagem e soltou um longo e pesado suspiro. Sem perceber, acabei fazendo o mesmo. — Tudo ia tão bem — ele resmungou —, eu já estava a um passo da presidência e agora... estou totalmente impossibilitado. Foi um golpe de mestre. Tentei ignorar suas palavras, tentei mesmo, porém meu racíocinio foi mais rápido e acabou ligando uma coisa à outra. Ah, não. — É engraçado — ele continuou — como as pessoas são capazes de tudo pelo poder. Quer dizer, eu fui envenenado dentro da minha própria casa, isso não te assusta? Assenti e tomei um bom gole de champanhe. — Tá aí uma coisa que nunca vou entender, Larah: a humanidade. — Sabe — falei depressa, tentando mudar de assunto —, no livro que você me deu, a personagem acabou se envenenando de propósito só pra se livrar da culpa. Bizarro, né? Fez-se um longo e incômodo silêncio. Me virei para o Eduardo e ele continuou quieto, olhando para o nada, como se estivesse preso nos próprios pensamentos. Depois de um bom tempo ele me encarou, alguma coisa cintilou em seus olhos e por um momento ele me lembrou aquele adolescente apaixonado que fora rejeitado por mim. — Um brinde — Eduardo propôs tocando sua taça na minha — à garota mais determinada que eu conheço, outra no seu lugar teria desistido depois dessa armação. — Que armação? — Perguntei levando a mão ao pingente. — Essa festa — ele respondeu abrindo os braços —, essa grande festa. — Eu não entendo — falei, confusa. — Você achou mesmo que minha mãe quis te presentear com uma festa de noivado? — Ele perguntou debochado. — Na verdade, Larah, os senhores Albuquerques tentaram a todo custo te intimidar essa noite. — Por isso esse glamour — constatei —, pra me fazer sentir menos que vocês. Eduardo confirmou com a cabeça. — Eu sinto muito — ele falou pegando em minha mão —, eu tentei convencer o Ricardo a te contar, mas... — O Ricardo sabia? — Perguntei atônita. — Mas... ele me disse que era apenas um jantar pra comemorar sua recuperação. — Eu nem fui convidado — ele riu com escárnio —, se estou aqui é pelo mesmo motivo que o seu: persistência. — E de que adiantou ter persistido tanto? — Perguntei cabisbaixa.— Melhor eu cair na real, essa é uma luta que eu nunca vou ganhar. — Você é tão bobinha, Larah — Eduardo brincou tocando meu queixo. — Não me diga que vai desistir na primeira afronta dos meus pais? — Não era pra ser assim, Edu — falei olhando-o nos olhos. — Seu irmão não é um troféu e isso aqui não deveria ser uma competição. — Mas é — ele falou fazendo carícias no meu rosto. — E eu te garanto, Larah, isso é só o começo. — Talvez — falei soltando a correntinha —, eu já esteja cansada de lutar. Sem me despedir, dei as costas e me retirei. Parte de mim queria socar meu noivo e exigir por explicações, a outra parte estava cansada de ouvir desculpas e fingir que acreditava. As duas, no entanto, admitiam que eu precisava encontrá-lo para poder ir embora. Tentei refazer o trajeto até o escritório, onde eu e Ricardo já fizemos amor algumas vezes, no tempo em que ainda éramos um casal apaixonado e cheio de t***o. Acabei me perdendo num corredor longo e repleto de quadros gigantescos, e só soube que estava no lugar certo porque ouvi a voz de Ricardo, que vinha de uma saleta cuja porta estava entreaberta. Me aproximei, ainda insegura. — Isso não é amor! — Julius berrou dando um soco em sua mesa, estremeci. — E você nunca terá o nosso consentimento! — É a minha felicidade, pai — Ricardo contrapôs agitado —, vocês não podem me negar isso. — Está vendo o que o seu filhinho acabou de dizer? — Ele perguntou para a esposa todo cheio de deboche. — A felicidade dele é causar desgosto para a família. — Essa mulher está sugando todo seu dinheiro — Carmem acusou e eu quis muito invadir o escritório e desfazer cada plástica dela com as minhas unhas.— Quanto é a noite? Ou seria o mês? Qual o preço dessa mulher, Ricardo? — Vocês não conhecem a Larah! — Ele gritou indignado. — Ela é a mulher mais incrível que eu tive a honra de conhecer e ela nunca teve nem aí pro nosso dinheiro! A Larah... A Larah merece o mundo! Na verdade ela é boa demais pra mim, e é por isso que essa história acaba hoje. Ricardo deu as costas para os dois e fez menção de sair, mas seu pai o impediu, segurando-o pelo braço. — Isso aqui não acabou, rapaizinho — Julius avisou autoritário —, e se você quer mesmo viver esse romance nojento saiba que têm muitas coisas em jogo do que um simples cargo na presidência. — Escute o seu pai — Carmem pediu, aproximando-se dos dois —, ainda é tempo de desistir disso sem causar escândalo. — Vocês não entendem — Ricardo falou derrotado —, eu não aguento mais. Voltei em silêncio para casa. Nem mesmo Ricardo, falando o caminho todo sobre a nossa tão sonhada lua-de-mel em Paris, conseguiu me animar. Me perguntei como ele poderia estar tão disposto a seguir em frente depois de toda aquela conversa no escritório — a qual não suportei ouvir até o fim. Eu quis muito acreditar que as coisas foram resolvidas no final e que seus pais concordaram com nosso casamento sem pensar que eu sou uma g****************a, como Carmem insinuou. Mas nem eu conseguia ser tão otimista. Encostei a cabeça no vidro da janela, grudei em minha correntinha e segurei as lágrimas que ameaçavam cair, foi assim durante o caminho todo, e quando chegamos, me despedi com um rápido selinho e entrei em casa às pressas. Felizmente todos dormiam. Caminhei para o meu quarto, tirei os saltos, troquei o vestido por um pijama e só então, deitada em minha cama, eu desabei. Meu celular vibrou de dentro da bolsa e eu o alcancei. Era uma nova mensagem, de mais um número desconhecido: “Seu noivo está te traindo, Larah. E a sua melhor amiga também.” Aquilo foi o suficiente para eu desmoronar. Outra vez.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR