06

4125 Palavras
— Na boa, Linda, colabora — eu pedi, tentando levá-la para debaixo do chuveiro, mas tudo o que ela fazia era chorar e rir, as duas coisas ao mesmo tempo. Eu sabia que a ideia daqueles brindes desvairados de caipirinhas seguidos por altas doses de Angel — que eu tenho de admitir ser uma delícia, embora só tenha experimentado um golinho — não iria dar em coisa boa. Linda perdia o controle quando se empolgava na bebida, e ela sempre se empolgava. Eu já perdi as contas das vezes que tivemos de arrastá-la das festas antes que ela fizesse alguma loucura. E hoje não foi diferente. Ela ficou bem doidona, subiu em cima da mesa e começou a sensualizar. A príncipio foi engraçado — os homens foram ao delírio e eu e Bela até incentivamos com aplausos e assobios. O problema foi quando ela resolveu que iria ficar pelada. Em cima do palco. Linda saiu tão depressa que não deu para contê-la. Os Garotos Quentes já estavam lá em cima, arrebentando com seu pop rock, e o Guatemala em peso estava aglomerado no espaço de dança, sendo assim acabamos perdendo-a de vista. O salvador da pátria foi Demitri, que também estava no palco tocando com a banda, e por isso pôde arrastar Linda de lá quando ela chegou chegando. Assim que ele a colocou em seu jipe, ligou para Bela e avisou do seu paradeiro. Corremos ao seu encontro, no estacionamento, do lado de fora da praia, e eu só faltei beijar seus pés do tanto que agradeci. — Não foi nada. — Ele falou meio tímido, coçando a cabeleireira loira. — Melhor vocês tentarem acalmá-la, ela está furiosa. Demitri fez uma careta e nos mostrou seu braço completamente arranhado, olhei para o carro onde Linda batia freneticamente na janela e, nos fulminando com o olhar, esbravejava coisas das quais não dava para ouvir. O que era muito bom. — A gente cuida dela — Bela se prontificou —, Demitri, vou precisar do seu carro. E cuide do quiosque para mim. — Como se eu tivesse escolha — Ele resmungou, rolando os olhos, mas logo se derreteu com o beijo da irmã em sua bochecha. Agradeci a ele mais uma vez e me enfiei no jipe preto, com Bela ao volante e Linda espremida entre nós duas, onde passou o caminho inteiro soltando palavrões direcionados à gente. Não demorou para chegar ao nosso destino, a casa da Anabela ficava bem pertinho da praia, dava até para vir a pé, se não estivéssemos acompanhada de uma amiga bêbada e mau-humorada, claro. Olhei em volta, nada estava diferente por aqui. O piso e os móveis eram de uma madeira escurecida e envernizada. Pedras, búzios e incensos traziam harmonia ao lugar, e a Mandala incrustada na parede clara trazia a sensação de paz e aconchego. Tinha cheirinho de casa de vó. Bela foi para a cozinha e eu entrei no banheiro com Linda, incumbida de lhe dar um banho, mas devido a total falta de coordenação motora e suas variações constantes de humor, a tarefa estava seguindo mais complicada do que eu imaginei. — Eu não consigo acreditar que vocês estragaram o meu show — Linda resmungou com a fala embolada, mas finalmente se deixou levar para o chuveiro. Não deu muito certo, ela escorregou, caiu de b***a no chão e começou a gargalhar feito uma maluca. — Você vai me agradecer por isso — eu falei agachada, tentando socorrê-la. — Tá tudo bem aí? — Bela perguntou enfiando a cara pela fresta da porta entreaberta. — Não. O mundo está girando — Linda reclamou e acabou vomitando. De novo. — E eu quero t*****r com o Gustavo. E com o Brad. E com o Willian Levi também. — Que s****a! — Bela exclamou.— Depois de um banho você pode fazer isso. — Exceto com o Willian Levi — eu falei e sorri para ela —, você tem que lidar com isso, amiga. Ela me olhou, seus olhos pretos e enormes pareciam estar carregados de culpa. — Ah, Larinha, eu sou uma péssima amiga — choramingou. — É sério. Desculpa, eu não tive escolha, não tive. — e chorou mais alto, chegando a soluçar. —Tá tudo bem — falei paciente —, vamos lá, vamos terminar esse banho. — Não vou. Não quero. — ela se recusou cruzando os braços. Bufei e me afastei. — Eu quero morrer afogada. Aqui. — Nem pra planejar um suicídio você presta — Bela retrucou e eu ri —, anda logo sua chata, como é que você vai para a cama com o Gustavo sem ao menos tomar um banho? — Nãããão. Me deixem aqui, ouvindo essa música. — Que música? — Bela perguntou com o cenho franzido, fiz o mesmo. — A que está passando agora — ela respondeu e encostou a cabeça contra a parede do banheiro —, vocês não estão ouvindo? — Na boa Linda, isso aí já é esquizofrenia. Não tem música alguma. — Tem sim, Larinha, é assim ó — então ela pigarreou e, para nossa tortura, começou a cantar, ou melhor, berrar: — se estou bebendo é para aliviar a dor dessa saudade, é pra fugir um pouco da realidade de te arrancar do peito, mas você não saaaaaai, se te esquecer eu... Esqueci. — Parece uma bezerra com a garganta inflamada — Bela zombou, tapando os ouvidos, e eu ri baixinho. — Vão à m***a! Larinha me dá a p***a do telefone que eu vou ligar para o Gustavo. Eu vou dizer que quero f********o pelo celular — depois de uma série de soluços ela riu: — Eu acho que ele vai se assustar. — Ah, claro que vai — Bela concordou depois de se enfiar no banheiro, com uma toalha no ombro e um copo nas mãos. O líquido amarelado e fumegante me chamou atenção. — Que é isso? — Perguntei curiosa. — É mingau de cachorro. —Mingau de cachorro... mingau — Linda repetiu e explodiu em uma gargalhada. — Mingau... De... Ah, não! Bela, você matou um cachorrinho e fez mingau dele. Eu quis muito ficar séria, mas a expressão chocada da Linda fez com que eu caísse em uma risada. — E VOCÊ SABIA, LARINHA! VOCÊS SÃO TÃO MÁ! — Deus, eu acho que a Linda vomitou o cérebro também — Bela cochichou para mim e depois voltou-se para ela : — isso aqui vai te fazer ficar melhor, prometo. — Parece caca de recém-nascido — falei e fiz uma careta. — Tem certeza de que é bom mesmo? — Flor, eu tenho experiência quando o assunto é bêbado. O mingau de cachorro levanta até defunto, anda Linda, toma logo esse banho. — Com uma condição — ela falou séria e eu e Bela trocamos um olhar silencioso —, vocês vão ter que me deixar ligar para o Gustavo. É isso ou nada de banho. Nem pensar! — Tudo bem — Bela falou e antes que eu protestasse, ela piscou para mim —, eu vou colocar esse mingau para esfriar, depois do banho você pode falar à vontade com o irmão gostosão da Larah. — Mesmo? — Ela perguntou com os olhos brilhando. — Mesmo — prometi estendendo a mão para ela, que acabou correspondendo ao meu gesto. Deu trabalho, mas Linda conseguiu se levantar após algumas tentativas. — Eu não tô bêbada. — Ela jurou apoiando as mãos na parede. — Imagina — Debochei, alcançando o sabonete. — É sério, eu posso fazer o quatro com as pernas. —Nem tente — Avisei e comecei a ensaboar seu corpo. — Ei, Larinha — Linda me chamou quando eu me afastei para pegar o xampoo —, esse aí não. Resseca meus cabelos. Depois do banho, carreguei Linda até o quarto da Bela, onde ela se jogou na cama e exigiu que eu fizesse cafuné porque estava carente ultimamente. É, a Linda bêbada é terrível. — Eu já falei que o Gustavo ligou pra mim essa semana? — Ela perguntou com os olhos semicerrados. — Não só falou como repetiu isso o banho todo — zombei —, umas trinta vezes mais ou menos. Ela bocejou. — Hum... O mundo continua girando. — Tá tudo bem, eu tô aqui — falei ainda afagando seus cabelos molhados. — Ei, Larinha — ela disse sonolenta —, o Ricardo não é um grande b****a afinal... — É, eu sei — concordei enrolando uma mecha entre meus dedos.— E eu sei que sou uma boba romântica, mas eu realmente acredito nessa coisa de destino, de vidas que são entrelaçadas porque... Porque alguma força bem maior determinou, sabe? — Tá parecendo uma cigana — ela resmungou com a voz já grogue. — Que seja — dei de ombros e continuei fitando o lustre em forma de sinos de vento. — O destino não colocou Ricardo em meu caminho à toa, nós vamos casar, ter filhos, e provavelmente eu vou me encher de estrias e celulites porque minhas carnes são um pouco mole e... Ai, meu Deus, será que meus s***s vão cair também? — Perguntei horrorizada. Ricardo já tocou no assunto de termos um filho antes de um ano de casados, e... bem, ser mãe ainda não fazia parte dos meus planos. Olhei para Linda a fim de obter alguma resposta, mas ela já havia apagado. Ajeitei a toalha em seu corpo, cuidando para não deixar nada à mostra, me afastei discretamente e fechei a porta com delicadeza, caminhando em passos silenciosos até à sala. Bela estava lá, de frente para a estante amadeirada, absorta, olhando para o porta-retrato em suas mãos. — Ei — falei me aproximando. — Oi, flor, cadê a pinguça? Eu ri. — A essa altura tendo sonhos eróticos com meu irmão — brinquei, me apoiando em seu ombro, então olhei para a imagem em suas mãos. A mulher de vestido e chapéu na cabeça estava sentada em uma balança com um garotinho emburrado em seu colo — de cabelos loiros e encaracolados, semelhantes ao dela. Ela olhava encantada para o homem alto, que empurrava as cordas e retribuía o olhar, tão cheio de ternura. Quem olhasse para os dois saberia o quanto eles se amavam. — É uma linda foto, Bela — elogiei. — É, é sim. Foi num verão, um ano antes de eles serem... — ela sacudiu a cabeça, como se quisesse afastar as lembranças, e então riu. — Meu pai encheu o Demitri de cócegas até ele se sentar no colo da minha mãe, ele tinha medo de altura. — Você não devia estar aí também? — Apontei para a fotografia. — Ah, fui eu que bati. Foi quando eu ganhei naquele concurso de miss no colégio, lembra? — Fiz que sim com a cabeça. — Eles ficaram tão felizes, eu nunca vou esquecer de como meus pais me olharam durante o dia todo, pareciam que iam explodir de tanto orgulho. Houve um curto silêncio, Bela não costumava ser tão nostálgica e eu não quis tira-la desse estado. É bom sentir saudades de alguns momentos, porque é sinal de que valeu muito a pena tê-los vivido. — É por isso — ela continuou levando o retrato contra o peito — que eu me empenho tanto nas festas do Guatemala. Só pra ter a sensação de que eles estão em algum lugar me olhando como naquele dia. — Eu tenho certeza de que é assim que eles te olham, Bela. Você faz um trabalho incrível lá no quiosque, não duvide disso. — Ah, flor, obrigada. Que saco, sempre que eu bebo eu fico meio emotiva. — então riu e colocou porta-retrato de volta à estante —, chá? — Com adoçante. — Ah não, não acredito que você ainda tá nessa de dieta — Bela resmungou marchando para a cozinha. — Já se olhou no espelho? — Ah, já sim — eu falei apressando os passos para acompanhá-la —, e medi minha cintura também, diminuiu alguns centímetros, mas não tá do jeito que eu quero ainda. — Qual seu problema Larah? — Ela inquiriu, com duas xícaras em suas mãos.— Por que essa preocupação em ser perfeita? Bela abriu o microondas e deixou as xícaras girarem, depois me olhou, ainda interrogativa. — Hum.... Onde estão aqueles biscoitos de nata? — Indaguei deixando sua pergunta morrer entre o abre e fecha das portas do armário. Eu não podia falar sobre isso. Não conseguia dizer para Bela que meu noivo já não morria de t***o por mim e que de uns tempos pra cá a nossa vida íntima esfriou... um bocado. Também não podia falar das celulites que se impregnaram na parte inferior das minhas coxas e que Ricardo sutilmente comentou. — Alguém aqui recebeu visitinhas — ele brincou apontando para os furinhos. Eu revirei os olhos e fingi não me incomodar com a observação, mas a verdade é que eu me incomodei. E naquele momento eu tive certeza. Ricardo Albuquerque sempre estaria num patamar alto demais para Larah Alves alcançá-lo. Eu sentia isso à cada dia. Podia ouvir seus pais cochichando sobre mim enquanto iam dormir, sobre como eu era comum demais aos seus olhos, entretanto eu me agarrava na esperança de que Ricardo tinha consciência disso, e mesmo assim me escolheu. Então eu resolvi que tentaria ser melhor. Mudei toda minha alimentação e dobrei os exercícios na academia, dei um banho de brilho nos cabelos, deixando-os ainda mais castanhos, e investi em roupas mais sensuais. Eu iria reconquistar o que foi meu algum dia, e nada me faria desistir. — Demitri esqueceu de comprar — Bela respondeu e me entregou uma xícara com o sachê já adicionado. — Camomila — ela disse assim que eu sorvi o primeiro gole do chá. — Demitri esquecendo alguma coisa — estranhei —, deve ter alguma razão para isso. — E tem — Bela falou levando o chá à boca —, se chama Ângela, tem olhos tão negros que parecem um carvão lapidado, uma pele que remete a chocolate amargo e um sorriso tão doce que é capaz de fazer qualquer diabético ceder à tentação. — Palavras de Demitri — concluí. — Ele mesmo — Bela abriu a porta que dava para a varanda e caminhou com os pés descalços sobre o piso arejado — Tão brega. — Achei fofinho — falei andando atrás dela, com a xícara envolvida em minhas mãos. Olhei em volta e senti a paz que aquele lugar trazia. Logo em frente havia uma escada de gesso que dava para o quarto de Demitri, a varanda era extensa, com piso branco e arejado, em volta tinha um canteiro bem cuidado com todos os tipos de flores, que deixava o local mais gracioso. — Então você vai ter um irmãozinho? — Bela perguntou radiante e jogou o corpo numa espreguiçadeira de madeira recostada à parede cor de creme. Olhei para a outra vazia, mas optei pela rede pendurada entre duas colunas brancas. — Vou sim! — Exclamei em meio a um balanço lento. — Você precisava ver a cara do papai, Bela. Parecia que ia explodir de felicidade a qualquer momento. — Eu faço ideia, e fico tão feliz pela Madá, ela é a criatura mais iluminada que eu já vi na vida. Eu concordei orgulhosa e bebi o útimo gole de chá. Não sei se foi a Camomila ou o barulho dos sinos de vento que pendiam do teto, mas eu realmente me sentia mais relaxada. — Eu não quero ter filhos — Bela falou meio melancólica —, não quero ter de deixar ninguém no mundo sofrendo por mim caso... você sabe. — Belinha do céu, você acha mesmo que se algo de r**m acontecesse contigo ninguém iria sofrer? — Perguntei com indignação. — Eu e Linda somos apaixonadas por você. E Demitri é capaz de dar a vida só para te proteger, então, para com esse pensamento e faz um filho pra eu paparicar bastante. Ela riu. — É sério, eu entendo que você não quer casar nem se envolver com ninguém pra valer, mas tem o Henrique, ele é lindo, e topou entrar numa amizade colorida contigo, um filho de vocês dois ofuscaria os olhos de qualquer pessoa de tanta beleza. — Flor, a louca aqui é você — ela zombou — Quer dizer, quem em sã consciência casa aos vinte e dois anos? — Faço vinte três em junho — contrapus — mas me considero nova pra ser mãe se quer saber. E novamente lembrei de que Ricardo já ansiava por um herdeiro. Pousei a xícara no chão e depois agarrei em minha correntinha. Tive a estranha sensação de estar esquecendo algo importante, mas o barulho frenético de buzinas impediu meu cérebro de raciocinar. — Larah — Demitri chamou da porta —, o Ricardo tá lá fora te esperando, ele quer saber se você já está pronta. — Pronta? — Perguntei com o cenho franzido — Mas eu não marqu... Ah não, não, não, não. — O que foi, flor? — Bela perguntou, preocupada. — O jantar — respondi batendo a mão na testa —, eu esqueci completamente do jantar na casa do Ricardo. — E ele está lá fora esperando pra que... — Ahã — balbuciei, movendo meu pingente de um lado para o outro. — Ah, m***a! — Ela exclamou. — Quer dizer, calma. — Como? — Perguntei em pânico.— Os pais do Ricardo já não me acham boa o bastante e se eu aparecer assim... — Respira, flor — Bela ordenou já de pé — Demitri, querido, diga ao Ricardo que entre e que sossegue o faixo. Faça sala, diz que houve um contratempo e, sei lá, puxe algum assunto. Futebol sempre funciona. — Mas... — Sem mas, Demitri — ela o interrompeu com a voz firme —, anda, mostra toda a educação que eu te dei. Vem, Larah. — Pra onde a gente vai?— Quis saber quando ela segurou em minha mão e num só movimento me arrancou de dentro da rede. — Vamos te arrumar, oras bolas — Bela respondeu ao mesmo tempo que me guiava para dentro da casa. — Se aquela gentinha acha que você não é boa o bastante, vamos mostrar pra ela como é que a banda toca. Amigos. Há quem diga que não precisa de um, mas no fim das contas, quando tudo parecer perdido, serão eles quem te estenderão a mão. Eu estava ferrada. Mesmo com todo o esforço de Bela em me arrumar para o jantar, as coisas não deram certo. Além de ser bem mais magra que eu, ela tinha uma coleção de vestidos longos e de diferentes estampas — que eram lindos, mas não combinavam para um jantar dos Albuquerques. — Eu devia ter comprado algo mais sofisticado. — Bela lamentou e se sentou na cama, ao meu lado. — Ah, não, Bela. Isso não é sua culpa — falei sincera.— Seu estilo é maravilhoso e não é você a noiva de um cara cuja família é cheia de não me toque. Esse fardo aí é meu. Ela riu, mas eu sabia que no fundo se sentia frustrada. Bela era assim, capaz de tirar a roupa do corpo para socorrer quem precisava. — Minha cabeça vai explodir — Linda resmungou, saindo do banheiro, com um roupão azul e uma toalha na cabeça —, eu juro que nunca mais vou beber. — Nós sabemos que isso é mentira — Bela zombou e pescou um copo sobre o criado-mudo — Toma, isso aqui vai te ajudar. — O cheiro é tão bom quanto a minha situação — ironizei e Bela me reprovou com o olhar. — Não encontrou nada? — Linda perguntou depois de jogar o corpo sobre a cama, com o tal mingau de cachorro nas mãos. Fiz que não com a cabeça e me levantei. — Aonde você vai? — As duas perguntaram em uníssono. — Vou desmarcar com o Ricardo — respondi, alcançando a maçaneta. — Não adianta ficar aqui fingindo que está tudo bem, eu tinha um compromisso e acabei esquecendo, agora o mínimo que eu posso fazer é mandar meu noivo embora e inventar alguma desculpa. — Parada aí, Larinha — Linda ordenou.— Você não é de desistir fácil. — Não é questão de... — Nos dê mais um tempinho — Bela pediu, enfiando-se outra vez em seu guarda-roupa —Tem que haver um jeito. — Que jeito? — Perguntei derrotada, jogando o corpo na cama outra vez — Eu sou muito otimista, mas, na boa, a gente sabe que só um milagre me ajudaria nesse momento. — E o que você acha de um milagre feito de veludo, cor preta, e etiqueta de grife?— Bela perguntou ainda agachada, com um embrulho nas mãos. Saltei da cama e me aproximei curiosa. Ela me entregou uma sacola dourada, de onde tirei um vestido perfeitamente dobrado. — Uau — soltei embasbacada. E incrédula. O tal milagre era lindo. Todo enveludado e levemente rodado — do jeitinho que eu gostava —, tinha um corte reto, mangas curtas e as costas elegantemente nua. A etiqueta de lacinho deixava-o ainda mais luxuoso. Quem olhasse saberia que havia custado uma grana e tanto. — Achei que você só tivesse vestidos tropicais — Linda comentou, vindo em nossa direção. — E só tenho mesmo — Bela confessou com um sorriso travesso nos lábios e nós a encaramos —, esse vestido não é meu. — Quê?! Como assim? — eu quis saber. Ela levantou-se, caminhou até a porta e passou a chave, depois sentou-se na cama. Fizemos o mesmo. — O aniversário da minha cunhada está chegando e o Demitri quer surpreender. A moça tava de olho nesse vestido há tempos, mas o que ganha só dá pra manter os estudos — Bela contou —, então o bobalhão apaixonado quase vendeu um rim pra satisfazer a namorada. — Seu irmão ficou com todo romantismo da família, Bela. — O Demitri é um fofo — eu falei e devolvi o vestido —, eu não posso fazer isso, Bela. Seria roubo. — Na verdade seria um empréstimo — ela me corrigiu —, vamos lá, flor, eu sei que esse jantar é importante pra você. Além do mais, qual a chance de você se bater com a Ângela por aí? Uma em um milhão? — Eu sei, mas... Não parece certo — falei, hesitante. — E não é — Linda afirmou —, mas que graça tem ser sempre tão certinha? — Ai, gente... — olhei para o vestido, insegura — Eu nem topei ainda e já estou me sentindo culpada. — É só por uma noite, flor — Bela tentou me acalmar —, ninguém vai ficar sabendo. Você usa, janta lá com os esnobes, depois me entrega e eu lavo com cuidado. A namorada do Demitri é um amor, se ela estivesse aqui com certeza te emprestaria numa boa. — Tudo bem — aceitei —, eu prometo que devolvo sem nenhum arranhão. E, Bela, já que calçamos o mesmo número eu vou precisar de um salto seu emprestado. — Sorte que isso eu tenho — Bela riu e me puxou, empurrando-me para o banheiro do quarto —, vamos lá, enquanto você toma banho eu vou te ensinar como sair dessa sem que o Demitri te veja. — Esperem por mim — Linda pediu tomando toda a bebida —, nesses quinze anos de amizade eu nunca vi a Larinha pelada. Vai ser épico! — Eu não vou ficar pelada na frente de vocês! — Exclamei horrorizada. — Eu posso ouvir tudo de lá de dentro sem problema nenhum. — Ai, Larinha, falando assim até parece que você ainda transa de luz apagada. Fiquei em silêncio. — Ah, não — Bela resmungou —, você ainda transa de luz apagada! — Será que dá pra gente falar de outra coisa? — Sugeri constrangida. — Mas, flor — Bela continuou —, você nunca viu o p*u dele? — Chega — falei com o rosto quente de vergonha. — Eu me recuso a falar disso. Me enfiei no banheiro e bati a porta com força, deixando-as para trás. — Abre, Larinha, deixa de ser careta. — A gente nem gosta disso, flor. O lance aqui é piroca mesmo. — Eu não estou ouviindôo — cantarolei, com as mãos no ouvido. As duas riram alto do lado de fora. — Se continuarem me zoando eu quebro uma coisa bem pesada na cabeça de vocês — ameacei. — E vocês sabem que eu quebro! Isso foi o suficiente para elas explodirem em gargalhadas. E foi assim durante o banho inteiro.
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