Quando vi o nome de Ricardo piscar na tela quase tive um treco.
Pedi licença à Linda e rumei para detrás dos coqueiros, onde estavam posicionados alguns banheiros químicos. Me enfiei em um deles, tranquei a porta e fiquei ali, encarando a tela que anunciava a chegada de mais uma mensagem.
Levei o dedo ao celular, prestes a clicar na opção de ler, mas, claro, hesitei.
E se ele tivesse querendo romper?
Ou quisesse um tempo, como aconteceu ano passado?
Ou pior, e se ele prolongasse meu sofrimento e ali dissesse que precisaríamos conversar?
Ai, meu Deus!
Segurei em minha correntinha e criei coragem para abrir a mensagem, só então pude respirar aliviada.
“Oi, querida! Ah, como eu senti sua falta! Parece que a paz que por vezes me é roubada só ressurge quando estou com você. Por favor, ligue para mim assim que puder. Bjs,”
Awn, que fofo!
Com um sorriso bobo no rosto disquei seu número, ele atendeu no primeiro toque.
— Ricardo — falei em meio a um suspiro.
— Oi, querida, oi — ele também suspirou aliviado —, tudo bem?
— Sim... Quer dizer, não! Você não me deu notícias, como quer que eu esteja bem?! — perguntei zangada. — Você tem ideia de como fiquei preocupada?
Desesperada era a palavra certa, mas ele não precisava saber disso, claro.
— Larah, escute — ele pediu —, meu irmão... ele foi envenenado.
— Hã? O Edu? Como? — Segurei minha correntinha de imediato.
— Ainda não sabemos. Parece que foi arsênico, mas o médico garantiu que a quantidade não foi suficiente para que ele... bem, morresse.
— Ai, meu Deus, quem fe... Ei, você não está mentindo pra mim não né? — Inquiri desconfiada.
— Você acha que eu ia brincar com uma coisa dessas? — Ele perguntou todo ofendido.
Quem inventou que a mãe estava na UTI? Queeeem?
Apesar de ter todos bons motivos para desconfiar do Ricardo, eu acreditei nele, de novo. E então me peguei realmente preocupada com o Eduardo.
— Como ele está? — Eu quis saber movendo o pingente de um lado para o outro. — Eu posso falar com ele? O Edu é tão frágil, eu... Ai, meu Deus, como pode alguém ter feito uma crueldade dessas?
— Eu também não entendo, quer dizer, se eu quisesse envenenar alguém, eu colocaria uma quantidade necessária para que essa pessoa morresse, certo?
— Ai, Ricardo, como você pode ser racional num momento desses? — Censurei.
— Querida, eu sou de exatas — ele brincou e eu ri —, mas, por favor, Larah, não comente com ninguém, meus pais confiscaram meu celular, eles... não queriam que eu conversasse contigo, sabe, os Albuquerque nunca querem se meter em polêmica e, bem... Você é bem polêmica quando quer.
— Hum... Isso foi um elogio, senhor Ricardo Albuquerque? — Perguntei num tom mais ameno.
— Bem, eu não sei. — Ouvi um suspiro. — Mas eu te admiro por isso. Eu sei que sou um i****a às vezes, mas... Você é especial pra mim, de verdade e eu...
Vai, Ricardo, fala as três palavrinhas mágicas, por favor.
—Eu adoro você.
Parte de mim murchou, Ricardo nunca soltou o famoso “eu te amo”.
Um dia eu tive a impressão de que ele falaria.
Foi quando ele sofreu um acidente de moto e acabou quebrando o fêmur, eu, como a boa namorada que sempre fui, passei o tempo todo ao seu lado, enchendo-o de mimos e bolos de cenoura que eu fingia ser feitos por mim.
Então, numa tarde tediosa de domingo, deitado em uma cama de hospital, comigo aninhada em seu peito, Ricardo acariciou meu cabelo e ergueu meu rosto, me fazendo olhar para ele. Seus olhos verdes exalavam gratidão — dentre outras coisas que eu não sabia nomear —, seus lábios umedeceram e sua expressão, que por vezes me parecia distante, naquele momento estava suave e cheia de ternura.
Eu lembro perfeitamente desse dia porque nunca tive tanta convicção de que ele confessaria seu amor por mim como naquele momento. Mas, para minha decepção, ele sorriu e soltou o típico: “Eu adoro você, Larah.”
Eu achei fofo na época, mas meu coração ansiava por mais.
Apesar disso, eu sei que Ricardo me ama, ele só precisa aceitar de uma vez por todas. Quando o destino nos traça alguém, não tem para onde correr.
Eu bem sei.
— Larah...? Você ainda está aí? — Ricardo perguntou me trazendo para a realidade.
— Ah, sim, foi m*l, eu... hum... me distraí.
— Tudo bem, eu não posso tomar muito tempo, meu pai volta e meia vem me vigiar, isso é um saco — ele bufou —, só liguei pra avisar que hoje vai ter jantar aqui em casa, em comemoração à recuperação do Eduardo, eu passo pra te pegar as nove, tudo bem?
Droga.
— Hum, eu, eu tô aqui no quiosque da Bela, está tendo festa e eu não sei quando termina — argumentei tentando me livrar do tal evento.
— Não se preocupe, querida, eu te busco. Hoje é um dia importante pra nós. Câmbio, desligo.
— Bobo, eu te amo — soltei, melosa, mas ele já havia desligado.
Saí nervosa do banheiro.
A verdade é que eu odiava os eventos da família Albuquerque, tudo bem que eu teria que me mudar para a mansão por alguns meses assim que nos casássemos, mas eu preferia adiar ao máximo o momento de pôr os pés lá.
Era aterrorizante.
A mãe do Ricardo, uma cinquentona que já devia ter passado por inúmeras cirurgias plásticas, me olhava sempre desconfiada e de nariz empinado. Já o senhor Julius Albuquerque era um porco desprezível, demorava tempo demais olhando para minhas pernas e me convidava para viagens das quais eu me esforçava para recusar com educação.
O único Albuquerque que era legal comigo era o Eduardo, eu agradecia aos céus por ele ter superado a paixonite que teve por mim anos atrás e não me odiar pelo fiasco que foi seu pedido de namoro em frente ao meu colégio.
Foi muito lindo de sua parte, para ser honesta.
Eu estava de saída com Linda e Bela e um amontoado de gente me esperava na frente da escola, enquanto pétalas de flores formavam um coração sobre o chão. Edu estava abaixado, com um buquê de rosas, se declarando em alto e bom som para mim.
Eu gelei, e enquanto todos aguardavam o tão esperado sim, tudo o que eu fiz foi correr — deixando Eduardo para trás, envergonhado e com seu coração partido.
Mas sendo o cara legal que era, Edu me perdoou muito antes de eu me perdoar, e então viramos bons amigos.
— Ei, flor, que cara é essa? — Bela perguntou assim que eu me aproximei.
— Uma longa história — me joguei na cadeira. — Cadê a Linda?
— Bem ali — ela apontou sorridente e eu acompanhei seu olhar até a pista de dança.
Linda estava agarrada com um cara que eu nem precisei olhar muito para saber que era bonito, muito bonito na verdade.
— s****a — soltei divertida, levando o canudo à boca. — Humm, delícia.
— É sim, o Fred é muito gostoso — Bela comentou bebendo um bom gole de sua vodca.
— Eu tava falando da água de coco — brinquei — Fred...? O vocalista...?
— Esse mesmo, foi o único jeito que encontramos para descobrir o paradeiro do Brad. É claro que eu me ofereci para cumprir essa missão, mas a v***a argumentou que não beijava há dias. O que não fazemos por uma amiga não é?
Eu aquiesci tentando segurar o riso.
— Mas me fala de você, flor, por que chegou com uma carinha de cão sem dono?
— Ah, Bela, é que o Ricardo me ligou e...
— Cheguêei — Linda cantarolou esparramando-se na cadeira.
— Alguém aqui se deu bem, hein? — zombei e ela abriu um sorriso amplo.
— Ai, Larinha, que deus grego! E que beijo! Bela do céu, você precisa provar daqueles lábios.
— Não se preocupe, flor. Antes de ele sair para a turnê eu provarei, sabe, preciso dar meu veredito!
— Você não me engana, Bela — eu acusei brincalhona —, minha experiência como advogada me diz que você tá doidinha pra aumentar a lista de seus peguetes.
— E que já está enorme, só pra constar — ela rebateu presunçosa.
— Mas que vai entrar na aposentadoria quando você encontrar sua metade. — contrapus.
Ela riu, apanhou seu copo e meio que ficou em pé na cadeira, eu e Linda seguramos nas laterais para que ela não se arrebentasse.
— Que todos os presentes aqui saibam que uma aliança nunquinha entrará no dedo da Anabela Silveira — em seguida ergueu a bebida e algumas pessoas fizeram o mesmo.
— Tudo bem, agora senta — pedi —, não sei se vamos conseguir segurar essa cadeira por muito tempo.
— A Larinha tem razão, coloca seu traseiro na cadeira pelo amor de Deus! Tá esquecida da nossa busca pelo patinho f**o?
— Ai, meu Deus, flor! — Ela exclamou voltando a se sentar. — Não me diz que sua missão falhou?
Linda abriu um sorriso convencido e tirou de dentro do seu decote um pedacinho de papel, balançando-o lentamente.
— Eu nunca dou um ponto sem nó — ela falou exibindo o prêmio. — Aqui está o contato do Brad, é só acessar e bisbilhotar o perfil dele.
— Me dá pra cá — eu pedi já conectada à internet.
Linda me jogou o papel de uma forma brincalhona e eu revirei os olhos, abri minha conta e as duas aproximaram suas cadeiras de mim. Porém, antes que eu digitasse o nome do Brad, o celular apitou com uma nova notificação e eu apertei em ler.
“Gustavo Alves alterou seu status para solteiro.”
O grito que soltamos foi tão alto que o coitado do garçom se assustou e derrubou a bebida em cima dos cabelos da Bela.
E nós explodimos em uma crise de risos mais uma vez.
Boquiabertas.
Era assim que nós três estávamos, com os braços apoiados sobre a mesa e o olhar fixado na tela do celular.
O Brad — que nos tempos de escola era cheio de espinhas, magro e ficava ridículo usando óculos fundo de garrafa e aparelho dentário —, agora era simplesmente um deus grego.
Seus cabelos claros ganharam alguns reflexos loiros, as espinhas sumiram e seu sorriso era impecável. Isso sem falar do corpo, completamente em forma e com alguns gominhos na barriga.
— Deve ser photoshop — Bela argumentou —, quer dizer, não tem cabimento, olha só pra esse tanquinho!
— Não acho que seja photoshop — discordei dando uma rápida olhada em seu perfil —, olhem, ele é DJ agora, e pelos comentários é dos bons.
— Tem algum contato dele aí? — Linda quis saber.
— Espera... Aqui. Pelo DDD parece que ele ainda mora aqui na cidade.
— Liga pra ele — Bela ordenou —, convida pro seu casamento. Vai, temos que fazer Linda esquecer o Gustavo em grande estilo.
— Não acho que seja uma boa ideia — Linda meio que se esquivou —, não estou preparada para partir pra outra tão de repente.
— Flor, ninguém está falando em casamento, é só que se for pra trocar o óleo que seja num posto de qualidade. E esse aí — ela apontou para a foto — é um baita dum posto Ipiranga.
Nós rimos.
— Tudo bem. — Linda se rendeu. — Vai, Larinha, disca esse número logo antes que eu me arrependa.
— Por que eu?
— Por que você vai casar em quatro dias...? — Bela perguntou. — Se esse não é um bom motivo pra falar com alguém que não vemos há anos eu não sei mais qual é.
Suspirei e cedi, tudo em prol da amizade.
Quando começou a chamar, fiquei ainda mais nervosa. Depois de tanto tempo eu não sabia como puxar assunto com alguém que eu m*l trocava palavras no colégio, Brad sempre foi tão recluso.
Eu já estava prestes a desligar quando ele atendeu, respirei fundo e ativei o viva-voz.
— Alô? — a voz masculina falou do outro lado da linha, Bela me incentivou com um beliscão e eu tive que reprimir um grito de dor.
— Hã... Brad? Oi, aqui é a Larah... Do colégio.
— Larah — ele repetiu como se estivesse tentando ligar o nome à pessoa. — Irmã do Gustavo?
— É-É — Gaguejei, levando o pingente de um lado ao outro, e as duas riram do meu nervosismo. — Tá... Tá tudo bem com você?
— Sim, está sim. E com você? — ele perguntou gentil.
— Que voz gostosa — Bela soltou e eu corei.
— Perdão, o que disse?
— A bebida... Tá gostosa — eu falei olhando f**o para ela. — É que eu tô aqui no quiosque da Anabela, você lembra dela?
— Ah, claro, como eu ia esquecer? — ele indagou e Bela sorriu convencida. — Ela jogou um balde de água gelada em mim no dia que fiz a serenata para a Linda.
— Ah, é verdade — eu ri —, mas acho que você a perdoou por isso não é mesmo?
— Digamos que consegui superar, depois de anos fazendo terapia.
— Nossa, eu... Eu sinto muito.
— Ei, eu tô brincando — ele falou divertido e eu respirei aliviada —, foram bons tempos se quer saber.
— Mesmo? — perguntei cética. — O pessoal do colégio sempre foi tão b****a com você.
— Eu nunca me importei na verdade. E a Linda? Como ela está?
— Ah, ela está ótima, vive falando em você — menti e recebi outro beliscão, dessa vez vindo do meu lado esquerdo.
— Bom saber — ele suspirou —, ela sempre foi uma garota bacana. Todas vocês, na verdade, inclusive a Fera.
— Vou falar isso para elas depois — brinquei e Bela mostrou o dedo do meio para o celular. — Então, eu... Eu liguei pra te fazer um convite, eu e Ricardo vamos nos casar daqui a quatro dias, você... você gostaria de vir?
— Claro, será um prazer — ele respondeu, educado —, me passa o endereço por e-mail, meu tempo está um pouco corrido, mas eu darei um jeito de te prestigiar.
— Hum, tá... Foi bom falar com você, Brad, tchau.
— Foi bom falar com você também Larah, manda lembranças para o pessoal, inclusive para a Fera. — e riu da própria piada.
É, até que ele era divertido.
— É Bela, queridinho — a maluca corrigiu, irônica, e desligou o celular.
— Bela! — Linda censurou.
— Eu achei que o intuito era tentar alguma aproximação. — objetei e ela cruzou os braços.
— Eu não ia ficar aqui ouvindo esse cara falar m*l de mim — retrucou, cruzando os braços. — Mas isso não quer dizer que desistimos, nossa amiga aqui ainda vai para a cama com esse gostosão, embora ele seja um b****a. Animem-se meninas, vou pegar mais bebida para a gente. Larah...?
— Só um suco de laranja. Com adoçante.
— Eu ouvi uma dose de tequila com Limão? — Ela perguntou brincalhona.
— Sim — Linda interrompeu. — Foi exatamente o que a Larinha pediu.
Eu quis contestar, mas era apenas uma dose e eu não queria bancar a chata outra vez, sendo assim apenas revirei os olhos e suguei a última gota de água que havia no coco, preparando meu estômago para o que viria.
A Tequila desceu queimando, de modo que tive que sair diversas vezes para o banheiro, numa tentativa de expulsá-la do meu organismo. Foi em uma dessas idas e vindas que algo me chamou atenção.
Eu já estava voltando para a mesa, onde deixei Bela e Linda rindo alto das suas lembranças, quando percebi um aglomerado de pessoas próximo à pista de dança, um rapaz dava piruetas enquanto seu grupo dançava em passos sincronizados.
Minha pupila dilatou.
O som era um mix de axé com hip-hop e todos ao redor iam ao delírio a cada passo de dança que eles davam, eu abri um sorriso e comecei a aplaudir extasiada, enquanto meu corpo se entregava ao ritmo musical.
A verdade é que a dança era minha vida, nela eu extravasava minhas emoções e mergulhava em meus próprios sonhos. A mente pensava; o corpo reproduzia.
E foi por isso que o inesperado aconteceu.
De olhos fechados, escondida atrás de um coqueiro, lá estava eu, dançando, completamente desligada do mundo, quando alguém pegou em minha mão. Abri os olhos e ali estava o tal cara das piruetas, de frente para mim. Ele era um homem muito bonito — pele n***a, olhos escuros, boca carnuda, dreads coloridos, corpo alto e bem definido.
Eu não sei o que deu em minha cabeça, mas quando ele segurou minha mão, tudo o que eu fiz foi acompanhá-lo. As pessoas vibravam ao redor e meu coração inflou de emoção. Numa habilidade um tanto profissional, o cara me pegou pela cintura e me ergueu, girando meu corpo lentamente pelo ar.
Eu abri os braços e fingi voar.
Outra explosão de gritos e palmas invadiu o Guatemala. Por um momento senti vergonha e pensei em desistir, mas quando ele me colocou no chão, inclinando-se com destreza para mim, e a música que eu tanto ensaiara trancafiada em meu quarto começou a tocar, eu tive a certeza de que meu corpo não iria resistir àquela batida.
Eu fui feita para dançar.
— Eu sei todos os passos dessa música! — Gritei para o cara e ele sorriu.
Em um único gesto o rapaz fez com que o DJ pausasse o som e todos ao redor se afastassem um pouco mais, já que aquela dança requeria isso.
— Então vamos lá — ele gritou de volta, mantendo certa distância de mim —, vamos arrebentar, garota!
Eu sorri e tive a certeza de que o brilho de todas as estrelas jazia em meu olhar.
Então a música recomeçou.
Lentamente, nós nos aproximamos, mantendo uma postura firme e ereta, ele agarrou em minha mão e me rodopiou, diferenciando os passos do clip original.
Eu não me importei, na verdade me senti mais livre e girei umas três vezes para depois voltar para ele e escorregar até o chão, com minha cintura sempre segurada pelos braços fortes.
A galera entrou em êxtase mais uma vez.
Eu deixei minhas emoções me guiarem, e quando ele se abaixou e segurou novamente em minhas mãos, meu corpo foi de total encontro ao dele.
Dançávamos como quem deslizava sobre a neve; tão leves e descontraídos.
Não tinha como negar que o cara era profissional, e essa deve ter sido a razão de eu me sentir tão a vontade com ele.
Houve um momento em que ele me segurou pela cintura outra vez e me ergueu, mas ao invés de eu abrir os braços como outrora, eu sustentei minha perna no ar e por longos segundos, fui girada lentamente, onde tive a visão da quantidade de pessoas que nos rodeavam.
Meu Deus.
Quando voltamos para o chão, ele parou e se afastou de mim. Fiquei confusa, e com o olhar lhe perguntei o que houve de errado, mas ele sorriu orgulhoso e fez uma reverência.
E eu soube naquele momento que ele queria que eu seguisse a dança sozinha.
Hesitei.
Por mais que eu já estivesse praticado alguns solos antes, aquilo era totalmente diferente.
Havia uma plateia em minha volta, e dessa vez não era o meu ursinho Ted.
Era real.
Tudo aquilo era real.
Pensei em dar por encerrado e também fazer uma reverência, mas quando dei as costas, todos começaram a gritar para que eu continuasse.
Tudo bem, vocês venceram.
Respirei fundo e resolvi me entregar à dança, como eu sempre fazia, escondida em meu quarto. Foi impressionante a leveza com que meu corpo se deixou levar e eu me surpreendi totalmente com a precisão dos meus passos.
Humm... Acho que preciso acreditar mais em mim.
Quando já estava quase no final da música, eu rodopiei pela última vez e resolvi arriscar.
Vamos lá, Larah.
Então eu dei um grande salto.
As pernas esticadas para a frente, fora do chão, os braços unidos acima da cabeça; a expressão serena e um sorriso vitorioso no rosto — foi exatamente assim que alguém me fotografou.
Um filme girava pela minha cabeça — a salva de palmas com que fui acolhida quando tudo acabou, o abraço coletivo que eu ganhei da turma de dança, e por fim, a conversa que tive minutos antes com o rapaz com quem dancei.
Foi a coisa mais surreal da minha vida.
— Você é uma dançarina nata — ele me elogiara, orgulhoso, e me afastou do restante dos dançarinos —, sou Samuel, professor e jurado da academia No Ritmo.
Meu queixo caiu.
— Se você se apresentar lá — Samuel continuou, tirando um cartão do bolso, sem se dar conta do quanto aquela informação mexeu comigo —, já tem meu voto garantido. Apesar de eu ainda não saber seu nome.
— Larah... Larah Alves — eu respondi com dificuldade.
Fazer parte da No Ritmo ia além de um simples sonho.
Eu era uma seguidora assídua deles, uma tiete, a pessoa que mais varava madrugadas assistindo seus vídeos no You Tube.
Trêmula, eu peguei o cartão e o levei sobre o peito, numa tentativa de guardar aquilo bem dentro do meu coração e nunca mais soltar.
— Antes que eu me esqueça, deixe-me te apresentar uma pessoa — ele fez um sinal educado e uma mulher de cabelos pretos e curtos, com um rosto familiar, se aproximou de nós. — Essa é Iane, minha esposa. Meu amor, essa é Larah, a garota que eu tanto procurei para fazer parte da academia.
— Eu acho que já te persegui algumas vezes — a jornalista falou divertida, esticando a mão para mim.
— E eu acho que já te mandei ir à m***a. Muitas vezes. — Eu falei envergonhada e retribui o gesto. — Foi m*l.
Ela apenas sacudiu a cabeça e abriu um sorriso amigável, ainda bem que não era de guardar rancor.
Desde que foi anunciado o meu casamento com Ricardo, a mídia não me deixou em paz nos primeiros dias, e Iane foi uma delas.
— Olha só, então vocês já se conhecem — Samuel constatou, envolvendo a esposa num abraço. — Te vejo na a******a dos ensaios então, Larah?
— Err... Na verdade eu já havia me inscrito para a seleção mesmo. — dei de ombros.
— Não foi um sim — Ele falou de cenho franzido —, mas também não foi um não.
— É, não foi — falei em meio a um sorriso, muito embora eu já tivesse minha resposta.
Eu não pretendia desapontar papai, então me conformei.
— Obrigada pela oportunidade, de verdade.
— Não precisa agradecer, o mérito foi todo seu.
— Mas você me notou, Samuel. Deve ter alguma coisa que eu possa fazer pra retribuir, eu faço questão.
Os dois trocaram um olhar significativo e eu tive a impressão de que conversavam mentalmente. Samuel então olhou para mim meio sem jeito.
— Na verdade há algo — ele disse desconcertado. — Minha esposa está desempregada e precisa de alguma matéria boa para vender...
—... E seu casamento é o assunto mais falado ultimamente — Iane completou depressa.— Eu sei que somos invasivos e você tem todo o direito de não aceitar, mas se... Se você e seu noivo me concedessem uma entrevista, quem sabe...
— Mas é claro que sim. Pode contar comigo.
— Ah, Larah, obrigada! — Ela agradeceu comovida se atirando em meus braços — Pode me mandar à m***a quantas vezes quiser.
— Vou me lembrar disso quando eu estiver na TPM — brinquei e ela riu.
Nosso abraço foi interrompido pelos gritos das minhas amigas, que acenavam loucamente de longe. Olhei para elas e fiz um gesto para que me esperassem. Havia algo que eu precisava saber.
— Ei, Iane, foi você que me fotografou quando eu estava dançando? — Perguntei curiosa.
— Não — ela negou com a testa encrespada —, eu vim totalmente despreparada.
— Será que foi algum outro jornalista? — Samuel indagou.
— Impossível, meu bem, hoje todos os holofotes estão voltados para uma modelo que está ameaçando pular de um prédio.
— Que horror!
— Não se preocupe, Larah, ela não vai pular. Conheço a Verônica, ela só está fazendo charminho para chamar atenção. Nem perdi meu tempo dando mais ibope para aquela louca.
— Tomara que tudo acabe bem então — eu torci. — Mas é tão estranho, eu posso jurar que senti um flash no meu rosto enquanto eu estava dançando.
— Ah, Larah, você foi incrível! É normal que alguém quisesse ter registrado esse momento.
— Obrigada, e também eu não acho que uma foto de uma garota fazendo um jequé vai vender mais que a da tal modelo suicida — brinquei e os dois riram alto.
Eu me despedi mais uma vez e fui encontrar com minhas amigas, que continuavam gritando ensandecidas.
Elas me abraçaram e me elogiaram visivelmente orgulhosas, então me arrastaram para nossa mesa — onde estávamos até agora — e me fizeram beber outra dose de tequila como forma de comemoração.
As duas propuseram um brinde de caipirinha, mas eu recusei, claro. E pelo visto fiz certo, pois de acordo com minhas contas elas já vão no décimo copo.
—... Como eu ia dizendo, flor, você não deve deixar essa chance escapar. Não é mesmo Larah? — Bela indagou me trazendo de volta à realidade.
— Hã? Foi m*l, eu me distrai — falei e sorvi mais um gole de água com gás, a Tequila novamente não me caíra bem. — O que vocês estavam falando?
— Do Brad, flor. Ele não tá um espetáculo?
— Sem dúvida! — Concordei e encaramos Linda.
— É, ele tá bonitinho — Ela anuiu sem muito ânimo.
— Linda Santana, bonitinho é o c****e! — Bela protestou. — Aquele cara está um deus!
— Eu sei — Linda miou e em seguida debruçou a cabeça sobre a mesa. — Que m***a! Eu devia estar babando pelo Brad e não aqui, cheia de esperança, só porque o Gustavo está solteiro. Outra vez.
— Olha, Linda, eu sei que você ama meu irmão e...
— Não amo não — ela se apressou para rebater deixando minha frase morrer. — É uma paixonite de criança, um... capricho... ou... alguma coisa que faz eu ter sonhos eróticos com ele às vezes... Não é amor, tá legal?
— Mas, ei, tudo bem flor, você pode manter as duas opções.
— Tipo t*****r com os dois? — Ela quis saber.
— Hum, eu não estava dizendo isso, mas tudo bem, mais vale dois pássaros na mão que um voando.
— Não é ao contrário? — Perguntei.
— Nesse caso não, flor. Eu tive uma ideia.
— Que ideia? — Linda quis saber, visivelmente interessada.
— Em você fazer ciúmes no Gustavo com o Brad. — Bela estalou a língua.
— É uma ideia perfeita! — eu exclamei.
— É? — Linda perguntou insegura.
— Claro que é — respondi —, a gente sabe que o Guga arrasta asa pro seu lado, e antes que você venha me interromper, a gente também sabe que ele arrasta asa pra geral, mas eu sinto que ele te trata diferente, sei lá, de uma forma mais carinhosa.
— Ai, Larinha, você vê coração em tudo, sua opinião não conta — ela meio que debochou e eu revirei os olhos.
— Ué, mas eu também acho isso — Bela contestou. — E olha que nem romântica eu sou.
— E vocês têm conselhos para mim, certo?
— Exatamente. — Falamos em uníssono.
Linda pensou por alguns instantes e procurou mais alguma gota de bebida em sua taça, mas acabou falhando.
— d***a, eu preciso de mais álcool! — Ela protestou e eu arregalei os olhos. — Eu não vou falar dos meus sentimentos pra vocês sem tomar mais uma. Sem chance.
— Muito justo — Bela falou brincalhona —, essa é por minha conta!
— Opa, então tráz uma dose da Angel — Linda pediu em meio a um soluço.
— A bebida da casa...? — Eu quis saber.
— Sim. O Demitri caprichou, Larinha!
— Foi em homenagem à namorada dele — Bela falou orgulhosa —, e é um sucesso aqui no Guatemala!
— Você precisa experimentar, Larinha.
— Então tá — concordei e as duas me olharam incrédulas. —, Ah, eu também quero chorar minhas pitangas.
Bela abriu um sorriso complacente e, sem questionar, saiu para atender nossos pedidos. O problema é que a noite já ia se aproximando e com ela o compromisso de jantar com os Albuquerque também.
Respirei fundo e Linda segurou minha mão, como se soubesse que algo não ia bem comigo.
Na verdade, ela sempre sabia.