Pré-visualização gratuita 01 PESADELO
PRÓLOGO
PESADELO NARRANDO
Eu já vi homem morrer sorrindo. Já vi mãe chorar por filho errado.
Mas nada… nada me preparou pra ouvir a mulher que eu amava gemer de dor carregando meu sangue… e saber que eu era o único que amava quem estava pra chegar ao mundo.
A bolsa estourou no meio do quarto. Ela levou a mão à barriga. Respirou fundo. Tentou manter a pose forte que sempre teve.
PESADELO— Tá na hora. _ Eu sorri. Eu, que nunca tremi com tiro, senti as pernas falharem.
Meu filho ia nascer. Meu herdeiro.
Eu peguei ela no colo, gritando pros homens pegar o carro e abrirem caminho. O morro inteiro sabia que o chefe ia ser pai. Era dia de festa. Só que eu não percebi. Estava imerso ao meu mundo dentro de casa, coisa que antes da Julia nunca fiz.
Não vi as viaturas subindo. Não ouvi o helicóptero se posicionando. Não notei que meus próprios rádios estavam mudos.
Ela começou a suar frio. As contrações vinham fortes. Ela apertava minha camisa. As unhas cravando no meu peito.
PESADELO— Fica comigo_ eu pedi. Ela me olhou. E ali… tinha alguma coisa diferente.
Não era medo. Não era dor. Era desprezo.
A porta da sala explodiu. Granada de efeito moral. Tiro. Grito. Meu nome sendo berrado como se fosse prêmio.
Meus homens que estavam na segurança da minha casa reagiram. Eu puxei arma. Mas ela segurou meu braço. Com força. Forte demais pra uma mulher em trabalho de parto.
JULIA— Acabou, Pesadelo. _ O primeiro disparo não veio de mim. Veio deles. Bope. Preto invadindo tudo. Senti a minha perna arder pelo tido. Me jogaram no chão enquanto ela gritava. Mas não era um grito de pânico. Era de dor. E entre uma contração e outra, ela se ajoelhou perto de mim.
Mesmo com fuzil apontado pra minha cabeça. Mesmo com sangue escorrendo pelas pernas. Ela sorriu.
JULIA— Você achou que eu ia criar um filho seu? _ Eu parei de lutar.
PESADELO— Julia…_ falei com ódio... dela. De mim. Por acreditar em uma filha da p**a. Ela riu. Uma risada quebrada pela dor.
JULIA— Esse bebê que vai sair de mim nunca vai ser meu. Nunca vai carregar seu nome. Nunca vai saber quem você é._ aquilo doeu mais que qualquer coronhada.
PESADELO— Você me usou desgraçada. E ainda vai tirar meu filho de mim. _ ela sorriu.
JULIA— Usei. _ Outra contração veio. Ela gemeu alto. Apoiou a barriga. A respiração estava descompassada. Mas o olhar… o olhar dela continuava firme em mim. — Eu me infiltrei pra acabar com você. E consegui. _ Me algemaram.
Eu tentei levantar. Levei chute. Levei joelhada. Levei p***a. As armas na cabeça. Mas eu só enxergava ela.
Ela sendo colocada na maca. Sendo levada pelos próprios homens dela. E antes de entrar na ambulância, ela virou o rosto pra mim uma última vez.
JULIA— Você nunca vai ver seu filho nascer. E nunca vai saber quem ele é._ A porta fechou. A sirene subiu.
E eu fiquei ajoelhado na grama da minha casa, ouvindo a ambulância levar meu filho… e minha liberdade.
Naquele dia eu não perdi poder. Eu perdi o direito de ser pai. E enquanto me arrastavam pra viatura, eu fiz a única promessa que importava... Se esse menino respirar… Ele vai saber quem eu sou. E todos que me tiraram um momento único na minha vida. vai pagar pelo que me fizeram.
Me jogaram dentro da viatura como se eu fosse saco de lixo. Algemado. Sangrando. Com gosto de ódio na boca. meus homens sabiam que não eram pra se mover.
Meu morro sempre será meu. Mesmo ela achando que tinha me derrubado, tudo ainda era meu..., mas eu só conseguia pensar nela.
Na barriga. No sangue escorrendo pelas pernas dela. No sorriso.
A viatura arrancou. Eu tentei quebrar o vidro com o ombro. Levei choque. Ganhei risadas.
XXX— Fica quieto, Pesadelo. Hoje não é teu dia. _ Não. Hoje era o dia do meu filho.
O rádio da polícia chiou. No começo eu não prestei atenção. Depois eu ouvi o nome dela.
“Capitã Julia encaminhada ao hospital. Trabalho de parto avançado.”
Meu coração parou. Eu fechei os olhos. Quis rezar. Mas eu nunca orei na vida e nem sabia se deus ouviria uma pessoa como eu. Silêncio.
Depois mais chiado.
“Parto emergencial iniciado.”
Eu parei de respirar. O policial do meu lado aumentou o volume de propósito. Só pra me ver quebrar. E então veio. A frase que me destruiu.
“Recém-nascido masculino. Saudável. Mãe estável.”
Eu senti algo rasgar dentro do peito. Ele nasceu. Meu filho nasceu. E eu não estava lá.
Eu gritei. Não de dor. Não de raiva.
Foi um som diferente. Foi o som de um homem entendendo que nunca mais seria o mesmo. O policial riu.
XXX— Parabéns, papai. _ Eu nunca esqueci essa voz. Nunca esqueci esse riso.
Nunca esqueci o som do rádio anunciando a vida do meu filho enquanto me levavam pra uma cela.
Naquela noite eu não dormi. Naquela noite eu deixei de ser homem. Eu me tonei apenas um monstro. E a promessa de ser o pesadelo de todos que tiraram o meu filho de mim.
OITO ANOS DEPOIS
A cadeia ensina duas coisas... Ou você vira presa. Ou você vira dono. Eu nunca fui feito pra obedecer. E mesmo não estando no meu morro, ainda sim eu comandava e mandava.
Oito anos. Dois mil novecentos e vinte dias. Eu contei todos. Cada aniversário que eu não vi. Cada Natal que eu não soube se ele teve presente. Cada vez que ouvi algum detento falar do próprio filho.
Eu imaginava o rosto dele. Será que ele tem meus olhos? Será que ele me odeia sem saber? Será que ela apagou meu nome da certidão como disse que ia fazer? A porta da cela abre.
O agente fala meu número. Não meu nome. Mas eu lembro exatamente quem eu sou.
E não é só eu. Todo mundo aqui dentro sabe. E lá fora… sabem ainda mais.
Meu vulgo é Pesadelo. Tenho trinta e dois anos. Líder do Comando Vermelho. Chefe do Complexo do Alemão e do Jacarezinho.
Eu não nasci chefe. Eu me tornei.
Tenho um metro e noventa e três. Moreno. Ombros largos. Cicatrizes que não aparecem nas fotos, mas que contam a minha história melhor do que qualquer palavra. Tatuagens que escondem algumas e outras que representam algo, ou alguém.
Nasci e fui criado no Complexo do Alemão. Favela não cria menino. Forja sobrevivente.
Tenho um irmão dois anos mais novo. Hoje ele é meu sub no morro. Meu braço direito. O único homem em quem eu confio de olhos fechados.
Tudo que eu tenho, eu conquistei. Não sou herdeiro. Eu tomei. Porque eu não tolero traição. Não tolero deslealdade. Não tolero que encostem na minha família.
E foi isso que o antigo chefe fez. Meu pai era vapor do Balinha.
Balinha… líder de facção e do complexo do alemão. Podre. Sem escrúpulo. Homem que sorria enquanto destruía.
Depois que minha mãe teve a mim e ao meu irmão, ele começou a rondar nossa casa.
Primeiro foram “visitas”. Depois vieram as mãos. Depois veio o silêncio.
Ele abusou dela. Humilhou. Quebrou por dentro e por fora.
Minha mãe deixou de sorrir. Deixou de cantar enquanto fazia comida. Deixou de ser ela.
Eu tinha dez anos quando encontrei o corpo dela.
A vergonha e a dor foram maiores que a vontade de viver. Meu pai enlouqueceu quando soube.
Bateu de frente com Balinha. E no morro, quem enfrenta chefe… cava a própria cova.
Não preciso dizer o que fizeram com ele.
Eu enterrei meus pais antes de aprender a fazer barba.
Quando recebi a notícia da morte do meu pai, eu fiz a única coisa que um menino inteligente faz quando o inferno se abre... Eu peguei meu irmão pela mão… e fugi.
Fomos pro Jacarezinho. Um tio nosso morava lá. Irmão escondido do meu pai. Pouca gente sabia da existência dele.
Ele nos acolheu. Escondeu. Alimentou. Mas nunca tentou apagar o ódio que crescia em mim.
Eu não queria só sobreviver. Eu queria voltar.
Esperei crescer. Esperei aprender. Esperei entender como o jogo funcionava.
E quando eu voltei… eu não voltei como filho de vapor. Voltei como sentença.
Eu não tirei só a vida de Balinha. Eu tirei o nome dele da história. E fiquei com tudo que era dele.
O morro. A facção. O respeito, que ganhei por livrar um morro de um monstro.
Foi assim que nasceu o Pesadelo. Não do crime. Mas da dor.
CONTINUA....