capítulo 4

1262 Palavras
Capítulo 4: O Eco das Sombras A noite no Palácio de Espinhos não trazia descanso, apenas uma transição sutil entre a penumbra cinzenta e a escuridão absoluta. Elena não conseguiu dormir. O calor do toque de Azael ainda parecia gravado a fogo em sua pele, uma contradição torturante com as palavras cruéis que ele havia cuspido antes de deixá-la. Determinada a não se deixar sufocar pelas paredes opressivas daquele quarto, ela esperou até que os sussurros nos corredores silenciassem. Seus pés descalços quase não emitiam som contra o mármore gélido enquanto ela empurrava a pesada porta de ferro, que incrivelmente fora deixada entreaberta — um descuido arrogante de quem acreditava que nenhuma presa ousaria escapar de suas garras. Ela pretendia apenas encontrar um pouco de ar limpo, talvez uma sacada que não desse para os rios de lava, mas o palácio era um labirinto vivo. O som veio de repente: um eco abafado de respirações arfante , rosnados baixos e o impacto rítmico de corpos contra a parede de pedra. Uma força magnética e mórbida puxou Elena em direção à origem do ruído, guiando-a até a antecâmara do salão de armas, onde as portas duplas de ébano estavam parcialmente escancaradas. Elena congelou nas sombras do corredor, sua respiração prendendo-se na garganta. A cena lá dentro era banhada pela luz violácea de uma única tocha rúnica. Azael estava lá. Mas não era o lorde aristocrático e controlado que ela enfrentou horas antes. Ele era a própria personificação da luxúria e da brutalidade demoníaca. Suas runas vermelhas brilhavam intensamente, quase queimando na escuridão, e suas grandes asas negras, que Elena ainda não vira estendidas, estavam parcialmente abertas, envolvendo o corpo da Duquesa Lilith contra a parede de pedra. O sexo entre eles era violento, um embate de poder desprovido de qualquer resquício de ternura. Lilith estava de costas para ele, com as mãos espalmadas contra a rocha fria, a cabeça jogada para trás enquanto soltava gemidos altos, agudos, misturados com risadas de puro triunfo. As garras de Azael estavam cravadas nos quadris cinzentos da duquesa, apertando com tanta força que deixavam marcas escuras na pele dela, empurrando-a com estocadas violentas e implacáveis que faziam as correntes de ferro do salão baterem — Sim, meu Lorde... me quebre... — Lilith sibilava, a voz embargada pelo prazer selvagem, virando o rosto para tentar alcançar os lábios dele. Mas Azael não a beijava. Seus olhos de ouro líquido estavam fixos no vazio, frios, distantes e carregados de uma fúria cega. Ele a usava. Usava o corpo de Lilith como um instrumento de punição para si mesmo, uma tentativa desesperada e brutal de expurgar o cheiro de jasmim, a doçura e o desejo proibido que a humana havia acendido em suas veias. Cada movimento dele era um decreto de que ele pertencia ao inferno, que sua natureza era o sangue e a dor, e não a fragilidade da luz. No entanto, no momento exato em que ele desferiu um rosnado grave, preenchendo o salão com sua energia avassaladora, seus olhos dourados cortaram a penumbra e fixaram-se diretamente na fresta da porta. Ele a viu. O olhar de Azael cruzou com o de Elena. No meio do ato brutal, o tempo pareceu parar. Elena sentiu o estômago revirar; uma queimação fria de humilhação e uma dor que ela não sabia que era capaz de sentir rasgaram seu peito. Seus olhos azuis arregalaram-se, inundados de lágrimas que ela não conseguiu conter, mas ela se recusou a desviar o olhar imediatamente. Ela o viu em toda a sua monstruosidade. Azael não parou. Pelo contrário, ao perceber a presença dela, suas estocadas tornaram-se ainda mais cruéis e deliberadas. Seus lábios se curvaram num sorriso de puro escárnio e arrogância, fixando os olhos nos dela enquanto continuava a possuir Lilith, como se dissesse de forma silenciosa: *Veja o que eu sou. Veja onde é o seu lugar, humana.* Lilith, alheia ao público nas sombras, soltou um grito final de êxtase quando Azael a preencheu com sua essência ardente, desabando contra o peito dele. Elena deu um passo para trás, o chão parecendo sumir sob seus pés descalços. Ela virou-se e correu. Correu pelo labirinto de pedra, limpando as lágrimas furiosas de seu rosto, o som dos gemidos de Lilith e o sorriso c***l de Azael ecoando em sua mente como um chicote. Ao alcançar a segurança de seus aposentos, Elena bateu a porta e encostou-se nela, deslizando até o chão. Seus lábios tremiam, mas a tristeza rapidamente deu lugar a uma rigidez fria. A doçura em seu peito endureceu. Ela havia cometido o erro de ver um vislumbre de humanidade em um demônio, e ele fez questão de mostrar que era apenas um monstro. Minutos depois, a porta se abriu com um estrondo. Azael entrou. Ele havia vestido a camisa preta, mas ela estava desalinhada, e o cheiro de sexo e suor demoníaco entrou com ele, o perfume de jasmim do quarto. Seus olhos dourados ainda brilhavam com o resquício da adrenalina, e ele parecia maior, mais perigoso. Ele caminhou até onde ela estava caída no chão e parou, olhando-a de cima com profundo desprezo. — Gostou do espetáculo, pequena espia? — sua voz era um sussurro venenoso. — Espero que tenha aprendido a lição. Aquilo é o que este mundo entende por prazer. Sangue, força e poder. Você achou mesmo que sua pele macia e suas palavras tolas mudariam séculos da minha natureza? Elena levantou-se lentamente. Ela não limpou a última trilha de lágrima em sua bochecha; deixou que ele a visse. Mas quando ergueu os olhos azuis para ele, não havia mais medo, nem a timidez de antes. Havia apenas um vazio gelado. — Eu não achei nada, Lorde Azael — ela disse, sua voz tão fria quanto o mármore sob seus pés. — Eu apenas assisti a um animal tentando provar a si mesmo que não tem uma coleira. Azael travou o maxilar, o sorriso sumindo instantaneamente de seu rosto. As runas em sua pele piscaram em um tom violeta perigoso. — O que você disse? — Você a usou porque está com medo — Elena deu um passo à frente, aproximando-se do peito dele, ignorando o cheiro da outra fêmea que emanava dele. — Você precisou se afogar na brutalidade dela para tentar esquecer que, por um segundo, desejou uma humana. Você não é um lorde soberano, Azael. Você é um covarde que se esconde atrás de dentes e garras porque a verdade o apavora. Com um rugido de fúria, Azael a agarrou pelos ombros, empurrando-a contra a parede exatamente como fizera com Lilith, mas seu toque não iniciou um ato de luxúria. Ele a segurou ali, os rostos tão próximos que ela podia ver o ouro de seus olhos flutuar como poeira estelar em chamas. Ele queria possuír. Ele queria fazê-la implorar. Mas enquanto a encarava, vendo a frieza resiliente nos olhos azuis dela, o desejo de possuí-la, de arrancar aquela armadura de orgulho com seus próprios dentes, tornou-se dez vezes mais violento do que tudo o que ele havia descarregado em Lilith. Ele a odiava por fazê-lo sentir aquela fome insana. — Amanhã — ele sibilou, os lábios quase tocando os dela, a respiração quente e agressiva. — Você estará no banquete da corte. Eu farei você servir cada lorde e cada criatura que desejar o seu sangue. Vamos ver quanto tempo sua arrogância dura quando você for apenas a carne no prato deles. Ele a soltou abruptamente e saiu, deixando o quarto impregnado com a promessa de que o verdadeiro inferno de Elena estava apenas começando.
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