Capítulo 5: O Banquete dos Monstros
O Salão das Lâminas Partidas estava ornamentado não para celebrar, mas para subjugar. Colunas imensas de obsidiana fundida sustentavam um teto abobadado de onde pendiam correntes pesadas e candelabros feitos com ossos de dragões antigos. As chamas que iluminavam o banquete não eram douradas, mas de um tom violeta doentio, lançando sombras distorcidas e predatórias sobre as longas mesas de pedra vulcânica.
Elena Vance mantinha-se de pé, imóvel, na extremidade da mesa principal. O vestido que lhe fora imposto era uma afronta à sua modéstia: uma seda carmesim, justa como uma segunda pele, com um decote profundo nas costas que expunha a palidez etérea de sua espinha dorsal. Seus cabelos cor de mel estavam presos no alto por alfinetes de prata afiados, deixando seu pescoço delicado completamente vulnerável aos olhares famintos da nobreza de Obsidian.
À mesa, sentavam-se os generais e duques do reino sombrio. Criaturas de chifres colossais, peles acinzentadas e armaduras incrustadas de joias opacas. O cheiro de carne assada, vinho de sangue e enxofre intoxicada o ar. E no centro de tudo, no trono de ossos pretos, estava Azael. Ele vestia uma túnica imperial bordada a ouro velho, os cabelos negros perfeitamente alinhados, e o olhar líquido de ouro fixo na taça que sustentava entre os dedos longos. Ele ignorava Elena ostensivamente, conversando com o General Malakor sobre as fronteiras em guerra, mas a tensão rústica em seus ombros largos entregava sua vigilância.
— Traga mais vinho, humana — ordenou o Marquês Valerius, um demônio de dentes proeminentes e pele marcada por cicatrizes de combate.
Seu hálito fétido atingiu o rosto de Elena quando ela se aproximou com a jarra de prata.
Elena inclinou-se com movimentos lentos e graciosos, controlando a trepidação de suas mãos.
Ao servir a taça de Valerius, o demônio moveu sua mão pesada e áspera, apertando a coxa de Elena por cima do tecido fino da seda. O toque era possessivo e humilhante.
— Tão macia... — rosnou Valerius, os olhos brilhando com uma luxúria c***l. — Lorde Azael tem um gosto refinado para carne de estimação. Diga-me, humana, você grita alto quando ele a machuca?
Elena congelou, o corpo inteiro enrijecendo. Ela não recuou. Em vez disso, fixou seus olhos azul-tempestade nos dele, a doçura de suas feições contrastando com o gelo de sua voz:
— Se insistir em me tocar, Marquês, descobrirá que até as criaturas mais frágeis carregam veneno. E duvido que o Lorde goste de ver seus convidados morrendo engasgados no próprio sangue antes da sobremesa.
Uma gargalhada ecoou na mesa, mas parou abruptamente quando o som de cristal quebrando cortou o salão. Azael havia esmagado sua própria taça com a mão nua.
O vinho escarlate misturou-se com a runa vermelha de sua palma, pingando no chão de pedra com impactos audíveis.
O salão inteiro mergulhou em um silêncio sepulcral. A pressão do ar despencou instantaneamente, fazendo os candelabros oscilar violentamente.
Azael levantou-se lentamente de seu trono. Ele era uma tempestade viva, a própria essência do perigo aristocrático. Seus olhos não eram mais duas fendas; eram duas poças de fogo dourado derretido.
— Valerius — a voz de Azael desceu a um barítono mortal, vibrando nas estruturas do palácio. — Eu não me recordo de ter oferecido a minha propriedade para o seu banquete. Tire as mãos dela antes que eu decida que seus braços não são mais necessários para empunhar uma espada.
Valerius empalideceu, recolhendo os dedos imediatamente e curvando a cabeça. — Meu Lorde... foi apenas uma leviandade. Não pensei que se importasse tanto com um brinquedo humano.
— O que eu faço ou deixo de fazer com o que é meu não é da sua conta — Azael sibilou. Ele caminhou contornando a mesa, seus passos pesados e elegantes. Ao parar diante de Elena, ele a agarrou pelo pulso com uma força controlada, mas firme o suficiente para deixá-la sem escapatória. — Venha comigo.
Ele a arrastou para fora do salão principal, ignorando os sussurros maliciosos da corte e o olhar vitorioso de Lilith à distância. Azael só parou quando alcançou a sacada isolada da Torre Norte, onde o vento cortante da noite batia com violência, agitando a seda carmesim do vestido dela.
Ele a empurrou contra a amurada de pedra, encurralando-a com seu corpo maciço. Suas runas vermelhas latejava violentamente sob a roupa, irradiando um calor sufocante contra a pele fria de Elena.
— Você é uma i****a insensata! — ele rugiu, os rostos a centímetros de distância. — Você estava provocando um general de guerra! Ele poderia ter rasgado você ao meio antes que qualquer guarda piscasse! Você quer morrer, Elena? É esse o seu plano?
— Eu não estava provocando, eu estava me defendendo! — Elena rebateu, as lágrimas de raiva finalmente transbordando de seus olhos azuis, brilhando sob a luz da lua de sangue. — Você me jogou naquele salão para me ver ser humilhada! Para me punir pelo que aconteceu ontem! E agora está com raiva porque eu não me curvei?
Eu odeio você, Azael! Odeio o fato de você me tratar como lixo diante dos seus monstros e depois queimar o mundo inteiro quando outra pessoa me toca!"
Azael travou o maxilar. O conflito em seus olhos dourados era quase doloroso de se assistir. Ele a desejava com uma fome que superava qualquer lógica, qualquer século de ódio pelos humanos. O perfume de jasmim dela, misturado com o cheiro do medo e da audácia, estava destruindo sua sanidade.
— Você não entende... — ele sussurrou, a voz subitamente rouca, perdendo toda a arrogância imperial. Suas garras subiram pelas costas nuas de Elena, o toque frio arrastando-se pela pele macia, fazendo-a estremecer violentamente. — Você é uma fraqueza. Eu destruo fraquezas. Eu deveria ter matado você no altar de pedra.
— Então mate — desafiou Elena, erguendo o pescoço vulnerável, aproximando seus lábios dos dele até que suas respirações se fundissem. — Mate-me ou aceite que você está acorrentado a mim tanto quanto eu estou a você.
Com um rosnado animal, Azael cedeu. Seus lábios capturaram os dela em um beijo violento, possessivo e desesperado. Não havia doçura, apenas uma descarga brutal de desejo acumulado.
Ele a reivindicou como um monstro que toma sua presa, mas a forma como suas mãos grandes seguravam a cintura de Elena, protegendo-a contra a pedra áspera, revelava a verdade que ele tentava esquecer: ela era a única luz que seu reino de sombras jamais veria.