(Melissa)
Eu não acreditava em destino.
Acreditava em cálculo, em escolhas, em momentos empurrados com cuidado até o lugar certo. Ainda assim, quando o vi pela primeira vez, entendi por que algumas pessoas confundem estratégia com acaso.
Era Mitte.
Claro que era.
O céu estava fechado, refletindo nos prédios de vidro como uma promessa vazia de normalidade. Eu caminhava com passos tranquilos, vestida para não chamar atenção — elegante o suficiente para pertencer, simples o bastante para não ser notada. A bolsa no ombro, o celular na mão, o olhar atento sem parecer curioso.
Tudo sob controle.
Entrei no café próximo a um dos edifícios empresariais do império Duarte. O lugar era silencioso demais, frequentado por pessoas que falavam baixo como se o dinheiro exigisse discrição. Pedi um café e escolhi uma mesa lateral, de onde podia observar sem ser observada.
Foi então que o ar mudou.
Não de forma visível, mas perceptível. Como quando algo importante entra em um ambiente e o espaço se reorganiza ao redor.
Levantei os olhos.
Ele estava de pé próximo ao balcão.
Miguel Duarte.
Não precisei confirmar em fotos, nem em memória. Eu sabia. Havia algo nele que denunciava poder — não o poder barulhento, mas aquele que se acostuma a ser obedecido. Terno escuro perfeitamente ajustado, postura firme, expressão neutra. Nenhum gesto desnecessário. Nenhuma pressa.
Frio.
Exatamente como eu imaginava.
Meu coração acelerou por um segundo, e eu odiei isso. Não fazia parte do plano. Respirei fundo e baixei o olhar, fingindo atenção ao celular, enquanto cada sentido meu se mantinha alerta.
Ele pediu café. A voz era baixa, firme, sem esforço. Não havia arrogância explícita, apenas certeza. O tipo de homem que não precisa elevar o tom para ser ouvido.
Quando ele se virou, nossos olhares se encontraram.
Foi rápido. Um segundo, talvez menos. Mas foi suficiente para provocar um impacto seco no peito, como um choque inesperado. Os olhos dele eram atentos, analíticos. Não curiosos. Avaliadores.
Senti-me exposta de um jeito que não gostei.
Desviei primeiro.
Idiota.
Não devia. Mas fiz.
Voltei a fingir interesse no celular, enquanto sentia o peso da presença dele se aproximar. Ele escolheu a mesa ao lado da minha. Perto demais para ser coincidência. Longe demais para parecer invasivo.
Silêncio.
O café chegou. O meu já estava quase frio. Dei um gole apenas para ocupar as mãos. O espaço entre nós parecia carregado de algo invisível. Não havia troca de palavras, mas havia consciência.
Eu sabia que ele estava ali.
Ele sabia que eu sabia.
— Esse lugar costuma ser mais cheio — ele disse de repente.
A voz veio calma, neutra, como se estivesse comentando o clima. Ainda assim, havia intenção ali.
Ergui o olhar devagar.
— Talvez as pessoas estejam aprendendo a evitar o excesso — respondi.
Ele me observou por um instante maior do que o necessário.
— Ou estejam escolhendo melhor onde ficam — comentou.
Havia algo em seu olhar. Não interesse explícito. Não flerte óbvio. Era curiosidade contida, quase irritada. Como se eu tivesse fugido de um padrão que ele conhecia bem.
— E o senhor? — perguntei, sustentando o olhar agora.
— Também escolhe com cuidado?
Um canto mínimo da boca dele se moveu. Não chegou a ser um sorriso.
— Sempre.
O silêncio voltou a se instalar. Mas não era desconfortável. Era tenso. Elástico. Como se qualquer palavra errada pudesse romper algo que ainda não sabíamos nomear.
— Você não parece daqui — ele disse.
— Mitte não costuma aceitar bem estranhos — respondi.
— Costuma aceitá-los quando eles sabem se portar.
Inclinei levemente a cabeça.
— E eu não sei?
— Ainda não decidi.
Aquilo deveria me irritar. Em vez disso, senti um arrepio estranho percorrer a espinha. Não medo. Reconhecimento. Ele me via como um enigma, não como algo descartável.
— Talvez não caiba ao senhor decidir — falei, com calma.
Os olhos dele se estreitaram minimamente. Interesse genuíno, agora. Era sutil, mas estava ali.
— Talvez não — concordou. — Mas gosto de entender o ambiente em que estou.
— Então deve saber que nem tudo aqui é o que parece.
— Em Mitte — ele respondeu — nada é.
Houve um barulho próximo, uma cadeira sendo arrastada, alguém rindo baixo. O mundo continuava enquanto algo silencioso se formava entre nós.
— Trabalho por aqui? — ele perguntou.
— Estudo — respondi, sem mentir.
— E observo.
— Observar pode ser perigoso — disse ele.
— Depende do que se faz com o que se vê.
Ele me analisou por mais alguns segundos. Depois, apoiou o copo de café na mesa.
— Miguel — disse, estendendo a mão.
Por um instante, hesitei.
O nome ecoou dentro de mim com mais força do que deveria. O herdeiro. O alvo. A porta.
Segurei a mão dele.
— Melissa.
O toque foi breve, mas firme. Quente demais para alguém que eu esperava ser apenas gelo. Retirei a mão rápido demais.
Ele percebeu.
— Foi um prazer, Melissa — disse.
— Mesmo que breve.
— Nem tudo o que é breve é pequeno — respondi.
Ele inclinou a cabeça, como se aquela resposta tivesse sido… inesperada.
— Talvez nos encontremos de novo.
— Talvez — concordei.
Levantei-me primeiro. Não por submissão, mas por controle. Peguei a bolsa e me afastei, sentindo o olhar dele acompanhar cada passo. Não olhei para trás.
Só quando saí do café percebi que minhas mãos tremiam levemente.
Encostei-me à parede externa e respirei fundo.
Aquilo não foi parte do plano.
Foi o início de algo muito mais perigoso.
Dois mundos se tocaram por acaso ou por algo que eu ainda não compreendia.
E, no fundo, eu soube:
Depois daquele encontro, nada voltaria a ser simples.